quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Dr. Ivo Pitanguy e porque não consigo pisar num circo

Carequinha: 10 anos sem ele.
Doutor Ivo Pitanguy partiu e a cidade de Niterói sentiu. Afinal, no incêndio do Gran Circo Norte-Americano (em 1961), ele trabalhou dias e mais dias sem dormir, ao lado de outros médicos. Foram mais de 500 mortos, numa tragédia que marcou a cidade para sempre.

Aqui, um trecho do texto de apresentação do livro “O Espetáculo Mais Triste da terra”, de Mauro Ventura:

“No dia 17 de dezembro de 1961 acontecia, em Niterói, a maior tragédia circense da história e o pior incêndio com vítimas do Brasil. Mais de 3 mil espectadores, a maioria crianças, lotavam a matinê do Gran Circo Norte-Americano, anunciado como o mais famoso da América Latina, quando a trapezista Antonietta Stevanovich deu o alerta de "fogo!".

Em menos de dez minutos, as chamas devoraram a lona, justamente no momento em que o principal hospital da região se encontrava fechado por falta de condições. O prefeito da cidade estabeleceu em 503 o número oficial de mortos, mas a contabilidade real nunca será conhecida.

Cinquenta anos depois, o jornalista Mauro Ventura reconstitui o episódio em 'O Espetáculo Mais Triste da Terra'. Curto-circuito ou crime? Era a pergunta que todos se faziam. A polícia logo descobriu um suspeito, mas até que ponto ele era o verdadeiro culpado ou o bode expiatório ideal para dar satisfações rápidas à sociedade e encobrir possíveis falhas das autoridades e do dono do circo? Quatro meses depois da renúncia do presidente Jânio Quadros, o país chegava novamente às manchetes internacionais.

O papa mandou celebrar uma missa pelas vítimas e enviou um cheque para ajudar no tratamento dos sobreviventes. O impacto da tragédia em Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro, foi tamanho que o assunto permanece encoberto até hoje.”

Eu tinha seis anos de idade e morava em Angra dos Reis. Meu pai, oficial de Marinha, serviu no Colégio Naval onde passei toda a minha infância na vila dos oficiais (que chamávamos de Taperinha) e por isso, somente por isso, não estava na plateia do Gran Circo Norte-Americano.

Quando as notícias do incêndio chegaram (especialmente via radio) o país estava chocado. Ouvi meus pais dizerem frases do tipo “graças a Deus não fomos...” e dias depois, na calada, escondido, vi as fotos em revistas como Manchete e Fatos & Fotos. Fiquei profundamente abalado e traumatizado. Fotos de corpos, desolação e, numa página inteira, a foto de um palhaço chorando.

Quando o filme “O Palhaço” de Selton Mello, estreou, percebi que o trauma do Gran Circo Norte-Americano não tinha se afastado de mim. Até hoje, quando vejo um palhaço sinto imediata vontade de chorar. Em 2005 tive a oportunidade de conversar sobre isso com Carequinha (1915-2006), que participava de um aniversário em casa de amigos.

“Force um pouco, tente ir a um circo”, me dizia o palhaço-mor de minha vida, para que eu vencesse o trauma. Mas não consegui. Não consegui, sequer, assistir ao show de Carequinha até o final. Fui para o fundo do quintal e chorei muito. Para minha surpresa, ele foi lá me dar um abraço.

Quando minha família saiu de Angra e veio para Niterói, em 1963, nunca me levou a um circo. Mesmo porque, durante décadas, montar circos em Niterói era proibido por causa da tragédia do Gran Circo e, sinceramente, eu não queria.

Quando estive como presidente da Fundação de Arte de Niterói (FAN), entre 1989 e 1997, um circo queria montar sua lona na cidade. A proibição havia sido revogada anos antes. Lembro que, com meu amigo e na época secretário de cultura Ítalo Campofiorito, exigimos que os donos do circo incendiassem um pedaço de lona à prova de fogo que eles garantiam ser a cobertura.

A revista Veja se interessou e marcamos a simulação de incêndio nas imediações da estação das barcas. O dono do circo pegou um pedaço de material medindo uns 2 metros quadrados e tacou fogo, garantindo que as chamas não iriam se alastrar. Não foi o que aconteceu. O pedaço de tecido lambeu, não sobrou nada e Ítalo e eu proibimos a montagem do circo.

Queria muito ter assistido ao filme do Selton, mas enquanto não me livrar desse trauma nenhuma atividade circense vai me atrair. Por isso, decidi comprar e ler o livro do Mauro Ventura. Quem sabe, diante da verdade, de uma reflexão em cima de fatos consolidados, meu trauma vai embora? Vou tentar.

Mas, pensei melhor e decidi abandonar o plano por uma razão muito simples: há coisas na vida que se tornam insuperáveis e a massa de informações sobre a tragédia me deixou profundamente abalado. O marco de tudo foi uma foto de página inteira (acho que na extinta revista Manchete) de um palhaço chorando. Foto em preto e branco.

Hoje, com a morte do Dr. Ivo Pitanguy (com quem conversei a respeito) vejo meu trauma como luto, solidariedade, enfim, um sentimento muito mais profundo. Quantas crianças da minha idade (repito, eu tinha seis anos) teriam morrido? Quantos artistas, gente do povo morreu sem entender nada? Meu trauma faz sentido e, querem saber?, vou deixar rolar. Peguei horror a circo e assim vou continuar.

Esqueci de dizer que na segunda metade dos anos 80, em Friburgo, numa tarde de sábado ou domingo, vi um toldo azul de um circo montado nas imediações da Praça do Suspiro. Fui me aproximando e vi no cartaz “Hoje, Egberto Gismonti”. Eu pense “caramba, Egberto?”. Claro que tinha tudo a ver porque Egberto é de Carmo, cidade vizinha a Friburgo, onde também viveu e deu aulas de piano na adolescência.

Respirei fundo, comprei o ingresso e fui ver o maior gênio da música brasileira tocar “Palhaço” no picadeiro. Quase esqueci do Gran Circo Americano ouvindo essa que é uma das mais belas canções da música universal. Egberto acabou o concerto, foi muito aplaudido e saiu. Saí junto. Anos depois, durante a restauração do Teatro Municipal de Niterói, quando eu estava presidente da Fundação de Arte de Niterói, Claudio Valério Teixeira (artista plástico e restaurador, responsável pela salvação do Teatro) teve a ideia de fazer uma temporada musical com a casa ainda em obras. Chamou-se “Temporada de Obras e ConSertos”, com S.



Egberto foi um dos convidados a tocar. Chegou cedo, por volta das quatro da tarde e ficamos conversando no galpão da obra que hoje é a bela Sala Carlos Couto. Perguntei sobre sua música “Palhaço”, e ele disse exatamente o que está no vídeo cujo link disponibilizo aí embaixo. Morria ali mais um boato pois haviam me dito que Gismonti teria feito o álbum “Circense” em homenagem as vítimas do Gran Circo. Nada disso. A explicação está neste vídeo da TV Cultura: