domingo, 27 de novembro de 2016

Memórias de uma motocicleta assassina


Ela nunca se fez de santa
Como o amigo Hilário Alencar sou um apaixonado por motocicletas. Quer dizer, Hilário é muitíssimo mais apaixonado do que eu, assim como outro grande amigo, Márcio Paulo Maia Tavares, motociclista há mais de 30 e tantos anos. Claro, tem o André Valle e o João Chaves, PhDs no assunto.

Meu primeiro contato com esse obscuro objeto do desejo foi na adolescência, 13, 14 anos, quando começou a ser vendido no Brasil um ciclomotor chamado Velosolex. 

Que delícia aquilo. Eu andava na de amigos, escondido de meus pais que como 99% de todos os pais proibiam que andássemos de moto. A "velô" do Guilherme era envenenada e sem escapamento. Anos depois, o Guilherme vacilou na sua Yamaha 125, bateu e morreu na Praia de Icaraí.

O saudoso amigo Alex Mariano e eu estudávamos na mesma faculdade, a Estácio, no Rio Comprido. Ele tinha uma Yamaha 200 azul e, dia sim, dia não cruzávamos a ponte, eu na garupa. Volta e meia o motor da moto apagava mas o Alex, que tinha alma de cientista genial como o Lampadinha, personagem de Walt Disney, sem perder a calma pedia que eu descesse e levantasse e abaixasse com força a frente da moto. “Isso é magneto com mau contato”, ele dizia. Depois de 10 a 20 balançadas a moto pegava e íamos em frente. 

Uma vez, no verão, ameaça de chuva, ventava pra cacete e a Yamaha 200 deu esse problema justamente no vão central. Balancei 30, 40 vezes e nada. Quase fomos pegos por um ônibus da Itapemirim que vinha voando baixo pelo acostamento e vupt passou muito, muito perto. Tanto que eu, Alex e a moto quase caímos. Meu amigo fez uma de suas feitiçarias e moto pegou. Moto, por sinal, com 130 mil quilômetros rodados pois até a Bahia Alex já tinha ido.

Anos depois, passando algumas semanas do verão na serra, fui apresentado a “assassina”, a Yamaha 350 RD, top de linha na novela “Assim da Terra como no Céu”. Era uma verde musgo que nunca teve pinta de ingênua. Tão assassina que a Yamaha foi proibida de produzir no mundo todo. Nos anos 1980/90 voltou com uma RD nova mas foi um fracasso. Bom, um amigo de verão chamado Mosquito tinha uma, anos 1975, e me emprestou.

Saí tentando ir devagar, mas o motor de dois tempos (aquele que fazia toc toc toc toc soltando fumaça azul, mistura de gasolina com óleo) da moto meio que "mandava" acelerar. Alguns sinais de trânsito adiante, parei. Uns 10 carros parados e segui o protocolo, ficando na primeira fila a esquerda. O sinal abriu, acelerei e nada. A moto fez um som de arroto, como se fosse golfar. Só deu tempo de olhar para baixo, para o motor. Em suma, ela não queimou a gasolina logo. Ficou acumulada no carburador. 

Queimou tudo de uma fez e, logicamente, a bicha arrancou forte, empinou e eu caí para trás. A moto caiu em cima de minha perna, sofri alguns arranhões, mas ainda assim insisti. 15 anos...

Fui até a Rio-Bahia onde acelerei tudo. Não tive coragem de olhar o velocímetro e quando um filme de minha vida começou a passar na cabeça aliviei o acelerador. Motor dois tempos não tem reduzida na compressão, não freia, ele só faz "toc toc, toc” e você que se vire. 
A “assassina” tinha outras “virtudes” como, por exemplo, os freios de merda. Sorte que não precisei, senão adeus.

Devolvi a moto ao Mosquito com a promessa de comprar um espelho retrovisor quebrado no tombo e também umas borrachas das pedaleiras. Agradeci pensando “nessa não ando nunca mais”. Duas semanas depois Mosquito morreu. A “assassina” o jogou embaixo de um caminhão. Foi horrível.

Por que escrevo sobre a RD 350? 1 – porque vi uma hoje de manhã, parada em frente a um bar. Tive vontade de fotografar mas o trânsito não deixou; 2 – tenho pensado em voltar a ter moto (desde 2003 não tenho, as duas últimas foram duas maravilhosas Suzuki DR 800), mas rola um receio, vulgo cagaço; 3 – ainda assim, inexplicavelmente bateu saudade da “assassina”.

Vai entender a alma humana.