domingo, 6 de março de 2016

No rastro de "O Uivo" nem sempre causas geram efeitos ou meios geram mensagens

Cena do filme Quadrophenia
A mídia (meio) sempre surpreende quanto injeta suas doses de componente ilógico. Ontem escrevi sobre carros aqui na Coluna e, para a minha surpresa, o texto bateu recorde de visitação. E tudo começou ao som da música do acaso. Por várias razões, ora óbvias, ora ocultas, a semana passada foi dura. Mas, como todo passado a semana passada passou.

Quando era pequeno e viajava por aí com meu pai (viajamos muito, mas muito mesmo), especialmente para Teresópolis, ele contava que nos anos 1960, a bordo de carros importados com motores refrigerados a água, era forçado a parar duas ou três vezes nos acostamentos, depois batizados oficialmente de "refúgios". Era para baixar a temperatura da água do radiador. Subir a longa serra naqueles tempos, naqueles carros, exigia paciência e, sobretudo, tenacidade.

Como acho que quando o presente nos espreme com suas garras não virtuais é natural que busquemos os acostamentos e refúgios do passado; esperar por lá até os coquetéis molotov sossegarem.

Foi numa virtual escapada dessas que lembrei de meu avô paterno, que ao contrário das descrições românticas e lúdicas que em geral são feitas, era um cara marrento, sisudo, anti-social. Mas eu adorava ele porque ele adorava os netos. A maneira dele. 

Passei a infância em Angra dos Reis e era para lá que meu avô ia descansar de vez em quando. Cada vez que chegava trazia um carro novo. Era apaixonado pelos automóveis.

Eu tinha uns sete ou oito anos quando ele apareceu com um (pasmem!) Studbaker 1955 cinza-chumbo, carro de design não ousado e atrevido para a época que não colou. Eu me apaixonei por aquele carro e ficava horas olhando, olhando, olhando até ouvir a frase mágica do meu avô: "vamos até o centro para comprar umas coisas". E passeávamos no Studbaker sob o olhar assombrado das pessoas.

Numa dessas incursões, fumando seus indefectíveis charutos ao volante, meu avô virou para mim e disse "você vai ser um apaixonado por automóveis." Na mosca.

Para terem ideia, durante muito tempo estou para comprar um Ford Taurus (de 1997 até o início dos anos 2000) porque na minha cabeça ele revivia a saga do Studbaker. Design atrevido, ultra moderno, que também teria assustado os consumidores nos Estados Unidos.

O Taurus foi uma das estrelas do genial filme "O Show de Truman" (1998) de Peter Wir, estrelado por Jim Carrey que mereceu, sim, o Oscar. Mereceu, não levou e ficou indignado.

Essa conexão semana brava-meu avô-carros-o show de Truman-coluna sobre carros faz sentido. Mas em seu magistral coice chamado "O Uivo", de Allen Ginsberg, poema que atirou a América macartista contra o paredão de sua própria alienação, caretice e ignorância, em 1956, parece querer dizer em sua aflição, asfixia e angústia que as causas nem sempre geram efeitos. Causas podem não causar nada. Ou não?

Em uma das primeiras leituras de "O Uivo", em San Francisco, Califórnia, Ginsberg foi preso por "atentado violento ao pudor". Solto após pagamento de fiança, disse a imprensa: "Uivo é uma unidade de respiração única. A minha respiração é longa — isto é a medida, uma inspiração física e mental do pensamento contido no estiramento de uma respiração."

Ninguém entendeu porque poucos tinham a coragem de ler (e, principalmente) ouvir "O Uivo" de ponta a ponta porque a constatação de que outra América, menos boçal, precisava ser descoberta urgentemente incomodava.

Aliás, Beats como Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs eram incômodos sociais, estorvos políticos e levou tempo para as suas propostas entre aspas para um mundo não velho fossem reconhecidas.

Todo mundo tem o seu Uivo. O meu é abafado, mas é uivo. Ou, contrariando um outro herói de cabeceira, Marshall McLuhan, eventualmente não acho que o meio seja a mensagem. Simplificando, discordo que a mídia gere notícias. Até segunda desordem, a mídia é eco e não som, mas como Allen Ginsberg chegou a dizer que o seu Uivo podia ser chamado de tudo "até de mídia pífia e vagabunda", no caso o meio era a mensagem, sim.

Fato é que retirei a corda do pescoço, Entrei no meu virtual Morris Oxford 1952, engatei a primeira e sigo subindo a serra do hiper-realismo cotidiano após ter prometido ao espelho que deixarei de ser otário.

Antes da partida, rumo ao presente, dei um beijo no eu avô.

E no meu pai.