segunda-feira, 27 de junho de 2016

Quando o pragmatismo bateu na minha porta

1994? Pode ser. 1991? Também pode. Pode ter sido 1997, não sei precisar. Mas aquela morna manhã foi quase inesquecível. Felizmente, tudo é esquecível. O bom, o mau e o feio. Uma nublada manhã de sábado, quase abafada. Devia ser 11 e meia e eu lia os jornais merecidamente esparramado no sofá da sala.
I
nterfone interior (o afetivo) fora do gancho. Também por isso, quase me assustei quando ouvi as três batidas na porta. Batidas fortes, secas, precisas, decididas. Deixei o jornal de lado, levantei e fui abrir a porta.

Lá fora, um sujeito não risonho, mas sem o fedor da antipatia. Não se fazia de íntimo mas parecia me conhecer muito bem. Como uma flecha foi direto ao assunto.

- Chegou a hora de me conhecer, meu chapa. Me chamo Pragmatismo e certamente você já ouviu falar de mim. Aliás, falam muito mal de mim por aí, mas como bom pragmático, ignoro.

Pragmatismo entrou. Vestia calça jeans e camiseta preta. Botas de couro. Caminhou devagar olhando as estantes de disco e livros que eu mantinha na sala. 
Não comentou. Foi até a janela, olhou para fora, pigarreou e sentou na outra ponta do sofá.

- Não vai me oferecer um café? Ele perguntou.
Levantei e fui fazer. Café solúvel. Bebi o meu na cozinha mas o de Pragmatismo levei numa xícara.

- O importante é que temos o café possível, não o ideal. E o possível é sempre mais fundamental do que as possibilidades. E é por isso que estou aqui.

Quieto, eu acompanhava o ritmo levemente acelerado da fala daquele sujeito atonal que, eventualmente, passava a mão nos cabelos. Sem indecisão, insegurança. Prosseguiu:

- Você finalmente amadureceu, meu chapa. Graças a muita porrada que você não conta para ninguém porque acha que o bom cabrito não berra. Quer saber? Você está certo. O bom cabrito não berra mesmo não. Plateia nenhuma merece assistir ao espetáculo do nosso espancamento. Você amadurece cada vez que abre mão de ideias pueris em prol de fatos concretos, mas sem aquele banho de prata vagabunda que os imaturos dão.

Bebeu café e prosseguiu.

- É bom mesmo que você fique quieto porque hoje quem fala aqui sou eu, o tão decantado e esculachado Pragmatismo. Bem, rapaz, a sua maturidade significa que você vai começar a considerar a possibilidade de achar que ser cabeça de sardinha é melhor do que bunda de baleia. O que acha disso? Acha aviltante, ofensivo, papo de babaca trocar o bundão da baleia pela cabeça da sardinha só porque sardinha é pequena? Ou acha que cabeça é cabeça, não importa como, pragmaticamente falando.

Quantas vezes você abriu mão de projetos de vida que não julgava ideais. E lá vem ele de novo, ideal, ideal, ideal, essa coisa que não existe. Não existe, rapaz! Não existe mulher ideal, trabalho ideal, vida ideal. O que existe é o possível que a gente transforma em ideal. O possível exige que a gente jogue com a bola no chão porque o jogo é de botão. A vida não é para amadores, príncipes encantados, fadas madrinhas. A vida é mel e fel.

Você deve estar se perguntando por que escolhi visitá-lo hoje. É que nos últimos tempos você tem demonstrado “desilusões” com as ilusões e isso é absolutamente do cacete porque quem se desilude com as ilusões começa a surfar a onda do real. E a onda do real é, foi e sempre será a mais concreta, sensacional e segura porque é REAL. REAL, meu chapa!

Quando você disse naquela roda de amigos, meses atrás, que não briga mais com ninguém, parecia eu falando. Quem briga é amador. E não existe nada mais melancólico do que amador existencial. Existe? Ah, sim, os amadores da vida tem promotores e juízes sem toga, sentados em seus tribunaizinhos julgando e condenando em vez de estarem tocando a vida.

Eu ainda tenho muito que falar com você, especialmente quando você disse que o rei da música brasileira pareceu tolo ao cantar que quer ter um milhão de amigos. Doce ilusão. Doce não, amarga, ruim, péssima, porque ilusão é o que há de pior.

Já vou indo, mas volto. Continue avaliando o que vai ganhar, crescer, evoluir e depois, quem sabe, abrir um jardim de infância para conversar com as suas neuroses.

Boa ideia, não?