domingo, 24 de julho de 2016

O homem do realejo

Durante um ano trabalhei no horário de 5 e meia da manhã na Rádio Jornal do Brasil, departamento de radiojornalismo. Acordava a noite e via o Rio de Janeiro despertar com suas primeiras luzes naturais avançando sobre as artificiais que iam se apagando em ritmo descompassado. A Rádio JB funcionava no antigo prédio do JB, hoje Into, na avenida Brasil, 500.

De vez em quando saia do trabalho (uma da tarde), comia do bandejão do JB e trôpego de sono ia até a Quinta da Boa Vista, onde me esticava embaixo de uma boa árvore e dormia pra cacete. Lá conheci um sujeito, um homem do realejo e decidi verificar a minha sorte. Ele abriu a gaiola, a musiquinha característica começou a tocar, o periquito saiu, tirou o papelzinho, paguei e saí. Li a minha sorte embaixo de um jambeiro (acho) e estava tudo bem.  

Ao longo do tempo, retirei a sorte outras vezes. Afinal, tudo ali é feito para nos fazer bem (senão o homem, o realejo e até o periquito iriam a falência) e as mensagens eram sempre ultra positivas e algumas até me banhavam de reconhecimento. Pelo que sei, ninguém vive sem reconhecimento. Nem cachorro suporta ser esculachado 24 horas por dia.  De vez em quando um "valeu, Rex!" e um biscoito fazem bem até aos chamados irracionais.

Meu pai trabalhava perto do JB porque sempre trabalhou perto do mar, e um dia e convidou para almoçar, o que era comum. Como ele não me deixava pagar a conta (o que me deixava furioso...bobagem minha, aliás), fomos no Adegão Português onde ele traçou um bacalhau e eu um filé de peixe. Sempre conversávamos compulsivamente e acabei falando do homem do realejo. Meu pai quis conhecer. Saímos do Adegão (adoro o bairro de São Cristóvão) e fomos para a Quinta da Boa Vista no super Fuscão do meu pai. O periquito tirou a minha sorte e depois a dele. Meu pai nunca me mostrou a sorte dele e a minha acabei esquecendo no carro. Como era um cara fechadão, muito na dele, não me surpreendi e dei um assunto "homem do realejo" como encerrado.

Anos depois, fui a casa dele. Organizado, ele mantinha tudo bem guardado e identificado e sua escrivaninha era um primor. O telefone tocou ele ficou falando e vi, num cantinho, uma pequena caixa de plástico cinza com a etiqueta "realejo". Ele não viu que eu vi e mais curioso do que um fofoqueiro voltei na casa dele no dia seguinte, horário em que ele não estava, para abrir a caixa.

Cheguei lá, abri a escrivaninha, pus a mão na caixa mas não tive coragem e indecência de abrir. Imediatamente deixei a casa dele envergonhado e injuriado comigo mesmo já que tinha intimidade suficiente com meu pai para perguntar "que caixa é essa, deixa eu ver?" e no máximo que ele ia responder seria "deixa pra lá, assunto meu".

Hoje tive uma insônia "coast to coast". Só consegui cochilar as 7 da manhã e como estou lendo um livro que fala de um homem do realejo, escrevi esse flash da memória. Homenagem a meu pai, a quem dedico.

A caixinha cinza dele? Nunca mais vi.