segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Quando um doidão é chato pra cacete

Soube de manhã na padaria que Gangorra estava internado num hospital em Saracuruna (Baixada Fluminense) todo escalavrado. Levou uma surra numa roda de samba porque o agressor não se comoveu com o argumento de que Gangorra estava doidão quando passou a mão na bunda da garota dele.

O cara que me contou a história disse que Gangorra gemia feito ema, chorava, balbuciava que estava bêbado, que não sabia o que estava fazendo, mas não teve clemência. Como Carlos, o Chacal, o macho da garota molestada meteu-lhe a porrada por mais de 20 minutos e como manda o protocolo da boemia ninguém se meteu. Desacordado, Gangorra foi jogado numa caçamba de lixo onde uns mendigos viram, depenaram (levaram carteira, celular e até chiclete Trident) e depois deram um jeito de avisar a polícia. Não por solidariedade. Temiam que se Gangorra morressem acabassem sendo incriminados

Conheço o Gangorra há alguns anos. Ganhou esse apelido porque, chato pra cacete, quando sentava todo mundo levantava. Começava a beber de manhã cedo num botequim que hoje virou padaria. Só parava de entornar quando, chato, cricri, pentelho, começava a falar bobagens e apanhava. Apanhava de todo mundo: médicos, dentistas, pedreiros, oficiais de justiça. Além de chato era inconveniente. Calcado no álibi do álcool, molestava mulheres alheias a quem perguntava, com a mão na bunda, voz arrastada "você me ama? você me ama?" e por isso vivia cheio de curativos pelo corpo.

Sumiu em meados dos anos 80 quando, na fila do trem da Central, doidão de éter (ele acabou se viciando nisso também), bolinou os mamilos de uma mulher cujo marido estava comprando a passagem. Gangorra não viu o cara se aproximar, levou um soco no queixo e desabou no asfalto. O marido puxou uma arma (diz o falatório local, uma pistola Glock 40 cromada) e na frente de todo mundo sentenciou sem gritar: “se você não sumir eu te mato”. Gangorra sumiu.

Dei a má sorte de encontrá-lo no ônibus no dia da partida. Eu ia para o trabalho e Gangorra para a rodoviária Novo Rio. Sentou ao meu lado e quase levantei. Além de chato pra cacete, bafo de cana misturado com éter e esmalte de unha Colorama, começou a falar o de sempre: desonrou uma meia dúzias de pessoas do bem, falou mal de outras 30 pessoas e alegando estar doidão me pediu dinheiro. Confesso que fiz um acordo sórdido. Disse que daria o equivalente a 10 reais para que ele mudasse de lugar e, textualmente (ouvido de doidão é privada mesmo) expliquei que “a sua presença me faz mal, toma esse dinheiro e vá sentar na puta que o pariu”. E nunca mais o vi, mas na época disseram que ele foi morar nas imediações de Bicas (MG).

Desde sempre tive e tenho amigos conhecidos como “doidões”, mas todos sem exceção são “profissionais”. Ficam na deles, na boa, na paz. Gangorra é uma exceção, mesmo porque nunca foi meu amigo e nem amigo de ninguém. Sua vida é um enigma, mas sabe-se que é um incurável cornofóbico e que a sua entrega ao álcool e a simular taras para provar que é macho foi consequência de uma corneada que levou no colégio. A namorada, primeiro amor da vida dele, teria se jogado nos braços de um inspetor de disciplina. Em vez de sentar na calçada, chorar, engolir e partir para outra, Gangorra bebeu. E fumou. E cheirou. E virou um difamador. Partiu para o assédio em público e a partir de então foi surrado incontáveis vezes, até esse dia na Central, quando viu uma Glock 40 enfiada na boca.

Achei que ele tinha morrido em Bicas (MG) porque foi o boato que correu. De novo uma festa, de novo a mão na bunda de uma mulher, de novo surra do macho dela, de novo...não, não teria havido caçamba de lixo mas um tiro na cara.

Gangorra vive e a pergunta que fica é “até quando”?