terça-feira, 3 de maio de 2016

Ela me deu um beijo. O mais puro e profundo de todos os beijos que trocamos ao longo de nossa tórrida, apaixonada e até ali infinita relação.

Minha estreia numa praia de nudismo, distante milhares de quilômetros daqui (Rio de Janeiro), quase na linha do Equador, foi inusitada por um único e crucial motivo. Cheguei lá sem saber que era praia de nudismo. Eu a uma namorada alemã, que falava mal o inglês e não dizia, sequer, “cerveja” em português. Naturalmente, não falo e nem entendo nada de alemão, meu inglês aprendi com The Who e The Beatles, mas acabei descobrindo que o espanhol dá para sobreviver a uma tourada mexicana. O dela também. Foi assim, via espanhol carioca que mantivemos acesa a nossa intensa (e felizmente tensa) comunicação.

O início.

Ela tinha tido uma estafa no Rio, durante um estágio numa rede de TV onde trabalhei. Caiu desmaiada numa ilha de edição, onde, felizmente, a temperatura em geral não passa dos 19 graus. Como já havíamos trocado olhares e aromas pelos corredores, cabotinamente fui lá socorrê-la. Levei-a ao departamento médico, onde vi seus olhos verdes marejados de lágrimas que ela tentava esconder com o cabelo castanho claro muito liso. Linda. Como era (e provavelmente ainda é) linda a editora de imagens da TV de Frankfurt, que veio para cá aprender a fazer TV (somos craques nisso) numa emissora aqui da América do Sul.

Coincidentemente (falando sério) eu também andava estressado e precisava parar. Como hoje, quando estou estressado, preciso parar e sumir. Nessa ordem. Fui assuntar e me disseram que eu tinha férias vencidas e como havia combinado de levar a alemã ao hotel, no caminho, a bordo de um táxi sem ar condicionado, falei que ia tirar férias, que estava cansado, escalavrado. Ela perguntou, num espanhol que parecia Richard Wagner esculhambando uma orquestra, onde eu iria passar as férias. 

Arremessei o lugar de improviso e ela, com aquela disposição de quem nasceu numa cultura que sobreviveu a urgência existencial de duas guerras, disparou: “posso ir com você?”. Saí do hotel dela três dias depois. Fomos a TV, anunciamos as férias (empolgado falei em casamento com alguns colegas), fomos para o Galeão e vrrruuuuummmmm, escreveria Jack Kerouac.

Estacionei o bugre (o correto é bug, já que Bugre é marca), junto a uma restinga. 26 graus, ventinho bom, céu azul profundo, jangadas no horizonte, gaivotas, coleirinhos cantando, só faltava Roberto Menescal aparecer com Nara Leão e cantarem “O Barquinho”.

Ainda sem perceber que era praia de nudismo, peguei minha dama pela mão e desci uma trilha estreita por dentro da restinga que desembocava na areia da praia, onde ela estendeu uma canga, ficou nua, correu para o mar manso e mergulhou. Sentei e fiquei quieto. Assim que ela retornasse eu diria que não era hábito brasileiro ficar nu na praia. Moralismo meu? Não. Era ciúme mesmo. 

Descobri naquele momento que também sou um cara ciumento, uma constatação que me fez muito bem porque a ausência do sentimento na minha vida me transformava num nada perante os outros mortais. Eu também era (e sou) ciumento, especialmente quando estou apaixonado. E eu não estava só apaixonado pela alemã. Estava louco por ela. Tanto que, na cama, sem camisinha, não tomava cuidado ,com sinistras intenções de engravidá-la. Não aconteceu porque, no meio da noite, ainda no Rio, levantei para fazer xixi e vi a caixa de pílulas na mesinha de cabeceira dela.

Quando ela voltou do mar, linda, linda, linda, eu já ia repreender mas vi dois casais passando nus. Depois, quatro crianças, dois idosos de uns 80 anos, um sorveteiro e até um salva-vidas. Todo mundo nu. Não me restou outra opção a não ser, constrangido, tirar a sunga também. Ela me pegou pela mão para passearmos na praia e aí eu confessei “eu nunca fiquei nu em lugares públicos...”. Achei que ela iria me ridicularizar. Erro. Ela me deu um beijo. O mais puro e profundo de todos os beijos que trocamos ao longo de nossa tórrida, apaixonada e até ali infinita relação.

Fomos passear pela praia, como todo mundo fazia. Em menos de 10 minutos me habituei com meu corpo nu em público e, meia hora depois, já havia até esquecido que estava sem roupa. O único problema era minha libido que, naqueles momentos pertencia (que maravilha) aquela mulher. Queríamos transar no mar, mas concluímos que praias de nudistas tem normas e protocolos muito rígidos para não se transformarem em esbórnia. Lá pela meia noite e meia pegamos o bug e fomos para a pousada onde não dormimos até 10 horas da manhã.

Ficamos 15 dias naquele lugar, explorando outros no bug alugado. Andamos de jegue (de roupa), surfamos de peito (de biquíni e sunga) e fizemos amor sob uma lua nova que nunca vi igual; pálida e quase ofuscada por uma estrela que por pouco não me fez chorar de emoção. Foi nessa hora que pedi para casar com ela. Foi nessa hora que ela aceitou. Foi nessa hora que pedi que ela jogasse as pílulas fora. Foi nessa hora que ela concordou. Foi nessa hora que o mundo se tornou muito pequeno diante da onda que sentíamos. Onda que, provavelmente, nem álcool + maconha + cocaína + heroína conseguiriam proporcionar.

No décimo sétimo dia entramos no avião de volta ao Rio. Meu estado de espírito não era dos melhores e comentei com ela. Ela disse que também sentia “um vácuo na garganta”. O avião decolou, ela dormiu no meu ombro enquanto eu tentava ler uma revista, pensando se seria uma boa ideia mudar para Frankfurt e trabalhar como... como...como o que? Não havia como trabalhar em Comunicação em língua alemã, mesmo que eu estudasse o idioma cinco anos.

Chegamos e fomos para o hotel dela, onde passei a morar e rachar a conta até o estágio da alemã terminar, semanas depois. E um dia terminou. E naquele dia ela tomou umas 12 caipirinhas no Bar Veneziano (imediações do Largo do Machado), chorou, acho que também chorei afogado em quase três litros de Coca Cola comum. E ali trocamos as mais sinceras e profundas juras de amor, eu pensando em Machado de Assis, ela em Hermann Hesse.

No dia seguinte, o do embarque dela para Frankfurt, aconteceu o que prevíamos mas não confessamos mutuamente: nos transformamos em sonhos. Ela, no meu. Eu, no dela. Sonhos de amor eterno, dedicação integral, pureza, entrega, tudo o que seria possível se eu embarcasse com ela confrontando o desconhecido.

Subi para o deck de observação do Galeão. O Boeing 747 da Lufthansa taxiava arrastando meus pensamentos e sonhos nas asas. Decolou na minha frente, levando a bordo um dos mais profundos pesadelos, arrependimento, sensação de fracasso existencial. Mas ela e eu não pagamos para ver. Preferimos transformar aquelas semanas num 
dogma. Dogma que arde vivo até hoje.