terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Serra, mar

Foi na semana do Natal. Almoçávamos num restaurante perto da orla. Ele estava com pouco apetite e parecia cansado. Preocupado. Quase dava para ver as interrogações flutuando sobre a sua cabeça branca e calva. Como sempre, não comentou, mas estimulava que eu falasse muito, muito.
Como sempre fez questão de pagar a conta e caminhou devagar até o carro. Dia de sol. Quente. Nascido e criado na cidade não conhecia um lugar que comentei, que todo mundo conhece. Rumei para lá e comecei a subir os quase 250 metros.
A cada árvore, cada trilha, cada nuvem, ele se animava e demonstrava surpresa com tudo o que via. Me empolguei e falei mais daquele lugar e quando chegamos ao topo, onde há um platô, estacionei. Dezenas de pessoas caminhavam rumo a rampa de voo livre que serve de mirante e um outro ponto de observação mais ao centro.
Caminhando devagar, ele e eu chegamos a rampa. Seu rosto se iluminou e seus olhos, imediatamente, se fixaram na serra. A serra dele, longe dali, exuberante no meio da paisagem. Seus olhos fixos quase marejaram durante a demorada contemplação. Calei. Deixei que ele ouvisse o que quisesse. Memórias. Tirei uma única foto. A melhor que fiz dele.
Olhou para o mar (provavelmente o que mais fez na vida), olhou para a cidade lá embaixo, e surpreendia-se com as ruas, os bairros, estações, que daquele lugar ganham contornos inusitados. Finalmente, mais uma vez, olhou para a serra ao longe e comentou “quantas vezes nós subimos e descemos?”. Não sabia. Não sei.
Estava muito calor. Teríamos ficado mais, mas lentamente até o carro, ele abriu a porta e sentou no banco do carona. Comprei duas garrafinhas de água mineral, bebemos, em silêncio e, de novo, descemos devagar.

Um dos dias mais bonitos que passei com ele. Um dos dias mais bonitos que ele passou comigo.