quinta-feira, 25 de maio de 2017

A batalha dos ratos

Os atores dessa ópera podre juram inocência, como todos os atores de óperas podres ao longo do tempo.

- O PT e seus partidos de fé promoveram o maior assalto da história do Brasil.

- O PSDB deu asas a um senador que sempre achei arrivista e que foi denunciado como larápio de primeira grandeza.

- O PMDB sempre foi um covil. Sempre. Agora mais do que nunca.

- Os outros partidos restantes não alteram o produto: todos uma merda.

- Estão enjaulados e indiciados grandes empresários que praticaram corrupção ativa contra os famigerados “agentes públicos”.

- O fundador do PT e sua sucessora no Planalto juram inocência.

- Um vaqueiro que se tornou milionário nos governos petistas traficando carne podre e propinas exibe uma gravação que detona o presidente da república.

- Presidente peemedebista que só existe porque o PT o fez vice duas vezes. Duas!
Depois, surfando numa inexplicável impunidade, o bandido noturno pega o seu jato Gulfstream e se manda para Nova Iorque com a família, para curtir a cobertura que tem na Quinta Avenida.

- Cercado de amigos delinquentes, esse indefensável presidente, diga-se de passagem também é um merda.

- Comandados pelo PT e financiados pelo imposto sindical, os meliantes sociais organizaram uma baderna em Brasília. Alugaram 500 ônibus (a diária de um carro popular numa locadora custa 90 reais em média, imaginem um ônibus), encheram de meliantes pagos e resolveram atacar prédios de ministérios. Eles sabem que ministério pertence ao Estado e não ao governo mas como em sua arrogância e impunidade eles acham que são o estado e dane-se.

- O presidente que acoberta safados na calada da noite na garagem da casa onde vive recebe um telefonema de outro implicado na Lava Jato, um imbecil que preside a Câmara dos Deputados.

- O imbecil disse que pediu ao presidente para determinar a ida da Força Nacional de Segurança para a Esplanada dos Ministérios para conter a fúria dos meliantes sociais.

- Só que não havia efetivo e o anêmico presidente convocou o Exército.

- Na Esplanada a PM atirava nos meliantes sociais, covardemente. Os meliantes sociais incendiavam ministérios, com gente dentro, covardemente.

- Os meliantes sociais resolveram voltar para os ônibus alugados que estavam estacionados no Estádio Mané Garrincha, a um quilômetro da Esplanada. No caminho foram destruindo tudo, inclusive ônibus que servem a população.

- Nas rádios e TVs a discussão: quem assume caso o presidente de merda renuncie? O presidente da Câmara? Não pode, está cagado na Lava Jato. O presidente do Senado? Não pode, também está cagado na Lava Jato. Resta a presidente do STF.

- Por enquanto, parece que é isso.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tiê sangue

Meses atrás meu irmão ligou. Contou que tinha acabado de ver um tiê-sangue lindíssimo. Tentou fotografar mas, arisco como todo tiê-sangue, ele voou rumo ao desconhecido.

O tiê-sangue é um dos mais
belos arquétipos de minha infância. Minha e também de meu irmão. Vivemos numa pacata vila em Angra dos Reis, povoada pelos tiês e também coleiros, canários da terra, sanhaços, sabiás. Sanhaços, sabiás e tiês sangue tem o mesmo tamanho, a mesma importância e estão, os três, e também os coleiros e canários da terra, em extinção.

Conheci a inocência em estado puro. A ingenuidade, os sonhos, o desejo de não crescer jamais, jamais, jamais. Os pássaros, o mar, as árvores, minha mãe costurando próximo a janela de nossa casa que sorria quando eu a chamava de mãezinha, a figura longilínea de meu pai chegando em casa, fardado (Marinha), depois do trabalho.

No ano passado vi um tiê sangue pousado numa árvore no quintal do estúdio Nas Nuvens, do Liminha, no Jardim Botânico, Rio. Achei que era vertigem. Era de manhã e ele estava pousado numa goiabeira a pouquíssimos metros de mim. Fiquei olhando seus movimentos rápidos, seu reflexo, sua tensão. Logo, voou e imediatamente liguei para o meu irmão, mas o celular dele estava ocupado. Em seguida começou a gravação e tive que guardar a imagem na memória. Não quis fotografar para não espantar.

Hoje, pensando no tiê que meu irmão viu, refleti sobre a impossibilidade de ser burro e binário como um computador. Muitas vezes tive (como tenho) vontade de reiniciar tudo e, as vezes (não muitas) de formatar meu HD, o que de certa maneira venho fazendo de u
ns tempos para cá e seguirei ao longo dos dias que vão vir.

Dizem que essas resoluções tem a solidão como combustível. Concordo. A solidão não é de toda má, como mostra o tiê-sangue que gosta de voar sozinho, mas vive em bando. Muitas vezes a solidão incomoda. A ponto de, em muitos casos, decidirmos formatar o nosso HD e, quem sabe, instalar um novo sistema operacional enquanto há tempo. Tempo, iguaria que com o passar do tempo se torna mais escassa.
Fora isso, o desejo de sumir, evaporar, viver o resto do que resta num lugar longínquo, sem qualquer meio de comunicação, para descansar, descansar, descansar.

Quase escrevi que além de reiniciar a máquina, formatar o HD e instalar um novo sistema operacional, tive vontade de seguir o exemplo do tiê-sangue
em seus voos solitários rumo ao desconhecido. Mas se ele estivesse 100% certo não encabeçaria a lista de pássaros em extinção no mundo.





segunda-feira, 22 de maio de 2017

Cascata

Tive o trabalho de fazer um levantamento de notícias publicadas na página que uso no Facebook nos últimos seis meses. Mais de 70% eram mentiras, boatos, terrorismo emocional e afins.

Os jornais estão fazendo uma enorme campanha alertando que a imprensa é o meio mais confiável para se obter notícias verdadeiras. Em tese, sim. Apesar de, na quinta-feira, um jornalista renomado ter dado uma das maiores barrigas (notícia falsa) do ano ao anunciar no site de seu jornal gigante que Temer iria renunciar naquela tarde. Deu detalhes, disse que Temer já havia conversado com ministros, etc. Quebrou a cara. A cara dele e a dos leitores.

Em tese, a imprensa tem mais credibilidade. Em tese, a imprensa contrata profissionais treinados para apurar incansavelmente as notícias antes de publicá-las. Só que de tempos para cá, muitas empresas optaram por mão de obra barata. Os estagiários e trainees, que deveriam estar nas redações para aprender o ofício, atualmente trabalham como gente grande, apurando mal, escrevendo mal, falando mal no rádio porque, afinal, estagiários e trainees vieram ao mundo para errar e aprender. Internamente, sob forte supervisão. E não para saírem publicando a torno e a direito.

Ontem a noite ouvi no rádio um âncora mirim dizer que uma atleta havia morrido em consequência de um acidente com uma van que transportava o seu time. Acho que de vôlei, não tenho certeza. Vários feridos. No final da notícia, o âncora mirim informou (?) que o nome da atleta morta e também dos feridos não tinham sido divulgados.

Pecado capital.

Até uma ameba sabe que num caso como esses, até se ter os nomes, não se pode divulgar uma notícia. Motivo: pânico. Quantas milhares de pessoas tem parentes, amigos e conhecidos andando de vans naquele momento? Quando não se divulga o nome de quem morreu e também dos feridos, gera-se uma paranoia coletiva.

Lembro bem. Nos meus tempos de estagiário, um repórter profissional foi suspenso porque pôs no ar a seguinte notícia: “um Fusca branco bateu no viaduto dos Marinheiros. O motorista morreu e o trânsito está complicado no local”. Não deu nomes, nem placa. O chefe o suspendeu imediatamente alegando que milhares e milhares de pessoas, naquela época, tinha Fuscas brancos e muitos deles estavam naquela região.

Em tempos de internet cascateira e terrorista, podemos, sim, pedir abrigo a imprensa formal. Mas, com muita moderação e checando (não é papel do leitor, mas fazer o que?) a notícia em pelo menos três grandes sites para sair espalhando por aí.


Não é?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Raimunda

Raimunda era feira de cara, feia de bunda, mas possuia um séquito de adolescentes que, sábia, muito sábia, culta, esperta, ninfomaníaca insaciável, manipulava eroticamente nos idos dos anos 1970. Os meninos, um bando de 28 ávidos comensais, burlavam ordem severas de pais e responsáveis para não se aproximarem de Raimunda porque, diziam, ela era terrorista. Diziam até que planejava sequestrar um avião e que tinha uma doença chamada “furor uterino”.

A meninada procurou saber o que era furor e o que era uterino, juntaram as coisas e deduziram que Raimunda era tarada. Que maravilha! Era o que bastava. Ao longo de 25 dias do mês (nos outros cinco Raimunda sumia mas emprestava sua amiga Alzirinha) os 28 comensais entravam e saiam da casa amarela, fincada numa rua não muito calma de um bairro de classe média. Entravam, saiam, entravam, saiam. Presenteavam Raimunda com relógios falsificados, colares e pulseiras de camelô, perfumes baratos, batom, calcinhas.

Chegou o verão. O bando estava pálido, magro, arfando de cansaço. Pelo menos 12 perderam o ano no colégio, outros ficaram em recuperação e quatro foram expulsos por atentado violento ao pudor em sala de aula. Conversando sentados numa esquina chegaram a conclusão que Raimunda não dormia porque...eles praticamente viravam a noite na casa dela e, além disso, souberam enciumados, possessos, rubros de fúria, que ela estava tendo casos com guardas noturnos, operários de uma obra e até com um padre durante a madrugada e "ainda inventada que fazia reunião", comentaram indignados. Como um ser humano consegue viver sem dormir? Como um mamífero sobrevive apenas copulando, bebendo água, comendo amendoim, manga e salsicha? É a força do amor.

Os 28 não confessavam, mas Raimunda os iniciara não só no sexo mas também no afeto. Negavam, rugiam, berravam, mas estavam sim apaixonados pela mais feia e gostosa mulher de suas vidas, para quem dedicavam músicas, poesias baratas e até xixi que faziam no muro em frente a casa dela, escrevendo com urina frases de amor, desejo, sofreguidão, povoadas de erros de português.

Um dia todos precisaram ir ao médico. Ardências, ardências, ardências. Diagnosticados com “doença de homem” nomearam um porta-voz para avisar a Raimunda que ela...ela...ela não estava bem. O porta-voz foi lá na casa amarela, entrou, foi até a cama de Raimunda e disse que...que...que...ela não estava bem. Raimunda chorou. Muito. Pediu perdão e, delicadamente, mandou o porta-voz sair.

Diante da reação, a confraria de amantes de Raimunda decidiu fazer uma vaquinha e comprar 28 de rosas vermelhas para ela, devidamente envolvidas num buquê romântico com direito a cartão apaixonado com iniciais dos nomes. Nomearam outro pombo-correio para enviar o buquê, lindíssimo. Chico Pardo, que era albino, foi lá, entrou...não, Chico Pardo não entrou. Portão fechado. Pulou o muro. Porta fechada. Tudo fechado. Ninguém. Voltou para o bando. Onde foi parar Raimunda? O que houve?

Vários choraram e saíram caminhando pelas ruas desolados, em luto. Os 28 mataram aula, não conseguiram almoçar e se trancaram cada um em sua casa, em seu quarto pensando no amor perdido. Teria sido a ardência? Teria sido o padre? Teria sido um operário, um guarda noturno?

A noite souberam pela TV que Raimunda tentara sequestrar um avião as três horas da tarde, mas não resistiu aos ferimentos durante a troca de tiros com soldados do Exército.

Amor eterno”, os 28 escreveram no muro da casa amarelo e...seguiram a vida, digamos assim.

sábado, 13 de maio de 2017

Bege, não!


Me disseram que o Brasil está bege. Nem lá, nem cá. Nem marrom, nem amarelo. Nem preto, nem branco. Quem me disse acha que bege é o nada, o vazio, o "destesão", eu até concordo, mas dizer que o Brasil está bege já é demais.

O Karman Guia TC 1974 foi um de meus melhores carros. Maravilhoso, perfeito e eu era apaixonado por ele. O único problema é que era bege, igual ao que está lá em cima, na foto. Uma vez quase pintei de vermelho, como o da foto de baixo, mas seria muito complicado e não ficaria bom. Uns dois anos depois tive que vender porque o fundo do carro começou a apodrecer.


Os fulminantes ventos da paixão são vermelhos vivos, ou amarelos, ou verdes. Bege, não. Biquínis, calcinhas e similares na cor bege também são tiro no pé. E a crise brasileira é muito grave e aguda para ser chamada de bege, fraca, anêmica.


Ou não?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sozinho não dá

Já falei do Jajá por aqui. Foi um mestre acidental que ganhei em meados dos anos 70, quando já estava submerso no jornalismo. Jajá era 30 anos mais velho do que todos nós (ele morreu em Minas Gerais), com certeza tinha o melhor texto que conheci e foi correspondente no Vietnã, no auge da guerra, entre 1969 e 1971, trabalhou em Londres também como correspondente.

Em 1975 passou dois anos em Niterói. Foi aposentado por problemas emocionais, não pelo período que passou no Vietnã mas pela cobertura jornalística que fez do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, em fevereiro de 1974 matando 191 pessoas. Ele dizia, sempre emocionado, que “aquelas cenas...eu jamais esquecerei o que vi...jamais entenderei, jamais entenderei”.
Ele contava que para aliviar a dor começou a beber, “até ser resgatado por colegas em lixeiras de Londres. Mesmo assim não parei. Eu precisava afogar minhas lembranças nos copos, muitos copos, que me fizeram perder mulheres e me levaram a aposentadoria precoce”. Ele morreu alcoólatra.

Sua narrativa era irônica e debochada e certa vez, sentado na sua mesa predileta na extinta Leiteria Brasil, que ficava na rua da Conceição, Centro de Niterói, após quase três garrafas de vinho Chateau Duvalier, revelou que iria escrever um livro chamado “Sozinho não dá”.

Como assim, Jajá? “Olha, por mais que o homem pise na lua, e marte, a solidão continuará sendo a nossa maior predadora. O ser humano é bicho de bando, quem negará isso? Se você pensa em levar a vida sozinho ou, pior, acabar a vida sozinho em nome de qualquer razão está ferrado. Tudo o que fazemos, pensamos e sentimos não é para que. É para quem. Todo mundo sabe que compartilhar a vida com uma mulher não é só sexo e rock and roll porque em vários momentos o jogo fica pesado. Por isso sempre digo que sozinho não dá.”

Rebati dizendo, do alto de meus 21 anos na época, que jamais havia projetado uma vida solitária, mas ele me cortou. “Tudo bem, você pega uma ali, meia dúzia acolá, mas e quando chegar a tal da meia idade quem vai comemorar com você 20 anos de relação? Quem vai te acordar no meio da noite notando que você está passando mal? Em suma L.A. (ele me chamava de L.A.) quem vai cuidar de você com o maior prazer, porra? Mais: de quem você vai cuidar? Quem você vai levar a Búzios para se divertir? Para quem você vai acordar no meio da noite para ir uma farmácia comprar remédio contra cólica? Sozinho não dá”.

Não sei se ele escreveu “Sozinho não dá” e um outro romance “Nunca mais 50”, sobre a péssima experiência que sentiu ao virar um cinquentão. Não sei se escreveu, mas publicar não publicou pois nós teríamos sabido. Ele disse, inclusive, que iria dedicar o livro a um amigo inglês que quando fez 85 anos optou pela auto eliminação. Bebeu veneno. “Ele dizia que a sua validade existencial já havia vencido”, contava o Jajá. Aliás, pensando bem, faz sentido.
Fato é que “sozinho não dá” virou um mantra para mim, o que acho ser extremamente saudável. Não tenho vocação para cachorro louco e nem para egolatria, seja leve, média ou grave. Sempre apreciei o trânsito intenso de afeto, companheirismo e solidariedade porque, afinal, a minha senha também é “para quem” e não “para que”.

De fato, sozinho não dá.


terça-feira, 9 de maio de 2017

Realejo

Durante um ano trabalhei no horário de 5 e meia da manhã na Rádio Jornal do Brasil, departamento de radiojornalismo. Acordava a noite e via o Rio de Janeiro despertar com suas primeiras luzes naturais avançando sobre as artificiais que iam se apagando em ritmo descompassado. A Rádio JB funcionava no antigo prédio do JB, hoje Into, na avenida Brasil, 500.

Algumas vezes sai do trabalho (uma da tarde), comi no bandejão do JB e trôpego de sono ia até a Quinta da Boa Vista, onde me esticava embaixo de uma boa árvore e dormia pra cacete. Lá conheci um sujeito, um homem do realejo e decidi verificar a minha sorte. Ele abriu a gaiola, a musiquinha característica começou a tocar, o periquito saiu, tirou o papelzinho, paguei e saí. Li a minha sorte embaixo de um jambeiro (acho) e estava tudo bem.  

Ao longo do tempo, retirei a sorte outras vezes. Afinal, tudo ali é feito para nos fazer bem (senão o homem, o realejo e até o periquito iriam a falência) e as mensagens eram sempre ultra positivas e algumas até me banhavam de reconhecimento. Pelo que sei, ninguém vive sem reconhecimento. Nem cachorro suporta ser esculachado 24 horas por dia.  De vez em quando um "valeu, Rex!" e um biscoito fazem bem até aos chamados irracionais.


Meu pai trabalhava perto do JB porque sempre trabalhou perto do mar, e um dia e convidou para almoçar, o que era comum. Como ele não me deixava pagar a conta (o que me deixava
chateado...bobagem minha, aliás), fomos no Adegão Português onde ele traçou um bacalhau e eu um filé de peixe. Sempre conversávamos compulsivamente e acabei falando do homem do realejo. Meu pai quis conhecer.


Saímos do Adegão e fomos para a Quinta da Boa Vista no super Fuscão do meu pai. O periquito tirou a minha sorte e depois a dele. Meu pai nunca me mostrou a sorte dele e a minha acabei esquecendo no carro. Como era um cara fechadão, muito na dele, não me surpreendi e dei um assunto "homem do realejo" como encerrado.

Anos depois, fui a casa dele. Organizado, ele mantinha tudo bem guardado e identificado e sua escrivaninha era um primor. O telefone tocou ele ficou falando e vi, num cantinho, uma pequena caixa de plástico cinza com a etiqueta "realejo". Ele não viu que eu vi e mais curioso do que um fofoqueiro voltei na casa dele no dia seguinte, horário em que ele não estava, para abrir a caixa.


Cheguei lá, abri a escrivaninha, pus a mão na caixa mas não tive coragem e indecência de abrir. Imediatamente deixei a casa dele envergonhado e injuriado comigo mesmo já que tinha intimidade suficiente com meu pai para perguntar "que caixa é essa, deixa eu ver?" e no máximo que ele ia responder seria "deixa pra lá, assunto meu".


Hoje tive uma insônia "coast to coast". Só consegui cochilar as 7 da manhã e como estou lendo um livro que fala de um homem do realejo, escrevi esse flash da memória. Homenagem a meu pai, a quem dedico.


A caixinha cinza dele? Nunca mais vi.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Dois Anos

Havia um banco de cimento bem perto da praia. Pequena praia, sem ondas, estreita faixa de areia, água muito clara, transparente, mais para verde do que para azul. A canção parecia brotar das nuvens, duas, brancas, destacando o azul profundo do céu limpo, sem fumaça, sem mordaça.

Deitado no banco de cimento, ele sorve o som da saudade de si. Por que não? Por que não deixar que a melancolia sopre a nuvem e produza o som dos tempos, da travessia das eras, das lutas, da vida dura levada a ferro e fogo? Por que ele, somente ele, não teria direito a sua melancolia, ao silencio de seus oceanos interiores, que ele não teve tempo de conhecer? Saudade e melancolia, antigas vizinhas, por mais novas que sejam as nuvens, por mais eterno que seja o céu.

Melancolia, um direito. Como a folia, a euforia, a delírio. Saudade, dona de sons típicos e raros, que brotam de nuvens brancas e vadias, mapeando o céu como se nada mais existisse. Existe? Deitado no banco de cimento, olhos fechados, ouvindo o som das nuvens, uma lágrima escorre do olho direito.

O homem é amigo. Parceiro. Desde o dia em que bateram em suas costas e disseram “é um menino”. Será suficiente? Ele não sabe. O mundo não é espelho, o afeto não é reflexo, a saudade é mais que sensação. Livre sensação.

Tem tentado tudo. Deitado no banco de cimento, cansado, reconhece o empenho, a luta, a solidariedade. Será suficiente? Não sabe, não pode, não quer perguntar. Impossível mensurar intenções.

Busca paz. Afeto. Cores. Nuvens. Saudade, muita saudade, de um tempo que não viu por absoluta falta de tempo. As nuvens tem a resposta, mas ele só as contempla. Quieto. Como uma música. Música do acaso. Música do sonho, da vontade, música do afeto. Profundo, azul, marinho afeto.

Afeto que não se encerra.

Jamais.

domingo, 7 de maio de 2017

Meliante - uma breve novela

Tomo I

Melhor do que um chefe só o próximo”. A placa de bronze na lápide de Meliante encerrava um ciclo, mas não extinguia uma raça. O elo perdido entre o réptil e o mamífero que Charles Darwin esqueceu de catalogar.
Meliante ganhou o apelido, que mais tarde virou nome registrado em cartório quando a partir dos 11 anos passou a delatar colegas no colégio em troca de notas maiores. Não satisfeito, era coroinha na instituição católica fundamentalista ligada a TFP, Tradição, Família e Propriedade, uma espécie de Ku Klux Klan tropical.

O maior desejo de Meliante era ganhar um troféu de Literatura, banhado em ouro, que repousava na mesa do padre diretor. Mas, admitia para si mesmo, não sabia escrever direito e a única maneira de conquistar aquele troféu seria, mais uma vez, acionar a sua patifaria endêmica.

Tomo II

Meliante era sonso. Não conhecia a palavra, mas o sentimento. Seu jogo duplo conciliava a função de gandula do time de futebol dos colegas, tarefa que exercia com mentirosa servidão, com a de delator.

Gostava tanto de delatar que seu primeiro orgasmo aconteceu enquanto contava para o diretor do colégio como havia flagrado um grupo de colegas bebendo o vinho da missa das sete atrás de um barracão de obra. Ele disse “estavam Fulano, Beltrano com um copo de geléia...Si...crano...com uma re...re...re...vista..” e veio a onda de orgasmo que só não foi maior do que a que ocorreu no dia em que conseguiu roubar do quadro de avisos a circular com os nomes dos alunos expulsos graças a sua delação.

Mas, faltava o troféu.

Tomo III

Meliante nasceu num bairro de classe média baixa da periferia e aos oito anos viu um vizinho atirar num garrafeiro aos gritos de “toma, seu meliante safado! Toma!”. Foram três tiros na cabeça. Motivo: o garrafeiro cobrava uma dívida e teria dito “você pode ter deixado Tramóia das Trevas, mas Tramóia das Trevas não deixou você.” Tramóia das Trevas era uma cidade que, diz a lenda, existiu em Minas Gerais.

Todo mundo correu para acudir o garrafeiro, menos Meliante que voou para o dicionário. Meliante queria saber o que significava meliante. Descobriu, eufórico. Aos 10 anos constatou que era um meliante autêntico. Chantageou um primo forçando-o a chamá-lo de Meliante numa festa. O primo chamou, apanhou muito dos pais por isso, mas o apelido vingou.
Vida a fora.

Tomo IV

Mas faltava o troféu. “Falta o troféu!”. “Falta o troféu!”. Os gritos de “falta o troféu!” despertaram Meliante no meio da noite. Estava suado. Acendeu a luz, o poster de Hitler continuava na parede. Um poster que ele obrigou, sob tortura, um colega a manipular no photoshop. Meliante aparecia ao lado do ditador, com a mesma farda, o mesmo gestual, a mesma patologia. Mas faltava o troféu.

No dia seguinte acordou disposto. Bem cedo, foi no pequeno canil adaptado perto da garagem do ônibus do colégio. Lá estava o chimpanzé de Padre Ângelo, melhor amigo de Meliante. O símio não confiava nele e todas as vezes que se aproximava da jaula o macaco sacudia a grade e gritava.

Chamava-se Anselmo em homenagem ao lendário cabo da Marinha, cuja “vida e obra” Meliante leu na enciclopédia.

Tomo IV

A biografia do cabo era projetada como um filme saudoso nos vasos e artérias de Meliante, mas justiçar era preciso. Naquela madrugada, a banana com mel e chumbinho silenciou o chimpanzé. Para sempre. Mais: Meliante, de luvas, entrou no canil adaptado e degolou o símio com uma faca Kabar. Mais: escalpelou levemente o mamífero. Mais: levou pedaços nos bolsos, cuidadosamente embrulhados em plástico industrial.

Voltou para casa, tomou banho e se tivesse barba teria feito. Vestiu o uniforme e rumou para o colégio. Total comoção. Polícia, legistas, veterinários. Meliante passou cristal japonês nos olhos e se atirou aos pés de Padre Ângelo balbuciando “quanta covardia...quanta covardia”. Sabia que padre Angelo seria o próximo diretor graças a sua íntima relação junto ao arcebispo e com militares da reserva e civis que torturaram muitos brasileiros durante a ditadura de Costa e Silva e Médici.  

Tomo V

Em vez de revistas com mulheres nuas, Meliante usava fotos de Costa e Silva, Médici e do facínora delegado Sergio Fleury para se masturbar. Achava que tinha nascido em época errada. Queria servir aquela ditadura que não existia mais. Por isso, tornara-se cúmplice de um uruguaio que dava aulas de História no colégio e que teria sido um agente da temida Operação Condor, outra paixão de Meliante que ficou 18 horas seguidas lendo sobre o assunto em sites indicados pelo Google. Ah, como ele queria participar daquele espetáculo sul-americano.

O colégio abrigou o uruguaio, codinome “Professor G”. Ele teria ajudado aqueles padres radicais a se livrarem de dois pais de alunos ligados a Dom Helder Câmara, odiado por seu hálito liberal e democrata.

Tomo VI

Enterro do chimpanzé. Todos foram sepultar o símio perto dali, num cemitério de cachorros. Como Meliante previra, padre Ângelo não quis ir. Como Meliante previra, padre Ângelo ficaria em sua clausura...bebendo “Fogo Paulista”. Era alcoólatra, mas só Meliante sabia. E como Meliante previra, não foi difícil seduzi-lo. Tomado pelo álcool, pela morte de Anselmo e provavelmente sem saber o que estava fazendo, Padre Ângelo caiu na cilada e sodomizou Meliante.
Em seguida tombou na compacta cama de solteiro, cansado, bêbado. Meliante tinha posicionado sua câmera digital que gravou tudo.  

Tomo VII

No final do dia o troféu era seu graças a uma trêmula carta-súplica de Padre Ângelo ao diretor; o mesmo padre Ângelo se enforcou no quarto, sem deixar bilhete. Só Meliante sabia o motivo que pairava muito além do jardim onde sepultaram o chimpanzé.

Tomo VIII

No dia de seu 25º. aniversário, Meliante foi comemorar com uma família que alugara num classificado de jornal. A esposa (detestava que a chamassem de “sua mulher”) era um transexual de programa que ele mandou o síndico do seu prédio arregimentar nos classificados de jornais. Os dois filhos adolescentes, Meliante tirou ainda bebês de um desafeto, na base do que mais sabia fazer: chantagem.

A falta de talento o incomodava. Muito. Meliante era vaidoso e mantinha em casa, uma cobertura tríplex nos Jardins, São Paulo, uma gigantesca biblioteca. Mas, dos livros, só as capas. Não havia miolo. Para Meliante conteúdo era detalhe.

Na faculdade, mediante negociatas com colegas e professores do tipo “você cheira cocaína à vontade que eu não conto aos meus amigos delegados desde que...”. E o “desde que” eram provas feitas por terceiros, além de trabalhos, teses, defesas orais. Meliante exigia: “se fizerem serviço porco e eu tirar menos de nove, jogo no calabouço”. Sua vaidade foi aos píncaros quando foi homenageado no final do curso como aluno número um. Palco, luzes, microfones. O habitat natural de Meliante. Sua falsa família, claro, sentada na primeira fila.

Tomo IX

Rico? Sim, Meliante estava muito rico. Achacando, dedurando, coagindo trabalhando também para a alta cúpula de um partido de vigaristas populistas e, sobretudo, babando ovos dos poderosos ganhou seu primeiro bilhão de reais num mês de julho. Foi comemorar com dois falsos amigos num restaurante quase popular do centro de São Paulo. Lá, brindaram ao milhão.

Além das manobras escusas, Meliante obteve uma espécie de bolsa “cala boca” do colégio onde estudou. Graças a módicos e vitalícios um milhão de reais por mês não enviaria para os jornais o dossiê que montara, ao longo de anos, denunciando todas as falcatruas financeiras, pedofilia e até tráfico de drogas que a cúpula do colégio praticava. Dossiê com vídeos, fotos, provas.


Tomo X

Um dia, singrando a avenida Paulista em sua Corvette, a caminho de casa nos Jardins, Meliante suspirou e pensou “é, estou com o boi na sombra”. E estava. Apesar da falta de talento, se meteu em política, pagando 10 milhões a um partido de outros meliantes que, como Hitler, ele venerava pela perversidade, imoralidade, inteligência em meter a mão em dinheiro público. Mas não se filiou para que suas traições ganhassem mais, digamos, dinâmica. Traindo aqui, ali, usando seus métodos tradicionais acabou se tornando destaque no partido, apesar de não ser filiado. O fundador chegou a encomendá-lo a morte de um juiz federal. Meliante estava fazendo o orçamento do serviço. 

Tomo XI

Ao mesmo tempo vendia informações sigilosas do partido para outros, especialmente quando essas informações revelavam escândalos sexuais, financeiros e afins. Meliante adorava um escândalo. A cúpula do “seu” partido o endeusava. Meliante lambia botas, sapatos, sandálias, estava sempre a disposição para qualquer missão espúria, era o primeiro a chegar nas reuniões e sempre o último a sair. Seja em São Paulo, Minas, Rio ou Brasília.

Seu pai, comunista histórico, sabia o filho que tinha mas temia romper relações. Meliante fingia sentir saudade, o pai simulava o mesmo. Mas, numa noite de Ano Novo, Meliante, a esposa, os filhos, que decidiram passar juntos o Reveillon, o pai de Meliante se excedeu na bebida e começou a dizer algumas verdades. Meliante, sorriso sonso sempre a postos, cochichou no ouvido do pai: “Tudo, menos verdades, tá bom?”. Dois dias depois, o velho comunista jazia morto na piscina. Afogamento.

Tomo XII

Sua mãe? Um dogma para Meliante que só o pai conhecia. Ele foi parido na margem do rio Paraíba do Sul e jogado ali mesmo. Foi encontrado boiando por um grupo de escoteiros que foi ao Juizado que acabou localizando o pai. Da mãe não se tem notícias, até hoje.

Graças ao partido o patrimônio de Meliante bateu a cifra de 10 bilhões de reais quando ele fez 31 anos. Resultado de sua escroque movimentação de informações que envolvia até dois presidentes sul-americanos, que, sonso, tratava de “meus caros amigos”. E tudo ia muito bem. A vida de Meliante ia de vento em popa.

Um dia, ele pegou seu jatinho e decolou sem rumo. Ao piloto disse apenas “vá pro Nordeste, meu querido”. Mandou que descessem numa cidade do interior da Bahia. Meliante, sorriso sonso, mandou a tripulação aguardar. Pegou um táxi. “Meu querido, me leve a um parque de diversões”. O parque, mambembe, pobre, ficava a 10 minutos do pequeno aeroporto. Meliante pagou, “obrigado meu querido” comprou algodão doce e sentou na roda gigante. Quando sua cadeira atingiu o ápice, Meliante se jogou. Morte instantânea.

O médico-legista sentiu desejou atestar “morte por overdose de si mesmo”, mas não há respaldo científico. No velório, um mar de falsidades. Todos os amigos-vítimas passaram por lá, mas só acreditaram que Meliante estava realmente morto (podia ser mais uma rasteira) quando o corpo desceu e a esposa, herdeira trilhardária, fingindo choro, beijou a placa-lápide:
Melhor do que um chefe só o próximo”.

Discretamente sorriu.



sexta-feira, 5 de maio de 2017

Pênis & Nádegas

Alheio ao miserê econômico, pelo menos três setores lucram cada vez mais: bancos, tráfico de drogas e sindicatos/centrais sindicais. A tráfico engole o país e não poupa nem o interior do interior da nação. Sindicatos e central sindicais nadam em dinheiro, por isso se reproduzem como ratos. Mas os bancos...aaaah, ninguém supera os lucros estúpidos dos bancos.

Acariciados pelos governos desde sempre, os bancos fazem o que bem entendem. Acabei de sair de uma longa e pacata fila (vida de gato, cantou Zé Ramalho) de caixas eletrônicos de uma agência bancária (ar condicionado desligado por economia) e pensei na nova decisão dos banqueiros, cagando e andando pro governo, bem no estilo “bancos entram com o pênis e os cidadãos com as nádegas”.

Agora você não pode mais pagar uma pessoa com cheque para sacar na agência mais próxima. Se o sujeito fez recebeu o cheque em Brás de Pina, mas a agência do cheque (do mesmo banco) fica em Copacabana ele vai ter que ir a Copacabana sacar. Entendeu? Perguntei ao banco por que e o banco respondeu que é “para segurança dos clientes”. Como assim?

Todo mundo sabe que pagar cheques é menos uma atribuição (mais economia, mais bancários demitidos), por isso os bancos partiram para a novidade. O que me horroriza é ver bancários defendendo o argumento da “segurança” quando na verdade a medida só piora. Se eu, cliente, em vez de pagar mil reais com cheque terei que ir a agência sacar os mil no caixa eletrônico, é mais seguro para mim? É mais seguro sair com mil pratas de uma agência bancária em plena guerra civil do Estado do Rio?

Banco ganha com cada folha de talão de cheque, cada serviço, cada centavo que você precisa. E como o “gado”, vulgo povo, não tem com quem reclamar, fica esse bunda com bunda que aí está. Será que isso aqui é mesmo terra de Lúcio Flávio Vilar Lírio (https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%BAcio_Fl%C3%A1vio_Vilar_L%C3%ADrio) e que se dane o avião?

Pois é.





quinta-feira, 4 de maio de 2017

O náufrago

Encontrei um amigo que no ano 2000 viveu uma aventura (para alguns, desventura) numa ilha do litoral sul. Muito experiente, ele navegava há dias em sua baleeira quando bateu numas pedras. O barco começou a fazer água e ele avistou, muito perto, uma ilha num dos inúmeros recortes geológicos da região.

Pôs o salva vidas, pegou facas, cantil, dois canivetes suíços, alguma comida e mergulhou no mar, nadando para a ilha. Até hoje ele afirma que o rádio do barco estava com defeito e por isso não conseguiu chamar um socorro.


Chegou a ilha deserta (pequena, bem pequena) e percebeu que ela ficava num "dente", uma falha geológica que a tornava praticamente invisível.  Atingiu a pequena faixa de areia. Se embrenhou na vegetação nativa e armou uma barraca,
com fulhas e bambu.

O jantar daquele dia estava garantido. Havia comida mas ele já tinha percebido que em caso de necessidade poderia recorrer aos mexilhões, coco, pitanga, maracujá. 


Como era inverno a noite caiu rápido. Ele havia planejado escrever, com letras garrafais, SOS na areia da minúscula praia, mas achou melhor deixar para o dia seguinte. Não iria resolver. Além do mais, segundo a sua carta náutica e o GPS, naquela região não passava avi
ões e muito menos navios, justamente por causa dos recifes.

Ele estranhou. Em vez de sentir a angústia dos náufragos, a sensação era de alívio. Estranho alívio. Foi quando lembrou que seu casamento estava pastoso, no fim, que seus filhos ultimamente estavam dedicados a
egolatria radical, que o seu trabalho como biólogo marinho numa universidade federal estava parado por falta de verbas, que a sua família estava espalhada pelo mundo, que a sua saúde...ah, a sua saúde estava ótima.


Não foi difícil para ele constatar que, a princípio, não havia interesse algum em retornar para a civilização. "A princípio", pensava para si mesmo. A bem da verdade, ele avaliou, seu único vínculo afetivo honesto, com todos os retornos que os vínculos afetivos proporcionam, era a baleeira. Que afundou.

Nos primeiros dias ele deu umas voltas pela ilha. Comeu muita pitanga e até maracujá. Ainda não havia escrito SOS na areia porque...porque...porque não estava a fim de SOS algum. Foi quando começou a pensar na possibilidade de se tornar um náufrago eterno. Não só naquela ilha, mas em outras ali por perto também. Nunca havia sentido tanta liberdade, tanto desprendimento e a certeza de que não fazia falta a ninguém. O único problema era seu irmão mais velho, conhecido como Taco, campeão mundial de iatismo e capaz de localizá-lo.


Poderia fazer a barba com os canivetes suíços mas deixou crescer. Pod
eria usar os jeans que trouxera do barco, mas optou por ficar nu, poderia arranjar talheres para comer mas desejou comer com a mão. Caprichoso, fez um cardápio com várias opções de mexilhão com coco, pitanga e maracujá. Passou a correr uma hora todos os dias e, após 25 dias, percebeu que nenhum barco passou perto da ilha. Avião? Nem pensar. Lembrou que havia bebibo (dia sim, o outro também) e "acidentalmente" havia desligado o GPS do barco dias antes do naufrágio.

Quarenta e oito dias depois ele foi acordado por uma pequena multidão. O irmão Taco (bingo!) o havia localizado. Chegou a ilha para socorrê-lo, com várias pessoas, entre elas sua mulher. O náufrago não conseguiu esconder o sorriso amarelo, o mal estar, a desagradável sensação de ter a sua paz de espírito liquidada em poucos minutos.
Vestiu uma bermuda esfarrapada.

"Você está ótimo", disse Taco, notando a pele bronzeada, o corpo sarado, a leveza do irmão. A mulher nada disse porque, segundo o náufrago, ainda não havia encontrado algum motivo para esculachá-lo, um hobbie dela.


Contrariado, embarcou com o irmão de volta a civilização. Falava pouco, estava muito calmo. Taco comentou "você nem parece aquele sujeito ansioso, tenso de meses atrás". O náufrago disse "é, não pareço". 


Dias depois chegou a sua cidade. Havia uma festa surpresa no clube. Ele fingiu que gostou. Pediu divórcio, pediu demissão da universidade e emancipou os filhos. E no dia que o encontrei na rua, ele falava em voltar a navegar. Fiz uma pergunta objetiva: "voltar a navegar ou a naufragar?".

Tudo é possível. Ele disse.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança


O colega Joaquim Ferreira dos Santos se superou ao escrever as mais de 671 páginas de “Enquanto Houve Champanhe Há Esperança – uma biografia de Zózimo Barroso do Amaral”. Lançado ano passado, acabei de lê-lo esta semana e estou absolutamente extasiado com o monumental trabalho do Joaquim e equipe que, mergulhando na vida atonal, incerta, surpreendente do Zózimo acaba registrando o exato instante que o Rio deixou de ser cidade maravilhosa para ser transformado no o purgatório do caos. A leitura do livro mostra porque o Rio foi maravilhoso, generoso, gente boa, elegante, bem humorado e não esse incurável abscesso urbano, social e político que aí está.

A partir da infância de Zózimo no Jardim Botânico, o livro mostra a vida desse carioca radical, apaixonado, muitas vezes destemperado, defendendo a cidade. Nascido em berço nobre, o angustiado, elegante, caótico e imprevisível Zózimo tornou-se uma marca internacional quando começou a assinar sua coluna no Jornal do Brasil, em 1969. O livro acompanha o rali existencial do jornalista, tragado pelo álcool e por quatro maços de cigarro por dia, e que pagou muito caro por isso.

Lembro bem, foi em 1977 mais ou menos. Eu havia passado uns dias em Brasília e lá fui levado a uma boate chamada Adrenalina pelo grande amigo Márcio Paulo. Ficava na Asa Norte, e lá dentro (ambiente todo vermelho) fui apresentado as Ramones, Clash e outras bandas dessa saudosa linhagem. Márcio tinha um belo Puma branco e quando saímos de lá, madrugada alta, meus ouvidos apitavam graças ao volume (e qualidade) do som. Duas semanas depois a polícia fechou o bar.

Cheguei ao Rio e fui direto do Galeão para a redação do Departamento de Jornalismo da Rádio Jornal do Brasil, que ficava naquele belo “navio” ancorado na avenida Brasil 500 (hoje é a sede do Into) onde trabalhava desde 1974 e permaneci até 1981. Saudade do cacete daquele navio que abrigava amigos, colegas e monstros sagrados como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Ana Maria Machado (minha chefe), Elio Gaspari, Marcos Sá Correia e, lógico, Zózimo Barroso do Amaral entre muitos outros.

O Jornalismo da Rádio ficava no lendário sexto andar, próximo a sala do Zózimo e numa tarde eu estava no banheiro de mármore (repito, como era belo aquele prédio) fazendo xixi e o Zózimo entrou para fazer o mesmo em outro mictório. Perguntou “alguma nota?” eu falei sobre o fechamento do Adrenalina e ele perguntou por que. “Pela ignorância a polícia deve achar que Adrenalina é uma droga, como cocaína, heroína”. No dia seguinte, destaque em sua coluna. “A polícia de Brasília fechou o bar de rock Adrenalina. Acha que é nome de droga”. Deu a maior confusão.

Enquanto Houver Champanhe Há Esperança” é um livro mais do que fundamental para quem ama um Rio que realmente existiu (“é sol, é sal, é sul” não foi uma miragem), a vida ultra interessante de um de protagonistas, Zózimo, a imprensa daqueles tempos (só no Rio havia 20 jornais diários) e a história do colunismo social.

Aqui, a sinopse:

Por quase trinta anos, entre 1969 e 1997, a sociedade brasileira foi desnudada pela escrita espirituosa do jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em sua coluna diária no Jornal do Brasil e depois em O Globo. Muito além dos registros sociais, ele oferecia um noticiário que flertava com a economia, a política e o esporte (sua paixão), em um estilo elegante e sem qualquer cerimônia.Fez muitos amigos, ganhou uns poucos desafetos e chegou a ser preso duas vezes durante o regime militar.

Joaquim Ferreira dos Santos reconstitui toda a trajetória do colunista, desde sua infância, no bairro carioca do Jardim Botânico, passando por seu começo de carreira quase acidental no jornalismo, até conquistar uma coluna assinada no Jornal do Brasil, aos vinte e sete anos. Ao seguir a trilha aberta por pioneiros como Álvaro Americano, Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued, ele fez escola. Enquanto se tornava a mais respeitada grife do colunismo no país, Zózimo registrava nas páginas dos jornais as imensas mudanças ocorridas na elite carioca.

As festas saíram dos salões dos grã-finos e instalaram-se em casas noturnas como o Regine’s e o Hippopotamus. A animação movida pelo champã ganhou aditivos como a cocaína. Ao mesmo tempo que retratava o agito social, Zózimo enfrentava os próprios demônios. Viveu amores, momentos de turbulência familiar e sérias questões de saúde. Mas até o final foi um homem apaixonado pela vida, como ele gostava de dizer: “Enquanto houver champanhe, há esperança.”



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Redentor

709 metros de altura.

A vida ruge baixo, lá embaixo, abaixo de linha do Equador. Parto, infância, adolescência, vida. Avista-se tudo, olho nu, nas fronteiras aéreas que demarcam a existência.

Traço, montanha, lago, o mar. Imenso, profundo, imundo mar. Norte, sul, leste, oeste, quadrantes existenciais em detalhe, expostos à nitidez da baixa umidade relativa.

Gargalhadas, gritos, sussurros, de ontem, anteontem, passado, futuro. Detidos naquele amplo espaço. Soberbo e minúsculo ao pé da estátua; pulsar de cidades, fazendas, favelas, praias, até onde a vista alcança. Olho nu. Até onde a vista descansa. Teleobjetivamente.

O futuro joga as cartas. Destino a leste, de onde sopra a brisa. Suave e fresca. Ao pé da estátua em pedra sabão, a mulher chora e implora sob o rosto de pedra imponente, decente, que avista adiante, olho por olho, dente por dente. Futuro. Sol, chuva, orvalho, vendaval, tempestade.

Abaixo, aviões, drones, helicópteros. O som do silêncio e o clamor abafado da angústia. Beijo na boca, bangue bangue, ansiedade máxima, o cochilo do miserável sob a marquise. Sob nós, tudo aberto, tudo certo, como as veias de uma América, condenada, para sempre, Latina.

Nos braços e cabeça, para-raios. Para nós e para Ele. O guardião e a força que ninguém explica, energia que sossega, aquieta, estanca o ir e ver enlouquecido das preocupações trafegando por nossas artérias e becos. O guardião para tudo. 

O guardião pode tudo.

Ali perto, ou logo abaixo, ou mais adiante, ou na linha do horizonte, as árvores são devoradas para ceder espaço para o metro quadrado desonestamente caro, especulado. Inversão térmica. Inversão ética. O guardião sabe que tem chovido menos, terra seca, ganância. O guardião sabe que o fim dessa história é o recomeço.


Ação reação. Motosserra, estiagem, seca, inversão térmica, colapso caos, morte, recomeço. Ele sabe. Calado.

709 metros de altura.

domingo, 30 de abril de 2017

Belchior – 26/10/1946 – 30/04/2017

                                                        
As palavras sumiram, mas vou tentar escrever.

Belchior foi o compositor brasileiro que mais ouvi nos anos 1970, quando já não havia galos, noites e quintais como ele bem anunciara. Assisti a vários show, fiz pelo menos cinco entrevistas importantes com esse cearense que chegou ao centro do palco brasileiro ao lado de Fagner, Ednardo e outros.

Há alguns anos optou pelo sumiço. Radical. Desapareceu até ser localizado por um programa de TV que, covarde, o chamou de ladrão em rede nacional. Belchior teve que sair do auto exílio (um direito de todos nós) para defender a sua honra. Voltou a submergir por razões que só ele sabia (e daí?). No palco que ele ajudou a brilhar, subiram as piranhas, sertanejos, funkeiros e barangas como Karol com K, Anitta, Ludmila, Wesley Safadão e outros parasitas do famigerado show business, vulgo mar de merda.

Com tantos escrotos na planície, o raio foi levar belchior. Morto por causa do rimpimento da artéria aorta. Viveu apoiado apenas pelos fãs que viram nele um artista que soube transformar em diamantes musicais as nossas angústias e dores cotidianas.

Difícil acreditar, mas Belchior morreu. Ele mesmo, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Provavelmente será “homenageado” pelo mesmo bando de abutres que o chamou de ladrão e o atirou no limbo. Hipocrisia, mau caratismo, cinismo dão audiência, especialmente num domingo quando os escrotos e larápios nacionais que assaltaram os cofres do país começam a fazer as malas para se mandar. O STF vai soltar todo mundo, mas o raio caiu sobre Belchior.

Hoje, mais do que nunca, não haverá galos, noites e nem quintais.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Brasil, não tenho mais tempo

Brasil, não tenho mais tempo. O meu tempo passa cada vez mais veloz entre os ponteiros de segundos. Meus impostos, taxas, tarifas, contribuições, óbulos, encargos, ônus estão rigorosamente em dia, bem como todas (TODAS) as minhas obrigações morais e cívicas para contigo.

Mame à vontade, Brasil. O sangue é teu.

Brasil, o meu tempo voa e não pode se dar ao luxo de contemplar o seu, lento, re
dundante, atolado, preguiçoso, corrupto, venal. Meu tempo é para o trabalho, para a minha saúde, para o amor, já que não tive tempo de pular fora antes. Se fosse antes, estaria longe, em outro lugar, sorvendo outros tempos. Mas você não me deu tempo, Brasil. Tive que ficar.
Brasil, nas ruas há sempre carnavais, micaretas, grevistas vagabundos sustentados por nós. Hoje haverá mais, no interior e nas capitais, mas não irei ver porque não quero. Não quero e não tenho tempo. Tenho muito trabalho a fazer, apesar de você, tenho muita história para contar, apesar de você, tenho muito mar para abraçar e beijar, apesar de você.

Brasil, divirta-se, mas não me convide. Você tentou, mas não roubou o meu tempo. Pelo menos ele, não. E não me chame para apartar briga de ratos. Não me presto a isso.


Enquanto houver tempo, não.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Aureliano

Pacato cidadão, exímio pagador de impostos, funcionário público federal concursado com 30 anos de repartição, eleito funcionário do mês 87 vezes, quatro filhos homens com curso superior completo, morador de Copacabana, Aureliano levava a vida como ela é.

Leitor voraz de Nelson Rodrigues, Rubem Braga e Monteiro Lobato, dizia ao espelho que não, mas se identificava, sim, com alguns personagens de Rubem Fonseca, em especial O Cobrador. Aureliano falava pouco, mas ajudava muito. Ajudou o porteiro do prédio onde morava a casar, ajudou a pagar o tratamento dentário do dono de um bar, onde diariamente, pontualmente as 7 da manhã, tomava uma garrafa Caracu com ovo cru. Em seguida, corria nove quilômetros pela orla.

No metrô, seu único “desvio moral”: lia Cassandra Rios, François Rabelais, Charles Bukowski, e outros, escondendo as capas. Quando o metrô chegava ao Centro, ele guardava os livros em sua pasta lacrada. No trabalho, todos gostavam de Aureliano, apesar de nunca terem presenciado um sorriso seu. Seu ar era sério, mas sereno, e quando surgia algum documento que exigia seus dados pessoais, ele descrevia seu estado civil como hediondo.

Ao longo do tempo ajudara ($) o ascensorista, o chefe de serviços gerais, duas telefonistas e até um superior seu. A todo instante era abordado por colegas mais novos que queriam tirar dúvidas. Aureliano parava o que estava fazendo para ajudar, pacientemente.

Não tinha telefone em casa e era o único na repartição sem celular. Na repartição, no prédio e provavelmente no quarteirão. Várias vezes indagado por que não tinha celular, ele respondia “assunto meu”. Em compensação, em sua mesa de trabalho o telefone não parava de tocar.

Filho 1 – Pai, que horas você vai depositar aquele dinheiro na minha conta? O plano de saúde de Berenice (esposa) vence hoje.

Filho 2 – Pai, vou viajar com Clarinha amanhã. Não esquece de deixar o dinheiro da gasolina e da nossa estadia no meu escaninho.

Filho 3 – Pai, realmente decidi que é melhor trocar de carro. Um zero KM sai bem mais em conta do que um usado. O cara da agência só está me esperando pagar o sinal para fechar o negócio. Dá para fazer aquele empréstimo consignado aí pela repartição?

Filho 4 – Pai, não esquece de pagar meu aluguel. A conta do supermercado está com o porteiro aí da repartição. Aumentou porque semana que vem é aniversário da minha sogra e vamos fazer uns queijos e vinhos na casa dela.

Todos os dias, sem falta, os filhos ligavam com as suas demandas. Ligavam porque Aureliano não permitia que fossem a sua casa. Como também não ia a casa deles, não se viam há muitos anos. Aureliano não reclamava porque achava que “quem pariu Mateus que o embale”. 

Apesar de formados, os quatro não trabalhavam. Oficialmente, Aureliano atribuía a falta de emprego da prole a crise econômica, falta de sorte, etc. Mas no íntimo, na hora em que bebia sua Caracu com ovo cru ou corria na orla pensava, cheio de culpa “parasitas, filhos da puta. Petistas escrotos. Sanguessugas, sevandijas, zânganos...só matando”. Pensava e se arrependia, pensava e se arrependia, pensava e se arrependia. E ia mais além: “filhos daquela porra, esperar o que?”. Mas ninguém sabia quem era “aquela porra”. Ninguém.

Apesar de ter dado “de presente” os apartamentos aos quatro filhos, Aureliano não tinha imóvel algum. Preferia morar de aluguel baseado em pensamentos terríveis. “Vai que um dia eles entram na justiça, vendem meu imóvel para comprar quatro motocicletas e me botam para morar na rua”.

Mas aquele 11 de setembro foi diferente. Como sempre Aureliano saiu de casa para tomar sua Caracu com ovo cru. O faxineiro pediu alguns reais para... o porteiro pediu dinheiro para...uma carta da receita federal mandava ele comparecer para... a caminho do trabalho um morador de rua espetou uma faca no seu pescoço exigindo...no metrô um arrastão levou sua pasta com tudo, inclusive os livros...no trabalho os quatro filhos, pelo telefone, pediam antecipação do 13º. (eles recebiam 13º. do pai)...Aureliano desceu para almoçar na Pensão Pinguim, como fazia há décadas, e teve a visão monumental. Nos aparelhos de TV das vitrines das lojas, imagens mostravam jatos de passageiros derrubando as Torres Gêmeas, em Nova Iorque.

Trinta dias se passaram. Filhos 1, 2, 3 e 4, desesperados, insistiam para que a polícia desse notícias do pai. O dinheiro estava acabando e pelo visto teriam que cometer o absurdo de ter que trabalhar. Na portaria do prédio de Aureliano, as contas dos filhos se amontoavam. O porteiro, aflito, perguntava por ele aqui e ali porque queria comprar um forno de micro-ondas. O jornaleiro não sabia o que fazer com três edições de segunda mão de Cassandra Rios que acabara de chegar. Aquele miolo de Copacabana só falava no sumiço de Aureliano, o “bom homem”, o “bom samaritano”, o “amigo de fé, irmão camarada”.

Na repartição, o baque. Cadê Aureliano? O serviço estava atrasado, os novatos perdidos, a chefia sem ter a quem pedir dinheiro, o bando do sindicato não sabia de quem cobrar o jabá, o diretor apelou para Brasília mas ninguém sabia de nada. Não estava em hospitais, nem no IML, nem nos lixões da cidade e muito menos no Paraguai, disneylandia de degredados em geral.

Um ano, dois anos, três anos, quatro anos. Cadê Aureliano?

Cadê?