domingo, 4 de dezembro de 2016

O amor sem tempos de cólera

As 5:11  - Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada e pelo visto terei uma longa madrugada pela frente. Não gosto de escrever e publicar. Preciso decantar, especialmente sob forte emoção. Escrevo agora, mas penso em postar mais tarde.

As 5:14 - O amor de uma pessoa pela outra é inexplicável como a fé. Ninguém conseguiu passar para o papel. Sejam filósofos, sociólogos, antropólogos. No entanto, para mim, Freud foi na mosca: "atração baseada no desejo sexual". Uma vez escrevi num trabalho de faculdade (cadeira de Psicologia Social) que o que mais nos difere dos chamados irracionais não é a inteligência mas a sofisticação do afeto. O professor não gostou. Conversamos, ele disse que viveu uma experiência na África, numa região próxima a de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês a nota tinha subido para 9. Perguntei por que e a resposta veio vaga: “Realocação de conceitos”, ele disse.

Não quis reclamar porque estava apaixonado por uma garota (tínhamos 20 anos, ela e eu) e ingressava mais uma vez na ante-sala do amor comocional, aquele que ignora os raios e vendavais e nos faz rolar em êxtase por virtuais calçadas, encharcadas de chuva as nove horas da noite, com carro da polícia parado na esquina na base do dane-se o carro da polícia, o negócio é agora enquanto ainda. Ela me escolheu como seu primeiro macho. Eu a aceitei. Ela me elogiava, chamava de pervertido. Uma história que durou alguns anos e nela vivi mais uma vez o amor sem explicações e, sobretudo, complicações. Mas jamais incondicional, esse papo de existencialista amador. O ser humano é condicional em sua essência. Há quem diga que o amor sem sexo satisfaz, como há quem diga que o homem não pisou na lua (que foi tudo fraude), que vacina faz mal a saúde e que disco voador é Uber interplanetário.

Ela queria, eu também queria casar, ter filhos, mas o destino nos chamou no centro de uma praça no Rio Comprido e disse que não ia rolar não. E não rolou. Saímos da praça, eu a levei até a porta de casa em meu Karmann Guia TC bege igual ao da foto, que toda a faculdade conhecia e venerava. Mais livre e corajoso eu amava carros com design revolucionário não os modelos "cordatos" e formais de hoje. Ela desceu do carro, eu também, fomos até a portaria do prédio, nos olhamos (olhos marejados) sem nada dizer, apenas ouvindo ao longe, baixinho, o rádio do Karmann Guia TC na Eldo Pop FM tocando o Renaissance, ao vivo em Londres. Não esquecerei a música: At The Harbour, a que ela mais gostava. Sincronicidade. E como a música é a linha de tempo e afeto de minha vida, jamais desvinculei “At The Harbour” daquele momento. Nem o cheiro da chuva no asfalto daquela rua que ficava junto a Pedra do Leme.

Ela entrou no prédio. O Karmann Guia TC me pegou para dar uma volta pela orla do Rio. Fui até o final do Leblon e voltei. Em Copacabana parei numa carrocinha da Geneal, comi duas mini pizzas olhando para o mar escuro e mexido (como eu), pensando naquela história de amor que havia acabado. Uma prostituta, corpo surrado, cansada, passou pelo calçadão, bem perto, falou qualquer coisa. Topei pagar uma hora sem sexo, ela achou que tinha algum problema. Por que sem sexo? Eu disse que só queria papo. Sentamos num banco de frente para o mar, para conversar. E assim foi. "Tem dias que transo com 15, mas só gozo quando chegou em casa, com o homem que amo". Perguntei "e se seu homem levasse um tiro na genitália e não pudesse mais transar, o amor resistiria? Ela respondeu com um longo silêncio ......... Pensei que o amor sozinho não se sustenta, como Machado de Assis já havia mostrado no século 19. E nem quando a mulher-namorada que me escolheu como primeiro macho me pediu perdão mais cedo, em prantos. Impossível reverter um vácuo chamado “perdeu”. 

Amor condicional.