quinta-feira, 31 de março de 2016

O som das nuvens que destilam a saudade

                                                                                                                                      Luiz Antonio Mello
   Havia um banco de cimento bem perto da praia. Pequena praia, sem ondas, estreita faixa de areia, água muito clara, transparente, mais para o verde do que para o azul. A canção parecia brotar das nuvens, duas, brancas, destacando o azul profundo do céu limpo, sem fumaça, sem mordaça.

Deitar no banco de cimento, sorver o som da saudade de si. Por que não? Por que não deixar que a melancolia sopre a nuvem e produza o som dos tempos, da travessia das eras, das lutas, da vida dura levada a ferro e fogo? Por que ele, somente ele, não teria direito a sua melancolia, ao silencio de seus ecos interiores, que ele não teve tempo de conhecer? Saudade e melancolia, velhas vizinhas, por mais novas que sejam as nuvens, por mais eterno que seja o céu.

Melancolia, um direito. Como folia, euforia, delírio. Saudade, dona de sons típicos, raros, que nascem de nuvens brancas e vadias, mapeando o céu como se nada mais existisse. Existe? Deitado no banco de cimento, olhos fechados, ouvindo o som das nuvens, uma lágrima escorre do olho direito dele.

O homem é amigo. Parceiro. Dá tudo de si desde o dia em que bateram em suas costas e disseram “é um menino”. Seria suficiente? Ele não sabe. O mundo não é espelho, o afeto não é reflexo, a saudade é mais que sensação. Livre sensação.

Ele tem tentado tudo. Deitado no banco de cimento, cansado muito cansado, reconhece o empenho, a luta, a solidariedade. Será suficiente? Não sabe, não pode e não quer perguntar. Impossível mensurar intenções.

Cansado, pede paz. Afeto. Cores. Nuvens. Saudade, muita saudade, de um tempo que não viu porque não tinha tempo para assistir ao tempo. As nuvens tem a resposta, mas ele só as contempla. Quieto. 

Como uma música. Música do acaso. Música do sonho, da vontade, música do afeto. Profundo, azul, marinho afeto.

Afeto que não se encerra.

Jamais.

                  

Dirigir no nevoeiro

Dirigir no nevoeiro é uma arte. Enxergamos pouco à frente, quase nada atrás. Há normas? Há. Normas relativas. Não devemos usar faróis altos que refletem na nuvem e erguem uma parede de luz agravando a situação. Recomenda-se faróis baixos.

Velocidade reduzida, mas não muito. Parar, nem pensar. Risco de colisão na traseira. A ordem é devagar e sempre, como numa nuvem sem fim. Mas o fim existe. Podemos encontrar o sol, podemos encontrar a chuva.

Quando? Ninguém sabe. Ninguém pode informar quanto tempo dura a passagem de um nevoeiro.

Respirar fundo e seguir em frente, sem parar, apesar da péssima visibilidad, do trânsito pesado descendo no sentido contrário, a desorientação causada pelas luzes dos faróis. Não podemos ultrapassar ninguém. O risco é grande.

Estrada com nevoeiro lembra alguns momentos a vida. Individual e coletiva. Seguir em frente é fundamental apesar do breu, da umidade, do mar cinzento de nuvens. Com a certeza de que mesmo longo, nenhum nevoeiro é infinito. 

Nenhum.

terça-feira, 29 de março de 2016

Eduardo Lamas lança seu novo romance, "O Negro Crepúsculo", em versão digital Amazon Kindle


Já escrevi (e, com prazer, escrevo de novo) que o carioca Eduardo Lamas é um dos mais talentosos escritores de sua geração, com trânsito em diversos estilos e texturas. Acompanho o seu trabalho há vários anos e recomendo, com muita satisfação, o seu novo romance.

Uma história envolvendo amor e paixão, suas semelhanças e diferenças, encontros, desencontros e reencontro. Este é uma das muitas definições que “O negro crepúsculo”, segundo livro de, pode receber. À venda na Amazon Kindle, a obra pode  ser lida em qualquer dispositivo (smartphones, tablets e computadores pessoais) e ser adquirida por apenas R$ 15,01 neste link: http://goo.gl/SdKSqU . É bom lembrar que a plataforma é compatível não só com o sensacional e-reader Kindle mas também com tablet, smartphone, notebook e desktop. Em seu site a Amazon explica tudo.

O enredo começa com uma dolorosa desilusão amorosa de c.j. marques (“assim mesmo com minúsculas, igual ao poeta e.e. cummings”), um taxista formado em publicidade, mas que sonha ser escritor. Ele busca uma relação incendiária, porém, só encontra fogo de palha. E reflete, nas muitas viagens em seu táxi ou de sua mente questionadora e imaginativa, sobre o mundo em que vive, a cidade, a sociedade, os homens no geral e as mulheres, em particular.

O autor, que além de escritor, é jornalista e empresário dos ramos cultural e de Comunicação, acredita que, embora diga que “O negro crepúsculo” seja um romance, o livro tenha outras características marcantes. Uma delas é a presença de poesias na abertura de quase todos os capítulos - as exceções são o “Prelúdio”, o capítulo “I” e o epílogo. “A narrativa é em primeira pessoa, mas creio que muitas vezes o leitor se perguntará quem está relatando e comentando os acontecimentos com o personagem principal, a cidade e a sociedade em que ele vive, o mundo, as mulheres que passam pela vida dele. Espero que o leitor também se veja em alguns momentos como o “eu” narrador”, afirma Eduardo Lamas.

As poesias são constantes nos textos do escritor. Elas são a razão de ser de “Profano coração”, lançado fisicamente em 2009 por uma editora do Rio de Janeiro e já esgotado - atualmente está  à venda também somente em versão digital: http://bit.ly/1L3rcqW. Os poemas estão presentes também nas peças teatrais de Lamas, a grande maioria inédita - somente “Sentença de vida” foi montada e encenada no início dos anos 2000.

Sobre o autor

Eduardo Lamas é escritor, jornalista e sócio-diretor da Mais e Melhores Produções Artísticas Ltda.. Como jornalista atuou como repórter, redator, revisor, subeditor e editor em vários veículos de comunicação. Entre eles, rádios Imprensa FM e Tropical FM, Jornal dos Sports, Agência Sport Press, Agência O Globo, O Globo Online, jornal O Fluminense, Lance Multimídia, Revista e Agência Placar, site Pelé.Net, Oi Internet, Jornal do Brasil e Globoesporte.com.

Foi premiado como Destaque Especial em três categorias (conto, poesia e crônica) do IV Concurso Literário "A Palavra do Séc. XXI", em 2001, e é autor da peça “Sentença de vida”, que ficou em cartaz entre 2002 e 2003 em palcos do Rio, Niterói e São Gonçalo; do livro “Profano coração”, lançado em julho de 2009, e do blog Em Questão (www.eduardolamas.blogspot.com), no ar desde março de 2008.

Na Mais e Melhores Produções Artísticas, além de trabalhos de assessoria de imprensa para projetos, eventos e profissionais da área cultural, desde setembro de 2012, atualmente é revisor e faz parte do corpo editorial da revista digital Acorde! (https://lnkd.in/d5xyphP).

segunda-feira, 28 de março de 2016

A onda que se ergueu no mar

                                                 Ipanema, 1940.
"No dia em se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céu azul, mar limpo e seis meses de verão". (Ruy Castro).

Em tempos de cólera faz bem a alma ler "A onda que se ergueu no mar", um livro antigo do Ruy Castro (é de 2001), um verdadeiro poema para o Rio de Janeiro que amo, mas que não conheci pela mais inquestionável das razões: não era nascido.

A personagem principal dessa obra é a bossa nova, movimentação cultural que surgiu numa fase do Brasil encravada entre o suplício representado pela era varguista, a boçalidade janista, o baixo astral apático do janguismo e o golpe de 1964. Coisa linda era o Rio nos anos 1950, início de 60. Coisa maravilhosa era a bossa nova, capaz de ver mais beleza onde de fato já havia beleza, a contemplação dos olhos verdes da morena e seu biquíni "ousado" em 1960, que hoje daria para fazer um paraquedas. 

Não li esse livro na época, apesar de ter ido ao lançamento só para dar um abraço no Ruy Castro. Ele me olhou fixo, não me reconheceu no ato, mas depois lembrou de um repórter da lendária da Rádio JB em 1974, magro pra cacete, cabelos encaracolados na altura dos ombros, roqueiro, que uma vez acendeu um cigarro dele. Esse repórter era eu. Ruy era repórter do Jornal do Brasil e, ele não sabia, era um dos meus ídolos porque tinha acesso aos bossanovistas, apesar de detestar rock, até hoje. E eu sempre adorei a bossa nova e seus personagens. Não li "A onda que se ergueu..." aquela época porque optei por sorvê-lo bem devagar um dia. E esse dia chegou.

Minha relação (só pode ser mediúnica) com o Rio daqueles tempos é tão comocional que na noite de ontem, lendo o livro, uma lágrima escorreu de meu olho esquerdo. Vadia emoção. Bateu saudade de meu tio Evaldo, irmão de minha mãe, que também era enfronhado entre os bossanovistas e mais tarde tropicalistas. Tio Evaldo era pura vanguarda, pura arte, puro bom gosto e quando ia lá em casa eu o enchia de perguntas. Sim, foi ele quem me "aplicou" de bossa nova.

Quando conheci meu padrinho de estúdio*, Roberto Menescal, em 1984, chutei os protocolos e pedi: 1 - um autógrafo; 2 - que um dia fôssemos ao Veloso (bar) e, lá, tirássemos uma foto abraçados. Queria ter comigo a lembrança de um dos pais da bossa no bar-berço da bossa nova. Um dia fomos, hora do almoço, o garçom tirou a foto na mesa em que Tom, Vinícius e Menescal costumavam sentar. A foto ficou linda, linda, mas na famigerada mudança (lambança) de endereço que fiz ela se perdeu. Mas, não quero embaçar o astral, falar da bela foto perdida e da mudança que não quis fazer. Há muito o que falar do Menescal. Muito. E escreverei um dia desses.

Sobre "A onda que ergueu no mar", aqui vai um texto da editora Companhia das Letras:

"As andanças de Tom Jobim pelo mundo; o longo verão de Brigitte Bardot em Búzios; a 

trágica história de Orlando Silva; as vidas paralelas de Dick Farney e Lucio Alves; céus e 

mares de Johnny Alf e João Donato; samba e swing no Beco das Garrafas; com Nara Leão 

em Copacabana; ao redor do pijama de João Gilberto - em A onda que se ergueu no mar

Ruy Castro conta novas histórias da música que voltou para conquistar uma nova geração. 

Hoje ela talvez seja mais ouvida do que em 1961, em salas de concerto, teatros, boates, 

bares, clubes, escolas, estádios, sem esquecer os elevadores e as salas de espera, os 

comerciais e as trilhas de filmes e novelas. Em discos também: nunca se ouviu tanta 

Bossa Nova em São Paulo, Nova York, Paris, Sydney, Tóquio. E quem se dispuser a entrar em todos os sites brasileiros e internacionais dedicados à Bossa Nova, arrisca-se a morrer de velhice antes de sequer arranhar a superfície.


Com Chega de saudade, de 1990, Ruy Castro foi um dos responsáveis por essa volta. Mas ali a história se encerrava por volta de 1970, quando a Bossa Nova foi dada como morta. 

Ruy mergulhou de novo no assunto - mas agora para falar da volta de uma música que, como as ondas, só esperava o momento de dar de novo à praia."

* Padrinho de estúdio é a pessoa que apresenta um estúdio de gravação a um produtor de primeira viagem. Quando dirigiu a gravadora Polygram (hoje Universal), Menescal contratou Celso Blues Boy por meu intermédio, mas colocou uma condição: que eu proudizisse o disco. Eu disse que nunca tinha produzido um disco e Menescal (otimista visceral) mandou "ora, voce tira de letra, nasceu em rádio". Topei. Ele me levou ao monumental estúdio Um da Polygram (24 canais em 1984), olhou para o engenheiro, tecnicos e disse "esse é o Luiz Antonio Mello que vai produzir o Celso Blues Boy". E foi embora! Segurando as gargalhadas.Querem saber? Ele fez bem. Aprendi produção fonográfica fazendo e me orgulho muito de "Som na Guitarra", álbum de estréia do Blues Boy.




domingo, 27 de março de 2016

Aqui não se faz, mas aqui se paga, sim

Esquecem que a verdade está longe, muito longe de ser absoluta. Atribuição divina, o absolutismo é incorporado pela patética e patológica onipotência dos lunáticos sociais e sua logorreia torpe, vulgo brain damage

Lunáticos sociais não acreditam que aqui se faz, aqui se paga. Acham que é verborragia de adesivos de nona categoria. Mas o pior, o fatal, é o desprezo a máxima que sentencia: aqui não se faz, mas aqui se paga, sim.

Esquecem que o limite do egocentrismo é uma muralha de chumbo, conhecida na vala incomum como perda total. Essa malta, a dos lunáticos sociais, vulgo brain damage, cruza a existência jogando gente no esgoto, arrotando as tais verdades absolutas inexistentes, como se o E.T. de Varginha fosse a incorporação do Juízo Final.

Ignoram que o Juízo Final é quem anota, aponta, registra cada coração, cada grito, cada lágrima desprezada pelos lunáticos sociais, vulgo brain damage, à bordo de sua mixaria existencial que chuta a compaixão, cospe na condolência, ri da piedade.

É quando o Juízo Final age. A seu modo. E derrama de seu seio iniludível as chamas do justiçamento, grava a ferro e fogo que aqui não se faz, mas aqui se paga sim.

A verdade segue relativa, a vida segue relativa, o vento sopra relativo, mas o Juízo Final, impávido colosso, anota, anota, anota anota, anota, anota.....

sábado, 26 de março de 2016

O homem do Realejo

Durante um ano trabalhei no horário de 5 e meia da manhã na Rádio Jornal do Brasil, departamento de radiojornalismo. Acordava a noite e via o Rio de Janeiro despertar com suas primeiras luzes naturais avançando sobre as artificiais que iam se apagando em ritmo descompassado. A Rádio JB funcionava no antigo prédio do JB, hoje Into, na avenida Brasil, 500.

De vez em quando saia do trabalho (uma da tarde), comia do bandejão do JB e trôpego de sono ia até a Quinta da Boa Vista, onde me esticava embaixo de uma boa árvore e dormia pra cacete. Lá conheci um sujeito, um homem do realejo e decidi verificar a minha sorte. Ele abriu a gaiola, a musiquinha característica começou a tocar, o periquito saiu, tirou o papelzinho, paguei e saí. Li a minha sorte embaixo de um jambeiro (acho) e estava tudo bem.  

Ao longo do tempo, retirei a sorte outras vezes. Afinal, tudo ali é feito para nos fazer bem (senão o homem, o realejo e até o periquito iriam a falência) e as mensagens eram sempre ultra positivas e algumas até me banhavam de reconhecimento. Pelo que sei, ninguém vive sem reconhecimento. Nem cachorro suporta ser esculachado 24 horas por dia.  De vez em quando um "valeu, Rex!" e um biscoito fazem bem até aos chamados irracionais.

Meu pai trabalhava perto do JB porque sempre trabalhou perto do mar, e um dia e convidou para almoçar, o que era comum. Como ele não me deixava pagar a conta (o que me deixava furioso...bobagem minha, aliás), fomos no Adegão Português onde ele traçou um bacalhau e eu um filé de peixe. Sempre conversávamos compulsivamente e acabei falando do homem do realejo. Meu pai quis conhecer. Saímos do Adegão (adoro o bairro de São Cristóvão) e fomos para a Quinta da Boa Vista no super Fuscão do meu pai. O periquito tirou a minha sorte e depois a dele. Meu pai nunca me mostrou a sorte dele e a minha acabei esquecendo no carro. Como era um cara fechadão, muito na dele, não me surpreendi e dei um assunto "homem do realejo" como encerrado.

Anos depois, fui a casa dele. Organizado, ele mantinha tudo bem guardado e identificado e sua escrivaninha era um primor. O telefone tocou ele ficou falando e vi, num cantinho, uma pequena caixa de plástico cinza com a etiqueta "realejo". Ele não viu que eu vi e mais curioso do que um fofoqueiro voltei na casa dele no dia seguinte, horário em que ele não estava, para abrir a caixa.

Cheguei lá, abri a escrivaninha, pus a mão na caixa mas não tive coragem e indecência de abrir. Imediatamente deixei a casa dele envergonhado e injuriado comigo mesmo já que tinha intimidade suficiente com meu pai para perguntar "que caixa é essa, deixa eu ver?" e no máximo que ele ia responder seria "deixa pra lá, assunto meu".

Hoje tive uma insônia "coast to coast". Só consegui cochilar as 7 da manhã e como estou lendo um livro que fala de um homem do realejo, escrevi esse flash da memória. Homenagem a meu pai, a quem dedico.

A caixinha cinza dele? Nunca mais vi.





quinta-feira, 24 de março de 2016

Charles Bukowski da rua da Conceição

Saudade. Sinto, não nego. Passei o dia e boa parte da noite mexendo com som. Muito som. Som de alta tecnologia, gigabytes, mixagem, edição, remixagem. Som, som, som. As músicas que ouço atualmente chamam a saudade do futuro. Muita. Mas cronologicamente pertencem ao passado segundo os incautos.

Trilha – The Who – Young Man Blues – álbum Live at Leeds

Ano passado voltei para o rádio. Mídia.  Empolgado, aflito, intenso, tenso, denso como o moleque de 15 anos (ou 16, não lembro), magérrimo, cabelos enrolados até os ombros, chegou a Radio Federal AM. Som. Rua da Conceição, Centro de Niterói, verão, alto verão. Rua da Conceição 99, edifício Brasília.

Trilha – Jimi Hendrix – Manic Depression – álbum Are You Experienced?

O Brasília ainda está lá. Semana passada passei em frente, olhei para cima, mas não lembrei de nada. Lembrei sim. Do dia em que caminhava rápido e arfando pela rua da Conceição quando na altura da Galeria Gold Star (o edifício Brasília fica ao lado) avistei uma rodinha. Populares contemplavam o chão. Deitado, babando, um homem de meia idade num ataque epilético. Não parei para olhar, segui reto. Parei, voltei. Para olhar. Me juntei ao povaréu. Olhei. Vi um sujeito enfiar uma caneta Bic na boca do homem que estrebuchava na calçada de pedrinhas portuguesas cheia de buracos. Caneta para não enrolar a língua.

Trilha – King Crimson – Lark´s, Tongues in Aspic – álbum Absent Lovers: Live in Montreal

A ambulância não chegava. Alguém chamou. Não chegava.

Falta de ar, palpitação. Achei que ia cair ao lado do sujeito. Ansiedade. Eu sabia. Sabia? Não, não sabia. Levaram o homem para algum lugar. Lugar nenhum? A rodinha se desfez. Eu já tinha fumado três cigarros. Não por causa do homem. Por causa da rádio. Estava meia hora adiantado e não queria chegar muito antes. A única vez que cheguei atrasado foi quando nasci. A fórceps. Sexta de carnaval.

Trilha – Jards Macalé – Farrapo Humano – álbum Jards Macalé

Banca de jornal. Respirei fundo. Palpitação passou. Uma mulher me cutucou e disse oi. Era Dagmar. Uma amiga prostituta que trabalhava naquela região de oito as oito. Oito da noite as oito da manhã.

Trilha – Led Zeppelin – How Many More Times – álbum Led Zeppelin I

Oi Dag, respondi achando que ia passar mal de novo. Você por aqui?, ela quis saber, expliquei que ia ver um trabalho ali perto. Sorriso de mulher, olhos negros, cabelos negros, pele negra, que mulher era Dagmar que eu só tinha visto à luz da noite. No sol, jamais. Estou indo ao dentista, franguinho, ela comentou. Eu disse que quando pintasse grana eu ia baixar lá no Rink para voltar com ela ao Hotel Ipiranga, espelunca popular onde tomei muito meio banho na pia.

Trilha – The Beatles – Tomorrow Never Knows – álbum Revolver

Cheguei no corredor da rádio 15 minutos antes do horário marcado. Ficava no décimo andar do edifício Brasília. No décimo primeiro jazia uma repartição do que hoje se chama INSS, na época INPS. Me mandaram entrar. Um homem muito bondoso, simpático, gente boa, com ar de tio. Manoelino, discotecário. Foi ele quem me levou a sala de produção da Rádio Federal. E de lá só saí dois anos depois para quase casar com Thin Lizzy, até então mulher da minha vida, que chegou atropelando, jogando no acostamento Dagmás, Nazarés e várias outras empregadas domésticas.

Trilha – Neu! - Hallogallo – álbum Neu!

Thin Lizzy me apresentou ao sexo com amor, mas costumava dizer que eu era um devasso. Não gostava quando ela falava aquilo. Mas continuava devasso, eu acho. Ouvi essa ofensa algumas vezes, muitos anos depois.

Trilha – Wishbone Ash – So Many Things To Say – álbum Wishbone Four

Lia Charles Bukowski compulsivamente para me anistiar diariamente antes de dormir. Lia tudo. Cada linha, um perdão. Cada parágrafo, uma não sentença. Cada livro, o nirvana.

Trilha – Caetano Veloso – It´s a Long Way – álbum Transa

O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.” (Charles Bukowski)

Lia tudo dele. Precisava da louca clemência do alemão que vivia na Califórnia.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me? (...)” 
(Charles Bukowski)

Trilha – Os Mutantes – Caminhante Noturno – álbum Os Mutantes

Vinte e sete dias trancado num estúdio da Rádio Federal ouvindo rock alemão, italiano, grego, inglês, americano, brasileiro. Disseram que eu precisava entender o que estava acontecendo no mundo. Verdade. Eu entendia mas não conhecia. Melhor do que conhecer e não entender, mas os caras não queriam papo.

No dia em que saí da tal “imersão” (cinco horas por dia), fiz meu primeiro programa. Eu já escrevia algumas coisas em jornais de bairro e citei o Bukowski. Citação leve. Na outra semana ele decretou queera um fracasso existencial na célebre entrevista ao The New York Times que a minha futura casa, o Jornal do Brasil, reproduziu. Demiti Bukowski. Adotei Anais Nin, Henry Miller, Carlos Zéfiro e fiquei na dúvida entre Sartre e Camus. Machado de Assis desempatou.

Trilha – Yes – Your is no Disgrace – álbum Yes Album

Dagmar passou na rádio. Queria saber por que eu havia sumido. Você pegou doença comigo?, ela perguntou. Eu disse que não. Você casou?, indagou. Eu disse que não. Finalmente mandou “você se apaixonou?”, eu confirmei. Ela disse tudo bem e pegou o elevador. Que coisa, eu pensei. Talvez tivessesido melhor ter mentido. Mas eu não faria isso com Thin Lizzy, meu amor.

Trilha – Egberto Gismonti – Palhaço – álbum Circense

Hoje revisito essa trilha sonora nublada, quente, úmida, permeada pela rua da Conceição, através de arquivos digitais que um dia já foram álbuns de vinil. Percorro os labirintos do tempo, do espaçoos poros de Dagmás, Nazarés, Thin Lyzzys, meus suores frios, livros, calçada largada, o cara rolando, ambulância que não veio, o amor verdadeiro, o beijo no orvalho, flores do campo, poesia na barca, e tome música, música, música. 

Música.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Paranoia geral

Nunca vi paranoia como a que impera no país atualmente, consequência de tudo o que está aí. Está circulando um vídeo, feito por um doente que se diz cientista político, que alerta para um golpe internacional contra o Brasil, organizado pelo governo. Afirmo que o cara é doente porque o que ele inventa cheira a "verdade absoluta" dos psicopatas.

Não me sinto bem quando me afasto das notícias. Ao contrário, fico mal. Preciso de notícias, informações e os mais de 40 anos exercendo jornalismo ininterruptamente me vacinaram contra boatos, rumores, loucuras como essa. Mesmo assim, algumas "verdades" nos são passadas com riqueza de detalhes assustadora.

A paranoia é geral, mas os vulcões das verdades permanecem derramando toneladas de verdades, uma roda que não para de girar. O Brasil está dividido.  Brasil A e Brasil B espalham as "suas" verdades por aí. Falam muito em guerra civil. Será? Será que depois de 516 anos o gigante decidiu largar o berço esplêndido? Ninguém sabe.

Fato é´que o Brasil A odeia o Brasil B. E isso é lamentável.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Dicas: livros e filmes na Netflix

Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República - Paulo Schmidt

                                        
Com o habitual sarcasmo, este livro desafia de forma divertida e inteligente mitos e verdades pré-concebidas. Uma narrativa envolvente sobre personagens reais, mesmo que eles às vezes pareçam saídas de histórias de terror. Ideal para o momento político em que milhões de pessoas vão às ruas para pedir o afastamento da presidente da República.

Sobre o autor: Paulo Schmidt nasceu em São Paulo e estudou Art & Design em Nova York. É escritor, tradutor e ilustrador. Como editor, publicou livros de Victor Hugo, Alexandre Dumas e H. P. Lovecraft. Entre suas obras destaca-se o primeiro estudo em língua portuguesa sobre o famigerado assassino Jack, o Estripador.


596 páginas



A Noite do Meu Bem: a História e as Histórias do Samba-canção - Ruy Castro     

                                       
Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra proíbe os jogos de azar no Brasil. A decisão gerou uma legião de desempregados — e um grande contingente de boêmios carentes. Os cassinos fecharam, mas os profissionais da noite logo encontraram um novo ambiente: as boates de Copacabana.

Em vez das apresentações grandiosas, as boates favoreciam a penumbra, a intimidade, o romance. Assim como a ambience, a música baixou de tom. Os músicos voltaram aos palcos, mas em formações menores, tocando quase como um sussurro ao ouvido. Essa nova música, as boates e o contexto que fez tudo isso possível são o tema do novo livro de Ruy Castro.


512 páginas

                    Número Zero - de Umberto Eco    
                          
Um grupo de redatores, reunido ao acaso, prepara um jornal. Não se trata de um jornal informativo; seu objetivo é chantagear, difamar, prestar serviços duvidosos a seu editor. Um redator paranoico, vagando por uma Milão alucinada (ou alucinado numa Milão normal), reconstitui cinquenta anos de história sobre um cenário diabólico, que gira em torno do cadáver putrefato de um pseudo-Mussolini.


Nas sombras, a Gladio, a loja maçônica P2, o assassinato do papa João Paulo I, o golpe de Estado de Junio Valerio Borghese, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de atentados e cortinas de fumaça — um conjunto de fatos inexplicáveis que parecem inventados, até um documentário da BBC mostrar que são verídicos, ou que pelo menos estão sendo confessados por seus autores.

Um perfeito manual do mau jornalismo que o leitor percorre sem saber se foi inventado ou simplesmente gravado ao vivo. Uma história que se passa em 1992, na qual se prefiguram tantos mistérios e tantas loucuras dos vinte anos seguintes. Uma aventura amarga e grotesca que se desenrola na Europa do fim da Segunda Guerra até os dias de hoje.

208 páginas
                                 

                Batman - A Piada Mortal - Volume 1 - de Alan Moore                                        

        Do premiado roteirista Alan Moore (Watchmen, V de Vingança) conta como um dia ruim na vida de um homem pode significar a linha que separa a sanidade da loucura. Principalmente quando se trata do Coringa, o maior e mais conhecido vilão do mundo dos quadrinhos. Os desenhos de Brian Bolland (Camelot 3000), um dos maiores ilustradores dos quadrinhos, elevaram a história praticamente à perfeição retratando com maestria o mundo imaginado por Alan Moore. Mas faltava um detalhe para completar a obra. Bolland não pôde colorir a edição original, e agora, vinte anos depois, isso foi corrigido e as cores foram completamente refeitas pelo artista, seguindo fielmente a sua imaginação. Edição obrigatória para os fãs do Coringa, do Batman e dos quadrinhos.

82 páginas
                                  

Dama da Meia-Noite - Os Artifícios Das Trevas - Vol. 1 - de Cassandra Clare                                         

Em “Dama da Meia-Noite”, Cassandra retoma o universo de fantasia urbana da série Os Instrumentos Mortais, que já ganhou a tela de cinema e agora é série de TV exibida pelo canal Netflix. Cinco anos após os acontecimentos de Cidade do Fogo Celestial, acompanhamos os Caçadores de Sombras do Instituto de Los Angeles enquanto tentam descobrir os responsáveis por uma série de assassinatos que vitimam tanto humanos quanto fadas. Agora Emma Carstairs é uma jovem em busca dos assassinos de seus pais, com a ajuda de seu parabatai, Julian Blackthorn. As crianças cresceram e podem se tornar os melhores Caçadores de sua época.
O primeiro livro da nova série da Cassandra Clare, autora de Os Instrumentos Mortais. 1ª edição de colecionador: holográfica + capítulo extra.

560 páginas
  
                         Filmes na Netflix

O Grupo Baader Meinhof – de Udi Edel
                                        



Alemanha, anos 1970. A ainda frágil democracia alemã é abalada por uma série de atentados a bomba. Um grupo liderado por Andreas Baader (Moritz Bleibtreu), Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek) combate o que acredita ser a nova face do fascismo: o imperialismo norte-americano. Eles têm o objetivo de criar uma sociedade mais humana, mas para atingi-lo usam métodos radicais.
         Rush - No Limite da Emoção - de Ron Howard

Anos 1970. O mundo sexy e glamouroso da Fórmula 1 é mobilizado principalmente pela rivalidade existente entre os pilotos Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth). Eles possuíam características bem distintas: enquanto Lauda era metódico e brilhante, Hunt adotava um estilo mais despojado, típico de um playboy. A disputa entre os dois chegou ao seu auge em 1976, quando ambos correram vários riscos dentro do cockpit para que pudessem se sagrar campeão mundial de Fórmula 1.

                  Thelma & Louise – de Ridley Scott
                                              

Louise Sawyer (Susan Sarandon) é uma garçonete quarentona e Thelma (Geena Davis) é uma jovem dona-de-casa. Cansadas da vida monótona que levam, as amigas resolvem deixar tudo para trás e pegar a estrada. Durante a viagem, elas se envolvem em um crime e decidem fugir para o México, mas acabam sendo perseguidas pela polícia americana.
        O Jogo da Imitação – de Morten Tyldum                 

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico monta uma equipe que tem por objetivo quebrar o Enigma, o famoso código que os alemães usam para enviar mensagens aos submarinos. Um de seus integrantes é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático de 27 anos estritamente lógico e focado no trabalho, que tem problemas de relacionamento com praticamente todos à sua volta. Não demora muito para que Turing, apesar de sua intransigência, lidere a equipe. 
Seu grande projeto é construir uma máquina que permita analisar todas as possibilidades de codificação do Enigma em apenas 18 horas, de forma que os ingleses conheçam as ordens enviadas antes que elas sejam executadas. Entretanto, para que o projeto dê certo, Turing terá que aprender a trabalhar em equipe e tem Joan Clarke (Keira Knightley) sua grande incentivadora.

                  Marley e Eu – de David Frankel
                                           

John (Owen Wilson) e Jennifer Grogan (Jennifer Aniston) casaram-se recentemente e decidiram começar nova vida em West Palm Beach, na Flórida. Lá, eles trabalham em jornais concorrentes, compram um imóvel e enfrentam os desafios de uma vida de casal. Indeciso sobre sua capacidade em ser pai, John busca o conselho de seu colega Sebastian (Eric Dane), que sugere que compre um cachorro para a esposa. John aceita a sugestão e adota Marley, um labrador de 5 kg que logo se transforma em um grande cachorro de 45 kg, o que torna a casa deles um caos.
                                          

domingo, 20 de março de 2016

Censura, travamento, mordaça

Há sol nas bancas de revistas, mas a sensação é de prisão. Domiciliar. Há muito a dizer, escrever, berrar, declamar, mas a movimentação da censura interior é acachapante.

Há tempos não vivo um momento parecido, a solidão das reflexões agudas, não sei se lúcidas, mas que, em tese, seriam um direito. Em tese, o mundo seria outro. Em tese, não teria havido o Vietnã, guerra do Golfo,  microcefalia. Em tese não haveria tese. Haveria vida.

Haveria, não. Haverá. Sempre. Enquanto o sempre permanecer agora e ainda. Liberto. Livre. Como, dizem, o amor.

O universo de Raimunda, feia de cara e feia de bunda

             Alheio ao mundo, o cachorro dirige o carro branco
Isso mesmo, Raimunda feira de cara, feia de bunda, tinha um séquito de adolescentes que, sábia, muito sábia, culta e esperta manipulava eroticamente nos idos dos anos 1970. Os meninos, um bando de 28 ávidos comensais, burlavam ordem severas de pais e responsáveis para não se aproximarem de Raimunda porque, diziam, ela era terrorista. Diziam até que planejava sequestrar um avião e que tinha uma doença chamada “furor uterino”.

A meninada procurou saber o que era furor e o que era uterino, juntaram as coisas e deduziram que Raimunda era tarada. Que maravilha! Era o que bastava. Ao longo de 25 dias do mês (nos outros cinco Raimunda sumia mas emprestava sua amiga Alzirinha) os 28 comensais entravam e saiam da casa bege, fincada numa rua não muito calma de um bairro de classe média de uma cidade qualquer. Entravam, saiam, entravam, saiam. Presenteavam Raimunda com relógios falsificados, colares e pulseiras de camelô, perfumes baratos, batom, calcinhas.

Chegou o outono. O bando estava pálido, magro, arfando de cansaço. Pelo menos 12 perderam o ano no colégio, outros ficaram em recuperação e quatro foram expulsos por atentado violento ao pudor em sala de aula. Conversando, sentados numa esquina, chegaram a conclusão que Raimunda não dormia porque...eles praticamente viravam a noite na casa dela e, além disso, souberam enciumados, possessos, rubros de fúria, que ela estava tendo casos com guardas noturnos, operários de uma obra e até com um padre durante a madrugada e "ainda inventada que fazia reunião", comentaram indignados. Como um ser humano consegue viver sem dormir? Como um mamífero sobrevive apenas copulando, bebendo água, comendo somente amendoim, caju, salsicha?

Os 28 não confessavam, mas Raimunda os iniciara não só no sexo mas também no afeto. Negavam, rugiam, berravam, mas estavam sim apaixonados pela mais feia e gostosa mulher de suas vidas, para quem dedicavam músicas, poesias baratas e até xixi que faziam no muro em frente a casa dela, escrevendo com urina frases de amor, desejo, sofreguidão, povoadas de erros de português.

Um dia todos precisaram ir ao médico. Ardências, ardências, ardências. Diagnosticados com “doença de homem” nomearam um porta-voz para avisar a Raimunda que ela...ela...ela não estava bem. O porta-voz foi lá na casa bege, entrou, foi até a cama de Raimunda e disse que...que...que...ela não estava bem. Raimunda chorou. Muito. Pediu perdão e, delicadamente, mandou o porta-voz sair.

Diante da reação, a confraria de amantes de Raimunda decidiu fazer uma vaquinha e comprar 28 rosas vermelhas para ela, devidamente envolvidas num buquê romântico com direito a cartão apaixonado com iniciais dos nomes. Nomearam outro pombo-correio para enviar o buquê, lindíssimo. Chico Pardo, que era albino, foi lá, entrou...não, Chico Pardo não entrou. Portão fechado. Pulou o muro. Porta fechada. Tudo fechado. Ninguém. Voltou para o bando. Onde foi parar Raimunda? O que houve?

Vários choraram e saíram caminhando pelas ruas desolados, em luto. Os 28 mataram aula, não conseguiram almoçar e se trancaram cada um em sua casa, em seu quarto pensando no amor perdido. Teria sido a ardência? Teria sido o padre? Teria sido um operário, um guarda noturno?

A noite souberam pela TV que Raimunda tentara sequestrar um avião as três horas da tarde, mas não resistiu aos ferimentos durante a troca de tiros com soldados do Exército.

Amor eterno”, os 28 escreveram no muro da casa bege e...seguiram a vida, digamos assim.