quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Você conhece o Camarão?

Não conheço nenhum Camarão, apesar de um conhecido meu, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Camarão”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio rumo ao Rio e fica ao sabor da brisa virtual? Virtual porque os catamarãs sociais (para 2 mil pessoas) em geral não tem ar condicionado (só alguns novos) e as janelas ficam no alto, deixando os passageiros na pele de codornas em estufas. Corta!

Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado” (foto), aquela que o povão forma para entrar na embarcação. Como ele não lê essa Coluna, posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou ao meu lado.

E tome a falar do tal Camarão que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância em Angra dos Reis e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo. Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim. Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi com elegância, “não, só de vista”. Dizer que conhecemos alguém nos transforma em avalistas do “conhecido”. Assinamos um cheque em branco.

Não é o caso do sujeito que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, dei um perdido no conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não aguentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, avenida Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, e me apresentou. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o Luiz Antonio...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para o Leme”.

Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo. Querem saber? No fundo, acho isso tudo engraçado pra cacete.