sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Programa do Jô vai fazer muita falta

Como se sabe, esse é o último ano do Programa do Jô. pelo menos na Rede Globo. Todos os dias por volta de uma da madrugada, o programa entra no ar e o apresentador, jornalista, teatrólogo, escritor, humorista, diretor de teatro e tudo mais Jô Soares comunica que nesse estranho 2016 seu programa ira para os ares. No mau sentido.

Vai fazer muita falta. Em tempos de altíssima imbecilização e molambalização quase generalizada, o programa do Jô vai fazer muita falta. Seus detratores comemoram, o chamam de chato de vaidoso, de egocêntrico, onipotente, mas, queiram ou não, é um programa inteligente, bem humorado, agradável e muito bem feito. Onde assistir entrevistas com gente de teatro, musica, ciência, literatura, esoterismo, com uma pegada forte e bem resolvida?

Quando sair do ar o que vai entrar no lugar? Um enlatado de quinta? Um programa com o novo quindim da sub-mídia, a cantora entre aspas Anitta que decidiu cometer televisão num canal pago? Ou quem sabe aqueles programetes esportivos insuportáveis apresentados por atores-marombas da vigésima nona divisão que tentam fazer da madrugada uma escada para o sub-estrelato?

Jô Soares é um patrimônio da cultura brasileira. Há décadas faz revoluções e mais revoluções por onde passa, seja na TV, Teatro, Cinema, Literatura. Seu programa de entrevistas, chamado de talk show, é o primeiro no país e é muito melhor do que, por exemplo, o Jimmy Fallon que apresenta a sétima encarnação do Tonight Show, na norte-americana NBC, o mais antigo talk show do mundo. Fallon é um coice nos ovos, chato pra cacete.

Entre roscas de bíceps e imbecilidades em geral, fico com a conversa boa do Jô que, com o Jornal da Globo, são os únicos programas que assisto na TV aberta. É uma sensação minha, mas acho que o Jô não está feliz com o fato de sair do ar. Ontem, quando começou o programa e a platéia fez "ohhhhh!!!" quando ele lembrou que é o seu último ano por ali, ele disse "pois é, eu também acho".

É difícil, eu sei. A decisão está tomada. Mas adoraria que o Programa do Jô continuasse no ar em nome da leveza, da informação de qualidade sem sotaques de mundo cão, enfim, pelo conjunto da obra. Ou então que vá para outra emissora. Na minha opinião, o Brasil não pode abrir mão de uma grande figura como Jô Soares no ar, especialmente agora com o país atirado na lama.






Todo mundo tem um chato no pé

A voz muda das ruas sussurra que 90% dos chatos não sabem que são chatos. Já os 10% tem certeza absoluta de que são pessoas sensacionais, raras, necessárias e, claro, pouco modestas.

Na noite de terça-feira encontrei um chato que não sabe que é chato e conversei sobre um outro chato que se julga o belo, o tesouro, o garanhão, mas que não passa de um larápio mal sucedido (se fosse um "bom" larápio ninguém saberia), metido a tradição, família e propriedade mas que pouca gente atura.

Já ouvi dizer que ele é uma espécie Amaury Junior dos submergentes sociais. Não é raro vê-lo “chorando” em ocasiões de seu interesse. Não é raro ouvirmos que ele é usuário de “cristal japonês”, substância usada por alguns artistas e que faz os olhos lacrimejarem abundantemente. É derivado do mentol e no Google há boas definições.

O chato que não sabe que é chato que encontrei é uma pessoa extremamente bem intencionada. Só que quando ele chega perto, sempre falando muito e alto, eu rosno, xingo em pensamento, mas, sinceramente, fico com o coração partido. Por que? O cara é gente boa, se dedica as pessoas, torce por um mundo melhor, mas, coitado, é chato pra cacete.

Ao contrário do molambão do Amaury Junior paraguaio (também conhecido como  G.B.O. – Grande, Bobo e Otário), o chato do bem não tira onda, não se acha, nem se coloca acima do bem e do mal. Já me disseram que ele divide tudo o que tem com todo mundo, não tolera a pobreza de espírito e nem a material, é um democrata, mas, coitado, é chato pra cacete.

O que fazer? Afinal todos nós temos pelo menos um chato em nosso pé e, diz o povo, eles não sabem disso. E quem teria a coragem de chegar para o sujeito, pegar carinhosamente pelo braço, levar para um canto e, com a voz baixa, dizer “desculpe a minha franqueza, meu caro. Mas você está se excedendo...com o passar do tempo tornou-se quase inconveniente, provavelmente um pouco chato”.

Eu não teria coragem de ter uma atitude dessas, desumana e grosseira. Deixem o chato chatear, finjam que não ouviram e toquem a vida porque em algum momento de sua existência ele saberá que é chato. Através de terceiros ou, o que é raro, graças a um insight, um mergulho interior, sonhos, sei lá.

Chato. Definição que nasceu (des) graças aquele primo do piolho que habita os pelos pubianos de quem é fraco no quesito higiene. O chato, inseto, é chato, porque coça, coça, coça, coça e a aflição é tamanha que há relatos de pessoas que chegaram a jogar álcool para arder bem. Por isso, o chato é chato.

Matá-los é constrangedor já que a substância mais eficiente é o Neocid em pó. Aquele que vem numa latinha que faz “plém, plém, plém” quando o usuário aperta para o pó sair. Logo, quando se houve  “plém, plém plém” nas imediações de algum banheiro o grito anônimo do tipo “eita, chatoooo!” é comum.

Mas, e o chato humano? O que fazer? Não há Neocid em pó para ele. Fugir, fingir que não viu, abrir o verbo? Pois é, está aí uma questão que parece não ter solução.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Sob o manto azul marinho de uma noite translúcida

Como sempre faço, olhei para o céu à noite, antes de entrar no carro. Emoção. Luzes das estrelas, dos aviões, das torres de comunicação, luzes da vida.

Antes de vir para casa fui até a beira de uma praia foi deserta até ontem, anos 1970. Parei o carro, saí e fiquei olhando para o céu. Ignorei a prudência coletiva que recomenda cuidado; entrar e sair rápido do carro porque a cidade está entregue aos bandidos.

Olhando o céu avistei um satélite artificial cumprindo a sua missão, em órbita constante singrando a Via Láctea. A emoção me tomou de novo, reforçada pelo ruído suave das ondas pequenas e distantes, desabando na areia.

O céu...claro!, estamos quase em maio, e foi em maio, em pleno outono, que com cinco anos de idade fui levado por meu pai para a praia da vila onde vivi a minha infância. Todas as pessoas com binóculos, lunetas e até um telescópio diziam estar avistando o Sputnik 4, satélite artificial russo.

Eu não entendi. Não entendi porque o Sputnik que vi nas fotos de revista não tinha nada a ver com aquele minúsculo ponto luminoso, menor do que todas as estrelas, do que todos os coleirinhos que cantavam no alto dos ingazeiros e que cortava rápido, bem rápido, o nosso céu. O Sputnik das fotos não era um ponto, mas uma esfera. Eu vi.

Meu pai explicou. Falou da distância, da luz do sol incidindo na esfera, falou do céu, das estrelas, falou de novo dos satélites artificiais, do seu brilho fixo, oposto ao cintilar eterno das estrelas. Falou, falou, falou e recitou um poema. 

Estávamos ele, eu e meu irmão, quase a beira mar naquela noite translúcida. 

Meu pai recitou Olavo Bilac:

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Não entendi nada sobre a incidência da luz, o tamanho do Sputnik, gravidade, força. Mas ali, naquela noite de 15 de maio de 1960, meu pai me ensinou a ouvir estrelas.

E eu nunca mais esqueci.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O direito de acreditar numa ficção

                                                                               



Depois de uma longa, profunda e (por que não?) sofrida pesquisa, comecei a escrever "5 e 15 - Rock Romance". O livro é uma ficção, mas desde que comecei a pensar nele acreditei em Crimson, psiquiatra e cientista obcecado em descobrir uma substância capaz de livrar os seres humanos da dependência química de drogas pesadas. Em especial cocaína e heroína.

Em minha pesquisa, entrevistei grandes psiquiatras, visitei clínicas e muitos fatos narrados no livro aconteceram. O caso do homem que transformou o corte de suas unhas sua linha do tempo, o outro que se achava um pássaro. Algumas situações afetivas também, como o caso uma das mulheres-chave do livro.

Por que o carro, com marca e modelo? Porque tive um e foi nele que viajei para alguns lugares para caçar subsídios para o livro. Livro que é uma homenagem aos amigos, conhecidos e vários ídolos que as drogas pesadas mataram a partir de 1980. Por isso, 1980 é o marco zero de "5 e 15", quando, diz a gíria, começou a "chover branco" no Brasil, ou seja, a cocaína imperou.

Liliana de La Torre, André Valle e Raquel Medeiros foram as primeiras pessoas a acreditarem no livro. Ao André, amigaço, meu forte abraço, a Raquel, também escritora e jornalista, muito obrigado pelo monitoramento, em 2006 e a Liliana minha eterna gratidão. Através da sua Tech & Mídia ela editou a primeira versão (impressa) em 2006. A nova edição, que foi lançada ontem em versão digital na Amazon (conheça clicando aqui: http://j.mp/lam_5_15  está muito, muito diferente e conta com o suporte de Philippe Mello, sobrinho e afilhado, craque em gestão e ideias atípicas.

Continuo acreditando no sonho de Crimson, na potência da ciência associada ao amor e na honestidade de muitas pessoas. Caso contrário, não investiria 12 anos de vida neste trabalho.

P.S. - Doctor Jimmy existiu. Foi um amigo e saudoso terapeuta que revolucionou todos os conceitos da psicologia, mas não deixou registro de sua proposta.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Finalmente lançada a nova versão de meu livro "5 e 15 - Rock Romance"

É com lasciva alegria que comunico o nascimento da nova e definitiva edição de meu livro "5 e 15" - Rock Romance. O livro está disponível em formato digital na Amazon e pode ser lido em smartphone, tablet, notebook, desktop e, lógico, no Kindle e outros e-readers.

Conheça "5 e 15" clicando neste link: http://ww.gazetanit.com.br/5e15.htm

Ou neste:  http://www.amazon.com.br/5-15-Luiz-Antonio-Mello-ebook/dp/B01EP11OW2?ie=UTF8&redirect=true&ref_=cm_cr_ryp_prd_ttl_sol_0

Se preferir, acesse www.amazon.com.br e no campo de busca digite 5 e 15 ou Luiz Antonio Mello.

A primeira edição do livro, experimental,  Beta, foi lançada em 2006, em versão impressa, pela Tech & Mídia Comunicação, de Liliana de La Torre. Rapidamente esgotou.

Foi um longo e caótico desafio que  levou mais de 10 anos para nascer. Afinal, foi implacável a luta obsessiva do médico/cientista Crimson na busca de uma substância para frear a dependência química de drogas pesadas, passa pelo sexo, pelo amor, pela política limpa e suja, terrorismo, espionagem e muito rock autêntico.

Para fazer essa nova edição, contei com o imensurável apoio de Philippe Mello, diretor do "Projeto 5 e 15", que vai promover várias ações na área de Comunicação e Gestão.

De você peço, humildemente, o que há de mais precioso: sua opinião.

Forte abraço,

Luiz Antonio Mello

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It is with a lascivious joy that communicate the birth of the new and definitive edition of my book "5:15" - Rock Romance. The book is available in digital format on Amazon and can be read on your smartphone, tablet, laptop, desktop and, of course, the Kindle and other e-readers.

Meet "5:15" by clicking this link:http://www.amazon.com.br/5-15-Luiz-Antonio-Mello-ebook/dp/B01EP11OW2?ie=UTF8&redirect=true&ref_=cm_cr_ryp_prd_ttl_sol_0

Alternatively, visit www.amazon.com and in the search field type 5 e 15 or Luiz Antonio Mello.

The first edition of the book, experimental, beta, was launched in 2006, in print, by Tech & Media Communication, Liliana de La Torre. Quickly sold out.

It was a long and chaotic challenge that took over 10 years to be born. After all, the obsessive fight Crimson medical scientist in search of a substance to stop the addiction to hard drugs, goes for sex, for love, for clean and dirty politics, terrorism, espionage and authentic rock.

To make this new edition contains with the immeasurable support of Philippe Mello, director of "Project 5:15" that will promote various actions in the area of ​​Communication and Management.

From you I ask humbly, what is most precious: your opinion.

Important: the book is in Portuguese

Hugs,


Luiz Antonio Mello

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Il est avec joie que obscène communiquer la naissance de la nouvelle et définitive édition de mon livre "5h15" - Rock Romance. Le livre est disponible en format numérique sur Amazon et peut être lu sur votre smartphone, tablette, ordinateur portable, ordinateur de bureau et, bien sûr, le Kindle et autres e-lecteurs.

Rencontrez "5:15" en cliquant sur ce lien:http://www.amazon.com.br/5-15-Luiz-Antonio-Mello-ebook/dp/B01EP11OW2?ie=UTF8&redirect=true&ref_=cm_cr_ryp_prd_ttl_sol_0

Sinon, visitez www.amazon.fr et dans le type de champ de recherche 5 e 15 ou Luiz Antonio Mello.

La première édition du livre, expérimental, bêta, a été lancé en 2006, dans la presse, par Tech & Media Communication, Liliana de La Torre. vendu rapidement.

Ce fut un défi à long et chaotique qui a pris plus de 10 ans à naître. Après tout, était implacable lutte obsessionnelle médecin / chercheur Crimson dans la recherche d'une substance pour arrêter la dépendance aux drogues dures, va pour le sexe, pour l'amour, pour la politique propre et sale, le terrorisme, l'espionnage et le rock authentique.

Pour cette nouvelle édition, dit avec le soutien incommensurable de Philippe Mello, directeur du "Projet 05:15" qui favorisera diverses actions dans le domaine de la communication et de la gestion.

Je vous demande humblement, ce qui est le plus précieux: votre opinion.

Important: Le livre est en portugais. 

Meilleures salutations,

 Luiz Antonio Mello



domingo, 24 de abril de 2016

Adão e Ivo

Brejeiro é médico. Obstetra. Finalmente fora absolvido num processo complicado. Ao fazer um parto natural em um elegantíssimo hospital, como de praxe ergueu o bebê e anunciou “é um menino”.

No centro cirúrgico, além da equipe, o pai da criança que, como toda a família, estava gravemente infectado pelo vírus do Politicamente Correto, uma das pestes mais graves da história contemporânea. Indignado, quase rubro de ódio, o pai falou alto no centro cirúrgico.

- Doutor Brejeiro, o senhor não pode condenar meu filho ao sexo masculino. Ele vai escolher o seu gênero ao longo da vida. Ao erguê-lo como troféu e decretar “é um menino” o senhor ignora os mais básicos princípios básicos que norteiam o Politicamente Correto, a nossa sina, a nossa vida.

Brejeiro não se desculpou. Delicadamente entregou o bebê a enfermeira e se retirou. Enquanto se preparava para ir para casa, o médico lembrou que fatos estranhos já haviam acontecido dias antes, quando recebeu o casal numa consulta para tratar do parto.

Ao preencher uma ficha comum, o médico escreveu Adão como o nome do futuro pai e Darlene o da futura mãe. O casal protestou veementemente e exigiu que Brejeiro corrigisse. Adão era o nome da mãe e Ivo o do pai.

Duas semanas após o parto estava em seu apartamento em Vaz Lobo, Rio de Janeiro, quando chegou a intimação judicial. Preocupado, ligou para um amigo advogado que averiguou, no dia seguinte, que tratava-se de uma ação por danos morais contra ele, Brejeiro e contra a enfermeira. Ele por ter “ofendido” o bebê de menino assim que nasceu e ela por tê-lo vestido com um pijaminha azul.

Dias depois, na audiência perante o juiz, Adão, a mãe e Ivo, o pai, disseram que o caso configurava danos morais porque “ao afirmar se tratar o recém–nascido de menino, o médico o condenava ao gênero sexual que ele, médico, achava que deveria ser o correto e não o da futura escolha do bebê.” Quanto a enfermeira o argumento era semelhante, acrescentando que “ao vestir o bebê de azul, e não de rosa e azul, a profissional determinava o sexo das criança”.

Na audiência Brejeiro chegou a dizer ao juiz que caso fosse condenado não só abandonaria a medicina, como também o Brasil e iria viver como aborígene na Austrália. O juiz achou que era deboche, mandou Brejeiro calar a boca mas depois, constrangido, entendeu que o assunto era sério quando o advogado do médico mostrou a passagem Rio-Sydney de ida sem volta e o visto de permanência na Austrália concedido pelo consulado.

Ivo, a mãe, estava mais exaltada. Dizia que “na condição de dirigente sindical, de cidadão que luta pelas demandas agudas de uma sociedade atirada aos dogmas, paradigmas e a dialética que dividem o ser de existir, fui até acusada de ladra, de assaltar o cofre de uma instituição pública por preconceito, racismo, fascismo daqueles que decretam comportamentos, posturas e até gêneros sexuais”. Ivo só não explicou se foi absolvido do processo de corrupção.

Foram ao todo sete audiências. Tensas. Na pequena plateia, sempre 13 pessoas ligadas a sindicatos, partidos políticos arrivistas, ONGs, organizações sociais, lideranças e ativistas de causa sexuais alternativas.

Brejeiro temia pelo pior. O juiz conseguiria resistir a pressão? Conseguiria permanecer frio e racional mesmo ouvindo o som dos atabaques que vinham da rua onde dezenas de pessoas gritavam palavras de ordem, empunhando cartazes com os dizeres do tipo “Viva Adão e Ivo! Morte aos fascistas!”?

O juiz sentou-se. A seu lado 16 policiais militares, lado a lado, em posição de sentido. O Juiz leu o veredicto, curto, muito curto.

- Considero o réu, Doutor Brejeiro Homem das Oliveiras, inocente.

Ponto final.

Alarido, gritaria, princípio de quebra-quebra, gás de pimenta e cassetetes. Brejeiro e o advogado aproveitaram a confusão para sair por uma porta no canto. Lá embaixo, estavam os manifestantes que recebiam uma diária-protesto de R$ 50,00 de uma organização sindical.

No táxi, Brejeiro agradeceu ao advogado e disse que tinha pedido transferência temporária para um hospital geral para atender casos de Zika e microencefalia.

- Ziko, você quer dizer, não é Brejeiro?, comentou o advogado.

- Sim, Ziko. Aprendi que o Politicamente Correto é mais importante do que cura e vacina.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O amigo que perdeu a mulher

Nem tinha sentado quando o outro começou a falar. Uma história reta, direta, objetiva. Num dia daquela semana, decidiu ir trabalhar de catamarã, deixando o carro num estacionamento no Centro de Niterói. Na volta do Rio, por volta das sete da noite, optou por pegar um ônibus com ar condicionado. Afinal, estava vazio.

Veio sentado na penúltima fila, segundo ele, com os pensamentos flutuando naquela noite calma e quase fria de outono. Três ou quatro paradas depois, uma mulher subiu, segundo ele, linda, traços delicados, pele muito morena, mais ou menos alta. Ela sentou no banco ao lado do dele, corredor do ônibus no meio. Trocaram olhares. Duas, três, seis vezes, dezesseis vezes.

O ônibus ainda estava no Rio quando ele sorriu, ela sorriu, ele levantou e sentou a seu lado. Nada falaram. Kamikaze ele a beijou. Longamente. Ela correspondeu. Ato reflexo, ele a pegou pela mão e a conduziu para o último banco. Beijos, beijos, beijos, uma quase mão no seio direito interrompida por ela; mais beijos, muitos.

Trânsito lento. Para a felicidade dos dois. Só no final da ponte Rio-Niterói ele balbuciou alguma coisa do tipo “você mora onde?” e ela sussurrou “São Gonçalo”. Mais beijos e carícias. O ônibus parou em frente ao shopping Bay Market e ela disse que ia descer. Ele também. Lógico. Sorrindo, ofereceu uma carona. Ela aceitou. De mãos dadas caminharam até o estacionamento, entraram no carro dele, mais beijos. Saíram.

Ele não ia a São Gonçalo – cidade vizinha de Niterói -  há pelo menos uns 20 anos, mas não teve a menor dificuldade de chegar lá. Também sorrindo, ela dizia “entre ali, depois daquele orelhão, agora lá, na rua daquele muro de tijolos. Suba aquela ladeirinha, entre ali, lá, na outra rua você dobra, vai. Pode parar na esquina”, pediu. Marcaram um jantar para o dia seguinte. Mais um beijo, ela disse o nome, ele também. Ela desceu do carro e seguiu andando lentamente, até desaparecer numa esquina.

Completamente apaixonado, ele ligou o som do carro e ouviu suas músicas preferidas quando retornava para Niterói. Seu coração estava congelado há alguns anos. Vamos batizá-la de Paula degelou aquele coração.

Voltando para casa, o amigo comemorava sozinho aquele golpe do destino. Destino que o fez atravessar a baía de catamarã na ida para o Rio e ter entrado naquele ônibus vazio na volta. Feliz, chegou em casa, tomou um banho, comeu alguma coisa, falou com as duas irmãs que notaram a sua euforia. Desatento meio que assistiu a um filme na TV por assinatura e foi dormir por volta da meia noite.

No dia seguinte, antes de ir para o trabalho, parou num posto e deu uma ducha no carro. Aproveitou para encher o tanque. No trabalho todos notaram a sua animação e até piadinhas ouviu com bom humor. Bom humor que não perdeu nem quando enfrentou o rotineiro para e anda do trânsito na ponte a caminho do trabalho na avenida Beira Mar, Centro do Rio.

Passou o dia olhando o relógio que só usava em ocasiões muito especiais, um elegante alemão Backer, modelo Stuttgart que havia comprado em sua última ida a Miami a negócios. Trabalhou muito, mas não parava de distribuir sorrisos até a hora que achou que já poderia sair. Afinal, tinha marcado com Paula as nove da noite. As seis e meia já estava dirigindo rumo a ponte. Para e anda, para e anda. Sem problemas. Nada seria problema naquela noite especial.
Atravessou a ponte entrou na avenida do Contorno por volta das oito e quinze, feliz, levemente ansioso, música aos berros. 

Passou em frente a quadra da Escola de Samba Viradouro e chegou ao Barreto, seguindo por uma avenida...que ele não reconhecia. Não reconhecia. Esfregou os olhos com as mãos, diminuiu a velocidade na altura de Neves, um bairro que ele achava que ficava bem mais à frente.

Parou o carro.

- Amigo, que bairro é esse?

- Vila Lage.

Não fez diferença. Percebeu naquele momento, as oito e vinte e sete que havia poucas placas indicativas em São Gonçalo. Um leve desespero parecia ter entrado pelo parabrisa. Acelerou e sentiu o baque da suspensão do carro que subia em trilhos de trem. Ele tinha certeza que o trilho de trem ficava à direita e que não atravessava a via principal. Mas atravessou. Não, não quis perguntar o nome daquela avenida porque não faria nenhuma diferença. Tentou lembrar o tempo da viagem que fizera com Paula na noite anterior. Não mediu. Estavam aos beijos a 40 quilômetros por hora, muitos ônibus e caminhões em volta. O leve desespero se transformara em pânico quando chegou a um bairro ironicamente chamado Paraíso e praticamente jogou o carro num posto de gasolina, perto da Uerj.

- Amigo, isso aqui vai dar onde?

- Depende.

- Depende de que?

- Ora, se seguir em frente direto vai parar em Alcântara, Jardim Catarina...O senhor quer ir para onde?

- Não sei...não sei...ela não disse.

- ?

- Eu não perguntei...

- O senhor está passando bem?

- Não...

Saiu do posto e quase foi atingido por uma van que vinha em alta velocidade. Tinha que admitir: estava perdido. Pior: tinha perdido a provável mulher de sua vida. Envolto na paixão que nascia, no aroma do perfume de Paula, nos prováveis mamilos graúdos, na boca morna, esqueceu do básico: telefone, endereço, bairro.

Ela deve estar achando que furei, que dei um perdido...Ela deve estar pensando que sou um moleque, que só quis me dar bem, dar uns amassos e cair fora...Ela deve estar sentindo...gritou, urrou, sovou o volante e parou de novo. Quase nove e meia e um gari que perambulava por ali disse que aquele lugar se chamava Parada 40.

Esgotado, achou que ia chorar. Nó na garganta, boca seca, respiração ofegante, palpitação. Ninguém podia ajuda-lo a chegar num lugar que ele não sabia onde ficava. Ele literalmente perdeu a mulher de sua vida. A suspeita se tornara realidade, naquele oceano de dor que o afogava.

Acelerou forte, muito forte. Zé Garoto, Mauá, Antonina, lugares mais estranhos do que Marte, Júpiter, Saturno. “Seu merda”, dizia para si mesmo. “Por que não pegou o telefone, não perguntou onde ela trabalha, por que, por que, por que?”. Foi em frente, já em prantos e sem camisa, apesar da quase fria noite de outono e do ar condicionado do carro.

Alcântara. Eram mais de 10 horas. As ruas estavam quase desertas e ele parado. Em que bairro ela morava? Que avenida? Que rua? Que vila? Que picada? Que terreno baldio? Que puteiro? Não importava, ele iria atrás. Uma placa meio caída anunciava o Jardim Catarina e, na sequência, Guaxindiba. Lembrou que já tinha estado em Guaxindiba, no enterro do cachorro de sua prima muitos anos antes. Em Guaxindiba fica um dos maiores cemitérios de cachorros do Brasil.

Voltou. Fez o percurso Guaxindiba-Barreto inúmeras vezes, ao longo de horas, entrando em ruelas, subindo ladeiras, favelas. Teve que parar para colocar gasolina completamente fora de si. Pensou em beber uma cerveja, mas era só o que faltava perder a mulher de sua vida, ficar bêbado, bater com o carro e morrer em local desconhecido.

A última viagem Barreto-Guaxindiba-Barreto (parador) foi as cinco da manhã, quando São Gonçalo já ia trabalhar. O homem apaixonado, deprimido, devastado tomava café com leite e comia pão com manteiga num bar próximo a um cemitério. De gente.

Chegou em casa, tomou um banho e foi direto trabalhar. Todos notaram que estava devastado, arrasado, escalavrado. Nenhuma pergunta, mas muitas dúvidas no ar. O que teria acontecido com aquele homem alegre, gentil e risonho do dia anterior?

Durante 27 dias deu plantão no terminal de ônibus de Niterói, entre as sete e nove da noite, olhando fixamente para cada mulher que entrava nos ônibus. Eram milhares. De mulheres e de ônibus. Pensou em colocar um anúncio em um jornal de São Gonçalo como uma nota de coluna social. Uma foto sua, grande, dizendo qualquer coisa para chamar atenção da futura mãe de seus filhos.

- Então foi isso...eu perdi a mãe de meus filhos, avó de meus netos, companheira de uma vida inteira.

O amigo pagou a conta da lanchonete no Bay Market e disse “isso acontece”.

- Não, isso não acontece, respondeu o entrevado homem.

- Tem razão, isso não acontece mesmo não.




quinta-feira, 21 de abril de 2016

Reflexão sobre cachorros em apartamento

Andando pelas ruas do bairro onde moro vejo dezenas de pessoas com cachorros na coleira, algumas levando nas mãos um saquinho plástico para por as fezes. Noto que a maioria dos cães é obesa por motivos óbvios. Vivem trancados em apartamento, vida sedentária, e por mais que seus donos os ame não conseguem dar ao cão a necessária, fundamental vida ao ar livre. Sofrem os cachorros (que também tem muitas doenças de pele por causa da falta de sol, de rolar na grama, etc), sofrem os donos.

Decidi nunca mais ter cachorro em apartamento por causa do meu melhor amigo, um basset (razão social dachshund) quase idêntico a esse da foto, que morava comigo num apartamento no Ingá, bairro de Niterói. Comprei o cão porque o sol da manhã entrava pela sala. Para melhorar, havia uma varanda onde, imaginei, Titã (esse era o nome dele) poderia curtir o calor (bassets sentem muito frio) do sol, o vento e um pedaço de céu.

Mas eu nunca imaginei que as três necessidades do melhor amigo do homem (desde pequeno sou convencido disso) são: 1 - o dono; 2 - o dono; 3 - o dono. Não importa se não há sol, não há céu, não há chuva, não há comida. Titã só queria saber de mim, numa postura devocional comovente e quase inacreditável. Claro que eu o amava, muito, e fingia que não via, na calada da noite, ele saltar devagarinho para cima da cama e se aninhar no edredon, perto de meus pés.

Eu tinha um jipe com capota de lona, uma Toyota amarela e todos os sábados, domingos e feriados, lá íamos eu e Titã (em pé na porta do carona- lógico que com a coleira amarrada- olheiras voando ao vento) para Itaipu, a minha eterna praia. Soltava o Titã no estacionamento ele ia voando para a areia e me esperava no bar do Neno (razão social Sabino´s Bar). Quando se certificava que eu realmente ia ficar por ali, ele saia para ver os seus amigos, vira-latas da praia (tinha reforço de vacina por causa disso) e também namoradas com quem nunca conseguia cruzar por causa das penas curtas. Seu veterinário era o Hilton (da Veterinária Piratininga) que conhecia bem a peça.

Itaipu toda conhecia Titã, e meus amigos adoravam ficar com ele Titã pegou horror ao mar por culpa da espuma de uma onda que o pegou quando ele tinha quatro meses. Traumatizou. A noite (sempre a noite), voltávamos para casa e ele, cansado, ia deitado no chão do carro. Em casa, banho, comida e ele ia para a cama. Eu voltava para a rua, retornando lá pelas cinco da manhã.

O problema era de segunda a sexta. Eu tinha que trabalhar e por mais que a saudosa diarista Marilza levasse Titã à rua de manhã e a tarde, ele queria o dono. Por isso, quando eu saia (sempre com o coração na mão) não resistia ao seu olhar triste, orelhas e rabos caídos como se perguntasse "você vai me deixar aqui por que?". Aquilo me matava.

Com o tempo achei que era extremo de egoismo manter o Titã naquele regime de solidão. Marilza também ia embora e ele...ficava em casa só. Tinha brinquedos, tinha varanda, mas não tinha o dono. E quando eu chegava a noite era uma festa, ela voava pela casa, parecia um passarinho saltando de um sofá para o outro e logo íamos para a rua. Ele também gostava da noite e num canto lá eu o soltava da coleira.

Mas no dia seguinte, mais sofrimento: dele e meu. Foi quando racionalmente (caramba, como me custou) eu entreguei Titã a Marilza, que morava numa casa com quintal, tinha netos pequenos, enfim, o terror da solidão não iria mais assolar o Titã. Mas e eu? E Itaipu? E...orientado por especialistas, dei o Titã e não o procurei mais. Como ele já gostava muito da Marilza podia fazer melhor a tal da "transferência" e parece que foi isso que aconteceu porque ele durou quase 15 anos, segundo ela, feliz.

Hoje, vendo os cachorros de apartamento encoleirados pelas ruas,  pergunto. É justo isso?