quinta-feira, 24 de março de 2016

Charles Bukowski da rua da Conceição

Saudade. Sinto, não nego. Passei o dia e boa parte da noite mexendo com som. Muito som. Som de alta tecnologia, gigabytes, mixagem, edição, remixagem. Som, som, som. As músicas que ouço atualmente chamam a saudade do futuro. Muita. Mas cronologicamente pertencem ao passado segundo os incautos.

Trilha – The Who – Young Man Blues – álbum Live at Leeds

Ano passado voltei para o rádio. Mídia.  Empolgado, aflito, intenso, tenso, denso como o moleque de 15 anos (ou 16, não lembro), magérrimo, cabelos enrolados até os ombros, chegou a Radio Federal AM. Som. Rua da Conceição, Centro de Niterói, verão, alto verão. Rua da Conceição 99, edifício Brasília.

Trilha – Jimi Hendrix – Manic Depression – álbum Are You Experienced?

O Brasília ainda está lá. Semana passada passei em frente, olhei para cima, mas não lembrei de nada. Lembrei sim. Do dia em que caminhava rápido e arfando pela rua da Conceição quando na altura da Galeria Gold Star (o edifício Brasília fica ao lado) avistei uma rodinha. Populares contemplavam o chão. Deitado, babando, um homem de meia idade num ataque epilético. Não parei para olhar, segui reto. Parei, voltei. Para olhar. Me juntei ao povaréu. Olhei. Vi um sujeito enfiar uma caneta Bic na boca do homem que estrebuchava na calçada de pedrinhas portuguesas cheia de buracos. Caneta para não enrolar a língua.

Trilha – King Crimson – Lark´s, Tongues in Aspic – álbum Absent Lovers: Live in Montreal

A ambulância não chegava. Alguém chamou. Não chegava.

Falta de ar, palpitação. Achei que ia cair ao lado do sujeito. Ansiedade. Eu sabia. Sabia? Não, não sabia. Levaram o homem para algum lugar. Lugar nenhum? A rodinha se desfez. Eu já tinha fumado três cigarros. Não por causa do homem. Por causa da rádio. Estava meia hora adiantado e não queria chegar muito antes. A única vez que cheguei atrasado foi quando nasci. A fórceps. Sexta de carnaval.

Trilha – Jards Macalé – Farrapo Humano – álbum Jards Macalé

Banca de jornal. Respirei fundo. Palpitação passou. Uma mulher me cutucou e disse oi. Era Dagmar. Uma amiga prostituta que trabalhava naquela região de oito as oito. Oito da noite as oito da manhã.

Trilha – Led Zeppelin – How Many More Times – álbum Led Zeppelin I

Oi Dag, respondi achando que ia passar mal de novo. Você por aqui?, ela quis saber, expliquei que ia ver um trabalho ali perto. Sorriso de mulher, olhos negros, cabelos negros, pele negra, que mulher era Dagmar que eu só tinha visto à luz da noite. No sol, jamais. Estou indo ao dentista, franguinho, ela comentou. Eu disse que quando pintasse grana eu ia baixar lá no Rink para voltar com ela ao Hotel Ipiranga, espelunca popular onde tomei muito meio banho na pia.

Trilha – The Beatles – Tomorrow Never Knows – álbum Revolver

Cheguei no corredor da rádio 15 minutos antes do horário marcado. Ficava no décimo andar do edifício Brasília. No décimo primeiro jazia uma repartição do que hoje se chama INSS, na época INPS. Me mandaram entrar. Um homem muito bondoso, simpático, gente boa, com ar de tio. Manoelino, discotecário. Foi ele quem me levou a sala de produção da Rádio Federal. E de lá só saí dois anos depois para quase casar com Thin Lizzy, até então mulher da minha vida, que chegou atropelando, jogando no acostamento Dagmás, Nazarés e várias outras empregadas domésticas.

Trilha – Neu! - Hallogallo – álbum Neu!

Thin Lizzy me apresentou ao sexo com amor, mas costumava dizer que eu era um devasso. Não gostava quando ela falava aquilo. Mas continuava devasso, eu acho. Ouvi essa ofensa algumas vezes, muitos anos depois.

Trilha – Wishbone Ash – So Many Things To Say – álbum Wishbone Four

Lia Charles Bukowski compulsivamente para me anistiar diariamente antes de dormir. Lia tudo. Cada linha, um perdão. Cada parágrafo, uma não sentença. Cada livro, o nirvana.

Trilha – Caetano Veloso – It´s a Long Way – álbum Transa

O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.” (Charles Bukowski)

Lia tudo dele. Precisava da louca clemência do alemão que vivia na Califórnia.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me? (...)” 
(Charles Bukowski)

Trilha – Os Mutantes – Caminhante Noturno – álbum Os Mutantes

Vinte e sete dias trancado num estúdio da Rádio Federal ouvindo rock alemão, italiano, grego, inglês, americano, brasileiro. Disseram que eu precisava entender o que estava acontecendo no mundo. Verdade. Eu entendia mas não conhecia. Melhor do que conhecer e não entender, mas os caras não queriam papo.

No dia em que saí da tal “imersão” (cinco horas por dia), fiz meu primeiro programa. Eu já escrevia algumas coisas em jornais de bairro e citei o Bukowski. Citação leve. Na outra semana ele decretou queera um fracasso existencial na célebre entrevista ao The New York Times que a minha futura casa, o Jornal do Brasil, reproduziu. Demiti Bukowski. Adotei Anais Nin, Henry Miller, Carlos Zéfiro e fiquei na dúvida entre Sartre e Camus. Machado de Assis desempatou.

Trilha – Yes – Your is no Disgrace – álbum Yes Album

Dagmar passou na rádio. Queria saber por que eu havia sumido. Você pegou doença comigo?, ela perguntou. Eu disse que não. Você casou?, indagou. Eu disse que não. Finalmente mandou “você se apaixonou?”, eu confirmei. Ela disse tudo bem e pegou o elevador. Que coisa, eu pensei. Talvez tivessesido melhor ter mentido. Mas eu não faria isso com Thin Lizzy, meu amor.

Trilha – Egberto Gismonti – Palhaço – álbum Circense

Hoje revisito essa trilha sonora nublada, quente, úmida, permeada pela rua da Conceição, através de arquivos digitais que um dia já foram álbuns de vinil. Percorro os labirintos do tempo, do espaçoos poros de Dagmás, Nazarés, Thin Lyzzys, meus suores frios, livros, calçada largada, o cara rolando, ambulância que não veio, o amor verdadeiro, o beijo no orvalho, flores do campo, poesia na barca, e tome música, música, música. 

Música.