domingo, 22 de maio de 2016

A abominável (?) fenda do desejo irresponsável, incorreto, arrebatador

Cansado, ele atirou a Honda Africa Twin CRF 1000 no piso enlameado. Foram 874 quilômetros com poucas paradas, cortando um pequeno deserto, duas serras e um trecho de litoral. Ele e a fiel motocicleta, suja, surrada, cansada mas rendida jamais. Arfavam juntos deitados sobre a relva, olhando o céu relativamente estrelado, ar parado, morno. Os olhos pesaram sob o capacete respingado de lágrimas. Lágrimas. Lágrimas.

De manhã cedo pegou um cantil e bebeu num gole só. Olhou em volta, esfregou os olhos. Jogou água, mais água no rosto. Tinha sonhado muito aquela noite, como há muitos anos não sonhava e um sentimento que fundia paixão, desejo, fome e gula pareciam cercá-lo como lobos no deserto de Mojave. Sentou-se em uma pequena pedra e notou que, a frente, havia uma fenda. Exatamente onde passaria com a Africa Twin assim que decidisse dar prosseguimento a viagem rumo ao nada.

Consultou o GPS e estava lá a fenda e a data: era dia de Ano Novo. Engoliu em seco, montou na Africa Twin e seguiu em frente pela não-estrada, comemorando o seu não-Reveillon, de sua quase não-existência. Chegou perto da fenda, que fenda, uns 50 metros de profundidade por 10 de largura.

Contemplou a longa e interminável falha geológica que, pelo que ouviu (mal) escondia um rio no fundo. Na outra margem, muitas árvores, muito verde, e até flamingos rosados. Ele largara o LSD há pelo menos 15 anos, logo, era tudo real. O único flash back era música de Hendrix tocando nos fones, ao vivo no Miami Pop Festival, 1968.

Repentinamente o coração disparou, o ar quase faltou, suor na testa, mãos frias. Na outra margem da fenda ele viu o contorno de uma mulher que, achando-se louco não varrido, seria a mulher de sua vida, protagonista de todos os sonhos que tivera naquela noite. Fixou o olhar….sim era ela. Não a conhecia, mas era ela. Era ela. Ele não procurava mas encontrou. Ou procurava e não sabia? Ou sabia e não procurava?

Num impulso decidiu ir vê-la. Vê-la, pegá-la nos braços, fitar seus olhos, acariciar seus cabelos, beijar sua boca, tirar as roupas e dizer que, enfim, estava ali. De algum lugar do planeta, entre sais, mares, ventos, lama, para os braços da mulher que iria possuí-lo no mais profundo sentido da expressão. Não havia dúvida alguma. A mulher do outro lado da fenda era mesmo a sua dona. Mas, era proibida.

Montou na Africa Twin que parecia entender e acelerou. Paralelo a fenda. Dois, 10, 40, 50 quilômetros. Nenhuma passagem, nenhuma pinguela, nenhuma corda. A mulher de sua vida estava inacessível; 1 – era proibida; 2 – vivia do outro lado da fenda inalcançável.

E o tempo passava, três, 13, 17 horas. Já usava a gasolina do tanque reserva, água e comida acabando mas...e a mulher de sua vida? Marcara no GPS o exato lugar onde estivera sentado. Voltou lá. Entardecia. Sua proibida proprietária, retornava para a mata. Provavelmente até o dia seguinte, os dias seguintes, semanas seguintes, meses, anos, décadas seguintes...até quando?

A decisão dependeria deles, dos nazistas politicamente corretos. Os mesmos que o fizeram montar na Africa Twin e fugir em busca do nada porque o nada era menos asfixiante do que o mundo parido, cuspido e escarrado dos nazistas, cafetões do politicamente correto que tomaram as nações, continentes, engoliram o planeta.

Burlar, transgredir, invadir, romper, desobedecer. Era o que restava. Não se sabe como, ele atravessou a fenda. E pegou a mulher proibida nos braços, fitou seus olhos, acariciou seus cabelos, beijou sua boca, tirou suas roupas e fez-se dela.

Morrer? Era o de menos.