terça-feira, 19 de abril de 2016

Incoerência, sempre necessária incoerência

Um poste no caminho. Poste coerente, teimoso, que quando venta, tomba. Ao contrário dos coqueiros que envergam e até roçam no chão mas a maioria, quando passa o vento, permanece de pé.
Parece nítida a certeza de que o homem só atingirá a plena maturidade quando aprender a conviver com a incoerência. Em muitas situações, incoerência é gol a favor e não contra. Cobrar coerência radical do ser humano é tentar convencer cobra a mugir.
Quando James Bond disse “nunca diga nunca mais” caminhava mais ou menos pela mesma picada. Todo mundo disse que jamais faria um monte de coisas que acabaram fazendo. Recentemente, percebi que sou uma das figuras mais incoerentes que conheço. E daí? Qual é o problema? Em muitas situações, incoerência talvez seja, mesmo, virtude. Quem sabe? Não significa voltar atrás, retroceder. Representa reavaliação, revisão, algo ligado ao prefixo re, e não ré.
O povo, mesmo incoerente, cobra coerência. Certa vez peguei um táxi, um Santana. O taxista disse, logo que entrei, que estava louco para trocar de carro, que estava achando aquele uma porcaria. Elogiei o conforto, a economia, resistência do bravo Santana. No final da corrida, o taxista não só havia desistido detonar o carro como começou a fazer declarações de amor ao Santana. E finalizou: “hoje estou de cabeça quente”. Incoerência? Sim, mas qual é o problema?
Na área afetiva as joaninhas e suas sirenes fazem ronda, marcam em cima. O que mais se ouve é “mas você não disse que o sujeito era um animal, minha filha? Como é que voltou para ele?” Não existe oceano de incoerências mais profundo do que o coração, essa coisa linda que carregamos na carcaça que é um verdadeiro porrete na face estranha e esverdeada da lógica e do arrivismo existencial. É o tal ditado: penso, logo pisso. Aí alguém diz que não devemos satisfações a ninguém. Mentira. A incoerência, por mais sutil que seja, provoca mal estar. Vivemos numa tribo. E a tribo cobra satisfações que, mesmo inconscientemente, nos sentimos na obrigação de dar.
Será que a dinâmica existencial passa pela incoerência? Caso contrário, como é ser dinâmico e coerente ao mesmo tempo? A coerência seria, em muitos casos, sinônimo de petrificação, de estagnação, de atraso de vida? Picasso era coerente? Não! Jimi Hendrix era coerente? Não! Einstein, Da Vinci, Vinicius de Moraes, Sartre, Mané Garrincha? Não! A incoerência, a incômoda e perturbadora incoerência foi a mais fiel escudeira desses gênios.
Não é pecado ir e depois dizer que vai voltar. Não é pecado voltar para onde (ou quem) juramos nunca mais ver pintada. Não é pecado desfazer e refazer. Não é pecado praticar, lucidamente ou não, esse bicho estranho e maravilhoso chamado incoerência. 
Por mais coerente que esse finado texto possa ter parecido.