terça-feira, 31 de maio de 2016

Smartphone virou o radinho de pilha do século 21


Desde sempre o rádio de pilha foi o meio de comunicação mais popular no mundo. Ouvi-lo não significava ter que deixar de fazer nada, bastava ligar. Podia-se continuar trabalhando, dirigindo, estudando, namorando, ao contrário das outras mídias que exigem que se abra mão do que estamos fazendo.

Falo no passado porque o radinho de pilha sumiu e em seu lugar entraram os smartphones. Estão em todos os lugares: ônibus, trens, carros, barcas, metrôs, nas calçadas, parques, praias. Em alguns países como a Noruega o rádio em FM foi extinto. As pessoas ouvem direto em seus smartphones ou nos computadores, tablets, enfim, os chamados dispositivos.

Em se tratando de tecnologia, tudo mudou, mas o conteúdo do rádio continua dando prioridade a fala. O sucesso das emissoras que falam e tocam música sobre as que apenas tocam música é gritante em todo o paneta. O rádio sempre foi (e ainda é) visto como um veículo companheiro, que informa, opina, faz rir, chorar. Por isso, quem investe na linguagem se dá bem e quem acha que é só sair tocando música como s rádio fosse um player qualquer, bate com a cara no muro.

Pensando nisso, André Luiz Costa e Luck Veloso, diretores da Rádio Cult FM, investem forte em programas mais falados na rádio. Programas como o Radiocaos que vai ao ar aos domingos, 17 horas, podem, sim, se tornar um fenômeno já que trabalha com uma revolucionária forma de linguagem. 

No caso de meu programa EXPRESSO DA MADRUGADA, fiz a versão REDUX (amanhã estréia em novo horário, as 22h 04m, também na Rádio Cult FM), abro asas para a imaginação. Dos ouvintes e da nossa. Nossa, leia-se, a minha, das colunistas Juliana Demier e Edilene Baldam e dos artistas que passam pelo programa.

A presença da fala no EXPRESSO DA MADRUGADA REDUX, intensa, densa, tem despertado muita curiosidade e cumprido a missão básica do rádio, que é falar, Por isso pergunto sempre a opinião dos ouvintes, saber deles o que estão achando do que é tratado ali.

Amanhã, quarta-feira espero vocês. Temos muito a dizer. Espero que vocês estejam, em massa, do outro lado.

Para ouvir agora no desktop ou notebook, clique aqui:

www.radiocultfm.com

Para ouvir no smartphone ou tablet, clique aqui:

http://www.radios.com.br/aovivo/Radio-Cult-FM/21510

Ou aqui:

http://tunein.com/radio/R%C3%A1dio-Cult-FM-s165898/






sábado, 28 de maio de 2016

Todo dia é dia de livro

Clarice na cabeceira - contos

Versão para Kindle, tablet, smartphone: R$ 17,85 – aqui:


Clarice na cabeceira, organizado pela doutora em Letras Teresa Montero, é uma bem escolhida amostra de instantes de beleza retirados das obras de Clarice Lispector e apontados por 22 integrantes da legião de fãs da escritora.

E não se trata de quaisquer fãs. Luis Fernando Verissimo, Fernanda Torres, Affonso Romano de Sant’Anna, Rubem Fonseca, José Castello, Maria Bethânia e Luiz Fernando Carvalho são algumas das personalidades que compõem o time estelar de colaboradores do livro.

A seleção afetiva realizada por esses escritores, atrizes, cineastas, cantoras, jornalistas e críticos literários reúne textos de cada um dos livros de contos de Clarice: Laços de família (1960), A legião estrangeira (1964), Felicidade clandestina (1971), A via crucis do corpo (1974), Onde estivestes de noite (1974) e A bela e a fera (1979).

Junto a cada um desses 22 contos que compõem Clarice na cabeceira, cada um dos leitores convidados compartilha a experiência de ter Clarice Lispector em suas vidas, seja por ter convivido com ela em algum momento, seja apenas por meio de seus livros. Em ambos os casos, a presença da escritora se faz marcante.


Náufragos, traficantes e degredados: As primeiras expedições ao Brasil - EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA  - Eduardo Bueno



Versão para Kindle, tablet, smartphone: R$ 18,99. Aqui 


Os anos mais desconhecidos da história do Brasil são justamente aqueles que se estendem da descoberta de Cabral, em abril de 1500, à expedição de Martim Afonso de Sousa, em 1531.

Repletas de drama, ação e aventura, essas três décadas não são apenas as mais misteriosas, mas também as mais intensas e movimentadas. Tudo isso graças aos incríveis personagens que acabaram definindo os rumos da colônia: os náufragos, traficantes e degredados.

A partir de diários de bordo, narrativas de viagem e fragmentos de cartas, este livro busca resgatar a trajetória pessoal desses homens de reputação sombria e origem enigmática, à margem da história oficial.

Embora tenham vivido além dos limites, além da lei e aquém da ética, eles foram os primeiros brasileiros – no sentido literal da palavra. Passados 500 anos, é chegada a hora de náufragos, traficantes e degredados recuperarem o papel que desempenharam na construção do Brasil, ao conseguirem se aliar aos índios e conquistar poder político, intermediando o comércio com potências europeias.

Este é o segundo volume da coleção Brasilis, que alcançou a marca de 1 milhão de exemplares vendidos e inaugurou um estilo leve, crítico e divertido de contar a história de nosso país.

Viver vale a pena – Ivo Pitanguy

Versão para Kindle, tablet, smartphone: R$ 9,49. Aqui:


A autobiografia de um dos cirurgiões plásticos mais importantes do mundo

Conheço a morte. Durante toda a vida eu a vi agir. Ela não me apavora. Renunciar à alegria da vida será mais difícil – Ivo Pitanguy

Filho de um casal que cultivava os valores humanistas, Ivo saiu de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro e ganhou o mundo. Elevou a cirurgia plástica, considerada antigamente uma especialidade médica menor, a ramo nobre da medicina. Transformou o Brasil em polo de excelência e ensinamento de técnicas criadas por ele próprio ao longo de cinco décadas.

Criou um centro de estudos para a transmissão de conhecimento, que já formou centenas de profissionais de todos os continentes. Montou uma enfermaria para o atendimento da população comum que beneficia centenas de pessoas por ano. Foi agraciado com os mais importantes prêmios, honrarias e condecorações que alguém pode ter. Chefes de Estado, artistas, políticos, reis e rainhas já se submeteram às suas mãos, consideradas mágicas.

Aos 90 anos, Pitanguy continua trabalhando na 38a Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e em sua clínica, em Botafogo. Bem-disposto, alegre e bem-humorado, viaja frequentemente ao exterior para congressos e homenagens, passa os fins de semana em sua ilha ou na casa na serra e tem a agenda intensa de atividades com a família e os amigos.

Este livro conta como uma aspiração tomou uma dimensão tão grande e transformou tantas vidas. Em uma biografia cheia de humor e descontração, Ivo nos conta seus percalços e obstáculos, além de momentos mais marcantes e afetivos.

Sobre o autor: 
Ivo Pitanguy nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, e trabalhou a vida inteira pela difusão da cirurgia plástica no mundo. Graças às suas realizações, o Brasil é hoje reconhecido como polo de formação e de excelência nesta especialidade médica.

Ganhou inúmeros prêmios, homenagens e condecorações e ainda dá aulas e conferências a convite de universidades e instituições internacionais. Vive no Rio de Janeiro com sua esposa, Marilu, e passa os fins de semana em sua ilha, em Angra dos Reis. Tem quatro filhos e cinco netos.

A Caderneta Vermelha – Antoine Laurain

Versão para Kindle, tablet, smartphone: R$ 22,70. Aqui:


Caminhando pelas ruas de Paris em uma manhã tranquila, o livreiro Laurent Letellier encontra uma bolsa feminina abandonada. Não há nada em seu interior que indique a quem ela pertence — nenhum documento, endereço, celular ou informações de contato.

A bolsa contém, no entanto, uma série de outros objetos. Entre eles, uma curiosa caderneta vermelha repleta de anotações, ideias e pensamentos que revelam a Laurent uma pessoa que ele certamente adoraria conhecer.

Decidido a encontrar a dona da bolsa, mas tendo à sua disposição pouquíssimas pistas que possam ajudá-lo, Laurent se vê diante de um dilema: como encontrar uma mulher, cujo nome ele desconhece, em uma cidade de milhões de habitantes?


O fantasma do medo da liberdade


Para Luis Bunuel, em memória.

Luis,

Você mostrou o quanto são patéticos os dias atuais. Você mostrou o quanto o máximo se fez mínimo em 40 anos. Você foi herói ao espatifar conceitos, cuspir em preconceitos e acordar o fantasma da liberdade com um tapa na cara, quando desabou sobre o mundo em 1.900. Não esquecerei de 1.900 porque não era nascido.

Luis,

Se tempos Donald Trump estuprando até a mais vil canalhice, num páreo inimaginável por você, em todos os anos, dias, horas e minutos de sua existência, devemos isso (sim, Trump é um isso) ao politicamente correto e sua nefasta e anêmica falta de argumentação. Ainda assim, o P.C. tomou o ocidente.

Luis,

O mundo de hoje, que desenterrou as banhas de crochê da corretinha Hilary Clinton, perdeu playboy. Se Trump arrombar a cena será festejado com tiros de fuzis pelos 30 inomináveis mamíferos que curraram a garota que saiu para dançar e não morreu por milagre. Os 30? Não os 30 mil, os 300 mil, os 3 milhões….Se eles soubessem de quem se trata, fariam mil salvas de tiros para Donald Trump que tem chances, sim, de se eleger presidente do EUA já que a dona Baratinha, madame engomadinha, de sobrenome Clinton, não para de vomitar normas, regulamentos, estatutos...

Luis,

O fantasma do medo da liberdade dá nisso. Lembrei de você quando assisti no Netflix o filme “Into de Wild”, de Sean Penn. O cara da história real (codinome Alexander Supertramp) foi bem mais longe do que todos os personagens de seu “Fantasma da Liberdade”, que sacudiu o planeta, em 1974. Sim, Luis, na vida real! O cara foi fundo, rompimento radical, não temeu a vida, a estrada, a miséria. Mas, esqueceu de temer a morte.

Luis, ele não quis ganhar um carro zero de papai e mamãe. Amava o seu velho e carcomido sedã japonês Datsun todo estourado, lanhado, vivido. O Datsun amarelo fazia mal a seus pais porque a vizinhança comentava. E comentário de vizinhança em sociedades pequeno burguesas, é uma foice no escuro. Afinal, diz o estatuto, vizinhança tem que invejar e não esculachar. Por isso papai e mamãe do cara queriam lhe dar um Cadillac zero km no dia da formatura. E aí deu no que deu, um filmaço que arranca as nossas vísceras e atira na parede, como bolas de penis.

Luis,

Tenho muita coisa para te dizer. Muita. E a cada diz me esforço para ignorar o medo do fantasma da liberdade, presente nos ônibus, mares, favelas, ocas, ilhas, estradas, esse estado de sítio existencial que oprime, arranca ar, sabe? Vontade de dizer “castrem aqueles inomináveis mamíferos que estupraram a moça”, mas é proibido. Vontade de dizer “controle da natalidade já no Brasil, em todas as camadas sociais”, mas é politicamente incorreto. Assim como xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx


Entendeu, Luis?

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Na TV, a incrível história das entrevistas do Pasquim

Anote na agenda, na parede, na virilha porque é imperdível. No próximo dia 13 de junho, as 20 horas, começa a série "As Grandes Entrevistas do Pasquim", no Canal Brasil. Demais!
                                                      
O secular colega  Ricky Goodwin (um cara absolutamente do cacete), editor das célebres entrevistas do Pasquim, vibra muito. Com razão. Está confirmada para 13 de junho, as 20 horas, no Canal Brasil o início da série “As Entrevistas do Pasquim”. Serão 13 episódios, dirigidos pelo Ricky.

Com muito prazer, fui convidado e dei uma longa entrevista sobre a minha estada no Pasquim entre 1976 e 1980.
     
Parido quase clandestinamente em 26 de junho de 1969 por Ziraldo, Henfil, Jaguar, Paulo Francis, Ivan Lessa, Tarso de Castro, Flávio Rangel, enfim, pela grossa flor da intelectualidade carioca, o jornal conseguiu desmoralizar a imoralidade, se é que isso faz algum sentido.

Comecei a escrever no Pasquim em meados dos anos 70 e, acima de tudo, convivi cara a cara com meus heróis. Tive o privilégio de vê-los atuando, escrevendo, bebendo, brigando, criando, revolucionando, anarquizando, sacaneando, no quartel general do jornal que funcionava numa casa de três andares e dezenas de degraus de escadaria íngreme na rua Saint Roman, em Copacabana, em frente ao morro do Pavãozinho.                                                                         
Além de artigos, participei de muitas entrevistas e escrevia também para as Dicas do Pasquim, páginas de notas curtas, ácidas, debochadas e verdadeiras como zarabatanas vietnamitas. Não sei quantas vezes cheguei ao pé da subida da Saint Roman e fui obrigado a encostar num botequim enchendo a cara de caldo de cana porque o jornal estava invadido pela tigrada da ditadura (tigrada é uma invenção de Élio Gaspari) que, indignada, eventualmente metia o pé na porta e revirava tudo, "just like a swindler justice officer", diria Paulo Francis.

E, é claro, empastelava (amordaçava) aquela edição do jornal. Como eu ainda não era formado e Ziraldo cismava que era irmão mais velho do mundo, eu estava terminantemente proibido de me aproximar da casa. "Vai que você toma um 477 nos cornos seu put.....", ele explicava. Explico: 477 foi um decreto, filho do AI-5 que expurgava de qualquer escola ou faculdade elementos que a ditadura julgava "subversivos" ou "danosos ao bem estar da nação, a moral e aos bons costumes". Quer saber, caro leitor? Não sei como não tomei um 477 dentro da faculdade e quem estudou comigo sabe por que.

Jaguar, o ex-bêbado mais lúcido que conheço, elogiava minha disciplina. "Se você for em cana não vai sobrar ninguém pra dar a descarga". Gosto do Jaguar e ele diz que gosta de mim, mas faz uma ressalva: "você tem essa deformação etílica, essa mania de não beber e isso te joga no abismo de meus preconceitos".                                                                  
Essa série de TV sobre as antológicas entrevistas do Pasquim vai fazer com que muita gente da nova geração conheça um país que, apesar do pau-de-arara, das perseguição, da covardia dos gorilas, conseguia criar, pensar, refletir. Não vou encher o saco com papo-cabeça dizendo que o Brasil já foi menos anta, mas o Brasil já foi menos anta.

Uma vez presenciei um ataque de fúria de Paulo Francis, dois dias após uma invasão da tigrada. Ele espumava e berrava "eu vou me imbecilizar, eu quero virar imbecil, ir pra porta do Ponto Frio pra ver fogão novo chegar e TV a cores passando jogo de futebol. Eu vou me lobotomizar no Maracanã lotado e brigar na arquibancada, apanhar e bater vestindo camisa de escroto...eu vou desfilar como alegoria de torturador-bicheiro-traficante-sambista na avenida porque eu sou uma alegoria popular. Eu sou um merda porque penso, reflito, sinto...mas ainda bem que bebo até cair (na época), exatamente como essa escrotália gosta!"

O Pasquim não era só risada. Aliás, só um búfalo pantaneiro acha que O Pasquim era um mar de gargalhadas. Não foram 30, nem 60 vezes que vi “dona” Nelma Quadros, amiga de todos nós (e minha em particular), chorar porque um "pasquiniano" havia sido preso, ou, pior, estava desaparecido. Não, eu não fui "pasquiniano" porque seria muita prepotência afirmar. Eu apenas escrevia no Pasquim e via os caras mandarem ver. Um deles (me concedo um off) tinha um estilingue. Estilingue do nordeste, borracha grossa, alta potência. Ia lá para o último andar da casa e, usando bilha de rolimã, acertava falsos funcionários da companhia telefônica (na verdade agentes da ditadura) que ficavam pendurados nos postes da Saint Roman ouvindo as conversas da redação. "Menos um!!!!", comemorava essa grande figura quando derrubava um deles.

Burra, a ditadura achava que as estilingadas partiam da favela e, como sempre se borrava de medo de favela, ficava quieta. As Veraneios pretas (camburões da Chevrolet que serviam as polícias oficial e clandestina) rondavam o jornal como hienas 24 horas por dia. Gozado, ainda hoje os camburões são Chevrolet, só que Blazer. Deve ser coincidência ou resíduo paranoico.

O Pasquim, apesar de nanico, era grandioso demais para abrigar a unanimidade, irmã mais velha da mediocridade. A primeira grande entrevista de Leonel Brizola, quando retornou do exílio, também foi ao Pasquim. Idem com Gabeira e outros banidos que regressaram ao país depois da Anistia em 1979.

Nas asas do iconoclasta e imbatível humor carioca, O Pasquim não fez história. Ele fez a História. E eu vi quase tudo! Eu estava lá com os meus ídolos, jamais de igual para igual porque o temor reverencial ergue muralhas intransponíveis.

Mas percebi que quanto mais geniais eram os "pasquinianos" mais simples e generosos se mostravam no trato com os outros e com os erros dos mais novos. Levei esporro, jamais esculacho, ofensa, humilhação. Mas ai daquele que não conhecesse Português e História. Felizmente nunca aconteceu de eu ter que perguntar quem era quem ou duvidar de um X , Z ou S. Talvez eles perdessem completamente a cabeça diante de um ato imbecil porque, como dizia Tarso de Castro "mula sem cabeça aqui dão come".                                                                    







quarta-feira, 25 de maio de 2016

Saudade do cavalo de Paquetá

                                 

Quando fui a ilha de Paquetá pela primeira vez, não passava de um bronheiro mirim de 12 anos, leitor voraz dos catecismos de Carlos Zéfiro, nutrientes de meu balaústre. Como muitos garotos de minha geração fui um perseguidor implacável de empregadas domésticas, roqueiro iniciante e muito curioso.

Aos 12 anos tive a primeira crise de angústia. Foi em Paquetá, mais precisamente junto ao muro da casa de José Bonifácio. Perdi o ar, senti vontade de vomitar, sensação de leve vertigem, morte iminente e a questão:”será que vou morrer agora?”

Era excursão de colégio e um dos professores quase gritou “você está amarelo!”. Tentei disfarçar, tentei dissimular e, felizmente, o nó na garganta, uma brutal vontade de chorar, impediu que eu balbuciasse a mais remota das frases. Provavelmente iria falar besteira.

Saí andando, fingindo que estava tudo bem, o professor perguntou “melhorou?” eu disse que sim e a excursão prosseguiu, mas fiquei para trás. Disse ao professor que precisava descansar, ficar sentado num caixote embaixo de uma árvore. Ele concordou. “Fique aí, mas não saia para lugar nenhum. Voltamos logo”.

Muito calor, mormaço, foi quando vi um cavalo pastando bem perto. Pangaré, coitado, escravo das charretes que agora foram abolidas. Pensei em montar, sair pela ilha como um Zorro bem resolvido, mas é lógico que não poderia. Ou poderia?

Josélia disse que sim. Josélia, uma garota de uns 17 anos, muito morena, magra, cabelos enrolados na altura dos ombros, descalça, vestido de chita desbotado, abaixo dos joelhos, dizia que era filha da dona do cavalo. Insinuante, perguntou “você quer?”.

Eu ainda estava passando mal, mas queria. Queria qualquer coisa que Josélia me desse. Qualquer coisa. Até chute na cara. Mas ela não queria me dar, queria alugar. Alugar o cavalo da mãe. Disse que a sela estava atrás do muro da casa de José Bonifácio, o freio também. Freio do cavalo, não o meu.

Assim que o pessoal se afastou, Josélia pulou o muro de volta. Muro da casa de José Bonifácio. Vi a sua calcinha, branca, provavelmente de algodão, mas foi só um flash. Montei no cavalo mas, desorientado pelos workshops de Zéfiro, me fiz de vítima, cara de coitado e pedi para ela ir comigo. E ela foi. Montou na minha garupa de onde chamou o nome do pangaré. Não lembro o nome.

O cavalo não marchava, só trotava. Delícia. Delícia sentir os peitinhos de Josélia, recém-nascidos, rumo a alvorada de sei lá onde. Eu já não sabia quem era quem; quem era cavalo, quem era Josélia, quem era eu. Mas sabia que a turma (e os professores) voltariam logo. Foi tudo muito rápido.

Deixei o cavalo parar embaixo de uma amendoeira, me virei e agarrei Josélia. Ela não refugou. Um longo beijo acompanhado de mãozadas mal distribuídas, mas quase na altura do obscuro objeto do meu desejo, Josélia mandou tirar. A mão. Tirei, insisti, tirei, insisti, insisti, insisti, arfando Josélia pulou do cavalo, levantou o vestido perto da calçada, saltou uma cerca e, do outro lado, ficou nua e determinada comandou: “vem”.

Louco, voei do cavalo, pulei a cerca e ouvi os berros chamando meu nome. Era o professor. Josélia já tinha posto a mão, eu já tinha posto a mão, o mundo girava, mas eu teria que...refugar.

O professor me inquiria como um sargento alemão. Disse que eu estava com a aparência pior. Disse que eu precisava ir ao médico. Disse, disse, disse e a turma se fez em grupos, cada um em uma charrete.

Como um eunuco ermo, da charrete avistei o cavalo, longe. Pastando junto a calçada. Josélia devia estar por ali, como sempre esteve.

Semanas depois, num sábado, disse que iria a Modern Sound, em Copacabana, comprar discos. Na estação mudei para a barca para Paquetá, onde o tempo não passava e eu latejava alucinado. Latejo que só Josélia dissipou. Uma. Duas. Seis vezes.


Noite alta, barca de volta, pernas tremendo, paixão vulcânica, até quando eu estaria escravizado por aquela mulher? Em casa, desculpas vãs, levemente imbecis, “isso não se faz, sumir sem avisar”, disseram. Concordei. E me auto exilei no quarto, auge da noite de sábado, lembrando de Josélia que me fez o mais Zéfiro dos Carlos por longos e longos sábados na ilha de Paquetá.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Viva o frio!

Sei que pertenço a minoria absoluta que adora o frio. Logo eu que nasci em pleno carnaval. O frio acalma, tranquiliza, torna as relações humanas mais simples, movimentos mais cordiais. No calor reina a barbárie, a pancadaria, o mau humor mas, sei lá porque, verão é chamado de "tempo bom" e o frio de "tempo ruim".

Fato: os países mais frios são mais desenvolvidos, menos safados e mais humanos em contraste com terras quentes e tórridas. Ontem um vendaval anunciou a chegada d e uma massa polar. Se as cidades não estão preparadas para o seu próprio clima a culpa não é do outono. Leio no noticiário on line a palavra "caos" exibida em várias reportagens. Sim, caos de incompetência, molambalização total dos serviços do Estado.

O frio, comprovadamente, bota ordem na casa. Mas já vejo no Facebook algumas pessoas reclamando. Serão elas as mesmas que fazem aquela barbárie chamada carnaval de blocos, quando a Zona Sul do Rio é destruída sob o reinado da birita? Pode ser. Fato é que o frio está aí. 18 graus agora. Noites mais nítidas (e, por isso, apaixonantes), dias mais azuis, calma, muita calma. Tempos de ouvir eternas canções.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

The Who, a única super banda que ainda não pisou no Brasil

The Who é a única grande banda de rock interplanetária que jamais pôs os pés na América Latina. Se for confirmada a sua vinda ao Brasil, ano que vem, será histórica. Afinal, desde 2015, a banda está em sua turnê mundial de despedida e vai pendurar as guitarras após 52 anos de estrada.

A banda foi criada por Roger Daltrey, um adolescente rebelde da área de Sheperd's Bush (região metropolitana de Londres) onde moravam também Pete Townshend e John Entwistle. Em 1964, o brigão Daltrey arranjou um pedaço de madeira, fez uma guitarra e criou a banda The Detours. Por causa das constantes brigas, foi expulso do colégio e se tornou metalúrgico.

Nesta época o Detours tinha Roger na primeira guitarra, Pete Townshend na segunda, John Entwistle no baixo, Doug Sandom na bateria e Colin Dawson nos vocais. Depois que Dawson deixou o grupo, Daltrey assumiu os vocais e Townshend passou para a guitarra base.

No princípio Daltrey era o líder da banda, ganhando a reputação de exercer a porrada a liderança, apesar de baixinho. Era ele quem geralmente selecionava as músicas a serem apresentadas, incluindo canções dos Beatles, de artistas da MotownJames Brown e alguns clássicos do rock. Em 1964 ele também decidiu na escolha de um novo nome para o grupo, nome este sugerido por Richard Barnes, colega de quarto de Townshend: "The Who".

Em 1965, The Who assinou o primeiro contrato e gravou “My Generation”. Daltrey decidiu largar a guitarra e a liderança, que passou a Pete Townshend. De lá para cá, só sucessos. The Who se afirmou como uma das mais potentes, viscerais e criativas bandas da história do rock. Townshend compôs a mini ópera “A Quick One” (1966), emendou com outro álbum temático chamado “Sell Out” (1967). Na sequência, só rajada pesada: “Tommy” (1969); “Live at Leeds” (1970); “Who's Next” (1971); “Quadrophenia” (1973), etc.

A banda sofreu dois grandes baques, as mortes do baterista Keiith Moon (31 anos) de overdose e a do baixista John Entwistle (58) em 2002 de ataque cardíaco provocado por cocaína. Moon e Entwistle eram considerados os melhores da história do rock.

Se vier, o Brasil verá um show espetacular onde a banda toca todos os clássicos, de todas as fases. Destaques para as presenças do baixista Pino Palladino e do baterista Zak Starkey. Filho de Ringo Starr, Zak era afilhado de Keith Moon e quando fez 11 anos ganhou uma bateria de presente do padrinho.

Que venha o Who!



domingo, 22 de maio de 2016

A abominável (?) fenda do desejo irresponsável, incorreto, arrebatador

Cansado, ele atirou a Honda Africa Twin CRF 1000 no piso enlameado. Foram 874 quilômetros com poucas paradas, cortando um pequeno deserto, duas serras e um trecho de litoral. Ele e a fiel motocicleta, suja, surrada, cansada mas rendida jamais. Arfavam juntos deitados sobre a relva, olhando o céu relativamente estrelado, ar parado, morno. Os olhos pesaram sob o capacete respingado de lágrimas. Lágrimas. Lágrimas.

De manhã cedo pegou um cantil e bebeu num gole só. Olhou em volta, esfregou os olhos. Jogou água, mais água no rosto. Tinha sonhado muito aquela noite, como há muitos anos não sonhava e um sentimento que fundia paixão, desejo, fome e gula pareciam cercá-lo como lobos no deserto de Mojave. Sentou-se em uma pequena pedra e notou que, a frente, havia uma fenda. Exatamente onde passaria com a Africa Twin assim que decidisse dar prosseguimento a viagem rumo ao nada.

Consultou o GPS e estava lá a fenda e a data: era dia de Ano Novo. Engoliu em seco, montou na Africa Twin e seguiu em frente pela não-estrada, comemorando o seu não-Reveillon, de sua quase não-existência. Chegou perto da fenda, que fenda, uns 50 metros de profundidade por 10 de largura.

Contemplou a longa e interminável falha geológica que, pelo que ouviu (mal) escondia um rio no fundo. Na outra margem, muitas árvores, muito verde, e até flamingos rosados. Ele largara o LSD há pelo menos 15 anos, logo, era tudo real. O único flash back era música de Hendrix tocando nos fones, ao vivo no Miami Pop Festival, 1968.

Repentinamente o coração disparou, o ar quase faltou, suor na testa, mãos frias. Na outra margem da fenda ele viu o contorno de uma mulher que, achando-se louco não varrido, seria a mulher de sua vida, protagonista de todos os sonhos que tivera naquela noite. Fixou o olhar….sim era ela. Não a conhecia, mas era ela. Era ela. Ele não procurava mas encontrou. Ou procurava e não sabia? Ou sabia e não procurava?

Num impulso decidiu ir vê-la. Vê-la, pegá-la nos braços, fitar seus olhos, acariciar seus cabelos, beijar sua boca, tirar as roupas e dizer que, enfim, estava ali. De algum lugar do planeta, entre sais, mares, ventos, lama, para os braços da mulher que iria possuí-lo no mais profundo sentido da expressão. Não havia dúvida alguma. A mulher do outro lado da fenda era mesmo a sua dona. Mas, era proibida.

Montou na Africa Twin que parecia entender e acelerou. Paralelo a fenda. Dois, 10, 40, 50 quilômetros. Nenhuma passagem, nenhuma pinguela, nenhuma corda. A mulher de sua vida estava inacessível; 1 – era proibida; 2 – vivia do outro lado da fenda inalcançável.

E o tempo passava, três, 13, 17 horas. Já usava a gasolina do tanque reserva, água e comida acabando mas...e a mulher de sua vida? Marcara no GPS o exato lugar onde estivera sentado. Voltou lá. Entardecia. Sua proibida proprietária, retornava para a mata. Provavelmente até o dia seguinte, os dias seguintes, semanas seguintes, meses, anos, décadas seguintes...até quando?

A decisão dependeria deles, dos nazistas politicamente corretos. Os mesmos que o fizeram montar na Africa Twin e fugir em busca do nada porque o nada era menos asfixiante do que o mundo parido, cuspido e escarrado dos nazistas, cafetões do politicamente correto que tomaram as nações, continentes, engoliram o planeta.

Burlar, transgredir, invadir, romper, desobedecer. Era o que restava. Não se sabe como, ele atravessou a fenda. E pegou a mulher proibida nos braços, fitou seus olhos, acariciou seus cabelos, beijou sua boca, tirou suas roupas e fez-se dela.

Morrer? Era o de menos.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O sinistro mundo dos reaças

Fila de banco. Duas mulheres conversavam animada/desanimadamente sobre seus celulares. Uma, calça jeans, dorso retilíneo, bem interessante, dizia que o seu aparelho era um iPhone 5. A outra, mais para adiposa, mas também gostosa, ostentava um iPhone 6. 

Pensei em me enfiar entre as duas. Participar da conversa. Dizer o que penso do modelo Y ser mais isso do que modelo X que é mais aquilo que o modelo Z, mas bateu preguiça. Vai que me mentia ali e as duas resolvessem achar que era assédio?

Um amigo, gigaintelectual, tem um Fusca 1982 na garagem de seu prédio, no Leblon. Ele me disse uma vez que o melhor carro do mundo é o táxi. Concordei. Quando vivia em Paris, anos 70, ele tinha um Citroen 2 CV, xodó dos existencialistas. Foi ele quem me apresentou a Oscar Niemeyer na célebre tarde em que o mestre da arquitetura decidiu almoçar num restaurante no Flamengo, Rio.

Esses caras mostram que esse papo de obsoleto mundo é e sempre foi uma babaquice, mas lamentavelmente funciona ou a senha “se liga, se liga freguesia, celular é nas Casas Bahia” não teria se eternizado. Em 1976 eu estava no MAM, Rio, no velório de Di Cavalcanti. Ouvi no rádio e fui lá como repórter da saudosa Radio Jornal do Brasil AM, ícone do jornalismo.

De repente entra Glauber Rocha. Descabelado, com um outro cara com uma câmera Bolex de 16 mm. Maior escândalo. Glauber gritava “close na cara do defunto! Close na cara do defunto” e o cinegrafista praticamente trepava no caixão para arrancar o close da cara do Di Cavalcanti. 

Claro, fui falar com o Glauber que eu conhecia das telas do cinema. Aos berros, olhou pra mim e vociferou “esse aí....o Di... nunca pintou modelinho de revista. Esse aí...o Di, nunca acreditou em arte obsoleta como a minha. Não é isso que falam de mim...hein?!?!”, me perguntou, olhos arregalados. Nada respondi porque ainda não tinha chegado a uma conclusão sobre “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na terra do Sol” que assisti, sem camisa, no Cinema Um na Prado Junior (Copacabana), lendária Pradão, que fez um Festival Glauber em 1975, por aí. Para não variar o ar condicionado do cinema estava pifado, para não variar a maioria dos homens estava sem camisa, e para não variar uns cinco ou seis estavam só de cueca, um hábito totalmente glauberiano que virou norma naquela sauna.

No festival Bergman, e no Truffaut e no Cacá, o traje cueca começava a virar padrão naquele templo do novo cinema na Pradão, rua de belas putas populares. Um dia, um homem que se dizia gerente do cinema, de terno, gravata e advogado a tira colo, entrou, mandou acender as luzes do cinema e expulsar os seminus. Ninguém saiu, as luzes apagaram e a sessão continuou. Enterraram o assunto. O cara sumiu. O advogado também.

O consumismo nasceu obsoleto porque já carecia de um novo modelo para faturar. O sujeito compra um carro, paga 70 mil, fica todo satisfeito e no semestre seguinte mudam o farol, as lanternas e o câmbio. É trocar ou perder 80% na desvalorização. Em semanas seu “último tipo” passa a condição de ultrapassado. Incomodado, o ex-feliz proprietário arranca sangue das vísceras e troca (perdendo um dinheirão) o “velho” por um novo que, seis meses depois sai de linha para dar lugar a um outro modelo. E por aí vai. Ladeira acima? Ladeira abaixo? Não sei. Não sou economista e muito menos veterinário para entender os pitís (não tem acento agudo no i) da sociedade emergente crônica.

Quando o Brasil e começou aquela conversa sobre compra de aviões de caça, o “muso” era o F-18. O Brasil comprou o Gripen, puro sangue da Suécia. Os americanos matavam com fuzil AR-15, mas os russos ensinaram a fazer fuzis maiores lançando o ultra fashion AK-47 que tem um jeitão meio vintage. Deem uma olhada nele, atrás do inexistente Bin Laden. O AK é um fuzil autoral.

Segundo a Wikipidea foi inventado em 1942 por Mikhail Kalashnikov que morreu ano passado, um jovem sargento das forças blindadas soviéticas que levou um balaço em 1942 e, no estaleiro, inventou o AK, arma de grife que os traficantes do Rio cultuam como a um disco de Belo, ícone do pagode e do narcotráfico consentido. Lembram que Belo foi preso dentro de um armário, em casa, cheio de armas e drogas anos atrás? Que fim levou essa ocorrência policial? Tornou-se obsoleta?

Enfim, é preciso estar muito atento e forte para não ceder a ditadura nada branda dos reaças que apregoam o estado obsoleto de ser. Até implantes dentários entraram nessa porque, dizem, o parafuso de titânio é melhor do que a coroa de ouro, li numa revista de inutilidades numa ante sala.

Será que um dia haverá homens e mulheres com a validade vencida? Por falar nisso, sabem o que um médico amigo me disse? Que os laboratórios estão reduzindo de propósito a vida útil dos remédios para que a validade vença logo e o consumidor tenha que comprar o modelito em voga, já que não existe antibiótico vintage. Mais: ele me disse que muitos remédios vem com 28 comprimidos porque os laboratórios sabem que o médico vai prescrever para 30 dias e o infeliz do consumidor, no comprimido número 28, terá que comprar outra caixa. É dose? Não, não é. 

Era.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A volta dos que não deveriam ter ido - o VLT é uma versão modernosa dos antigos bonde e troleibus que foram degolados sem explicação

         Bonde elétrico - sem combustível fóssil, sem poluição, silencioso e democrático
             Ônibus elétrico - idem
O VLT é uma versão atualizada dos bondes elétricos. Tudo bem. Quer dizer, tudo bem, não. Se é uma versão atualizada dos bondes, o VLT é uma confissão pública do Estado de que nos anos 60/70, quando os eficientes, silenciosos, não poluentes bondes foram misteriosamente extirpados do Rio, Niterói e outras cidades, houve um erro grosseiro.

Os bondes, arejados, espaçosos, obrigados a circular numa única pista sem poder fazer bandalhas, conviveram muito bem com o troleibus, nibus elétrico ágil, sem trilhos, super eficiente e também adorado pela população do Rio, Niterói e outras cidades (até hoje circula em algumas cidades do estado de São Paulo). Também misteriosamente, o troleibus foi degolado.

O mais boçal disso tudo é que em 1973 o mundo parou por causa da monumental crise do petróleo. A Europa começou a abandonar os veículos a diesel e gasolina e investiu pesado em similares elétricos, além das bicicletas. Maior correria porque a ordem era fugir do petróleo. Debochadamente o Brasil fez o contrário. mesmo com a balança comercial na forca por causa do preço do chamado "ouro negro", Rio, São Paulo, Niterói e outras cidades, na maior cara de pau, acabaram com o transporte coletivo elétrico e passaram a investir pesado no diesel, na fumaça, no barulho, no rombo cada vez maior da dívida externa.

Hoje, com o petróleo valendo uma merreca, Rio, São Paulo, Niterói e outras cidades torram milhões reinventando o bonde, o troleibus, enfim, voltando a um passado que não deveria ter sido abortado. Se os governos tivessem aprimorado o que já existia, aproveitando toda a ,maravilhosa infraestrutura da época (a malha cobria todas as cidades), estaria tudo muito melhor.

Mas algo me diz que andar na contramão da história é uma vocação das nossas (des)autoridades.



terça-feira, 17 de maio de 2016

A Gestapo do politicamente correto teria esquartejado pessoas como Peter Sellers

Estou revendo filmes de um ídolo de adolescência, o genial Peter Sellers, um inglês cardiopata que morreu em 1980, aos 54 anos, de ataque cardíaco.

Nascida na Alemanha nazista, segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, a moléstia chamada politicamente correto, vulgo PC, voltou ao planeta a bordo dos esquerdóides nos anos 90. Se tivesse surgido antes teria esquartejado Peter Sellers em via pública devido a seu "alto teor de liberdade criativa", considerado crime inafiançável e indefensável pela militância do PC.

Teriam jogado no forno, também, Mel Brooks por ter escrito e dirigido e clássico do humor “Banzé no Oeste” e cerca de 90% da produção intelectual mundial (des) graças a seus regulamentos, regras, estatutos.

Não podemos chamar um branco de branco, um negro de negro. No último carnaval, em Minas, um casal resolveu se fantasiar de Aladdin e Jasmine e o seu filho de 2 anos de Abu, o macaco de estimação e um dos melhores amigos do personagem. O casal quase foi linchado porque a Gestapo do politicamente correto decretou que fantasiada de macaco, a criança estava sendo racista.

O PC tem vínculos uterinos com o império da corrupção e do jogo do bicho que comandam, também, o carnaval no Rio de Janeiro. Na Marques de Sapucaí o PC deixa rolar porque mama forte nas tetas da imundice, como bem mostra o magistral livro “Os Porões da Contravenção – jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otavio.

Foi o politicamente correto que inventou toda a geração de políticos que assola o país desde o início dos anos 90, alguns filhotes da famigerada UDN, um nefasto partido, União Democrática Nacional, cujo lema era uma frase e Thomas Jefferson: “"O preço da liberdade é a eterna vigilância". Com o apoio da UDN o presidente Jânio Quadros proibiu o uso de biquínis nas praias e piscinas de todo o país.

Em 1957, quando era governador de São Paulo, proibiu a execução de rock nos bailes no Estado de São Paulo por considerá-lo imoral e também os gritos de vendedores em feiras livres por achar que são assédio.

Em suma, o politicamente correto inventou o “desviver”, o desprazer, o “é proibido permitir”, jogando a sociedade num curral de perversidades moralistas.

Até quando?







WhatsApp, um arrombador existencial chato pra cacete

Admito que sou reservado demais, na minha demais e blá blá blá demais, entendeu? Não? Vou tentar desfiar o novelo: desde que comecei a falar sou viciado em notícias, informação. Leio, leio , leio, ouço, ouço, ouço, assisto, assisto, assisto, bato papo, bato papo, bato papo. Em compensação a vida alheia não me desperta, sequer, sintomas básicos de frisson.

O aplicativo Whatsapp entrou na minha vida pela janela do trabalho. E para trabalhar é até razoável. E ainda permite falar com amigos que moram na casa do cacete sem pagar DDI, enfim, não sou mula a ponto de afirmar que o aplicativo é apenas um estorvo.

De uns meses para cá decidi dormir com o celular ligado. Nunca dormi bem, minhas noites são como prováveis mini séries de Win Wenders (que não fez mini série alguma). Mais: desde embrião só tenho pesadelos. Vários, todas as noites, alguns recorrentes, outros inéditos. Sonhos lindos, com boa música, belas mulheres, ilhas paradisíacas? Nunca. Mas o assunto não é esse.

Boto o celular no criado mudo (que de mudo nada tem), leio e quando estou para apagar e entrar na primeira parte do meu conturbado sono (interrompido, em média, 10 vezes por noite), desligo o abajur e durmo. Ou melhor, dormia. O whatsapp estava me molestando com seus bips e tremedeiras no meio da noite. Para me livrar do assédio, ao invés de virar papara o lado, dar aquela suspirada e dormir, antes tenho que pegar o celular e desabilitar a conexão em wifi. Parece que resolveu. Parece.

O problema maior desse aplicativo é ser enxerido. Ele diz onde estou, a hora, se li mensagens, se não li, passa a malha fina. Ou seja, o aplicativo faz algo que detesto, detesto, detesto: dar satisfações de minha vida. OK, fui lá em configurações, detonei tudo o que podia detonar mas ainda assim, não sei não.

Da mesma forma que por razões que não cabem, aqui aboli a Apple de minha vida no ano 2000, quando comprei um iMac muito bonitinho que parecia uma bolha colorida mas que ficou somente um mês comigo. Apesar do suporte metido a bom samaritano da Apple, a máquina que comprei volta e meia congelava tinha que ser desligada na tomada. Quis trocar, a Apple disse não. Pior: Apple é muito virginiana pro meu gosto, tudo muito organizadinho demais, muito fashionzinho demais, muito neuroticozinho demais. Dei o computador de presente e voltei para o Windows (atualmente estou maravilhado com o Windows 10). Celular? Viva o Android! Sisteminha esperto, bem humorado, permite esculhambação, desordem, caos, etc. Não vive fantasiado de escoteiro como o Ios (isola!) do iPhone.

Quanto ao whatsapp já pensei em desinstalar várias vezes, mas, pelo visto, os mecanismos de defesa contra a invasão de minha privacidade estão funcionando. Até quando? Não sei.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Cauby! Cauby! Cauby! O homem que ignorava o amanhã

Estou muito chateado com a morte de Cauby Peixoto aos 85 em São Paulo. Foi o maior cantor do Brasil nos anos 1950 e 60. Sabia disso, mas não tirava onda, não se achava. Cauby era um cara na dele, não estava nem aí para as questões mais mundanas.

Gravou o primeiro rock em português em 1957, “Rock and Roll em Coipacvabana”, de Miguel Gustavo (que compôs também a marchinha “Pra Frente Brasil”, que morreu novo, 50 anos, e ninguém até hoje me disse a causa. Se alguém souber, me fale.

Em 1952, por intermédio de seu irmão Moacyr, Cauby conheceu Di Veras, famoso empresário, conhecido por suas grandes estratégias de marketing. Ele levou Cauby a São Paulo, especificamente à rua da Rádio Nacional. Di Veras começou a trabalhar na estética de Cauby.

Exigiu que Cauby se vestisse bem (de família humilde não era acostumado), mas perante os cantores da época era uma obrigação ser bonitão. As mudanças no visual de Cauby seriam constantes.

Em 1955 lançou seu primeiro sucesso no Brasil, o “Blue Gardênia”, em uma versão que trouxe doEstados Unidos em português. Na época, era um sucesso na voz de Nat King Cole, ídolo de Cauby. Di Veras trabalhou com Cauby até 1958, quando Cauby atingiu o 5º lugar na parada de álbuns mais tocado nos EUA.

Cauby foi convidado para uma excursão aos EUA poCardinal Spellman em 1955. Durante a viagem no navio, Cauby cantou musicas religiosas. Já nos EUA, com nome artístico de Ron Coby, gravou alguns LP's com a orquestra de Paul Weston, cantando em inglês. Entre 1955 e 1958, ficou indo e voltando dos Estados Unidos.

Em 1956, ele apareceu no filme Com Água na Boca cantando seu grande sucesso, Conceição. Na época, foi citado nas revistas Time and Life como o Elvis Presley brasileiro.

Não exagero quando digo que mais do que Elvis, se permanecesse dos EUA ele teria sido mais um Frank Sinatra, não só pela voz, pelo timbre, mas pela facilidade de cantar vários gêneros. Cauby cantava rock, salsa, bolero, cha cha cha, blues, samba, bossa nova. Uma vez, numa entrevista, ele me disse “o que vier eu traço. É só me dar cinco minutos para memorizar a música”.

Veio para o Brasil porque seu irmão abriu uma boate para ele. Cauby se meteu em administrar o negócio e em meses a boate faliu. Pior: perdeu o trem da história nos EUIA. Mas ele não estava nem aí e seguiu cantando. Aliás, Cauby Peixoto ignorava solenemente o amanhã e sempre disse que adorava ser tascado e desnudado pelas fãs em frente a Radio Nacional quando saia dos programas de auditório. “Eu deixava as roupas mal costuradas de propósito...adora que elas me deixavam só de cuecas aos gritos de Cauby” Cauby” Cayby”. Hahahahahaha”.


Grande figura que vai fazer muita falta, num momento em que sentimos saudade de um Brasil que a maioria não conheceu pessoalmente, banhado de bom humor, talentos natos e politicamente incorreto.


Fique em paz, Cauby!