quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Será que o ser humano despreza as boas notícias?

Nos anos 1980, animado, eufórico, um colega decidiu lançar um jornal semanal só com boas notícias. Não vou esquecer o seu semblante, sua vibração, algo como se tivesse inventado a roda, a pólvora, a lâmpada. A mesa, com quase dez colegas jornalistas, estava cética. Houve muita discussão. Uns diziam que um jornal assim seria alienante, tiraria o público da realidade e que a realidade, queiramos ou não, é brutal. Nosso animado colega rebatia dizendo que, exatamente por isso (realidade brutal) o público deveria estar buscando um antídoto. Outros acharam a ideia engraçada, mas o fato é que ninguém levou fé no projeto do R. A. (iniciais do meu colega).

R.A. é perseverante. Não desiste, mesmo levando um nove a zero numa mesa de bar. Não chegou a dez a zero porque dei força ao projeto, e continuo acreditando (hoje mais do que nunca) que um jornal só com boas notícias seria um sucesso sensacional. R.A. procurou um desenhista, fez o esboço do jornal (o termo técnico é "boneca do jornal") e saiu por aí à cata do fundamental para qualquer mídia: anunciantes.

Antes, deu um giro pelo Rio conversando com jornaleiros, observando o comportamento dos leitores, principalmente aqueles que antes de comprarem um jornal dão uma conferida nas manchetes, nos exemplares que ficam expostos do lado de fora das bancas. Mesmo percebendo que as notícias ruins tinham muito peso na decisão do consumidor de comprar um jornal. Foi mais fundo. Conversou com alguns desses leitores e, segundo me contou mais tarde, a maioria quase absoluta optou por primeiras páginas equilibradas. Algo como sangue, suor e cerveja, digamos assim. Nem muito lá, nem muito cá.

Mas o persistente R.A. estava longe de jogar a toalha. Um dia me ligou para me mostrar o projeto do jornal. Gostei. Descobertas científicas maravilhosas, entrevistas com gente otimista, muita cultura, palavras cruzadas só com questões positivas, enfim, o jornal parecia uma espécie de "Shangri-lá News". 

E durante um ano ele tentou arranjar anunciantes. Conseguiu alguns, mas não foi suficiente para cobrir os custos do jornal. Em vez de desistir, vejam vocês, R.A. decidiu ir para o exterior onde hoje comanda um pequeno império de jornais e revistas especializadas em lazer e turismo. Infelizmente não consegui localizá-lo para publicar seu nome.

O curioso é que o ser humano tem uma fixação pela tragédia. Uma espécie que pagava ingresso para ver leão comendo cristão no Coliseu romano e até hoje paga para ver lutas de vale-tudo, assiste mundo-cão na TV e tudo mais. 

Será que um jornal só de boas notícias, nos moldes do que R.A. bolou, daria certo neste século 21? Totalmente apolítico, bem-humorado, com notícias de coisas que estão dando certo, doenças que estão sendo curadas, tecnologias que melhoram a nossa qualidade de vida, mas tudo sem histeria. Linguagem tranquila, como se fosse a mídia do lado bom do mundo, ou da humanidade se preferirem. Não sei se é o caso de se fazer um jornal desses mas, com certeza, é hora de se pensar em algo assim. 

Ou não?