terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Compadre meu

Cacete, há quanto tempo! Recebi sua mensagem no trabalho. O celular estava sobre a mesa de edição e, num intervalo, fui conferir meus e-mails e lá estava o seu. Também estou com saudade, rapá. Confesso que quando vi que sua mensagem era grande guardei para ler em casa com calma, muita calma.

Lógico que, como aconteceu contigo, meus olhos arderam em determinados momentos de sua narrativa. Nos anos 80 soube que você havia mudado para o interior e sempre planejei visitá-lo, o que deverá ocorrer em breve. Com certeza. Estive em Manaus, mas não deu tempo de procurá-lo.

Como está a Linda? E seus filhos? Você falou por alto deles e mergulhou fundo em nossas memórias. Compadre meu (na verdade a música é Cumpadre meu, com U), como esquecer daquele trio musical que você armou nos anos 70, tocando Sá, Rodrix e Guarabyra, misturados com Crosby, Stills, Nash & Young?

O dia em que fomos de carona para Friburgo e paramos em Boca do Mato, em Cachoeiras de Macacu, foi antológico. Paramos, arranjamos alguma coisa para comer e vocês fizeram um pequeno show para os locais da área. Lembro que, lá pelas tantas, dispararam “Cigarro de Palha”, de Sá, Rodrix & Guarabira, música com menos de um minuto que foi gravada na serra de Friburgo. Lembra da letra?

A gente só queria paz naqueles tórridos, carentes e algozes anos de adolescência e ditadura. “Cigarro de Palha” saiu no disco “Passado, Presente e Futuro”, de 1971, que compramos em sociedade. Lembro bem. O disco ficava dois dias na casa de cada um e, recentemente, encontrando com Guarabyra contei essa história e ele se emocionou. Gente muito boa. Ficou fascinado quando eu disse que cantamos “Cigarro de Palha” perto de onde eles gravaram a música. E disse, ainda, que "nós estávamos com um gravador pequeno perto de Boca do Mato, subida para Friburgo, e gravamos. Assim que acabou, desabou uma chuva linda".

Pensei, "dessas que quase não existem mais", mas fiquei quieto.

Quer saber, Compadre meu, Guarabira quase chorou, como se de repente suas memórias o tivessem arrastado dali e fossem pousar lá no pé da serra, onde nós buscamos paz, um pouco pelo menos. Mesmo com as sucessivas gerais que a polícia nos dava, usando como “argumento” o fato de sermos cabeludos, magérrimos e “certamente maconheiros”, guardo uma boa lembrança daqueles tempos de estrada, violões, poeira, cabeleira. E o fato de não gostarmos de drogas.

Concordo com você que hoje tudo parece nublado, “numb”, meio brocha perto do que fizemos. Mas acabei me atracando com uma corrente filosófica que afirma, com todas as letras, que o passado fora do presente é imbatível. Em algum momento o passado já foi presente e naquele presente curtíamos outro passado, que também já foi presente. Ou seja, a mensagem que você me mandou e essa que escrevo, estão no presente mas no futuro ambas soarão nostálgicas. Sim, meu chapa, ando reflexivo. Reli “Verdade Tropical”, livraço que Caetano Veloso lançou em 1997. Esse livro tem a capacidade de visitar nossos sótãos e porões.

No mais, forte abraço.