sexta-feira, 18 de março de 2016

O tiê sangue e a linha do meu tempo

No início da tarde desta sexta-feira meu irmão me ligou. Contou que tinha acabo de ver um tiê-sangue lindíssimo. Tentou fotografar mas, arisco como todo tiê-sangue, ele voou rumo ao desconhecido.

O tiê-sangue é um dos mais robustos arquétipos de minha infância. Minha e também de meu irmão. Vivemos numa pacata vila em Angra dos Reis, povoada pelos tiês e também coleiros, canários da terra, sanhaços, sabiás. Sanhaços, sabiás e tiês sangue tem o mesmo tamanho, a mesma importância e estão, os três, e também os coleiros e canários da terra, em extinção.

Em junho do ano passado vi um tiê sangue pousado numa árvore no quintal do estúdio Nas Nuvens, do Liminha, no Jardim Botânico, Rio. Achei que era vertigem. Era de manhã e ele estava pousado numa goiabeira a pouquíssimos metros de mim. Fiquei olhando seus movimentos rápidos, seu reflexo, sua tensão. Logo, voou e imediatamente liguei para o meu irmão, mas o celular dele estava ocupado. Em seguida começou a gravação e tive que guardar a imagem na memória.

Hoje, pensando no tiê que meu irmão viu, refleti sobre a impossibilidade de ser burro e binário como um computador. Muitas vezes tive (como tenho) vontade de reiniciar tudo e, as vezes (não muitas) de formatar meu HD, o que de certa maneira venho fazendo de umas três semanas para cá e seguirei ao longo dos dias que vão vir.

Dizem que essas resoluções tem a solidão como combustível. Concordo. A solidão não é de toda má, como mostra o tiê-sangue que gosta de voar sozinho, mas vive em bando. Muitas vezes a solidão incomoda. A ponto de, em muitos casos, decidirmos formatar o nosso HD e, quem sabe, instalar um novo sistema operacional enquanto há tempo. Tempo, iguaria que com o passar do tempo se torna mais escassa.

Quase escrevi que além de reiniciar a máquina, formatar o HD e instalar um novo sistema operacional, tive vontade de seguir o exemplo do tiê-sangue. Mas se ele estivesse 100% certo não encabeçaria a lista de pássaros em extinção no mundo.

E assim cavalga a humanidade.