domingo, 28 de fevereiro de 2016

Meus encontros com Luís Ignácio Lula da Silva: mútuo horror a primeira vista

De acordo com O Globo Online, neste sábado na festa de aniversário do PT o ex-presidente Luís Ignácio Lula da Silva disse que “ando de saco cheio com comportamento dos nossos inimigos e da imprensa. Brigamos para ter Ministério Público forte. Não imaginava ter uma parte do Ministério Público subordinada à imprensa brasileira, fazendo o jogo da “Veja”, do GLOBO. As pessoas que se subordinam desta forma não merecem o cargo.” No final de tudo, ele sentenciou: “Ando de saco cheio com comportamento dos nossos inimigos e da imprensa. Brigamos para ter Ministério Público forte. Não imaginava ter uma parte do Ministério Público subordinada à imprensa brasileira, fazendo o jogo da “Veja”, do GLOBO. As pessoas que se subordinam desta forma não merecem o cargo.”

No final, ele sentenciou: “Se for necessário, se vocês entenderem que a manutenção do projeto corre risco, estarei com 72 anos e tesão de 30 para ser presidente da República”. Pergunto: que projeto, senhor ex-presidente? Que projeto?

Não conheci Luís Ignácio Lula da Silva em 1978. Digo não conheci porque ninguém conhece Luís Ignácio Lula da Silva. Eu trabalhava no jornal O Pasquim e Lula tinha virado ídolo dos intelectuais brasileiros à frente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Ele chegou a sede do Pasquim que ficava na rua Saint Roman, em Copacabana e foi recebido com histeria pelos donos do jornal, Ziraldo e Jaguar. Presentes a entrevista toda redação do Pasquim.
Lula vestia uma camiseta com um personagem do sindicato (Zé Ferrador) com os dizeres “hoje eu não tô bom” e recusou o uísque que o Ziraldo ofereceu, preferindo outra bebida. Bebeu pouco.

Nossa antipatia mútua nasceu ali. Não fui com a cara dele nem ele com a minha. Meu aspecto físico certamente provocava nojo no entrevistado que, mais tarde, viria a fundar o PT. Eu era cabeludo, magro, pinta de burguês hippie, um horror sob à ótica moralista da "UDN de macacão" (como Brizola definiu o PT).

Mas o caldo entornou quando o entrevistado disse que tinha 23 anos quando entrou para o sindicato em 1969, e que já era torneiro mecânico há 14 anos e alguém rebateu ironicamente dizendo “mas então você tinha nove anos quando começou na profissão já que hoje tem 32...”. Lula soltou um “ah,...sei lá, porra” e eu insisti “afinal, quantos anos o senhor tinha...” E ele me fuzilou com os olhos, mas Ziraldo colocou panos quentes.

Na entrevista ele disse que não tinha pretensões de ser político, dando a entender que a classe não prestava. Perguntado sobre a perda do dedo mínimo, ele contou que em 1964, com 19 anos, trabalhava numa fábrica de parafusos e um torno esmagou seu dedo. E disse que “optei por cortar o dedo todo, não só a parte esmaga.” Insisti muito para esclarecer dúvidas, tentando que ele ajudasse a atualizar o valor da indenização que recebeu de 350 mil cruzeiros, em 1964. Lula resolveu mudar de assunto. Perguntado se conhecia os donos da metalúrgica Villares, onde trabalhava naquele 1979, respondeu que “não falo com patrão”.

Foram quase quatro horas de entrevista que me encheram de desconfiança. Mas quando ele foi embora senti a euforia dos jornalistas mais velhos, em especial Ziraldo, que viam no metalúrgico a salvação da pátria. Não sei o que eles pensam dele hoje.

O sindicalista que dizia ter horror a política, em 1982 foi candidato ao governo de São Paulo e perdeu. Em 1986 foi eleito deputado federal por São Paulo com a maior votação para a Câmara Federal e chegou a presidência em 2003.

Nos anos 1990 tive o segundo e último e também desagradável encontro com ele. Foi em Niterói. Quis o destino que eu ficasse sentado com Lula à sós durante 20 minutos numa sala e, naturalmente, conversamos. Fiz algumas perguntas de maneira polida e ele, também educadamente, escapou de todas especialmente quando abordei a sua mudança de visão em relação a política. Ele me mostrou que acredita muito no que diz e acha.

Pelo visto, hoje acredita mais ainda.







sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A vida sem a internet

Especialistas dizem que os embriões da internet surgiram no início dos anos 1960, auge da guerra fria. No entanto, o novo e acachapante meio de comunicação só chegou ao público em 1992.

A partir de 1997, iniciou-se uma nova fase na Internet brasileira. O aumento de acessos a rede e a necessidade de uma infra-estrutura mais veloz e segura levou a investimentos em novas tecnologias.

Devido a carência de uma infra-estrutura de fibra ótica que cobrisse todo o território nacional, primeiramente, optou-se pela criação de redes locais de alta velocidade, aproveitando a estrutura de algumas regiões metropolitanas.
Como parte desses investimentos, em 2000, foi implantado o backbone RNP2 com o objetivo de interligar todo o país em uma rede de alta tecnologia. Atualmente, o RNP2 conecta os estados brasileiros e interliga mais de 300 instituições de ensino superior e de pesquisa no país.

Conheci a internet na casa de meu irmão, em 1995, por aí. Fiquei bestificado quando enviei o primeiro e-mail e mais embasbacado ainda quando recebi a resposta. No ano seguinte, o mestre Darcy Ribeiro (1922-1997) disse que “depois da fala e da escrita a internet é a maior invenção do ser humano”. Verdade, grande Darcy! Pura verdade!

Hoje eu não sei como seria minha vida sem a Web. Não sei mesmo. Esta semana enviei 12 textos pela rede, mais não sei quantos giga de áudio e vídeo, sem precisar me deslocar fisicamente. Pago minhas contas pela Web, onde também adquiro livros, discos, eletrodomésticos, compro ingressos para cinema, teatro, shows, uma solução já que detesto entrar em lojas, encarar filas e tudo mais.

O mais importante é que graças a Web reencontrei amigos de adolescência, criei novas amizades, enfim, a Web também colabora (e muito) para o estreitamento das relações humanas. Não tenho o menor constrangimento em afirmar que sem a internet minha vida seria bem mais complicada.


E você? Como seria a sua vida sem a internet? og!

Estafa

Está lá no dicionário de significados: Estafa - é o estado onde uma pessoa encontra-se submetida a uma forte pressão externa ou interna, levando à estafa física ou emocional.

Apesar dos sintomas claros como irritação, sono conturbado, impaciência, a estafa é dissimulada e se confunde com o estresse que fica vários pontos abaixo numa hipotética escala de valores emocionais, digamos assim.

O maior problema da estafa é que nos deixa extremamente sozinhos. Como temos consciência de que “algo não vai bem”, ou que uma conjuntura de tensos fatores decidiu marcar um bate papo a mesma hora, há uma tendência de ficarmos na moita. “Não vou lá porque ando meio estourado e vai que Fulano toca num assunto complicado”, e assim o estafado vai se isolando e acaba engolido pelos pensamentos. 
E os pensamentos do estafado são sempre caóticos.

O estresse se dá em picos ocasionais. A estafa é constante, crônica. Pega e não larga. Quer dizer, larga sim. A certeza ou a consciência da estafa já são um passo importante, agitar o corpo com ginástica e similares começa a resolver e não esperar demais ser compreendido é a sentença final. Da estafa. Ninguém é obrigado a compreender, aturar, engolir um estafado. Só ele.

Pelo menos isso.



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A casa caiu?

                                      Caças inglêses Spitfire
Tentei me enganar ao trepar no otimismo pueril e enfrentar o duro noticiário de hoje (e também de ontem, anteontem, antes de anteontem...) que prova o que, jocosamente (ah, a minha alma de escoteiro mirim...), tinha razão quando escrevi um dia desses “o Brasil é o único lugar no mundo onde fundo do poço tem subsolo”. O noticiário mostra que a é fato, ou “é vero”, diriam os promotores da Operação Mãos Limpas na Itália. Wikipédia:

 “Operação Mãos Limpas ou Mani pulite foi uma investigação judicial de grande envergadura na Itália, tendo início em Milão, que visava esclarecer casos de corrupção durante a década de 1990, na sequência do escândalo do Banco Ambrosiano em 1982, que implicava a Mafia, o Banco do Vaticano e a loja maçônica P2.

A Operação Mãos Limpas levou ao fim da chamada Primeira República Italiana e ao desaparecimento de muitos partidos políticos. Alguns políticos e industriais cometeram suicídio quando os seus crimes foram descobertos.”

Sempre admirei o trabalho de um colega, o Lauro Jardim, que atualmente está no Globo. Profissional de primeira linha que no início da noite escreveu este curto e seco tapa no Globo Online:

Resumo da ópera

O resumo que pode ser feito a partir da Operação Acarajé é: a casa está caindo.

Claro que você que lê já sabia, eu também, o vizinho, o zelador, o gari, todo mundo sabia que a casa iria cair. Mas, quando chega a hora, dá uma vertigem.
Fui resolver uma cordilheira de assuntos em minha “medialópole” e para gastar estresse optei por caminhar. Sozinho. Sozinho a gente faz do pensamento um jogo de squash, mas não havia alternativa.

Andei horas por calçadas esburacadas, asfalto mole de calor. Suei. Parei em bancas de jornais na fétida avenida principal do centro da cidade onde dois caras falavam, falavam, falavam de algo que, em suma, resumo da ópera, era aquilo mesmo: a casa caiu. 
Como os dois estavam de terno, deduzi que fossem advogados já que a banca fica perto da sede da OAB de Niterói, a “medialópole” em questão.

OK, Lauro Jardim. Você tem razão. A casa vai cair mesmo. Sorte que assisti na madrugada de ontem ao clássico “Batalha Britânica”, de 1969, filmaço sobre o dia em que a Alemanha nazista gritou “perdeu, playboy!” para Winston Churchil, entupiu o céu de Londres de aviões bombardeiros e ...pasmem. Os ágeis e tensos caças Spitfire da Real Força Aérea Britânica, azougues alucinados, derrubaram as centenas de bombadeiros alemães.

A casa caiu. Para eles. Espero que aqui também caia. Para eles. Preciso dizer quem são eles?

Ou não?



A dor de querer saber compensa muito mais do que a dormência da ignorância

Breve, muito em breve elas vão começar a chegar. As massas polares que frequentam o outono e o inverno no Brasil trazem o azul mais profundo do céu infinito, realçam o verde das árvores e nos convida a visitar a oca de nossas reflexões. Mesmo os chamados antireflexivos, sem saber, refletem sim. Ou, na pior das hipóteses, contemplam a vida com um olhar levemente crítico do tipo “o que é que estou fazendo neste filme?”.

Quando as reflexões são profundas muitas vezes se tornam crises existenciais. Como o mar de marolas que vai engrossando, engrossando e vira, trazendo as ressacas. Ressacas, irmãs do inverno, das pedras e conchas geladas, vento soprando de leste.

Viver é fundamental. Refletir, idem. Em muitos momentos os pensamentos mergulham em trilhas muito duras e sofridas, mas, graças à luz do outono/inverno, chegam a alguma conclusão saudável. Outono e inverno parecem jogar a nosso favor. Nada contra a primavera e o verão, mas penso que o calorão não combina com reflexões plácidas.

Você teme alguns pensamentos? Confesso que já temi, especialmente os caóticos que, não se sabe por que, nos levam a becos que nós mesmos tornamos, em tese, sem saída. Repito: em tese. O noticiário dos últimos dias não tem combinado com a beleza das folhas molhadas ou com o orvalho que em breve irá molhar as calçadas. O noticiário dos sites, jornais, revistas, TVs está pesado e, a vezes, dá vontade de parar de querer saber o que está (ou não) acontecendo com o Brasil. Mas, não tenho vocação para a alienação.

A dor de querer saber compensa mais do que a dormência da ignorância, por si só, boçal, totalmente boçal que nos engessa numa redoma de lata sem o menor sentido. Fundamenta continuar querendo saber e, ao mesmo tempo, contemplar o azul profundo do céu levemente gelado do outono que desperta sentimentos agudos, belos e, por que não, alguns nós na garganta.

E o vento sopra, leva o orvalho, as luzes e trará o azul do céu de outono.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Os (des) governos tratam chuvas de verão como anomalia desde 1.500 porque sabem que ninguém reage

           O mergulhinho, tratado como mergulhão (assim mesmo, com M minúsculo) pela prefeitura em postagem de Luiz Claudio Costa Guimarães no Facebook.
                                                                         


                                             Niterói, a pocilga náutica nas postagens de Gilson Monteiro.
A tão propalada índole pacífica do povo brasileiro, na verdade uma inominável e vergonhosa covardia aliada a preguiça, deixa que os (des) governos façam ou não façam o que bem entendem.

Além da roubalheira ampla, geral e irrestrita, nutrida pela omissão popular, vulgo rabo entre as pernas, o Brasil exibe generosamente o fedor da incompetência estatal. Um dos flancos dessa letargia proposital dos (des) governantes foi exibida na noite de sábado.

Uma chuva de verão caiu  sobre a famigerada região metropolitana do Rio (normal como neve sobre Nova Iorque no inverno), que, para não variar, naufragou. Em Niterói, que tem o IPTU mais caro do Brasil, a chamada rede pluvial entupida por falta de manutenção (drenagem não dá voto porque fica embaixo da terra) aliada ao lixo acumulado transformou a cidade - que já esteve entre as melhores em qualidade de vida - numa pocilga náutica.

Gostaria de estar com o já saudoso Umberto Eco no banco do carona do meu carro sábado a noite, quando levei três horas para fazer um trajeto que em dias normais não passa de 10 minutos. Eco com certeza iria disparar uma de suas célebres frases mas, pensando bem, em terra onde o BBB lidera a audiência da TV citar Umberto Eco cheira a xingamento; é como se alguém me amarrasse numa cadeira com a TV ligada no BBB ao vivo. Acho que confessaria até que matei Joana D´Arc.

Em Niterói, o PT (prefeitura) fez um mergulhinho que foi inaugurado com pompa digna de uma viagem inaugural tripulada a Marte. O tal mergulhinho virou uma perigosa piscina enquanto que o bairro de São Francisco, chamado de “nobre”, passou mais uma noite às escuras pelo velho motivo. O PT, via prefeitura não arrocha a Ampla (a Light de Niterói) e muito menos a Aneel (agência – hahahahaha- de controle do PT federal) e nada é feito porque, na outra ponta, o eleitor prefere se lastimar no Facebook, com o no break do computador ligado. Nos anos 1990, quem diria, quando o povo ainda tinha sangue nas veias, apedrejou uma subestação em Piratininga e, como milagre, o serviço melhorou.

A seguir, o relato do jornalista Gilson Monteiro no Facebook:


Niterói fica alagada de Norte a Sul

Bastou chover forte para Niterói ficar com as ruas inundadas na noite de sábado (20-02). A rede pluvial da cidade que cobra o IPTU mais caro do país ainda é do século passado e, em grande parte, não conta com limpeza frequente. Desta vez, até a Praia de Icaraí, em frente ao Regatas, virou uma piscina.

A Estrada Francisco da Cruz Nunes, na Região Oceânica, assim como ruas e avenidas da Zona Sul (Avenida Roberto Silveira, Miguel de Frias, Mariz e Barros, Otávio Kelly, em Icaraí; e Mário Viana, em Santa Rosa) ficaram alagadas.

No Centro, o Mergulhão voltou a ficar alagado, como no dia seguinte ao que foi inaugurado pelo prefeito petista Rodrigo Neves. Viraram rios as ruas Quinze de Novembro, Rua Visconde de Sepetiba (onde fica a sede da prefeitura) e a Avenida Marquês de Paraná (acesso à Ponte Rio-Niterói).

Na Zona Norte, o Largo do Barradas foi um dos pontos mais críticos. Ruas do Fonseca, na Zona Norte, enfrentaram, além do alagamento, a falta de energia elétrica em vários pontos da Alameda São Boaventura e no Ponto de Cem Réis. No Barreto, moradores ficaram ilhados na Avenida Craveiro Lopes e na Rua Galvão.




sábado, 20 de fevereiro de 2016

Um culto aos decibéis - revista Veja, 16 de janeiro de 1985

Convidado pela revista Veja, escrevi este artigo que foi publicado na edição de 16 de janeiro de 1985, seção “Ponto de Vista” – páginas amarelas. Aqui, alterei apenas a divisão dos parágrafos.

Chegou a hora dessa gente esverdeada mostrar seu valor. Finalmente a partir de 21 de janeiro, o day after do rock in Rio, o país terá que conviver com uma estranha tribo. Uma tribo de roqueiros que tem no heavy metal sua base existencial e a ele se entrega como a um deus urbano e contemporâneo.

Esses rockers, conhecidos entre nós como metaleiros, são absolutamente peculiares e vivem uma puberdade conflitante e confusa como todos os adolescentes. Além de serem discriminados dentro de casa (de certa forma a causa que os levou ao encontro dos “heavy deuses”), os metaleiros acabaram sitiados numa caverna onde somente outros metaleiros são capazes de descobri-los. Dentro do rock eles também são arremessados para o subsolo por outros roqueiros de outras tribos que veem nos metaleiros apenas um bando de débeis mentais.

O Brasil, hoje, tem mais de 100 mil desses garotos que buscam na mais ensurdecedora das guitarras a catarse que muitos barbados procuram, por exemplo, dentro da psicanálise. Em sua maioria, vivem a margem das cidades, compondo uma espessa parede de compreensões que acaba transformando o grito em linguagem e o sangue (artificial) em forma de expressão.

São amantes da fantasia. Sabem que os integrantes do Kiss são vegetarianos, não bebem e não se drogam. Mas preferem acreditar num Kiss que mata pintos sobre o palco, se embebeda sem parar e no final destrói os hotéis por onde passa. Os metaleiros sabem que os Scorpions vivem com mulheres e filhos mas preferem vê-los como um grupo que adora jaulas com cobras e aranhas venenosas, além de intermináveis orgias.

Em bando eles se juntam (só homens) para audições coletivas de obras fonográficas decibélicas e depois saem as ruas em busca de filmes de terror ou de qualquer obra do diretor Steven Spielberg, ídolo de todos, nas telas. E, apesar das pulseiras cheias de pregos e tachinhas, cabelos enormes, roupas de couro ou curvim, correntes e cadeados espalhados pelos braços, os metaleiros não são violentos nas ruas.

São porém capazes de tudo dentro de um recinto fechado, principalmente se ali estiverem se apresentando bandas ao vivo. Se um desses grupos tocar algo distante do que os metaleiros entendem como rock, não restará cadeira sobre cadeira.

Cercados entre os tensos e intensos 12 e 18 anos de idade, os metaleiros querem que o Brasil se dane. Para eles, os políticos não passam de ladrões, os generais de “canas “ e só comparecem a comícios se os oradores partirem para o total radicalismo.

Esses garotos, responsáveis pelo sustento-base das gravadoras (os discos internacionais mais vendidos em todo o mundo são de heavy metal), não leem jornais, considerados farsas. São alienados profissionais e acham que uma letra do grupo AC/DC vale mais que um editorial em qualquer jornal do mundo.

Temem o sexo, optando pela masturbação. Temem a mulher, optando pelo machismo, que é pregado fartamente nas letras de seus grupos prediletos. Só não temem três coisas: pai, mãe e polícia. Recentemente o músico Lobão, do grupo Lobão e os Ronaldos, fez declarações grosseiras sobre os metaleiros.

Mas não foi só ele quem falou e fala mal dessa tribo. Muitos músicos de outras facções não cansam de tentar espatifar ou rachar esse grupo que não acredita em poder. Em contrapartida, parece que, em caso de vingança as palavras de ordem dos metaleiros são “lata no palco e desprezo nas ruas”.

Os metaleiros serão muito mais numerosos depois do Rock in Rio, mas o Brasil não precisa temê-los. Eles só querem rock pesado e uma gravação pirada no Thin Lizzy. São ou serão eleitores de votos nulos, se drogam pouco (no máximo maconha) e querem que vá tudo, literalmente, para o inferno. O inferno para eles é o céu. Parece que o demônio é rei, mas também dentro da fantasia.

A religião, propriamente, nunca chegou perto dos metaleiros mais próximos dos rituais hollywoodianos, pintados pelos grupos em suas músicas. Eles não tem e não querem formar opinião sobre coisa alguma. Difícil é a situação dos pais desses garotos. Entre um psiquiatra e outro, para onde costumam arrastar seus metaleiros, acabam, convencidos que esse barulho todo não passa de uma fase adolescente do roqueiro, que só se eterniza entre os profissionais e assim mesmo na base da cenografia. Afinal, quando Ozzy Osbourne enforca anões no palco e arranca cabeças de morcego com os dentes, ele próprio sabe que isso não passa de uma grande e lucrativa piada. 

Só que, no início da carreira, o grupo ao qual pertenceu se envolvia com magia negra e transcrevia suas experiências nos discos.

Tentar entender os metaleiros é tentar desvendar mistérios adolescentes. Eles estão presentes no mundo inteiro, colocando abaixo promessas e perspectivas e endeusando o que não existe. Acima de tudo, o movimento cresce pela falta de ídolos universais. Parece mais confortável acreditar no que não existe dos que nas alianças políticas entre gregos e troianos ou na inflação de 300%. Em última análise, os metaleiros não fazem mal a ninguém. Só que também não acreditam em ninguém.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Peter Grant, o homem que viabilizou o Led Zeppelin na base da porrada


                                                                                 
Assisti o primeiro capítulo da série "Vinyl" na HBO, com direção de Martin Scorsese e produção de Mick Jagger. Boa pegada, corrupção na indústria do disco, jabá, cocaína, covardia, tudo quase bem. Quase porque Scorsese pisou na jaca ao exibir sósias de Robert Plant e Peter Grant (fotos) o mamute que era empresário do Led Zeppelin. Plant aparece encarnado num ator ultra barangóide, falando um monte de asneiras, afetado até a nona geração. E Peter Grant é mostrado como um magrelo estressado, e não o gorila que fez o mercado gemer de medo. Por isso, apresento o verdadeiro Grant.

Peter Grant tinha dois metros de altura, quase 180 quilos e jogava duro, pesado. Foi ele quem viabilizou o Led Zeppelin, uma das maiores bandas da história do rock. Não fosse sua sagacidade, ambição e truculência, a banda criada por Jimmy Page com certeza não teria voado tão alto e se tornasse bilhardária. Aqui, um texto de Guilherme Camardella do site Whiplash com base no livro “Led Zeppelin, quando os gigantes caminhavam sobre a Terra”, de Mick Wall.


Peter Grant nasceu em 5 de abril de 1935, no sul de Londres um subúrbio chamado South Norwood. Foi filho de mãe solteira. Como em toda família de classe operária, Grant se viu obrigado a trabalhar em indústrias e servir ao exercito até se deparar com o sonho da indústria do entretenimento. 

Jovem e alto primeiro tentou ser ator e vinha obtendo relativos “êxitos”. Sempre com pontas ou papéis pequenos, é possível vê-lo por exemplo em “Canhões de Navarone” ou “Cleópatra”. Na TV a mesma coisa, porém com mais destaque em “O Santo”, aonde atuou como um barman e trocou falas com Roger Moore.

No início da década de 60 ele começou a trabalhar com Don Arden (pai de Sharon Osbourne), um empresário que utilizava de meios não muito convencionais (leia-se porrada) para obter os seus resultados. Grant era o empresário das turnês britânicas de artistas como Little Richard, Chuck Berry, The Animals, etc. Ali, Grant aprendeu todos os macetes e se tornou empresário do rock.

Em 1966, já gerindo os seus próprios negócios – junto ao seu sócio Mickie Most – Grant foi convidado para cuidar da carreira dos Yardbirds, banda de médio sucesso no Reino Unido e maior prestígio nos Estados Unidos cujo destaque ficava por conta dos guitarristas Jimmy Page e Jeff Beck. Grant já pegou a banda em decadência e nada pode fazer. Em 68 já estava decretado o fim dos Yardbirds após uma turnê americana.

Em uma conversa com o então jovem Jimmy Page, Grant ouviu sobre os passos que o músico pensava em dar após o término de sua banda. Numa nova banda chamada New Yardbirds. Peter teve faro e notou que o talento daquele jovem guitarrista era diferente e que de fato valeria a aposta. Acreditou tanto, que se reuniu com o sócio Mickie e ofereceu a sua parte do The Jeff Beck Gruop que naquele mesmo ano já conquistava sucesso internacional com o álbum “Truth”. Mickie topou.

Após recrutarem os outros membros para o chamado “quarteto de ouro da história do rock”, o New Yardbirds se viu obrigado a mudar de nome por problemas judiciais com um ex-membro da antiga banda. Assim nasceu o Led Zeppelin. Grant estabeleceu uma relação muito forte com Jimmy Page e somado a isso, deu total liberdade criativa para o grupo; sem pressões, levando a risca o lema “meu artista em primeiro lugar”, ou como John Paul Jones (baixista e tecladista) disse a Mick Wall em “Quando os Gigantes caminhavam sobre a Terra”: 

“Peter confiava em nós para fazer a música e então mantinha todo mundo a distância, garantindo-nos espaço para fazer o que quiséssemos sem a interferência de ninguém – imprensa, gravadora, promotores. 
“Ele só tinha a nós como clientes e reconhecia que, se fôssemos bem, ele também iria. Sempre acreditou que seríamos muito famosos, e as pessoas tinham medo de não aceitar seus termos e perder algo. Mas todo esse negócio de renegociar contratos na base da intimidação é bobagem. Ele não pendurava as pessoas na janela e todas essas besteiras.” 

Com o dinheiro do bolso de Jimmy Page (estava financeiramente bem após passar anos trabalhando como músico de estúdio) ainda em 1968, nasceu o álbum Led Zeppelin I. Não se sabe até que ponto era lenda ou verdade sobre a fama de Peter Grant ser um pressionador/intimidador, mas ele obteve coisas nunca antes conseguidas a um artista com gravadoras e promotores de shows. 

Com uma obra prima pronta embaixo dos braços, Peter Grant voou para os Estados Unidos a fim de conseguir uma gravadora e não só assinou com a Atlantic Records por cinco anos, como voltou para o Reino Unido com o maior adiantamento da história para um artista não contratado: 143.000 dólares, sem que a Atlantic sequer tenha visto-os tocar.

Em 1968 isso era uma quantia muito mais considerável do se imagina. A Atlantic fabricava, distribuia, promovia os discos e só. Não se metia no trabalho do Zeppelin. A produção artística dos álbuns era de Jimmy Page e a Produção Executiva de Peter Grant.

O empresário sacou que no mercado americano Page era relativamente famoso por causa do Yardbirds. O foco nos Estados Unidos teve papel fundamental e ajudou o Zeppelin a vender milhões de discos e a bater recordes de bilheteria em turnês.
Peter Grant via os membros do Led Zeppelin como amigos (de fato eram) e Jimmy Page como um filho. Nessa época era de praxe que os promotores pagassem aos artistas 10, 20 por cento da bilheteria. Com os seus “métodos” Peter conseguiu que ficassem com 90 por cento do lucro de todas as turnês, o que futuramente faria com que todos os recordes – antes pertencentes aos Beatles e Stones – de faturamento e popularidade fossem quebrados. 

Em 1974 Peter lançou junto ao Zeppelin a própria gravadora da banda, o Swan Song, com distribuição da Atlantic. Seguindo a tendência iniciada pelo Apple dos Beatles, Grant fez mais dinheiro e autonomia artística, sendo também responsável por outros nomes como o Bad Company, de Paul Rodgers.

A segunda metade da década de 70 trouxe o declínio do Led Zeppelin e o de Peter Grant consequentemente. Diversos contratempos fora dos palcos, muito atribuídos ao abuso de drogas, outros pelo “suposto” envolvimento de Jimmy Page com o ocultismo, acidentes e a morte inexplicável do filho de Robert Plant de cinco anos fizeram o Led descer em queda livre. Grant não tinha mais forças para “segurar” a barra. 

Após ter se separado da mulher ele mergulhou de cabeça na cocaína e na bebida. Ficava horas trancado em seu escritório cheirando pó. Isso o tornou mais psicótico e a síndrome do pânico passou a assombrar  a sua vida. Essa vida para um sujeito rude não poderia ser pior. Em 77, em um show em Oakland (EUA) um segurança local foi acusado de esbofetear o rosto do filho de Grant. 

O segurança foi levado para um banheiro onde foi selvagemente espancado por ele, Richard Cole e o baterista John Bonham, fazendo com que uma equipe da SWAT entrasse no hotel em que eles estavam hospedados e os prendessem. 

Em 79 o episódio para a negociação dos dois shows em Peter Grant tinha quase dos metros de altura, quase 180 quilos e jogava duro, pesado. Foi ele quem viabilizou o Led Zeppelin, uma das kaiores bandas da história do rock. Não fosse sua sagacidade, ambição e truculência, a banda criada por jimmy Page com certeza não teria decolado. Aqui, um texto de Guilherme Camardella do site Wiplash que, por sua vez, recorreu ao livro “ Led Zeppelin, quando os gigantes caminhavam sobre a Terra”, de Mick Wall.

Peter Grant nasceu em 5 de abril de 1935, no sul de Londres um subúrbio chamado South Norwood. Foi filho de mãe solteira. Como em toda família de classe operária, Grant se viu obrigado a trabalhar em indústrias e servir ao exercito até se deparar com o sonho da indústria do entretenimento. 

Jovem e alto primeiro tentou ser ator e vinha obtendo relativos “êxitos”. Sempre com pontas ou papéis pequenos, é possível vê-lo por exemplo em “Canhões de Navarone” ou “Cleópatra”. Na TV a mesma coisa, porém com mais destaque em “O Santo”, aonde atuou como um barman e trociu falas com Roger Moore.

No início da década de 60 ele começou a trabalhar com Don Arden (pai de Sharon Osbourne), um empresário que utilizava de meios não muito convencionais (leia-se porrada) para obter os seus resultados. Grant era o empresário das turnês britânicas de artistas como Little Richard, Chuck Berry, The Animals, etc. Ali, Grant aprendeu todos os macetes e se tornou empresário do rock.

Em 1966, já gerindo os seus próprios negócios – junto ao seu sócio Mickie Most – Grant foi convidado para cuidar da carreira dos Yardbirds, ban de médio sucesso no Reino Unido e maior prestígio nos Estados Unidos cujo destaque ficava por conta dos guitarristas Jimmy Page e Jeff Beck. Grant já pegou a banda em decadência e nada pode fazer. Em 68 já estava decretado o fim dos Yardbirds após uma turnê americana.

Em uma conversa com o então jovem Jimmy Page, Grant ouviu sobre os passos que o músico pensava em dar após o término de sua banda. Numa nova banda chamada New Yardbirds. Peter teve faro e notou que o talento daquele jovem guitarrista era diferente e que de fato valeria a aposta. Acreditou tanto, que se reuniu com o sócio Mickie e ofereceu a sua parte do The Jeff Beck Gruop que naquele mesmo ano já conquistava sucesso internacional com o álbum “Truth”. Claro que Mickie topou.

Após recrutarem os outros membros para o chamado “quarteto de ouro da história do rock”, o New Yardbirds se viu obrigado a mudar de nome por problemas judiciais com um ex-membro da antiga banda. Assim nasceu o Led Zeppelin. Grant estabeleceu uma relação muito forte com Jimmy Page e somado a isso, deu total liberdade criativa para o grupo; sem pressões, levando a risca o lema “meu artista em primeiro lugar”, ou como John Paul Jones (baixista e tecladista) disse a Mick Wall em “Quando os Gigantes caminhavam sobre a Terra”: 

“Peter confiava em nós para fazer a música e então mantinha todo mundo a distância, garantindo-nos espaço para fazer o que quiséssemos sem a interferência de ninguém – imprensa, gravadora, promotores. 
“Ele só tinha a nós como clientes e reconhecia que, se fôssemos bem, ele também iria. Sempre acreditou que seríamos muito famosos, e as pessoas tinham medo de não aceitar seus termos e perder algo. Mas todo esse negócio de renegociar contratos na base da intimidação é bobagem. Ele não pendurava as pessoas na janela e todas essas besteiras.” 

Com o dinheiro do bolso de Jimmy Page (estava financeiramente bem após passar anos trabalhando como músico de estúdio) ainda em 1968, nasceu o álbum Led Zeppelin I. Não se sabe até que ponto era lenda ou verdade sobre a fama de Peter Grant ser um pressionador/intimidador, mas ele obteve coisas nunca antes conseguidas a um artista com gravadoras e promotores de shows. 
Com uma obra-prima pronta embaixo dos braços, Peter Grant voou para os Estados Unidos a fim de conseguir uma gravadora e não só assinou com a Atlantic Records por cinco anos, como voltou para o Reino Unido com o maior adiantamento da história para um artista não contratado: 143.000 dólares, sem que a Atlantic sequer tenha visto-os tocar.

Em 1968 isso era uma quantia muito mais considerável do se imagina. A Atlantic fabricava, distribuia, promovia os discos e só. Não se metia no trabalho do Zeppelin. A produção artística dos álbuns era de Jimmy Page e a Produção Executiva de Peter Grant.

O empresário sacou que no mercado americano Page era relativamente famoso por causa do Yardbirds. O foco nos Estados Unidos teve papel fundamental e ajudou o Zeppelin a vender milhões de discos e a bater recordes de bulheteria em turnês.

Peter Grant via os membros do Led Zeppelin como amigos (de fato eram) e Jimmy Page como um filho. Nessa época era de praxe que os promotores pagassem aos artistas 10, 20 por cento da bilheteria. Com os seus “métodos” Peter conseguiu que ficassem com 90 por cento do lucro de todas as turnês, o que futuramente faria com que todos os recordes – antes pertencentes aos Beatles e Stones – de faturamento e popularidade fossem quebrados. 
Em 1974 Peter Grant lançou junto ao Zeppelin a própria gravadora da banda, o Swan Song, com distribuição da Atlantic. Seguindo a tendência iniciada pelo Apple dos Beatles, Grant dá mais dinheiro e autonomia artística, sendo também responsável por artistas lucrativos como o Bad Company, de Paul Rodgers.

A segunda metade da década de 70 trouxe o declínio do Led Zeppelin e o de Peter Grant consequentemente. Diversos contratempos fora dos palcos, muito atribuídos ao abuso de drogas, outros pelo “suposto” envolvimento de Jimmy Page com o ocultismo, acidentes e a morte inexplicável do filho de Robert Plant, fizeram o Led descer em queda livre. Grant não tinha mais forças para “segurar” a barra. 

Após ter se separado de sua esposa, Peter Grant entrou de cabeça na cocaína e ficava horas trancado em seu escritório cheirando pó. Isso o tornou mais psicótico e a síndrome do pânico passou a assombrar sua vida. Essa chapação para um sujeito rude não poderia ser pior. Em 77, em um show em Oakland um segurança local foi acusado de esbofetear o rosto do filho de Grant. O segurança foi levado para um banheiro onde foi selvagemente espancado por ele, Richard Cole e o baterista John Bonham, fazendo com que uma equipe da SWAT entrasse no hotel em que eles estavam hospedados e os prendessem. 

Em 79 o episódio para a negociação dos dois shows em Knebworth também foi envolvido de muita ameaça e paranóias. Com um acordo para dois dias para 250 mil pessoas, ao ver que o número não havia nem chegado próximo, Grant exigiu o pagamento total dos valores ameaçando os promotores do show e dando o maior prejuizo. Peter Grant nunca foi santo, porém sempre esteve disposto a tudo pelo Led Zeppelin. 

A morte de John Bonham em setembro de 1980 foi uma pá de cal não só para o grupo mas também para Peter Grant. Cada vez mais viciado em cocaína, imensamente gordo e abandonado pela esposa, Peter se fechou em seu império e raramente apareceu publicamente.
Morreu de ataque cardíaco em 1995.

Peter Grant foi um personagem marcante em uma história muito rica, a do Led Zeppelin. Um homem raro de se encontrar no showbizz.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Festa de aniversário com um milhão e meio de convidados e os Rolling Stones tocando ao vivo - dedicado a meu pai, amado pai

          Lula Tiribás, eu e Jamari na cratera do vulcão. Stones, Copacabana, em 18 de fevereiro de 2016

Em 18 de fevereiro de 2015, escrevi:

Caramba, como estou emocionado com a homenagem que a Rádio Cult FM fez pelo meu aniversário. À frente, os amigos e diretores da rádio Luck Veloso e André Luiz Costa, mais as amigas Bete Babo e Edilene Baldam e muitos ouvintes. Valeu! Como valeu a bela homenagem! ;) ;) ;) ;)

Dia de aniversário para mim sempre foi uma data essencialmente solitária, mas jamais triste. Jamais. Desde criança agradeço a Deus por habitar este planeta, mas sem aquela euforia que vejo incorporar em outros aniversariantes. O fato de ter nascido em fevereiro, alto verão, mês de férias escolares e carnaval, fez com que as comemorações se restringissem a família já que os colegas de escola estavam sempre de férias, e os amigos, em geral, viajando.

Não só me acostumei com a solitária data como, com o passar do tempo, quando descobri a individuação - benção maior da maturidade - passei a gostar de 18 de fevereiro do jeito que é possível e não da maneira como os outros julgam ideal. 

Jornalista, sem dia e hora para nada, passei muitos aniversários longe da família, mas nem por isso deixei de curtir os telefonemas, os sinceros desejos de saúde e felicidade e muito bolo Plus Vita com vela de botequim nas estradas da vida;comemoração de colegas no meio de coberturas jornalísticas.

Um aniversário que me marcou muito foi o de 2006. Trabalhei na equipe que fundou a Rádio Bandnews FM, em 2005. No dia do meu aniversário, um sábado, estava de plantão e desde de manhã cedo fiquei em frente ao Copacabana Palace. Na areia, a noite, aconteceria o maior show de rock da história do Brasil, quando os Rolling Stones tocaram para mais de um milhão de pessoas.

Entrei ao vivo dezenas de vezes, em rede nacional, falando do repertório, expectativa do público, aparições da banda na janela do Copa, enfim, uma geral. Até que, por volta de meio dia, 39 graus, céu nublado, o âncora da rede descobriu que era o meu aniversário, desejou parabéns no ar, eu brinquei que “ia comemorar com uma festinha íntima com mais de um milhão de convidados, ao som dos Stones ao vivo”, gargalhada no ar e tudo bem.

Só que muitos ouvintes estavam na área e começaram a me procurar no carro de reportagem, estacionado. Não tinha como não me encontrar já que estava literalmente embaixo do giga-palco dos Stones na areia, com os amigos Luiz Tiribás (o Lula) e Jamari França. Os ouvintes foram lá, falavam comigo, lembravam de outros trabalhos meus (Rádio JB-AM, Rádio Fluminense FM, Jornal do Brasil, Rede Manchete de TV Pasquim, etc) e aquilo começou a me emocionar. Por que? Porque só a sinceridade leva um indivíduo a procurar um desconhecido (no caso eu) para desejar parabéns. 
O que mais?

Além dos desconhecidos, colegas, músicos que passavam por lá, amigos me ligavam o tempo todo, tudo isso associado ao alegre tumulto em Copacabana que só aumentava, a medida em que a noite se aproximava. Bote na receita 45 graus de sensação térmica e vieram emoções que eu não conhecia, capitaneadas pela gratidão. Lá pelas 7 da noite fui até a beira do mar (já estava difícil transitar pela multidão) e fiz uma oração. Agradeci por tudo e, sobretudo, por todos que falavam comigo quando poderiam ter ficado quietos. Liguei para casa dos meus pais que, emocionados, desejaram felicidade, saúde e "um bom trabalho, meu filho". Voz do meu pai do outro lado da linha, habituado com a constante presença do filho fisicamente distante.

Voltei para o nosso bunker embaixo do palco e as oito horas chequei as baterias dos celulares, subi alguns degraus de uma torre de som e vi que o povão, compacto, já devia estar chegando ao Leme. Nunca tinha visto tanta gente num show. Nunca. Nem eu, nem Luiz Oscar Niemeyer (dono da Planmusic, que trouxe os Stones), nem todos os jornalistas que ali estavam e muito menos os Rolling Stones. As nove e pouco, a banda detonou tudo, abrindo com a magistral “Jumpin’ Jack Flash”. A multidão explodiu.

O show foi rolando e muitas cenas de minha vida desfilaram em minha cabeça. Afinal, além de meu aniversário, os Stones embalaram a minha adolescência e suas namoradas, amigos, alegria, caos, enfim, a cada canção uma lembrança. A todo instante eu conseguia falar ao vivo na rádio pelo celular, via São Paulo (não sei como por causa do volume do som) e voltava aos pensamentos. Mas quando Keith Richards mandou o riff de “Happy”, não aguentei e quase fui as lágrimas. Emoção boa, farta, bonita, grata, vida, mas não consigo chorar.

Há muitos e muitos anos não derramo uma lágrima. Não sei por que. Mas naquela noite, naquela data, naquela areia, naquele som, o vulcão quase entrou em erupção. Que bom. 

Valeu.