terça-feira, 4 de outubro de 2016

Depenando o abutre nas dunas de Jaconé

Apesar da fama de mal agouro o urubu é protegido por lei no Brasil. Quem for pego molestando um, teoricamente vai em cana. Se não rolar um por fora. Dou a maior força porque acho os urubus sensacionais, sinceros, honestos. Gostam de carniça sim, e daí?

Os pombos, ratos voadores, aves de caráter duvidoso que transmitem, pelo menos, 15 doenças, também são protegidas por lei e, pior, são o símbolo da paz. Todo papa gosta de uma pomba e de vez em quando liberta uma daquela varandinha no Vaticano. Qualquer manifestação pela paz tem pomba no meio, sei lá por que. Alguém aí sabe?

Três anos atrás perguntei a um mendigo perto do Amarelinho, na Cinelândia (Rio) por que ele não comia pombos. O mendigo me olhou, olhou, olhou e disse “você acha que eu sou doido? Comer pombo mata”. Saí andando pensando em dezenas de pombos que comi na pré-adolescência com meus amigos. À noite, alguém subia nos ninhos, pegava 10, 12 pombos e fritávamos num fogareiro Jacaré numa esquina com banha de porco e alho. Chegávamos em casa e golfávamos a noite toda. Tinha alguma coisa errada ali.

Os mais assustados diziam que era maldição de um cara mais velho, o Bambam, macumbeiro que ficava nos telhados alisando um gato com a mão esquerda (imaginando conas) e se masturbando com a direita. Logicamente que quando alguém subia para pegar pombos tirava Bambam da concentração e ele caia de porrada. Mau pra cacete.

                                            Tomo II

Não fui hippie nos anos 70 por uma razão muito simples: nunca soube armar barraca (sem duplo sentido). Certa vez uns amigos me chamaram para pescar em Jaconé, perto de um camping que, me disseram, tinha mulher pra caramba. Mas meus amigos iam acampar na praia, levaram caniços de primeira linha, caixas cheias de anzóis de vários tamanhos, iscas coloridas que rebolavam e eu...levei um violão.

Chegamos lá, os caras armaram as barracas e eu fiquei olhando para a minha, que na verdade tinha comprado a prestação dias antes e sequer havia desembrulhado. Rapidamente meus amigos montaram suas cabanas, pegaram os caniços e foram para a beira d’água pescar enquanto eu, como um baiano ouvindo Bob Marley, lentamente desembrulhava aquele enigma.

Ferros, ferrinhos, presilhas, uma espécie de lona azul que não era lona. Olhei, olhei, até que tentei montar aquele teorema e lá pelas tantas, furioso comigo mesmo, espetei um bambu na areia e pus a cobertura da barraca em cima. Uma espécie de instalação contemporânea, parecida com aquela obra de Hélio Oiticica “Seja Marginal, Seja Herói”, homenagem ao bandido Cara de Cavalo.

Sem caniço, sem linha, sem anzol, sem isca e, principalmente, sem saber pescar caminhei como Gandhi no sol quente até atingir um botequim chamado “Suzete Drink´s” a 1,5 KM de distância, que acabou virando nome de banda de rock nos anos 1990. Ali, num calor de 42 graus sem sombra, comi uma feijoada acompanhada de um litro de Coca Cola com gelo, sem limão. Na época era viciado nessa droga pesadíssima.

Paguei o equivalente, hoje, a 30 reais. Comi meia lata de goiabada, dois copos dos grandes de café, saquei 35 reais e paguei a conta. Agradeci e em seguida levantei. Bateu uma tonteira. Sentei. Respirei fundo, achei que ia ter um ataque de pânico. Levantei de novo e, felizmente, nada mais aconteceu.

Parecia uma iguana bêbada caminhando pela restinga na beira da estrada de terra com minha sandália Havaiana. Volta e meia um espinho espetava e desabava a tempestade de pensamentos torpes como “vou tacar fogo nessa restinga. Essa merda serve pra que?”, mas como já era ecologista combati os pensamentos até nocauteá-los. Um carro passou voando, levantou uma poeirada desgraçada, engoli, engasguei e golfei a feijoada ali mesmo.

Cheguei ao local da pescaria com o sol se pondo. Meus amigos não tinham pescado nada e me perguntaram quando eu iria armar a barraca. Nada respondi. Eles levaram iguarias, salsicha em lata, macarrão, fizeram uma gororoba e estranharam quando agradeci e disse que não jantaria. Afinal, eles sabiam que eu era um bom garfo, faca, pauzinho de restaurante japonês, mas não comentei que havia derrubado (e devolvido) uma feijoada.

Apaguei embaixo da bandeira punk que era a minha “barraca”. O problema é que acordei as duas da manhã enquanto todos eles estavam dormindo, com seus caniços na água. Ouvi um “tum, tum, tum” vindo de longe. Como um primata segui o faro. Era música dançante no tal camping onde mulheres dançavam. Entrei, dei boa noite, sentei num canto na maior cara de pau. Uma das dançarinas sentou ao lado, disse que era de Conceição do Macabu, nunca tinha visto o mar, papo vem, papo vai, fomos para uma duna e crau! crau! crau! até de manhã.

Voltei para o point de pesca dos amigos, me despedi, vendi a minha barraca para um deles pela metade do preço e fui para Conceição do Macau de ônibus com a dama de Jaconé. É por essas e por outras que pergunto: para que saber montar barracas?