domingo, 31 de janeiro de 2016

Obesidade Existencial

Baiacu 1

Baiacu é um peixe com dentes parecidos com os da piranha e quando você pesca e coça o barrigão branco dele, incha até explodir. Baiacu não é gente, morde o pé da gente. Dizem que baiacu voa, que baiacu é bicheiro, enfim, falam tudo desse estranho peixe, feio, porco, mau caráter, carreirista, fedorento que, sinceramente, não sei pra que existe. Nem ele, nem os tubarões que deveriam ser mortos a bombas, assim como cobras, ratos e aranhas.

Baiacu é também o apelido que os obesos arrastam pela vida, também chamados de bolas de sebo, colhões de boi, cloaca de Vênus e outros clássicos da baixa literatura da nossa rica, caliente e triangular língua.

Baiacu 2

Convencido pelo povo que decretou que "o mundo é dos magros" o homem-baiacu inventou o regime alimentar para combater a obesidade que começa com um pequeno aumento da barriga, da cintura, das coxas e uma quase ilusória diminuição do pênis (que vira um sininho no meio da selva de banha) até transformar pessoas em massas disformes de gordura se arrastando pelas ruas suando como zebras estupradas no Parque Nacional do Quênia, onde flamingo vermelho voa de costas para não levar um tiro na cara.

A pressão arterial deste adiposo mamífero, em geral, está na faixa de 17 por 10. Ele tem pouca resistência até para copular, uma operação delicada, diga-se de passagem, pois tem que recorrer às humilhantes técnicas adotadas por mulheres grávidas de 7 meses em diante.

O regime alimentar é a única maneira do homem-baiacu virar peixe-agulha. Fechar a boca. Não existe outra saída. Mas o regime faz o homem-baiacu mentir para si mesmo, se auto-cornear ao abrir a geladeira de madrugada e atacar dois litros de sorvete de coco da Kibon, ou cair de boca no famigerado Movenpick e seu veneno de nozes.

Baiacu 3

Quando começa a fazer regime, a bola de sebo fica ansiosa e, em geral, começa a tratar grosseiramente a sua mulher e (ou) companheira. Torna-se um insuportável covarde. Usa a sogra como saco de pancadas alegando que precisa fazer exercícios físicos. A crendice popular registra dramáticas crises de abstinência de homens-baiacu em dieta, aquele terrível desejo de devorar 44 chocolates Nestlé de 800 gramas, com recheio de castanha do caju. Aqui perto, no século passado, um homem quis comer a sua cadela poodle no auge de uma crise, mas foi contido por populares quando já estava com o rabo do animalzinho enterrado na garganta.

Baiacu 4

Hoje em dia é praticamente impossível encontrarmos um obeso que não esteja fazendo regime. Fazer regime alivia a culpa e furá-lo, comendo, distraidamente, uma ou outra torta alemã, um quindão, ou 57 brigadeiros é considerado “acidente de percurso”. O obeso se torna mau caráter, mente pra médico, pra nutricionista, mente pra veterinário, mente pra ele mesmo.

Não tem jeito. Homem (mulher segue outra tabela) que tem 1.70m de altura tem que pesar 60 quilos no máximo. 1.80m, 80 quilos e por aí vai. Essa é a dura realidade da quase incorruptível balança. Mais: não conheço obeso que goste de ser obeso. Conheço gordo. Obeso não. E entre gordo e obeso existe um elefante diferenciador.

Obesidade é como um casamento que vai mal das pernas. Vai se arrastando, acumulando gorduras, astral baixo, pressão alta, vagalhões de culpa, desculpas, até que um dia você ouve algo do tipo “vê se não aparece mais aqui desse jeito” e, big bang!" Explode tudo. Você pensa, constata que aquela história não foi de toda má, mas em matéria de sargento já basta o guarda da esquina. 

E como a gordura que asfixia o coração, é preciso dar um fim as pelancas acumuladas pela repressão, pela depressão, pela desconfiança, por toda a embalagem que embrulha as relações mal resolvidas. Aí, meu amigo, é só fechar a boca e empinar o peito para perder peso e culpa. 

Saúde.

Texto de meu livro “Torpedos de Itaipu”, editora Artware -  1995

sábado, 30 de janeiro de 2016

Lisérgicos devaneios no “Descaralation Valley”, Buzios, ao som de “Tales from Topographic Oceans”, obra-prima do Yes

O Yes é um do mais importantes grupos da história do rock. Até aí, nenhuma novidade. A boçalidade é a banda não ter saído de cena quando Chris Squire morreu de câncer, em junho do ano passado. Na minha opinião era ele o líder do grupo, o grande compositor e arranjador, que ao lado do cantor Jon Anderson (que nos anos 80 apelidei de Sandra por causa da semelhança de um colar de pérolas dele com o de uma conhecida política brasileira) e do guitarrista Steve Howe compuseram históricas antologias.

Hoje o Yes não passa de um antro de barangas oportunistas que como o mosquito da dengue/zika/microencefalia/dilma.com.br pousa aqui e ali molestando o legado da banda.

Sandra saiu e em seu lugar entrou um sujeito fricoteiro que não conheço. Rick Wakeman, pau a pau com Keith Emerson no quesito de melhor tecladista de rock, jazz e afins, também saiu fora e em seu lugar tinha entrado seu filho, que também saiu e hoje está um estagiário. No lugar de Chris Squire outra lenda do anonimato absoluto, um encagaçado baixista que não tem coragem de solar. Da boa formação só restam Steve Howe (69 anos, todas as guitarras, violões, banjos e afins) e Alan White (65 anos, bateria). Mas duas andorinhas não fazem sequer um inverno.

Em homenagem ao verdadeiro Yes (e não a esse paraguaio) declaro para os devidos fins que após uma imersão automobilística ouvindo a versão remasterizada do álbum “Tales from Topographic Oceans” passei a considerá-lo a obra-prima do Yes.

Já tinha notado mas agora tenho certeza de que a abertura dessa obra (o original ocupa os quatro lados do vinil duplo, sem interrupções, obra de quatro longas peças) é um belo manifesto beat. Não esperava isso de Sandra, o Jon Anderson, letrista chegado a um filé de jiló, mapa astral, esoterismo, ralação nas outras, aquela coisa meio bela gil. Mas quando você da play, um inesperado e genial vocal dispara um longo poema beat que parece incontrolável:

“Dawn of light lying between a silence and sold sources
Chased amid fusions of wonder
In moments hardly seen forgotten
Coloured in pastures of chance dancing leaves cast spells of challenge
Amused but real in thought, we fled from the sea whole

Dawn of thought transferred through moments of days undersearching earth
Revealing corridors of time provoking memories
Disjointed but with purpose
Craving penetrations offer links with the self instructors sharp and tender love
As we took to the air a picture of distance……(…)”

E por aí vai, ladeira acima, empenando tudo e todos. Pouco a pouco os instrumentos vão chegando e se juntando a essa maravilhosa orgia genuinamente progressiva que entrou para a história pela porta da cozinha.

Quando foi lançado em 4 de janeiro de 1974, a crítica fez beicinho. Na verdade não entendeu nada, nenhum segundo de 1 hora e 22 minutos de MÚSICA. Hoje, arrependida, a crítica tira o chapéu e atesta a genialidade do álbum.

Foi o último trabalho de Rick Wakeman no Yes. Ele ficou indignado por ter sido jogado para escanteio durante as gravações. Na época ele disse que “eu ficava horas no estúdio jogando dardos, sem ter o que fazer, enquanto Jon, Steve e Chris se trancavam para resolver as músicas”.

O antigo baterista Bill Bruford deixou o Yes um ano antes alegando razões parecidas, indo tocar no King Crimson. Houve também bate boca por causa do local da gravação: metade da banda queria gravar em um estúdio no interior da Inglaterra e a outra metade queria gravar em Londres. Foi decidido que o álbum seria gravado em Londres, no Morgan Studios.

Magoado com a decisão, Sandra, que tinha batido pé em prol da aventura rural, mandou que os técnicos do estúdio que o adaptassem o local colocando azulejos nas paredes da sala de gravação para "simular a acústica de um banheiro de fazenda". Mais: ele e alguns técnicos decoraram o estúdio com vacas de plástico, montes de feno e até um pequeno celeiro. As duas histórias foram confirmadas; a primeira pelo road manager da banda na época, Michael Tait, e a segunda por Ozzy Osbourne (que utilizava o estúdio ao lado para gravar com o Black Sabbath), em sua autobiografia.

Até segunda desordem os bons livros tem sempre razão.

Hoje, Jon, Wakeman e Brufford acham graça e reconhecem que “Tales from Topographic Oceans” é um álbum genial. Chris Squire consegue se superar em solos demolidores e fraseados impressionantes arrancados de seus baixos Rickenbacker 4001 estéreo. Ele usou seis, devidamente mexidos por ele. É o melhor trabalho de Steve Howe e seus solos esvoaçantes, livres, ágeis, secos e, apesar da indignação Rick Wakeman arrasa, principalmente no mellotron e Alan White, como sempre, brilha. Não foi a toa que anos antes estava em casa, o telefone tocou e do outro da linha uma voz dizia “Alan, é o John...Lennon...”. O baterista achou que era trote, mas era mesmo Lennon convidando para ele tocar na Plastic Ono Band. Depois engatou nas gravações do álbum “All Things Must Pass”, de George Harrison.

“Tales from Topograph Oceans” foi a trilha sonora de um de meus inesquecíveis verões. Eu estava passando fperias de 32 dias em Búzios, década de 80, numa casa na Ferradura que abrigava também um suíço (fugia do alistamento militar) e um canadense que viajavam há meses. Tinham saído a pé do México rumo a Terra do Fogo.

Profundos conhecedores de Carlos Castañeda, eles começaram a frequentar conosco um lugar que apelidei de “Descaralation Valley” onde tentávamos pescar (o mar era perigoso, os abismos também) o nosso almoço, sempre ao som deste álbum do Yes que tocava num som portátil em fita K7.

Os dois disseram que haviam descoberto um cactos de seis bocas parecido com o peiote descrito pelo índio Don Juan no livro “A Erva do Diabo”, de Castañeda. Cortaram vários pedaços de cactos, esperaram chegar a lua (não lembro se cheia, nova ou minguante), puseram num panelão e cozinharam por oito horas seguidas no fogão a lenha do lado de fora da casa, ao som de “Tales from Topograph Oceans”.

A noite a sopa foi servida. Não tomei porque tenho cagaço dessas coisas. Um ritual silencioso. Duas horas depois, as pessoas foram sumindo. Um (não cito nomes) chegou quatro dias depois, barbado, com fome, sede e conjuntivite dizendo que “vivo os dias mais felizes de minha vida”. Outro foi visto nadando na caixa d´água da casa de Betty Faria. 

O canadense também desapareceu sendo encontrado oito dias depois perto de Tucuns, num bacanal numa casa habitada por um bando de dançarinas de Macaé, completamente nuas bebendo Campari pelo gargalo. O suíço voltou três dias depois não se sabe de onde e o amigo que desceu a ribanceira de moto na noite do peiote foi encontrado desidratado e feliz na rodoviária de Cabo Frio dois dias depois.

Mas, sejamos francos. Depois de “Tales from Topographic Oceans” o Yes se atirou num vendaval de fiascos gravando um varal de mediocridades em sequencia, os álbuns “Relayer”, “Going for the One”, “Tormato” e “Drama”, só conseguindo por a cabeça para fora em 1983 quando lançou o surpreendente “90125”. Depois? Mais fiascos. Até hoje.

Por que o Yes não saiu de cena optando, como Greta Garbo, por acabar no Irajá?







sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Mais de 40 anos depois do fim, The Beatles ainda surpreende

Clinton Heylin é um jornalista e pesquisador inglês que o Irish Independent definiu como “o maior biógrafo do mundo do Rock”. Sobre os Beatles li quase dez livros, muita porcaria, admito, no entanto,  no bolo, estão o clássico “A Vida dos Beatles” de Hunter Davies (a única biografia autorizada da banda), o sensacional “Many Years From Now”, magistral tijolaço de 720 páginas escrito por um grande amigo de Paul McCartney, Barry Miles e “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band – um ano na vida dos Beatles e amigos”, de Clinton Heylin. Estou relendo este.

A releitura está sendo crucial (no momento em que articulo minha própria obra com micro-biografias críticas e comentadas de pessoas do Rock) porque revela fatos que, sinceramente, passei por cima naquela ansiedade da primeira leitura.

Está lá na página 109: “Quando ele (Macca) apareceu no dia 1º.de fevereiro (de 1967) com uma canção-título para o álbum, “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, George Harrison ficou aliviado, achando que enfim tinha um papel a desempenhar com a robusta guitarra solo prevista na composição.

“No entanto, depois de sete horas tentando gravar o solo de Harrison, McCartney decidiu que ele mesmo tocaria essa parte e, sem se preocupar com uma eventual recriminação, foi adiante e gravou o seu próprio riff”.”

Essa informação foi confirmada pelo próprio Paul em 2004. Ou seja, a fantástica guitarra que abre o álbum que dividiu a história do Rock (ouça lá embaixo), que todos julgávamos ser de George Harrison, é de Paul McCartney, que a partir de Sgt. Peppers (ele admite no livro) passou a assumir o controle da banda.

Por que? Porque Lennon, já estava de saco cheio de ser um beatle, Ringo Starr permanecia alheio e ainda bate pé afirmando que a bateria de “A Day in The Life”, é dele sim. E George Harrison magoado falava publicamente do que chamava de rejeição de Lennon & McCartney as suas músicas.

Fato é que, em praticamente todas as biografias, Lennon e Harrison exageram e dizem que só fizeram lixo nos Beatles. Atacaram o tempo todo numa inútil tentativa de defesa. Ringo? Só fastio enquanto que Paul, até o último segundo da existência dos Beatles, llutou pela banda, acreditou na banda e se tornou a banda.


Isso é fato!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Um papo sobre meu romance “5 e 15” e os prisioneiros de sua própria indolência existencial

No blog www.5e15lam.blogspot.com está publicada a nova versão de meu primeiro romance, “5 e 15”. Na íntegra.

Por isso, convido: acesse, leia, opine, compartilhe: www.5e15lam.blogspot.com.

Aqui, uma entrevista que concedi ao portal Whiplash em 2006, quando lancei a primeira edição impressa, já esgotada, lançada pela Tech & Mídia Comunicação Integrada, de Liliana de La Torre.

– Por que o livro se chama “5 e 15”?

– Quando assisti ao filme “Cidade dos Anjos” e vi a personagem da Meg Ryan fazendo cirurgias ao som de Jimi Hendrix, percebi que só os reacionários acham que rock, blues, música atonal são “coisas de maluco”. “5 e 15” é uma referência/homenagem à ópera rock “Quadrophenia” do The Who e uma de suas músicas se chama “5 e 15”. Mais, “5 e 15” é hora de alvorada e de crepúsculo em muitos lugares. Hora do rush. Além do que, por razões que o personagem centra, o psiquiatra Crimson deixa óbvias, o número 15 tem uma importância crucial para ele.

– Por que você chama de “Ficção Atonal Beta” na capa do livro?

- Como o romance eventualmente esbarra em pessoas verídicas, usei a expressão ficção atonal porque a música atonal, ou seja, sem tom, livre, permite devaneios fora da partitura; quanto a Beta é um jargão da informática que representa programas, sistemas que ainda estão em fase experimental. Como é meu primeiro romance, achei que seria muita prepotência não chamá-lo de Beta.

– É um livro de rock?

–  O rock está presente na vida do Crimson como trilha sonora e objeto de reflexão. Quadrophenia significa também um tipo de esquizofrenia. Está bem explicado na orelha do livro. Acho normal que muita gente pergunte se o livro é de rock, pois a minha história orgulhosamente está muito vinculada a essa manifestação cultural. Mas “5 e 15” é uma constatação de que a Ciência pode derrubar o império do narcotráfico, como também ditaduras de Estado, ditaduras caseiras (o personagem Otacílio mostra bem isso), enfim, eu acho que a Ciência é um dos braços mais poderosos de Deus.

- Você é jornalista, cronista. Como se sentiu escrevendo um romance?

- Comecei a rabiscar “5 e 15” em 1998. Mas parei. Não me sentia com capacidade suficiente para me embrenhar no maior desafio da Literatura que é o romance. Ia deletar as 70 páginas iniciais, mas antes entrei em um grupo de discussão literária na internet e mandei esses “rabiscos” para desconhecidos opinarem. Gente que tem muita intimidade com livros e por não me conhecerem não teriam constrangimento em falar o que pensam. Eles deram OK. Ainda assim parei de novo várias vezes. Amigos me incentivaram a finalizar. E em 2004 com o monitoramento da jornalista Raquel Medeiros, concluí a primeira versão. Mexi mais de trinta vezes e estaria mexendo até hoje.

– “5 e 15” é o primeiro de uma série?

- Comecei trabalhar em Jornalismo aos 16 anos. Aos 18, fui repórter de uma rádio popular e passava os dias em favelas, tiroteios, uma experiência crucial na minha formação profissional. Saí dessa rádio popular e fui trabalhar na rádio JB AM, a melhor e mais respeitada emissora de jornalismo do país na época. “5 e 15” traz vivências minhas a bordo do Jornalismo com J maiúsculo que exerci na rádio e Jornal do Brasil naqueles tempos de ditadura. Esse tipo de Jornalismo mostrou que nada é possível sem esperança. Provou que ou você acaba com o baixo astral ou o baixo astral acaba com você. Logo, farei outros romances. Sempre em nome da perseverança e otimismo. Sem pieguices. Não me convidem para pagode de hiena. “5 e 15” é esperança e os outros que virão também. Detesto vitimologia.

Press Release

“5 e 15” é uma condição atual. Luiz Antonio Mello conta com a mão pesada de Crimson, personagem nascido a fórceps e que tem DNA semelhante ao de Jack Kerouac, Willian Burroughs e Alen Grinsberg.

Como o lobo que tanto sabe viver só como em bando, Crimson corre atrás de um ideal humanitário para sua “alcateia”: a cura para os males de uma sociedade atormentada pelas angústias do país, do mundo.

Crimson busca obsessivamente a fórmula que extirpe uma guerra química que corrói veias e detona cabeças em fuga patológica e de outras moléstias como corrupção e falta de ética.

Inspirado no título de uma das músicas de Pete Townshend na ópera rock “Quadrophenia” (de 1973), “5 e 15” tem vilões que como os britanicamente pontuais relógios das estações de trem, tentam jogar o mundo no fundo da lama com hora marcada. Mas Crimson luta. Utiliza miligramas líquidos, sólidos e gasosos e nos convida a conhecer desvios. Desvios necessários para chegar à fórmula libertadora. A fórmula quimicamente perfeita dos libertários e prisioneiros de sua própria indolência existencial.
Crimson não conhece a desistência. Só a resistência.

Ao acabar de ler “5 e 15” olhe para o céu. Lá está o relógio da verdade de cada um de nós. O que Carl Gustav Jung já chamou de individuação. Os ponteiros de relógios de muitas vidas que se foram e de outras salvas por “homens-Crimson”. Um relógio que tem uma máquina mais precisa que as suíças e que é eternamente grata aos que não desistem de seus sonhos.

Aos que enterram suas memórias ruins, não olham para trás e que acima de tudo, refletem a luz dos que não tem medo de andar na contramão. Na pista ao lado, os imbecis com seus relógios marcam um tempo que aprisiona e mata. Essa não é a estrada de Crimson e se você escolheu esse livro não é a sua também. Eu tenho a honra e o prazer de apresentar a você, Crimson e sua saga. 

Em dose única e vital.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Rachuncho

- Bom dia, paz e amor.

- Paz e amor. Senta aí. Tem certeza que isso aqui é seguro, não tem escutas, drones, arapongas, nada?

- Claro. Uma pocilga insignificante, numa cidade insignificante, porcos insignificantes.

- Mas que fedor.

- É...

-Fez os cálculos?

- Sim, tudo certinho.

- Mostra aí.

- Você mandou aumentar o rachuncho, eu aumentei para 55%.

- É pouco. Eu disse que tem que ser, no mínimo, 65% para o rachuncho e 35% para os cofres.

- Muita gente vai gritar.

- Já gritam, me chamam de ladrão... 65% é uma questão de coerência; não dizem que sou ladrão? Então sou um ladrão de peso, de qualidade, um ladrão imponente, entendeu?

- E os homens de preto?

- Vão levar o deles. O de sempre. Uns dois ou três quiseram cantar de galo, mandei a merda. Quem compra tem sempre razão e eu sou um consumidor de pessoas (risos).

-  Está tudo aqui...certinho...

- Hum.

- Mais duas boladas dessas e o rachuncho começa a ficar bom.

- 10 bi é pouco.

- Como assim?

- É a minha aposentadoria...no mínimo 15 bi.

- Acho que vai dar tempo...nessa escalada que estamos indo.

- Já forjou o prejuízo no caixa da X, da Z, da Y e da T?

- Já. Está tudo no vermelho. Domingo os jornais vão cair de pau.

- Ótimo. Ótimo. Fundamental eu sair como incompetente dessa história...

- Mas tem muita gente que desconfia do rachuncho...

- O rachuncho no Brasil desembarcou em 1808 com D. João Sexto...vão botar a culpa em mim?

- E quanto aos óbitos, mantém nessa escala?

- Sim. Nem muito, nem pouco... aumenta um pouco o de crianças para mostrar a "crise", mas a média está boa. E aquele cientistazinho que apareceu com aquela vacina?

- Subiu...coitado, bateu com o carro numa serra...carro pegou fogo, foi carbonizado com a família...coitado.

- Ninguém desconfiou?

- Não...tranquilo. Tudo tranquilo.

-A cota esse mês bateu. Mês que vem quero pelo menos 15% a mais, sempre na mesma proporção: 65% para o rachuncho, 35% para os cofres. Não abro mão...não me chamam de ladrão? Então toma! Já orçou o julgamento?

- Tudo OK, até que ficou baratinho. Um bi.

- Hum. Bom...muito bom. E como está o cofre?

- Quase zerado...

- Bom, muito bom...trouxe o uísque?

- Sim, está aqui, rótulo preto, 20 anos.

- Um brinde ao rachuncho...

- Rachuncho, sempre!

- Por todos os tempos.

- Tim, tim.



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Egoísmo e falta de ética

                                                Foto postada por Gilson Monteiro no Facebook

Em sua página no Facebook (https://www.facebook.com/Gilson-Monteiro-895296430550156/?fref=photo) o jornalista Gilson Monteiro postou nessa terça-feira a seguinte nota:

Ética é atropelada no dia-a-dia de Niterói
Ética, palavra que vem do grego ethos e significa aqulio que pertence ao “bom costume”, “costume superior”, ou “portador de caráter”, parece ser, para muitos, um velha senhora ranheta que cobra regras e preceitos morais. Por isso, ela é atropelada sem piedade no dia-a-dia de Niterói, seja por políticos ou por cidadãos.

A ética é negligenciada principalmente por aqueles que, em nome de seus direitos, cobram-na firmemente dos outros. Motoristas estacionam nas esquinas de ruas e em frente a rampas para deficientes (foto); idosos usam o cartão que lhes dá a prerrogativa da vaga gratuita e deixam o carro parado nela o dia inteiro; ciclistas desrespeitam as normas de trânsito; e tem, ainda, aqueles que estacionam em vagas para pessoas com deficiência e, “milagrosamente”, saem andando sem muletas ou cadeiras de roda de seus carros.

Por que quebramos regras e preceitos morais e cobramos dos outros que sejam éticos? Cartas para a redação.”

Também acho que o egocentrismo, irmão próximo do egoísmo, é um sintoma de mau caratismo, de canalhice. Uma pessoa (?) que ignora princípios básicos de humanismo, solidariedade e generosidade e, por exemplo, estaciona o carro em frente a uma rampa para uso de deficientes, obstruindo a passagem de cadeira de rodas, é tão ou mais canalha do que os que ignoram a dor e o sofrimento alheio e caem na gandaia apesar de terremotos, enchentes, tragédias, sejam coletivas, sejam pessoais.

Brilhante como sempre, Herbert Vianna deve ter se inspirado num canalha desses para escrever a letra de “Fui Eu”, canção antiga dos Paralamas do Sucesso:

“Você olhou, fez que não me viu
Virou de lado, acenou com a mão
Pegou um táxi, entrou, sumiu
Deixou o resto de mim no chão

Vai ver que a confusão
Fui eu que fiz, fui eu

Há algo errado no paraíso
É muito mais que contradição
Sou eu caindo num precipício
Você passando num avião”

O egoísmo/egocentrismo são patologias incuráveis que atingem bilhões de pessoas desde que o mundo é mundo, ou como dizem os pessimistas “desde que o mundo é imundo”. O cara que só pensa em si, tem no próprio espelho a voz da consciência e, por exemplo, deixa um carro impedir a passagem de quem já tem a vida quase impedida, não merece respeito algum. Só que os mesmos pessimistas alertam que os egocentrados são muito mais e muito mais robustos do que imaginamos.

Será?

Como o Gilson, também ando cheio da suposta elegância desses egocentrados, pessoas de trânsito social farto, fácil, gente fixada em dinheiro, status, mas incapaz de pegar o smartphone de ouro falso e ligar para uma meia dúzia só para saber quem está vivo, quem está morto. São risonhos, agradáveis, palatáveis, arroz de festa, espalham confete e serpentina mas na hora do vamos ver estacionam o carro e bloqueiam uma rampa de deficientes. Literal e simbolicamente. São os mestres do "diz que não estou", "estou em reunião"

Será que um dia a humanidade assistirá, aplaudindo de pé, o crepúsculo das relações utilitárias, esse dá-lá-toma-cá que infesta nosso cotidiano? Se a presidente é capaz de afundar o país só para preservar o seu cargo (leia-se poder), qual a diferença dela para os fulanões que cultuam grana, força, vaidade, status e que se dane o resto?

Qual a diferença?




segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O grito do Pink Floyd na pequena rua engolida pelo calor

Faz algum tempo. Eu andava por uma pequena rua que não conheço, no miolo de um bairro operário provavelmente o mais quente que já pisei, fora Bangu, no Rio. Eram duas da tarde e, penso, a temperatura ali passava dos 37 graus. Não falo da tal sensação térmica, invenção pequeno-burguesa dos neo-meteorologistas, mas de temperatura mesmo.

Não lembro em que pensava, afundando o pé naquela lama asfáltica desesperadora e opaca, doença industrial que ajudou a enterrar o planeta. Ou alguém duvida que o nosso planeta, outrora azul, foi enterrado vivo pela especulação imobiliária, desmatamento, poluição generalizada, desgovernos, desconsiderações generalizadas?

Eu não estava legal, não. Parei numa espécie de bar que vendia bombril, madeira, pastel, lâmpada, quibe, mariola, café, chumbinho e quando pedi uma H2O Limoneto o balconista me olhou com cara de “que porra é essa?”. Tudo bem. Migrei para uma água sem gás e fiquei contemplando a ausência de paisagem daquele lugar, tomado de telhados de amianto. Pensei em não voltar mais lá, mas havia um compromisso. E se eu rompesse o compromisso? Não faz o meu estilo. Ia tomar um café, mas desisti quando vi o estado do coador, jogado num canto da pia. Paguei a água e saí.

Caminhava pela rua sem árvores, calçada cheia de rombos, buracos, fissuras, cachorros deitados em cantos de muro e, de repente, ouvi um grito conhecido. Conhecido, não, muito conhecido. Preocupado, parei embaixo de uma marquise ligeiramente podre e ouvi o final de “Speak To Me”, faixa que abre o genial e eterno álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, 1973. Na sequência, emendada, depois do grito desesperado, aflito, tomado de agonia, o alívio de “Breathe”.

Não quis saber de onde estava vindo aquela música que caiu como luva em meu estado emocional. No meio do calor comocional, mais mormaço existencial e outros acessórios, engolido por dúvidas, pensamentos caóticos e muitas vezes incoerentes, o grito da música no meio daquela inconveniente lareira psíquica foi a trilha sonora perfeita que o destino (meu chapa) escolheu para sonorizar a minha angústia.

Angústia que clamava pela suavidade de “Breath” que, não sei porque, a pessoa que ouvia abaixou o volume logo nos primeiros acordes. Provavelmente também estava encarando uma crise de histeria muda parecida com a minha e queria mais gritos, mais gritos, algum berro, mas, ao contrário de mim, não quis o conforto, o colo, a bruma, a suavidade de “Breath”.

Continuei andando pela rua que, apesar de pequena, suja, estreita, parecia não acabar. Cruzei com pessoas que pareciam zumbis, banhadas de suor, apáticas, lesadas, balas perdidas quase cambaleando sem terem o que falar, ouvir, olhar. Olhar o que naquela paisagem sem vida? Provavelmente eu também devia estar assim, estático, fora da área de cobertura, olhos secos, boca seca, suor, leve desespero e muita angústia.

Pensei “quando chegar num computador vou escrever alguma coisa agradecendo a pessoa que colocou “Speak To Me” e “Breath” justamente na hora que eu estava passando por aquela picada.” E é o que faço agora. Mais do que um desabafo, esse texto pretende agradecer a anônima pessoa que gritou através do Pink Floyd mas que não quis arrefecer, como eu. Sim, com “Breath” arrefeci. Precisava reiniciar o raciocínio lógico pois entraria em uma reunião de trabalho meia hora depois.

Tive que calar. Pior: tive que dissimular, inventar um alívio inexistente porque em 28 minutos teria que estar encenando um outro papel, de brasileiro gente boa que adora o país tropical, o calor, o suor, e abomina crises existenciais que ele, brasileirinho, chama de coisas de baixo intelecto. Sabem como é? É isso aí.


sábado, 23 de janeiro de 2016

“O Livro do Disco”: John Perry desvenda as mágicas de Jimi Hendrix na gravação de seu último álbum de estúdio

                                                                               
                                                               O livro
                                                                                 
                                                           O álbum                                                                          
                                                 Capas internas da versão inglesa do álbum deixou Hendrix furioso                                                                                                
                                                           No encarte americano foto de Linda Eastman                                                                                  
Hendrix finge dormir. Atrás, de óculos, o engenheiro Eddie Kramer
São apenas 130 páginas que devoramos numa levada só. Dentro da ótima série “O Livro do Disco” a editora Cobogó lançou “Jimi Hendrix -Electric Ladyland”, do jornalista, pesquisador e guitarrista inglês John Perry que explica, segundo por segundo, take por take, solo por solo, todos os detalhes de composição, gravação, produção, mixagem e o entorno da gravação do terceiro e último álbum de estúdio de Hendrix.

Muito seguro, detalhista, esclarecedor, John Perry revela muitos detalhes. Por exemplo, o próprio Jimi tocou contrabaixo em praticamente todas as faixas já que Noel Redding já estava farto. Farto de não ter sequer onde sentar para gravar no mega estúdio Record Plant, em Nova Iorque, onde o álbum foi gravado e para onde o bando de parasitas, drogados e traficantes que se diziam amigos de Jimi se amontoaram. Foi assim a vida toda. Por insegurança (tinha pânico de rejeição, já que foi chutado pelo pai ainda bem novo) o maior guitarrista de todos os tempos se deixava molestar pelos vagabundos.

Perry confirma o extremo perfeccionismo de Hendrix. Durante as gravações de Electric Ladyland, houve sessões que duraram 18 horas seguidas. O engenheiro Eddie Kramer (lendário) diz que não sabe como resistiu, mesmo revezando com outro engenheiro, Gary Kellgram. Afinal, o álbum foi o primeiro que Jimi concebeu, produziu, dirigiu, compôs 97% das faixas e ainda mixou. Eddie Kramer diz que até hoje não sabe como o músico, obcecado pela perfeição, resistiu a tantos dias trancado no estúdio.

Com ele gravando as 16 faixas do álbum duplo estavam o baterista de sempre do Experience (trio já em crise na época), Mitch Mitchell, mais Steve Winwood (órgão Hammond) e Chris Wood (flautas – o Traffic estava gravando em outro estúdio do conglomerado Record Plant, mais Al Kooper (piano), John Cassady (baixo), Mike Finnigan (órgão Hammond e baixo), Buddy Miles (bateria), Fred Smith (sax e outros instrumentos de sopro). Jimi Hendrix assina o disco como guitarrista, violonista, cantor, compositor, backing vocals, arranjador, baixista, compositor, diretor artístico, piano, harpsichord, produtor e diretor de mixagem.

Esse disco é tão forte que o autor do livro analisou faixa por faixa em detalhe. Nada se repete de uma canção para a outra, dando a impressão de que cada faixa cria um novo álbum. 

No final do longo e exaustivo trabalho, lambança da gravadora Track Records que Chris Stamp e Kit Lambert criaram só para gravar Hendrix e The Who. Inexplicavelmentea Track lançou a versão inglesa do álbum com várias mulheres nuas nas duas capas internas, uma ideia até hoje não explicada de Stamp, morto em 2012 aos 70 anos . 

Furioso com o que chamou de “vulgaridade sem limite”, Jimi conseguiu que nos Estados Unidos o tal nu imbecil fosse substituído por uma foto de Linda Eastman (que viria a ser mulher de Paul McCartney) feita no Central Park.

Perry diz que Jimi não pensava pequeno, queria fazer um álbum genial, revolucionário, rigorosamente novo. E fez. Além de ousar e abusar da tecnologia da estereofonia, jogando guitarras de um lado para o outro, permitiu, por exemplo, que Buddy Miles viajasse em levadas delirantes na bateria.

Bob Dylan, ídolo máximo de Jimi (neste álbum está a bombástica versão de “All Along the Watchtower”) no livro aparece com este depoimento:

“Não se pode esperar que um intérprete mergulhe na música...É como entrar na alma de outra pessoa. A maioria das pessoas tem problemas suficientes para entrar em suas próprias almas...você precisa entrar em minhas músicas para tocá-las e as vezes é difícil até para mim conseguir isso. Jimi cantou-as exatamente da maneira como tinham que ser cantadas...Ele fez do jeito que eu teria feito se fosse ele.

“Jimi Hendrix era um grande artista. Eu gostaria que ele estivesse vivo, mas ele foi sugado para baixo e isso tem sido a ruína de muitos de nós. Sinto que ele tenha tido seu tempo e seu lugar, e acabou pagando um preço que não deveria ter pago. Eu não me surpreendo que ele tenha gravado minhas cações, mas sim que ele tenha gravado tão poucas porque elas eram todas dele”.

“Jimi Hendrix – Electric Ladyland” é um livro fundamental para quem conhecer um gênio em plena turbulência do processo criativo. Seus terrores, seus êxtases, e muita ousadia, experiência, muito James Marshall Hendrix.

O livro está disponível nas melhores livrarias físicas e a internet.

Para mais detalhes, clique aqui:http://cobogo.com.br/livros/electric-ladyland/

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Relógio Biológico

São exatamente 2 e 14 da madrugada quando acordo mansamente, sem sobressaltos. Como se fosse seis da manhã para um triatleta. Rondo pela casa, ligo a TV e compro um travesseiro num programa de vendas pelo telefone. 

Segundo o anúncio, o tal travesseiro é um bálsamo de espuma, capaz de corrigir todos os problemas de coluna. O locutor diz que com esse travesseiro temos um sonho “reparador”. Só não prometeu que acordamos ao som de canários belgas porque a empresa fica em São Paulo. Garantiu que quem não ficasse satisfeito com o travesseiro teria seu dinheiro de volta.

Os caras são craques. Duas e 14 de um dia de semana é o momento ideal para veicular um anúncio de travesseiro. Liguei, passei o número do cartão de crédito e a mocinha encrencou. Queria colocar Niterói como cidade do interior do estado, o que significava que eu teria que buscar a encomenda no correio. 

Expliquei a paulistinha que Niterói fica, de barca, a oito quilômetros do centro do Rio. Ela não entendeu, coitadinha, mas acabei comprando o travesseiro assim mesmo. Fui buscar na agência de correios mais próxima, que nunca é próxima, quando chegar.

Fui até a varanda (essa noite foi em Itapu, anos 1990) e reguei as plantas. Estão bonitas depois que comecei a usar o fertilizante 10-10-10. Aproveitei e fiz um pouco de xixi nelas. Dizem que faz bem. A mim faz. Gosto de sentir o xixi batendo na terra, produzindo um aroma de Mauá, Lumiar, São Pedro da Serra, Macaé de Cima.

Tem gente que fica muito angustiada quando acorda no chamado “meio da noite”. Como para mim é rotina, não sinto nada. Apenas a calma da madrugada, telefones mudos, e-mail calado, tanto que já escrevi até aqui sem interrupção.

Já li e ouvi muito sobre o chamado relógio biológico. Aparentemente durmo mal, mas uma vez li numa revista de ante sala que o tipo de sono que tenho se chama “flash”. Durmo e acordo várias vezes. De fato não é tão bom quanto o sono sem escalas, aquele que você deita a meia noite e acorda as oito na mesma posição.

Mas o fato das comunicações estarem a disposição de madrugada me trouxe esse vício. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona.

Meu relógio biológico é oportunista e prático. Em geral durmo cedo sexta e sábado para atravessar o dia seguinte na praia. E praia vou o ano inteiro porque concluí que não existem praias feias com chuva, com tempo nublado ou em plena tempestade. As praias são lindas de qualquer jeito.

Na praia de Itaipu quando chove e o vento traz aquela bruma branca ela parece com a costa da Escócia, que conheço via cinema. Nos dias frios, de céu azul profundo, lembra a Indonésia. Já sob densa tempestade lembra a capa de “Love Over Gold”, um dos grandes discos do Dire Straits. É por isso que tenho certeza de que Itaipu é a mais gostosa das filhas de Ryan.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado; eu sou estressado.
Uma vez disseram que sou masoquista, que gasto muita energia, etc. Só que, em 1985, experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. 

Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, que depressão! Isso sim é masoquismo. No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, a cobertor das Casas Pernambucanas.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. José Maria Monteiro de Barros (saudade desse meu amigo) me fez observar com calma aves e mamíferos. Fora as criaturas da noite, todos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio numa revista que os primeiros homens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 16 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite, no início da carreira, tem que se habituar com dois sons altamente depressivos: 1) Caminhão de leite; 2) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2) Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível.

Já tentei acertar meu relógio biológico para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade. De 1974 a 1976 trabalhei no horário das 5 da manhã ao meio dia. Rádio tem dessas coisas. Uma ótima oportunidade para acertar o tal relógio. Não deu. Chegava em casa, tomava um banho, almoçava e dormia até as seis da tarde. A noite ia para a gandaia, ou para a faculdade, que na verdade eram a mesma coisa.

Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. Não tem jeito. Sou bicho do mar mesmo.


Em suma, o relógio biológico não é atômico e muito menos Rolex. O meu é um paraguaio, desses de camelô. E com licença que já são quatro da matina e preciso rever “O Resgate do Soldado Ryan” no DVD. O "meu" filme.