quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Amor

Certa vez disseram que “o amor é brega”. Claro que é, mas e daí? Como será viver sem amor, atravessar o deserto existencial sem um copo d'água, uma brisa? Como seria viver sem jamais ter sentido o amor? Estou me referindo ao amor afeto e não o universal ou o fraternal. Falo do amor consequência da paixão entre duas (ou mais) pessoas.
Por isso gostei tanto do filme “On The Road”, que Walter Salles que, com sabedoria, transportou para o cinema. É um ácido filme de amor sim, por que não? Desde que li “On The Road” de Jack Kerouac (clássico do movimento beat lançado em 1951) em três momentos especiais de minha vida senti a presença do amor da primeira a última página. Que tipo de amor? O amor caos, o amor clamado, implorado, quase ausente. Amor desespero, amor sublime, amor angústia, amor proibido, amor anfetamina, amor álcool, amor, amor, amor. Nem sei se Kerouac soube que escreveu tão bem sobre o amor que Walter Salles filmou.
“Django Livre”, de Tarantino, como um filme de amor. Especialmente do alemão Dr. King Schultz pela negra Broomhilda, amada por Django. Um amigo me alertou para o fato do alemão, pouco a pouco, ir se apaixonando por ela com base nas histórias que o ex-escravo vai contando.
O amor é um sentimento absolutamente necessário para todos os seres e mora aí meu grande questionamento em relação a igreja católica. Estudei em colégio católico de 11 a 16 anos (eu acho). Homens de batina amargos, complexados, rancorosos, acabavam descarregando nos alunos todas as suas frustrações, o seu não viver, quase inexistência social. Daqueles religiosos, todos abandonaram a batina e passaram a amar, casar, ter filhos. Encontrei vários ao longo dos anos e no lugar da truculência seca da desidratação afetiva, vi homens mais tolerantes, generosos, bem humorados.
Concordo com Caetano quando, na magistral “Paula e Bebeto” que ele compôs, Milton Nascimento canta “qualquer maneira de amor vale à pena”. No início dos anos 70, auge da adolescência, uma namorada me disse algo parecido quando nos beijávamos e sussurrávamos segredos no alto de uma pedra na praça Ginda Bloch, em Teresópolis, ouvindo sem parar “That´s Way”, do Led Zeppelin. Que som. A letra não trata de amor especificamente, mas a música é amor em estado líquido. Como é o caso da fabulosa e acrilírica “Love Reign O´er Me”, The Who. Amor em letra e música. Tema infinito enquanto dura, o amor voltará a essa página. 
Com certeza.