sábado, 16 de abril de 2016

A Kombi branca, meus discos, meus livros, meus amigos

Quase ninguém sabe dessa história. Nem meus familiares. Anos atrás mudei de endereço e contratei o frete de uma Kombi branca. Foi numa manhã de sábado. O dono, super gente boa, estava subindo na vida. Quando o conheci era flanelinha, passou a manobrista, comprou metade da Kombi de um primo, depois a Kombi inteira e fazia frete do bom, seguro e barato.

Não sou muito apegado as coisas, por isso toda a minha casa coube num pequeno caminhão baú enquanto que as coisas mais íntimas como discos, livros, botas e capacetes de motocicleta, mais pratos, talheres, etc foram na Kombi branca.

Fui para o novo endereço, o caminhão chegou, os caras descarregaram tudo rapidamente, mas a Kombi branca...o celular tocou, ligação a cobrar, era o dono da Kombi de um orelhão em prantos balbuciando que havia parado num sinal (semáforo) perto do antigo endereço e encostaram um revolver na cabeça dele. Teve que descer para não morrer, caminhar sem olhar para trás.

Levaram a Kombi com tudo dentro. A letra de “Casa no Campo” de Zé Rodrix me veio a cabeça...”Onde eu possa plantar meus amigos/meus discos e livros e nada mais”. Felizmente, meus amigos não estavam naquela Kombi. Seria insuportável perder o que tenho de valor maior.

Bateu uma estranha vertigem a ponto da diarista que trabalhava em minha casa perguntar se eu estava bem. Disse que não, depois disse que sim, voltei a dizer que não. Eu comemorava o fato do dono da Kombi não ter morrido mas pensava, sim, nos meus discos e livros.

CDs, mais de mil (dois mil?) e os livros...não dá para contar. Tudo de Machado, tudo de Rubem Fonseca, tudo de Paul Auster, tudo de….cacete. Mas o dono da Kombi tinha sobrevivido e eu não tinha o direito de ficar lamuriando.

Fui a delegacia com ele. A pé. No caminho encontrei um amigo de adolescência que era rábula. Contei por alto o que tinha acontecido e mesmo de calção e sandálias havaianas (era sábado) se ofereceu para ir a delegacia como nosso advogado. Topei. Francamente mal sabia o que estava dizendo e fazendo.

Ele pediu para pararmos num bar para nos instruir. Tomou uma dose de jurubeba. Eu seria apenas testemunha e a vítima, única e exclusivamente o dono da Kombi porque segundo o rábula "a verdade é o caminho mais curto”. Ficou combinado assim. Se bem que a vítima realmente tinha sido o cara da Kombi que sentiu o frio do cano da arma, eu era um coadjuvante que “apenas” tinha perdido parte da história pessoal.

Na delegacia pegaram o depoimento dele. Nome, endereço, placa da Kombi, cor, ano, modelo, o que tinha havido, ele falou que transportava minhas coisas, o policial perguntou o que, eu disse livros, discos, capacetes e botas de motocicleta, cabides, pratos, facas e o policial digitou num computador com monitor de fósforo verde o Boletim de Ocorrência.

O dono da Kombi chorava copiosamente e aquilo me comoveu. Eu e o rábula falávamos “calma, podia ter sido pior”, mas não adiantava. Lágrimas, lágrimas, lágrimas. Em mim um nó na garganta por ele e por tudo o que havia perdido, praticamente todos os discos de rock dos anos 60, 70, 80 e 90, mais tudo de Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Beto Guedes... “Só isso”.

O dono da Kombi assinou como vítima, eu como primeira testemunha e o rábula como segunda testemunha. Saímos e meu amigo rábula me abraçou comentando “cacete, que coisa...seus discos é?”. Eu disse “pois é, o importante é que não morreu ninguém” e fui embora. O dono da Kombi jurava que iria me pagar, apesar de eu tentar explicar que o que levaram não era mensurável. Ele não entendia o mensurável e muito menos o que era rábula. Paguei a quantia acertada (afinal, bem ou mal, o frete aconteceu) e fui para a minha nova casa.

Na semana seguinte, no trabalho, o celular tocou e era o cara da Kombi eufórico. A picape foi encontrada num matagal junto a rodovia Niterói-Manilha. Quando comecei a querer ensaiar uma comemoração ele explicou que “só levaram a carga...”. menos mal. Menos mal? Menos mal. Menos mal? Menos mal. Menos mal?

Hoje mantenho alguns CDs, 10% do que tinha e livros, 5%. A partir de agora livros não irão roubar mais porque há dois meses comprei um Kindle Paperwhite, leitor digital da Amazon que armazena minha biblioteca virtual numa nuvem. Se tascarem o Kindle, está tudo salvo na Amazon. As músicas estão no computador, formato MP3 e acho que se continuar resgatando daqui a três anos vou conseguir atingir a meta de 80% do material roubado. Livros que se foram na Kombi? Jamais chegarei perto do que tinha em três estantes.

Quis o destino que eu desapegasse. Desapeguei. Dá para viver sem discos, sem livros, sem cabides, mas sem amigos? Não tenho ideia de como deve ser.