segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A face oculta da lua, um conto sem escalas

Comia uma empada de galinha caipira num bar na rua do Ouvidor, Centro do Rio, perto de um lugar onde Machado de Assis também comia empadas de galinha, só que urbanas, numa manhã de quarta-feira quando parou um caminhão que trazia no para-choques uma frase tola e genial, algo como “na estrada da vida, passado é contramão”, é isso ou mais ou menos isso, mas a vida é como um texto sem ponto, só vírgulas, um pouco de ar, na base do ir em frente, pensando, pensando, passei a semana pensando num monte de coisas como um artigo que escrevi para um jornal norte americano no já longínquo 2014 que, por vacilo meu, não saiu assinado, na carta de um leitor que me esculhambou por causa de uma crônica sobre mulheres gostosas, e eu acabei ficando meio sem saber o que dizer, mas depois constatei, relendo o que havia escrito, que o tal leitor não entendeu, confundiu homenagem com vagabundagem, a tal vagabundagem que me falta para acender a fogueira de um amor impossível que surge no alto de uma montanha, fazendo pé pé com a lua e brincando de trapezista com o arco-íris, mas espera aí, por que todo amor impossível precisa ser adolescente, nos faz sentir como meninos soltando pipa no alto de uma pedreira que ainda existe atrás de um prédio em Trás-os-Montes, onde passei parte de minha pós-adolescência soltando foguetes e alimentando amores impossíveis, como o que tive com uma estação de rádio, que de musa acabou virando livro cujas últimas linhas começo a escrever em suas prováveis 974 páginas que deverei lançar neste 2015 no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Lisboa, Porto, matando a saudade dos Boeings e Airbus que, eventualmente são minha segunda casa para depois, quem sabe, voltar a TV, ao VT, ao Protools, criar um megasite já que a saudade é um sentimento completamente inútil para mim a ponto de eu não reconhecer os anos 1960, muito menos os 70, os 80, afirmando que a melhor década é a que estou, o melhor momento é o agora, que não é mais agora porque quando este texto for postado no site essas palavras chamadas de originais já terão ido morar no arquivo vivo de minhas dezenas de milhares de textos, amontoados há quase 45 anos de escrita diária, dedicada, obsessiva, ou quem sabe vão se mandar para Aracaju, canção de Caetano Veloso que diz que “ser feliz/o melhor lugar é ser feliz”, ah, essa música está impregnada em minhas veias abertas para a minha cidade, cidade-calamidade para quem quer jantar com uma amiga sem ser chamado de amante, mas ao mesmo tempo cidade-útero, morna, molhada, que nos recebe aberta nas madrugadas quando cruzamos a baía sob chuva fina, ou sob neblina, ou sob o torpor da cafeína que consumo num botequim próximo à estação das barcas, acompanhado de divagações afetivas, mulheres de sonhos, verso e prosa, tendo ao fundo o rugido cansado dos miseráveis que se embolam nos jornais para escapar do açoite do frio, ou da fome, ou da polícia imaginária, ou dos políticos virtuais, ou da música que Keith Jarrett ainda não compôs sobre um pôr-do-sol no Algarve para onde provavelmente irei este ano, acompanhado de meu cão Hanói e meu canário Elvis, encontrar amigos e conversar sobre política e sardinhas e, quem sabe, pensar um pouco mais sobre o próximo semestre, na dieta prometida, na possibilidade de receber um e-mail da mulher de meus sonhos dizendo que a vida não faz sentido sem mim, essas coisas que a gente gosta de ouvir quando deita no sofá com um pote de dois litros de sorvete de abacaxi Kibon, quatro litros de Coca Cola e um DVD com um filme de Buñuel, imagem que pode lembrar a canção que me vem as vísceras lá de 1971, Jards Macalé, que canta “estou cansado/e você também/ vou sair sem abrir a porta/e não voltar nunca mais/ desculpe a paz que lhe roubei/ e o futuro esperado que não dei/é impossível pensar/ num barco sem temporais/ e suportar a vida como um momento além do cais” e, por sorte, quebrei esse disco em questão de horas porque não tenho vocação para o masoquismo, daí a minha paixão pela bossa nova, pela magia do céu, sol, sul, e não o samba-canção martírio, daqueles que chamam a lua de luz de mercúrio e nos fazem roer meio fio quando sentimos que nosso texto num jornal não está sendo bem revisado, ou sequer assinado, mas, pensando bem, o editor tem mais o que fazer, o que não vale é acharem que estou tristinho, magoadinho, quando na verdade estou cansado porque são três da manhã e o principal recado na caixa postal do meu celular diz apenas “durma em paz”,  ou foi impressão minha, não sei bem, dizem que comer carne de porco a noite faz mal a alma, mas o recado estava lá na voz da mulher dos meus sonhos, provavelmente telefonando do futuro,  de um orelhão primitivo, olha, garota, eu não quero saber por onde deitas, mas confesso que a possibilidade do recado ser verdadeiro faz um bem danado, como o dia em que Peggy Sue voltou à tona depois de passar dias submersa nos anos 1960...ah, esse Copolla é tão genial que faz um Fusca chorar sem sentir dor, ou alguém não notou que em “Apocalypse Now” a música do Doors, chamada The End, foi infernalmente bem inserida na abertura do filme, eu sei, teria que colocar um ponto de interrogação, mas o cansaço me fez escrever este texto sem pontos e sem parágrafos pois dizem que é uma boa maneira de conversarmos um pouco com nossos xamãs, ou com “As Valquírias” de Paulo Coelho, que estou louco para conhecer pessoalmente, mas as pessoas só pensam nos dólares que Paulo Coelho está ganhando, merecidamente, por ter despertado milhões de pessoas para coisas mais interessantes do que forninho de micro-ondas, IGP-M, Fipe, Dilma, esse macabro parque de diversões chamado economia que provoca sucessivos e generalizados rompimentos na classe média do Brasil, onde os casamentos desabam e renascem como frutos do mar, o que é bom, é muito bom, já que aprecio a velocidade emocional da classe média brasileira e suas Ferraris afetivas entrando no Arpoador a 230 por hora, como um bando de desdentados a caça de um dentista capaz de reduzir a dor em pelo menos 20%, ou uma manada de executivos de marketing, chamados à última hora para tentarem salvar Titanics depois das varadas nos icebergs da incompetência, o flagelo do terceiro mundo, parceria incansável da corrupção, da propina que assola o país desde sempre, crucificando temporariamente uma meia dúzia para saciar a turma do pão e do circo, é fogo, não é mole, e o pior é que que terminarem de auditar o Brasil  o berço esplêndido vai ficar mais deserto do que ilhas virgens em dia de finados, chovendo e com ressaca, porque como cantou um dia David Bowie “this is not America”,numa boa, sem preconceito, mas this is not America, mas não é mesmo, tanto que nem a inflação razoavelmente estável provoca o mínimo de otimismo, provavelmente por causa da porção Dom João Sexto em nosso sangue, suor e lágrimas, aquela ala que gosta de gemer, reclamar, expulsar, discriminar, enfim, eu tenho uma amiga que é dentista e me escreveu um e-mail da China onde os brasileiros são perseguidos como judeus na Alemanha de 1940, e tudo mais o que acomete o emocional de um perseguido que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones, acreditava em Papai Noel e nessa coisa de irmandade entre os povos, a ponto de me preocupar pois rapidamente respondi o e-mail sugerindo que ela não julgasse povos, mas governos, não julgasse indivíduos, mas corriolas e assim por diante já que da mesma forma que em Detroit (EUA) nos anos 1980, estavam matando japonês a pauladas, tenho receio que comece a rolar esse clima contra outros povos aqui no Brasil, o que não é bom para ninguém, pois de médico, português e louco, todos nós temos um pouco, da mesma forma que o amor impossível pode parecer impossível eternamente quando não buscamos soluções alternativas quando uma estrada está inundada e ficamos parados xingando o ar, já que há sempre uma trilha, um atalho, uma picada quando queremos mesmo chegar a algum lugar, mesmo que esse lugar seja o lugar nenhum, mesmo que chova açoites, pois somente algumas coisas não tem solução, entre elas o fim do papel. Madrugada. Quente, fria, morna. Um homem está diante de seu vulcão interior e tenta decifrar a lava. Angústia. Êxtase. Sem pausa, sem trégua. Não há bandeira branca no embate entre o homem, o vulcão e o papel, feito refém e ponto de partida para um monólogo urbano, que segue, não para. Não para. Não para.