segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O som das nuvens destila a saudade

Havia um banco de cimento bem perto da praia. Pequena praia, sem ondas, estreita faixa de areia, água muito clara, transparente, mais para o verde do que para o azul. A canção parecia brotar das nuvens, duas, brancas, destacando o azul profundo do céu limpo, sem fumaça, sem mordaça.
Deitar no banco de cimento, sorver o som da saudade de si. Por que não? Por que não deixar que a melancolia sopre a nuvem e produza o som dos tempos, da travessia das eras, das lutas, da vida dura levada a ferro e fogo? Por que ele, somente ele, não teria direito a sua melancolia, ao silencio de seus ecos interiores, que ele não teve tempo de conhecer? Saudade e melancolia, velhas vizinhas, por mais novas que sejam as nuvens, por mais eterno que seja o céu.
Melancolia, um direito. Como folia, euforia, delírio. Saudade, dona de sons típicos, raros, que nascem de nuvens brancas e vadias, mapeando o céu como se nada mais existisse. Existe? Deitado no banco de cimento, olhos fechados, ouvindo o som das nuvens, uma lágrima escorre do olho direito dele.
O homem é amigo. Parceiro. Dá tudo de si desde o dia em que bateram em suas costas e disseram “é um menino”. Seria suficiente? Ele não sabe. O mundo não é espelho, o afeto não é reflexo, a saudade é mais que sensação. Livre sensação.
Ele tem tentado tudo. Deitado no banco de cimento, cansado muito cansado, reconhece o empenho, a luta, a solidariedade. Será suficiente? Não sabe, não pode e não quer perguntar. Impossível mensurar intenções.
Cansado, pede paz. Afeto. Cores. Nuvens. Saudade, muita saudade, de um tempo que não viu porque não tinha tempo para assistir ao tempo. As nuvens tem a resposta, mas ele só as contempla. Quieto. Como uma música. Música do acaso. Música do sonho, da vontade, música do afeto. Profundo, azul, marinho afeto.
Afeto que não se encerra.
Jamais.