domingo, 31 de julho de 2016

O homem que perdeu a mulher


Mal sentou e o outro começou a falar. História reta, direta, objetiva. Num dia daquela semana, decidiu ir trabalhar de catamarã, deixando o carro num estacionamento no Centro de Niterói. Na volta do Rio, por volta das sete da noite, optou por pegar um ônibus com ar condicionado. Afinal, estava vazio.

Veio sentado na penúltima fila, segundo ele, com os pensamentos flutuando naquela noite calma e quase fria de outono. Três ou quatro paradas depois, uma mulher subiu, segundo ele, linda, traços delicados, pele muito morena, mais ou menos alta. Ela sentou no banco ao lado do dele, corredor do ônibus no meio. Trocaram olhares. Duas, três, seis vezes, dezesseis vezes.

O ônibus ainda estava no Rio quando ele sorriu, ela sorriu, ele levantou e sentou a seu lado. Nada falaram. Kamikaze ele a beijou. Longamente. Ela correspondeu. Ato reflexo, ele a pegou pela mão e a conduziu para o último banco. Beijos, beijos, beijos, uma quase mão no seio direito interrompida por ela; mais beijos, muitos.

Trânsito lento. Para a felicidade dos dois. Só no final da ponte Rio-Niterói ele balbuciou alguma coisa do tipo “você mora onde?” e ela sussurrou “São Gonçalo”. Mais beijos e carícias. O ônibus parou em frente ao shopping Bay Market e ela disse que ia descer. Ele também. Lógico. Sorrindo, ofereceu uma carona. Ela aceitou. De mãos dadas caminharam até o estacionamento, entraram no carro dele, mais beijos. Saíram.

Ele não ia a São Gonçalo – cidade vizinha de Niterói -  há pelo menos uns 20 anos, mas não teve a menor dificuldade de chegar lá. Também sorrindo, ela dizia “entre ali, depois daquele orelhão, agora lá, na rua daquele muro de tijolos. Suba aquela ladeirinha, entre ali, lá, na outra rua você dobra, vai. Pode parar na esquina”, pediu. Marcaram um jantar para o dia seguinte. Mais um beijo, ela disse o nome, ele também. Ela desceu do carro e seguiu andando lentamente, até desaparecer numa esquina.

Completamente apaixonado, ele ligou o som do carro e ouviu suas músicas preferidas quando retornava para Niterói. Seu coração estava congelado há alguns anos. Vamos batizá-la de Paula degelou aquele coração.

Voltando para casa, o homem comemorava aquele golpe do destino. Destino que o fez atravessar a baía de catamarã na ida para o Rio e ter entrado naquele ônibus vazio na volta. Feliz, chegou em casa, tomou um banho, comeu alguma coisa, falou com as duas irmãs que notaram a sua euforia. Desatento meio que assistiu a um filme na TV por assinatura e foi dormir por volta da meia noite.

No dia seguinte, antes de ir para o trabalho, parou num posto e deu uma ducha no carro. Aproveitou para encher o tanque. No trabalho todos notaram a sua animação e até piadinhas ouviu com bom humor. Bom humor que não perdeu nem quando enfrentou o rotineiro para e anda do trânsito na ponte a caminho do trabalho na avenida Beira Mar, Centro do Rio.

Passou o dia olhando o relógio que só usava em ocasiões muito especiais que havia comprado em sua última ida a Miami. Trabalhou muito, mas não parava de distribuir sorrisos até a hora que achou que já poderia sair. Afinal, tinha marcado com Paula as nove da noite. As seis e meia já estava dirigindo rumo a ponte. Para e anda, para e anda. Sem problemas. Nada seria problema naquela noite especial.

Atravessou a ponte entrou na avenida do Contorno por volta das oito e quinze, feliz, levemente ansioso, música aos berros. Passou em frente a quadra da Escola de Samba Viradouro e chegou ao Barreto, seguindo por uma avenida...que ele não reconhecia. Não reconhecia. Esfregou os olhos com as mãos, diminuiu a velocidade na altura de Neves, um bairro que ele achava que ficava bem mais à frente.

Parou o carro.

- Amigo, que bairro é esse?

- Vila Lage.

Não fez diferença. Percebeu naquele momento, as oito e vinte e sete que havia poucas placas indicativas em São Gonçalo. Um leve desespero parecia ter entrado pelo parabrisa. Acelerou e sentiu o baque da suspensão do carro que subia em trilhos de trem. Ele tinha certeza que o trilho de trem ficava à direita e que não atravessava a via principal. Mas atravessou. Não quis perguntar o nome daquela avenida porque não faria nenhuma diferença. Tentou lembrar o tempo da viagem que fizera com Paula na noite anterior. Não mediu. Estavam aos beijos a 40 quilômetros por hora, muitos ônibus e caminhões em volta. O leve desespero se transformara em pânico quando chegou a um bairro ironicamente chamado Paraíso e praticamente jogou o carro num posto de gasolina, perto da Uerj.

- Amigo, isso aqui vai dar onde?

- Depende.

- Depende de que?

- Ora, se seguir em frente direto vai parar em Alcântara, Jardim Catarina...O senhor quer ir para onde?

- Não sei...não sei...ela não disse.

- ?

-...

- O senhor está passando bem?

- Não...

Saiu do posto e quase foi atingido por uma van em alta velocidade. Tinha que admitir: estava perdido. Pior: tinha perdido a provável mulher de sua vida. Envolto na paixão que nascia, no aroma do perfume de Paula, nos prováveis mamilos graúdos, na boca morna, esqueceu do básico: telefone, endereço, bairro.

Ela deve estar achando que furei, que dei um perdido...Ela deve estar pensando que sou um moleque, que só quis me dar bem, dar uns amassos e cair fora...Ela deve estar sentindo...gritou, urrou, socou o volante e parou de novo. Quase nove e meia e um gari que perambulava por ali disse que aquele lugar se chamava Parada 40.

Esgotado, achou que ia chorar. Nó na garganta, boca seca, respiração ofegante, palpitação. Ninguém podia ajuda-lo a chegar num lugar que ele não sabia onde ficava. Ele literalmente perdeu a mulher de sua vida. A suspeita se tornara realidade, naquele oceano de dor que o afogava.

Acelerou forte, muito forte. Zé Garoto, Mauá, Antonina, lugares mais estranhos do que Marte, Júpiter, Saturno. “Seu merda”, dizia para si mesmo. “Por que não pegou o telefone, não perguntou onde ela trabalha, por que, por que, por que?”. Foi em frente, já em prantos e sem camisa, apesar da quase fria noite de outono e do ar condicionado do carro.

Alcântara. Eram mais de 10 horas. As ruas estavam quase desertas e ele parado. Em que bairro ela morava? Que avenida? Que rua? Que vila? Que picada? Que terreno baldio? Que puteiro? Não importava, ele iria atrás. Uma placa meio caída anunciava o Jardim Catarina e, na sequência, Guaxindiba. Lembrou que já tinha estado em Guaxindiba, no enterro do cachorro de sua prima muitos anos antes. Em Guaxindiba fica um dos maiores cemitérios de cachorros do Brasil.

Voltou. Fez o percurso Guaxindiba-Barreto inúmeras vezes, ao longo de horas, entrando em ruelas, subindo ladeiras, favelas. Teve que parar para colocar gasolina, completamente fora de si. Pensou em beber uma cerveja, mas era só o que faltava perder a mulher de sua vida, ficar bêbado, bater com o carro e morrer em local desconhecido.

A última viagem Barreto-Guaxindiba-Barreto (parador) foi as cinco da manhã, quando São Gonçalo já ia trabalhar. O homem apaixonado, deprimido, devastado tomava café com leite e comia pão com manteiga num bar próximo a um cemitério. De gente.

Chegou em casa, tomou um banho e foi direto trabalhar. Todos notaram que estava devastado, arrasado, escalavrado. Nenhuma pergunta, mas muitas dúvidas no ar. O que teria acontecido com aquele homem alegre, gentil e risonho do dia anterior?

Durante 27 dias deu plantão no terminal de ônibus de Niterói, entre as sete e nove da noite, olhando fixamente para cada mulher que entrava nos ônibus. Eram milhares. De mulheres e de ônibus. Pensou em colocar um anúncio em um jornal de São Gonçalo como uma nota de coluna social. Uma foto sua, grande, dizendo qualquer coisa para chamar atenção da futura mãe de seus filhos.

- Então foi isso...eu perdi a mãe de meus filhos, avó de meus netos, companheira de uma vida inteira.

O amigo pagou a conta da lanchonete no Bay Market e disse “isso acontece”.

- Não, isso não acontece, respondeu o entrevado homem.

- Tem razão, isso não acontece mesmo não.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Livros da semana - 8

Verifique se as edições em papel tem versão digital, compatível com Kindle (ou similares), smartphone ou tablet. Pode custar a metade do preço. 

Livrarias pesquisadas:

Amazon – www.amazon.com.br
Travessa – www.travessa.com.br
Estante Virtual - www.estantevirtual.com.br
Saraiva - www.saraiva.com.br
                                                             

Asas da Loucura


416 páginas

O premiado jornalista americano Paul Hoffman narra a verdadeira e extraordinária história da vida de Alberto Santos-Dumont e dos primórdios da aviação. Fruto de minuciosa e abrangente pesquisa, Asas da Loucura explora, sem mitificação, os aspectos pessoais da vida do aviador e os detalhes de sua personalidade controversa. Retrato sincero de um homem que contribuiu de forma única para a conquista dos céus pelo homem. 

A infância em Minas Gerais, cercado pelas obras de Júlio Verne e pelas narrativas históricas dos primeiros voos em balões. A chegada em Paris e as experiências inéditas com o balonismo e os dirigíveis. A inventividade e a ousadia nos costumes que fizeram do reservado brasileiro celebridade na capital francesa. A ousada circunavegação da Torre Eiffel, em 1901, diante de uma plateia boquiaberta. A tão sonhada fama e o carisma que o tornaram, durante um determinado período, o homem mais célebre do mundo. Os distúrbios psicológicos e a morte precoce cujas circunstâncias são, pela primeira vez, reveladas integralmente. Todos esses elementos participam da construção de uma personalidade contraditória e singular. 

Desde pequeno, na imensa e remota fazenda de café do pai em Minas Gerais, Santos Dumont já demonstrava grande fascínio pelo funcionamento das imponentes máquinas moedoras de café e por motores de toda espécie. Tinha duas obsessões em mente: a primeira era voar; a segunda, alcançar a fama. 

Na virada do século, se muda para Paris. Em pouco tempo, o extravagante e impecavelmente bem-vestido aviador já passeia pelos bares e restaurantes da cidade. Depois de vencer a competição internacional de construção do primeiro avião de verdade, é consagrado pela imprensa como o conquistador dos ares - na época, a notícia dos primeiros voos dos irmãos Wright, grandes rivais do brasileiro ao título de pais da aviação, ainda não chegara à Europa. 

Os anos de glória, porém, seriam breves. Humanitário pacifista, Santos Dumont testemunhou com grande desgosto a capacidade de destruição dos aviões durante a Primeira Guerra Mundial. A consagração dos irmãos Wright foi outro motivo de contrariedade. Cada vez mais recluso, o brasileiro seria diagnosticado com esclerose múltipla com apenas 36 anos. O homem que conheceu cedo a glória terminaria seus dias mergulhado na loucura e no desespero. A história de um homem atormentado, que contribuiu de forma decisiva para a modernidade e simbolizou o espírito torturado do século XX.
                                                    

Histórias Secretas

Os Bastidores dos 40 Anos de Playboy no Brasil



256 páginas


A revista Playboy foi um marco. Tinha uma equipe de profissionais de alto nível, tornando-se referência pelas entrevistas diferenciadas e ousadas com celebridades e políticos, pelo projeto gráfico-visual inovador e pelas grandes mulheres que se despiam para seus leitores.

Este livro reúne as memórias de 15 profissionais que atuaram em Playboy de 1975 a 2015, entre eles jornalistas, fotógrafos e ex-diretores. Cada capítulo revela uma face da publicação, desde as ideias iniciais de concepção da revista, passando pelas negociações com as garotas de capa e as aventuras para garantir as entrevistas exclusivas, além das mudanças que a edição brasileira, a de maior sucesso entre todas as edições de Playboy.
                                                       


Led Zeppelin

Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra


554 páginas

Após 40 anos de sua formação, em um porão da Chinatown de Londres, surge a primeira biografia realmente definitiva de um dos grupos de rock mais famosos e importantes do mundo, o Led Zeppelin.
Eles foram o último grande grupo da década de 1960; o primeiro da década de 1970. Surgiram das cinzas dos Yardbirds para se tornar um dos grupos de rock de maior vendagem de todos os tempos.

Mick Wall, respeitado jornalista musical, conta a história do conjunto que escreveu o manual do excesso na estrada - e acabou pagando por ele o preço do desastre, da dependência de drogas e da morte. "Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra" revela pela primeira vez a verdadeira extensão do interesse do líder da banda, Jimmy Page, pelo oculto, e vai até os bastidores para mostrar a verdade por trás da fama. Wall também conta, numa série de flashbacks imaginários, histórias da vida dos cinco integrantes que transformaram o sonho do Led Zeppelin em uma realidade ainda mais incrível.

Um livro que, acima de tudo, percorre a fascinante história do Led Zeppelin a partir da íntima convivência com o grupo. É o resultado de anos de pesquisa e se baseia não apenas em entrevistas individuais com todos os membros da banda - além de outras feitas por pessoas que os conheciam e trabalhavam com eles -, mas também na visão que só pode ser adquirida por alguém que passou três décadas no meio musical ao lado dos maiores artistas. É o registro perfeito e definitivo de um dos maiores grupos de rock and roll que o planeta já viu.                                                    


Viagem Ao Redor Da Garrafa

Um Ensaio Sobre Escritores E A Bebida

Olivia Laing
324 páginas
Misto de reportagem, crônica, biografia e crítica literária, Viagem ao redor da garrafa: Um ensaio sobre escritores e a bebida destrincha a relação – física, química, psicológica e social – entre a humanidade e o álcool por meio das conturbadas trajetórias de gênios das letras norte-americanas: F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, John Berryman, John Cheever e Raymond Carver. A britânica Olivia Laing se lança em uma jornada pelos Estados Unidos e por suas próprias memórias familiares para buscar uma conexão entre alcoolismo, comportamento autodestrutivo e criatividade.

O título une-se aos recém-lançados A Comuna de Paris e Cubiculados no Anfiteatro, o selo de debates e ideias da Rocco. Nascida em um lar governado pela bebida, Laing quer entender as causas e os efeitos do alcoolismo – ou, mais especificamente, por que os escritores bebem e que consequências esse hábito tem sobre o corpo da literatura. E as experiências desses seis autores parecem se complementar e se refletir umas às outras, interlaçadas por mães autoritárias e pais fracos, inadequação, conflitos de sexualidade, tendências suicidas e mortes prematuras.

Ainda assim, não obstante a tragédia que parece dar o tom a suas vidas, eles foram responsáveis por alguns dos mais belos textos de todos os tempos. “Muitos são os livros e artigos que se regozijam ao descrever quão grotesco e vergonhoso pode ser o comportamento dos escritores alcoólatras. Não foi essa a minha intenção. Meu objetivo era descobrir como cada um desses homens – e, no caminho, alguns dos muitos outros que sofreram da doença – vivenciou seu vício e refletiu sobre ele. Quando muito, trata-se de minha fé na literatura e em sua capacidade de mapear as regiões mais difíceis da experiência e do comportamento humano”, afirma a autora.

A única maneira de tentar compreender os alcoólatras seria, então, pela investigação do que foi registrado em seus livros, cartas e diários. Acompanhada das grandes obras de cada um deles, Laing inicia sua viagem no lugar que Cheever escolheu para viver, escrever e beber – a mesma Manhattan que viu Williams morrer sufocado com a tampa de um frasco de colírio. Faz uma parada em Baltimore, onde Fitzgerald lutou contra a insônia enquanto tentava pôr um ponto final em Suave é a noite, e parte rumo ao sul, passando por Nova Orleans e pela Key West de Hemingway. Via St. Paul, cenário da malograda recuperação de Barryman, segue então para noroeste, chegando aos rios de Port Angeles, cidade em que Carver passou seus últimos anos.

Em paralelo, ao detalhar a maneira pela qual o álcool age no cérebro, Viagem ao redor da garrafa traça um “mapa topográfico do vício” e delineia desde os prazeres da embriaguez até as duras realidades do processo de reabilitação. Mas, como toda boa literatura, não oferece respostas precisas: sua narrativa lírica, desmistificadora e repleta de nuances é, acima de tudo, uma ode à arte da escrita.
                                                        


Me segura que eu vou dar um troço

Wally Salomão

104 páginas

Escrito durante a Ditadura Militar, quando Waly Salomão esteve preso no Carandiru por portar, nas palavras do próprio poeta, “uma bagana de fumo”, o livro surpreende pela dicção fluida e livre, que em nada remete à prisão.

Entre a prosa, a poesia e o ensaio, trata-se de uma obra visceral e revolucionária, determinante para o movimento de contracultura que floresceu no Brasil dos anos 1970. Este clássico volta agora em sua forma avulsa, capaz de nocautear o leitor por sua densidade, violência e radicalidade.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

“Siga o luar interior; não esconda a loucura” (Allen Ginsberg)

Quando ouvi, reouvi, ouvi, reouvi, ouvi, reouvi, ouvi, reouvi “Uivo”, com aquele semblante de tapa na cara que ele tem, novos encontros, desencontros e vadias emoções se sublevaram nos poros do inconsciente. E desabou a pergunta: como esse murro nas vísceras, lançado em 1956 na América do Norte é capaz de reverberar entre quase índios, negros, brancos latinos aqui na América de baixo, vulgo do sul?

Como “Apocalipse Now”, obra maior de Francis Ford Coppola, sinto “Uivo” como uma incursão interior em busca de verdades que muitas vezes inexistem, ou que conseguiram fugir de nossa cotidiana “ofensiva do Tet”, ou que não seriam verdade. Como o “Apocalipse” de Coppola, a obra desleixada, livre, boçal e genial de Ginsberg nada em veias abertas que foram suturadas a força em nosso rico “universo interior”. Hahahahahahahahah.

Na adolescência fui abduzido pelo existencialismo via Albert Camus e depois me atirei no movimento beat após constatar que o existencialismo é uma bela, equivocada e cascateira teoria, não aplicável. No caso da cultura beat, o que assusta é a liberdade. Tudo lá é possível, nada é provável e o tempo é o agora. Os beats não temiam a morte e iam mais além, muito mais além: não temiam a vida. Bebiam todas, fumavam tudo, comiam o mundo, morreram todos relativamente jovens mas, segundo Neil Cassidy, já fora da data de validade. 

Neil Cassidy era uma figuraça, amigo de Jack Keroac que o presenteou com o personagemDean Moriarty no clássico “On The Road”. As melhores imagens de Cassidy estão em “The Other One”, sensacional documentário sobre Bob Weir, guitarrista do Grateful Dead, lançado há pouco pelo Netflix. Valeu a dica, amigo Caíque Fellows!

Ouvir “Uivo” é uma bela experiência. Faz bem e faz mal. Faz bem porque o poema nos oferece a possibilidade de rebater, com chutes, coices, pancadas secas com taco de beisebol. Faz mal porque é impossível não se sentir relativamente medíocre depois de ouvir aquilo tudo.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Lizzie Bravo: a incrível história da garota carioca que gravou com os Beatles

 
                                                                               
1967. A carioca Lizzie Bravo fez 15 anos e pediu uma viagem a Londres de presente aos pais. Passagem na mão, ela e uma amiga embarcaram não para um giro turístico pela capital da Inglaterra e sim para “morarem” em frente a sede da gravadora EMI, onde ficam os lendários estúdios Abbey Road, onde os Beatles gravavam o álbum Sgt. Pepper’s. Mais: no dia em que Lizzie chegou, de cara, ela viu os quatro músicos.

A viagem seria de um mês, mas ao contrário da amiga, Lizzie decidiu ficar, até 1969. Um certo dia, ela estava com amiga inglesa lá fora quando Paul McCartney abriu a porta e perguntou “vocês conseguem sustentar uma nota aguda?”. Lizzie já era cantora, disse que sim e as duas acabaram passando duas horas gravando com os quatro Beatles os backing vocals de uma versão de “Across The Universe” que não é a que está no álbum Let it Be. Saiu depois, em duas coletâneas. Um take da versão está no link lá embaixo.

A poucos centímetros de John Lennon e Paul McCartney, com quem dividiu microfones, a adolescente Lizzie percebeu que os cabelos dos dois mexiam com o ar que saia de sua boca. Não consigo imaginar a emoção. Será que alguém aí consegue?

De volta ao Brasil, em 1969, Lizzie guardou o minucioso diário que escreveu e as 210 fotos exclusivíssimas que fez. Seu plano era lançar um livro, o que aconteceu ano passado. O livro se chama “Do Rio a Abbey Road” e está a venda no site http://www.lizziebravo.com/www.lizziebravo.com .  

Lerei o livro em breve, mas um amigo, super exigente, elogiou. Afinal, é a narrativa original de uma garota de 15 anos, fã dos Beatles, que acompanhou o dia a dia da maior banda de rock de todos os tempos. Por exemplo, Paul McCartney chegando a pé para gravar, ou a bordo de seu lendário Mini Cooper, ou da Ferrari preta e de outros bólidos (sabemos que ele é apaixonado por carros), John Lennon e o Rolls Royce psicodélico, o ambiente, a cidade, os produtores, enfim, Lizzie viu (e fotografou!) quase tudo, de manhã, de tarde, de noite de madrugada em frente ao Abbey Road.

Um livro fundamental para quem gosta de Beatles e de música.



Abaixo, o rascunho da gravação de “Across The Universe”, com Lizzie e a amiga nos backings . Oitavo take. Elas cantam nos refrões “Nothing's gonna change my worlde suas vozes estão nítidas no canal direito.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

O bolinador de Tel Aviv e a bandeirinha de Magé

                                                                                 
Para quem não conhece, Magé é a capital fluminense do absurdo. Calor absurdo, buracos absurdos, humor absurdo, falta d´água absurda, mulheres maravilhosamente absurdas. Fica no calcanhar da Serra de Teresópolis e nos anos 1970 um vereador de lá protestou enlouquecidamente nos jornais.

Indignado com uma publicidade de Teresópolis utilizando a imagem do Dedo de Deus, o vereador berrava que a bela montanha não pertencia a Teresópolis e sim a Magé, pura verdade. Um político teresopolitano, notório apreciador de cachaças em geral, estava na pastelaria do China, que na verdade era filipino, fincada na Várzea (centro da cidade) e disparou: “Ah, o Dedo é de Magé? Então bota numa Kombi e leva, vereador!”.

A partir daí, lenda, pura lenda. O povo diz que o vereador mageense apareceu na pastelaria com uma arma na cintura procurando o político para “meter bala nos cornos daquele viado campeiro, porque se é de Teresópolis é viado campeiro sim”. Diante do calibre da arma do político, ninguém questionou.

Magé, cidade onde, também nos anos 1970, um grande amigo meu, míope, desviou de uma vaca que atravessava a rua, bateu com a roda do carro no meio fio e capotou. Quase desmaiado ao volante, Bidú ouviu o comentário “vamos ter que operar a cabeça dele”. Meu amigo voltou ao ar. Berrou “ninguém mete a porra da mão em mim”. Foi salvo por uma ambulância que, fora da rota (o motorista foi levar a amante em casa), passava por Magé. Recolheu meu amigo e o levou para o Hospital Antonio Pedro, em Niterói, que já foi uma referência nacional em emergência (fechada há anos) e os médicos o salvaram operando, de fato, a sua cabeça.

Tive um tórrido e proibido romance com uma mageense que era recepcionista de um jornal onde eu trabalhava. Ela estava estudando para ser bandeirinha de futebol, mas não direi mais nada porque os meus amigos e colegas já estão sabendo de quem estou falando. Ela deixou o jornal quando o Bolinador de Tel Aviv saiu do elevador, não conteve uma crise de alta libido e se atirou na recepcionista, agarrando seus belos seios balbuciando “podem me demitir, podem me processar...mas eu não aguentava mais”. Foi um escândalo que resultou na demissão de todas as recepcionistas do jornal, substituídas por homens. 99,9% dos jornalistas romperam relações com o Bolinador de Tel Aviv e 0,1% restante era gay.

Uma hora após o ataque (que ocorreu por volta das duas da tarde), ela me ligou pelo interno. “Já soube, paixão?”. Eu disse que sim, que estava preocupado, indignado, injuriado. Ela prosseguiu dizendo que “querem que eu processe aquele senhor, mas eu não vou processar não...dá muito trabalho...mas eu não liguei para isso, não”. Enquanto terminava de editar uma entrevista sobre a usina nuclear de Angra, perguntei “ligou para que?”. Ela me pediu que a levasse a Magé a noite. “Hoje não vai dar para dormir no nosso cafofo, paixão. Vou ter que ir a Magé porque parece que esse ataque do tarado deu até no rádio. Tenho que ver mamãe, papai, sabe como é?”.

Concordei em levá-la a Magé. Liguei para o cafofo, um hotelzinho em Benfica, perto da rua Capitão Abdalla Chama, vulgo rua dos Lustres, onde só tem lojas de luminárias, lâmpadas, lustres em geral e falei com Jonas, gerente, camareiro, garçom e vigia, cancelando a reserva do cafofo aquela noite.

As sete e meia da noite, escondidos no meu carro, peguei-a num ponto de ônibus perto do jornal e rumamos para Magé. Chateada, preocupada, visivelmente tensa, ela rapidamente acendeu um cigarro e jogou a cabeça no meu colo pagando um boquete digno de Oscar+ Grammy+Mega Sena+Bingo clandestino. Embolados como dois caranguejos ouvindo Nação Zumbi, singramos a avenida Brasil como os protagonistas de “Black Emanuelle”, o filme erótico menos hipócrita que já assisti. Quando chegamos na altura da Reduc, atualmente um bordel em Caxias, eu estava totalmente nu. Não é simbolismo. Estava nu mesmo, da cabeça aos pés e mirei o carro na porta do Motel Pisca Pisca que, eu sabia, aceitava cheque pré-datado.

Como dois albatrozes no cio, atravessamos a noite. Só paramos no Corujão, televisãozinha Philco caindo aos pedaços, mostrando o que achei se tratar de um filme de terror. Não me contive e fiz o que gostava de fazer: acendi a luz do teto e brinquei de galeto na brasa, sabe como é? Não sabe? Você pede para ela ficar girando e você contempla aquela obra de arte murmurando para si mesmo “isso é vai ser meu, isso vai ser meu...que coisa...”.

Cinco da manhã. Ela entrava no jornal as nove e eu uma e meia da tarde. Acabou que Magé dançou, mas ela conseguiu convencer a telefonista do motel a ligar para lá dizendo que estava na casa de Fulaninha, que de manhã cedo ia a Casa das Linhas trocar um presente e de lá direto para o jornal. Fiz uma manobra absurda, boçal, inglória mas consegui chegar no posto do Alemão onde tomamos o café da manhã. Saímos e, a poucos metros do posto, puf puf puf, acabou a gasolina. 

Desci, peguei um galão no posto, pus dois litros, paguei um menor abandonado para tirar o filtro de ar e despejar a gasolina, o carro pegou, dei marcha a ré no acostamento, pus mais um quarto de gasolina (estava duro), saí, e as oito e quarenta deixei minha bandeirinha perto do jornal. De lá, fui para um hotel meia estrela perto da rodoviária Novo Rio (que também aceitava pré-datado) e dormi até meio dia e meia.

Quando cheguei ao jornal, uma da tarde em ponto, a notícia. O Bolinador de Tel Aviv fora mantido e todas as recepcionistas demitidas. Luto no prédio. Luto total. Fui falar com ela. Estava de olheiras, tadinha. Pediu para ficar comigo. Claro. Saiu do jornal as três da tarde e foi me esperar em nosso Cafofo em Benfica, onde ficamos internados quatro dias e cinco noites. Era semana santa. Foi quando descobri que estava apaixonado pela bandeirinha de Magé que, pena, casou 15 dias depois.

P.S. – Falarei de Magé outro dia. A saudade me pegou e por isso dediquei essa quase crônica a ela, codinome Nicole.

domingo, 24 de julho de 2016

O homem do realejo

Durante um ano trabalhei no horário de 5 e meia da manhã na Rádio Jornal do Brasil, departamento de radiojornalismo. Acordava a noite e via o Rio de Janeiro despertar com suas primeiras luzes naturais avançando sobre as artificiais que iam se apagando em ritmo descompassado. A Rádio JB funcionava no antigo prédio do JB, hoje Into, na avenida Brasil, 500.

De vez em quando saia do trabalho (uma da tarde), comia do bandejão do JB e trôpego de sono ia até a Quinta da Boa Vista, onde me esticava embaixo de uma boa árvore e dormia pra cacete. Lá conheci um sujeito, um homem do realejo e decidi verificar a minha sorte. Ele abriu a gaiola, a musiquinha característica começou a tocar, o periquito saiu, tirou o papelzinho, paguei e saí. Li a minha sorte embaixo de um jambeiro (acho) e estava tudo bem.  

Ao longo do tempo, retirei a sorte outras vezes. Afinal, tudo ali é feito para nos fazer bem (senão o homem, o realejo e até o periquito iriam a falência) e as mensagens eram sempre ultra positivas e algumas até me banhavam de reconhecimento. Pelo que sei, ninguém vive sem reconhecimento. Nem cachorro suporta ser esculachado 24 horas por dia.  De vez em quando um "valeu, Rex!" e um biscoito fazem bem até aos chamados irracionais.

Meu pai trabalhava perto do JB porque sempre trabalhou perto do mar, e um dia e convidou para almoçar, o que era comum. Como ele não me deixava pagar a conta (o que me deixava furioso...bobagem minha, aliás), fomos no Adegão Português onde ele traçou um bacalhau e eu um filé de peixe. Sempre conversávamos compulsivamente e acabei falando do homem do realejo. Meu pai quis conhecer. Saímos do Adegão (adoro o bairro de São Cristóvão) e fomos para a Quinta da Boa Vista no super Fuscão do meu pai. O periquito tirou a minha sorte e depois a dele. Meu pai nunca me mostrou a sorte dele e a minha acabei esquecendo no carro. Como era um cara fechadão, muito na dele, não me surpreendi e dei um assunto "homem do realejo" como encerrado.

Anos depois, fui a casa dele. Organizado, ele mantinha tudo bem guardado e identificado e sua escrivaninha era um primor. O telefone tocou ele ficou falando e vi, num cantinho, uma pequena caixa de plástico cinza com a etiqueta "realejo". Ele não viu que eu vi e mais curioso do que um fofoqueiro voltei na casa dele no dia seguinte, horário em que ele não estava, para abrir a caixa.

Cheguei lá, abri a escrivaninha, pus a mão na caixa mas não tive coragem e indecência de abrir. Imediatamente deixei a casa dele envergonhado e injuriado comigo mesmo já que tinha intimidade suficiente com meu pai para perguntar "que caixa é essa, deixa eu ver?" e no máximo que ele ia responder seria "deixa pra lá, assunto meu".

Hoje tive uma insônia "coast to coast". Só consegui cochilar as 7 da manhã e como estou lendo um livro que fala de um homem do realejo, escrevi esse flash da memória. Homenagem a meu pai, a quem dedico.

A caixinha cinza dele? Nunca mais vi.