quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eternas Capitanias Hereditárias

Meritocracia. Linda palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente, especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política.

Na música, chega a ser engraçado. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por cupinchas  da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Em geral, não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é subjetiva, a coisa fica no zero a zero. Mas no caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele teria sido rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li semanas atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filho de um amigão do pai da banda. Que coisa.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

É melancólico.




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Exigimos imediata intervenção federal no Estado do Rio

É urgente e imediata a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, que vive uma situação de genocídio, caos, abandono total. Por falta de governo, cidadãos morrem nas ruas e hospitais, crianças são assassinadas em escolas e nas ruas por causa da guerra civil, enfim, todos os princípios básicos dos Direitos Humanos estão sendo violados à luz do dia. À luz da morte.

Nessa chacina generalizada, causada pela corrupção e luxúria com o dinheiro público, o governo do Estado do Rio decidiu, há tempos, não pagar o funcionalismo ativo, aposentados, inativos e afins, alegando falta de dinheiro. Mentira! Isso é falta de moral, é falta de governo.

O que os parlamentares do Rio* tem feito em prol da única solução para o Estado, a intervenção federal? O que fazem? O que dizem? Que satisfação nos dão já que estão em Brasília por nossa culpa?

Indigno, cruel, nefasto, escroque, o ato de deixar milhares e milhares de idosos à míngua é o mais grave capítulo da trágica e imunda trajetória do governo do Estado.

Não pagar a quem já não mais consegue trabalhar é estuprar o mais indefeso dos mortais. Os idosos não tem mais tempo, sua força não é como a de antes, mas a maioria absoluta honrava seus compromissos do dia a dia como pagar o mercado, a farmácia (que está um assalto), o condomínio, os impostos. Mas o deslavado governo do Estado decidiu transformar os idosos em inadimplentes - como ele -, governo do Estado. É muita patifaria. Sobra vilania nessa torpe história.

O governo federal está parado, estagnado, anêmico. Como imaginar uma intervenção federal no RJ se o governo federal é incapaz de intervir em si mesmo? Não interessa. O RJ exige a intervenção, mesmo que o Governo Federal tenha que se reinventar.

Os atores desse teatro mórbido que assistimos no Estado do Rio vão entrar para a História. É certo. Pela sarjeta. É mais certo ainda. Qualquer governante com o mínimo de dignidade, antes de atirar idosos na miséria, deferia oferecer o próprio pescoço ao sacrifício e renunciar. 


Pelo bem da humanidade.


Mas seria exigir muita grandeza de parasitas tão mesquinhos.

* Senadores que nós do RJ pusemos em Brasília:

Eduardo Lopes (PRB) Período 2011-2019
Lindbergh Farias (PT) Período 2011-2019
Romário (Pode) Período 2015-2023

* Deputados federais que NÓS colocamos em Brasília em 2014:

Jair Bolsonaro (PP) – 464.572 votos
Clarissa Garotinho (PR) – 335.061 votos
Eduardo Cunha (PMDB) – 232.708 votos
Chico Alencar (PSOL) – 195.964 votos
Leonardo Picciani (PMDB) – 180.741 votos
Pedro Paulo (PMDB) – 162.403 votos
Jean Wyllys (PSOL) – 144.770 votos
Roberto Sales (PRB) – 124.087 votos
Marco Antônio Cabral (PMDB) – 119.584 votos
Otavio Leite (PSDB) – 106.398 votos
Felipe Bornier (PSD) – 105.517 votos
Sóstenes Cavalcante (PSD) – 104.697 votos
Washington Reis (PMDB) – 103.190 votos
Rosangela Gomes (PRB) – 101.686 votos
Júlio Lopes (PP) – 96.796 votos
Índio da Costa (PSD) – 91.523 votos
Alessandro Molon (PT) - 87.003 votos
Hugo Leal (PROS) – 85.449 votos
Glauber (PSB) – 82.236 votos
Cristiane Brasil (PTB) – 81.617 votos
Jandira Feghali (PCdoB) – 68.531 votos
Dr. João (PR) – 65.624 votos
Simão Sessim (PP) – 58.825 votos
Celso Pansera (PMDB) – 58.534 votos
Miro Teixeira (PROS) – 58.409 votos
Aureo (SD) – 58.117 votos
Sergio Zveuter (PSD) – 57.587 votos
Arolde de Oliveira (PSD) – 55.380 votos
Rodrigo Maia (DEM) – 53.167 votos
Chico D’Angelo (PT) – 52.809 votos
Cabo Daciolo (PSOL) – 49.831 votos
Luiz Sergio (PT) – 48.903 votos
Alexandre Serfiotis (PSD) – 48.879 votos
Deley (PTB) – 48.874 votos
Soraya Santos (PMDB) – 48.204 votos
Benedita da Silva (PT) – 48.163 votos
Paulo Feijó (PR) – 48.058 votos
Marcelo Matos (PDT) - 47370 votos
Fernando Jordão (PMDB) – 47.188 votos
Francisco Floriano (PR) – 47.157 votos
Marcos Soares (PR) - 44.440 votos
Altineu Cortes (PR) – 40.593 votos
Fabiano Horta (PT) 37.989 votos
Ezequiel Teixeira (SD) – 35.701 votos
Luiz Carlos Ramos do Chapeu (PSDC) – 33.221 votos
Alexandre Valle (PRP) – 26.526 votos


Apenas metade do número de deputados do Rio foi renovada. Dos 46 candidatos, 23 foram reeleitos em 2014.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Submergir

       Marcio Paulo
As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem. Submergir é proteção. Para submarinos e para seres humanos.

Sai, sai do sereno menino”, diz a canção que alerta que “sereno pode fazer mal”. Uma tradução urbana do ato de submergir. Se bem que não sinto o sereno há muitos anos. Nem ele, nem a garôa, nem a neve de Itatiaia, prometida pelos meteorologistas para esta semana. Itatiaia foi onde passei um dos melhores fins de semana de minha vida e a pior Semana Santa. “A vida é assim”, dizia Zora Yonara, astróloga do rádio e sua voz enigmá com eco alertando: “pisciano, você tem pela frente uma sequência de vitórias esplendorosa. Insista, pisciano!”.

A submersão é vital para a sobrevida. Basta ter ar suficiente e muita humildade. Castrar os ventos tortos da arrogância, deixar nossa nau existencial largada no fundo do mar, ao lado dos polvos e dos peixes abissais.

Os tímidos vivem nos bancos de areia, cercados de corais. Parados, prestando atenção nos praticantes de evasão de privacidade (essa é do Tutty Vasquez) que exibem sua anêmica pequena burguesia nas redes sociais do tipo “estou tão feliz nessa foto, tão feliz que se me assoprar eu caio no chão e choro”. Ahhhh, o blefe das redes sociais. Ahhhh, o blefe das redes. Ahhhh, o blefe das sociedades. Ahhh, o blefe da humanidade.

Submergir faz bem a saúde. Mesmo quando o oponente lança bombas de profundidade que fazem nosso casco mugir como o touro do Apocalipse. Quem sabe submergir se esconde embaixo das montanhas de pedra submarinas. Pouca luz, nenhum som, motores desligados. Esperar a tormenta passar. Um, 12, 30, 600 dias. Submarinos atômicos, longa autonomia. Falo de nós, longa autonomia. Falo da sociedade, aguda dependência.

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem e que as galinhas morrem por cacarejarem depois do ovo. Não é o caso do bicho-preguiça mergulhado em seu mutismo, espatifado até por skate. Não fala, mas não corre.

Correr ou falar?

Qual a melhor opção?

Sem dúvida a terceira.

Submergir.


Ou: em dia de temporal de faca não se bota a bunda na janela.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Let it Be, o filme



Assisti de novo ao filme “Let it Be”, dirigido por Michael Lindsay-Hoog. Foi feito ao longo de janeiro de 1969 e lançado em maio de 1970, quando a banda já havia acabado. Paul McCartney foi o único que lutou para que o filme fosse feito (aliás, era o único que ainda parecia acreditar que os Beatles ainda existiam), e o que era para ser o registro histórico dos ensaios, momentos de composições, interiores do maior grupo de rock de todos os tempos acabou se transformando num testemunho vivo sobre o fim dos Beatles.

Não há iluminação de cinema. Não há cenários, o roteiro é mínimo, a falta de luz gera a sensação de má qualidade das imagens, mas e daí? As câmeras circularam à vontade entre os músicos no estúdio, registrando conversas, gargalhadas e mal estar. George Harrison, por exemplo, não esconde que  já está de saco cheio e em determinado momento, conversando com McCartney, diz, desanimado e irritado “tudo bem. Diz o que devo fazer e eu faço”, uma maneira nada sutil de falar “dane-se”. Rindo Starr está apagado, desanimado e só raramente (mas raramente mesmo) se diverte dividindo um piano com Harrison numa brincadeira ou se divertindo com a então pequena Stella McCartney, de três anos.

Yoko Ono é onipresente. Aparece em várias cenas, quieta, sorriso de Monalisa, observando, sempre ao lado de Lennon, com quem chega a dançar uma valsa no estúdio. O constrangimento no ambiente é óbvio mas o som rolou assim mesmo. E que som. Que som! Com Billy Preston no órgão, os Beatles, mesmo sabendo que era o fim, arrebentaram.

Curiosamente, o clima entre McCartney e Lennon não parecia ruim. Os dois se divertem, riem quando dividem microfones, mas fica claro o comedimento, a cerimônia. Em determinado momento Macca comenta que se George Harrison não embarreirasse os Beatles deveriam voltar a tocar ao vivo, quem sabe começando pelo Royal Albert Hall, em Londres.

Há quem diga que naquela época Lennon teria sugerido a Macca que Harrison fosse substituído por Eric Clapton, o que foi negado. Paul achava que The Beatles só deveria existir com os quatro. Há muito mistério na atitude dos dois ao longo dos quase 90 minutos do documentário, onde tocam de tudo, inclusive canções que, creio, permaneceram inéditas. O final apoteótico foi aquele lendário show no telhado da gravadora Apple que acabou com a chegada da polícia.

Assistir Let it Be faz muito bem porque: 1 – comprova que The Beatles foram (e são) muito mais gigantescos e monumentais do que supomos; 2 – o grupo acabou na hora certa. Melhor do que seguir definhando publicamente.

Músicas do filme

.“Two of Us"
"Dig a Pony"
  • "Across the Universe"
  • "I Me Mine"
  • "Dig It"
  • "Let It Be"
  • "I've Got a Feeling"
  • "One After 909"
  • "The Long and Winding Road"
  • "For You Blue"
  • "Get Back"
  • "Octopus's Garden"
  • "Maxwell's Silver Hammer"
  • "Besame Mucho"
  • "Don't Let Me Down"
  • "You've Really Got a Hold on Me"
  • Medley: "Kansas City/Hey, Hey, Hey, Hey"




domingo, 16 de julho de 2017

Minha validade vencida

Fico aflito em não saber quem lê esta Coluna. Aflito e ansioso. Chegando aos 380 mil acessos, receio que a Coluna não atinja o chamado “público jovem”. Na boa, receio não. Tenho absoluta certeza que não. Muitos representantes das chamadas novas gerações, por razões objetivas, estão desconectadas da chamada mídia formal, da qual faço parte. Alguns garotas e garotos tem sua mídia própria e, pelo que vejo, ouço, converso, frequentam-se mutuamente numa rica troca de ignorâncias. Ignorância no sentido literal, de ignorar. Neste caso, propositalmente, e daí?

A ignorância é um direito e se esses representantes das novas gerações gostam de ler quinquilharias, preferem assistir you tubers, ouvir safadões, estão em seu pleno direito de surfar a liberdade a sua maneira. Quem sou eu para obrigar a ler Machado de Assis, ou sorver o texto genial de uma Clarice Lispector ou do Lobão. Sim, eu acho o texto do Lobão genial. E daí?

Quem sou eu para vociferar “vocês tem que assistir CNN, Al Jazeera, Globonews e não essa cisterna de purpurina tola e fútil dos you tubers”? Quem sou eu para clamar “ouçam a remixagem de Sgt Pepper dos Beatles, o melhor do Radiohead, ouçam Jimi Hendrix e não essas bostas que vocês espetam nos ouvidos com seus celulares. Quem sou eu? Não sou ninguém.

Tenho consciência plácida de que a minha validade intelectual está quase vencida. A validade existencial dura um pouco mais, 23 anos para ser preciso. Penso nisso numa boa porque a chamada evolução da espécie, atira a validade vencida no lixo. Logo, no auge de minha quase falência intelectual determinar que a evolução da espécie virou involução, retrocesso, anemia é de uma boçalidade e arrogância atrozes.

Se segmentos das novas gerações não leem bem, escrevem mal, são ególatras ao extremo, são alienados e vazios isso é um conceito meu. Ponto. E não deles. Ponto. Tenho tanta convicção da minha validade existencial que ultimamente tenho frequentado sites de suicídio assistido nos Estados Unidos pois quero dar a meu fim de linha, minhas últimas cenas, um contorno suave e honroso.

Parte da minha geração foi cercada de brilhantes livros, jornais, revistas, filmes etc mas vestiu o pijama, passeia com o canário na gaiola pelas ruas de manhã, para numa padaria qualquer para beber coalhada e jogar conversa fora (literalmente) e, adestrada, volta para casa. Abre o computador cheirando a naftalina e começa a lamuriar nas redes sociais, achando que as novas gerações tinham que estar participando deste momento histórico do Brasil, detonando Temer, Lula, etc etc etc. Reclamam que filhos e netos não conversam em casa. As vezes entro nas redes e digo “as novas gerações só querem uma coisa do Brasil: pular fora daqui”.

Alguns filhos e netos que entram porta a dentro com a cabeça enterrada no celular teclando com sua rede, trancam-se no quarto fazendo sabe-se lá o que on line e só saem para banho, comida e tosa, como um pet. Não querem saber quem governa o país, que país é este (eles tem mais o que não fazer para pensar nisso), quem é quem na TV, não assistem a noticiários, não ouvem rádios. É só eu, eu, eu, e a rede de contatos. E quando eu digo para os meus contemporâneos que isso não é problema nosso, eles gemem de horror.

Nos fins e de semana alguns integrantes das novas gerações vão a festas de sua rede. Um ou outro bebe, um ou outro fuma, um ou outro toma MDMA (droga da moda, conhecida como Michael Douglas) ou similares, um ou outro morre e na pré alvorada da onda da madrugada voltam para o seu minifúndio (casa dos pais), alguns com namoradas ou namorados e se embolam trancafiados em seu bunker/quarto, depósito de enigmas e tabus para uso pessoal e intransferível.

Segue o jogo.







sábado, 15 de julho de 2017

40 anos sem Big Boy

Big Boy morreu há 40 anos. Foi em 7 de março de 1977. Ele era asmático crônico e sempre andava com uma bombinha no bolso. Todo mundo o chamava de hipocondríaco e ele respondia, irônico, “quem é vivo sempre aparece”. Não bebia, não fumava e nem cheirava nada. Foi a São Paulo a trabalho e começou a passar mal no quarto do hotel. Quis o destino que, naquele dia, Big Boy não estivesse com bombinha nenhuma. Morreu.

Os 40 anos da morte do maior DJ do rádio brasileiro só não passou totalmente em branco porque o mega radialista Mauricio Valladares dedicou a Big Boy um farto e merecido espaço no programa "Baú da Globo" nos últimos domingos. Produzido por ele e pelo Centro de Documentação e Pesquisa do Sistema Globo de Rádio, "Baú da Globo" vai ao ar domingos, as 23 horas. 

Fora essa águia solitária, Big Boy foi desprezado. Razões compreensíveis. Nunca a mídia esteve tão imbecil, fútil e vazia como hoje, e a culpa não é da internet. Ninguém falou dos 40 anos de Big Boy porque 0,000000000000001% das redações sabem quem foi ele. Vivemos tempos de heróis fabricados pelos interesses pessoais de alguns profissionais de comunicação com C minúsculo. Até recentemente, jornalista que ganhava cachê de fonte era demitido. Hoje, jornalista entre aspas apresenta festinhas, seminários, congressos, organiza debates, dá palestras, pago por empresas e governos. Lógico que, em troca, além do cachê que recebe escreve agrados.

Além de ter revolucionado a extinta Rádio Mundial, AM oito-meia-zero, com aquele som horrível de caixa de sapado mas tão lúcida e inteligente como uma FM inexistente hoje, o extinto Big Boy inventou a extinta Eldo Pop em 1971. Uma rádio cuja programação era calcada no melhor do rock progressivo, mas rolava outras bandas também. Não tinha locução. A Eldo Pop era um computador do tamanho de uma geladeira que ficava cuspindo boa música 24 horas por dia no morro do Sumaré. Quando pifava (e era comum), Mario Henrique Peixinho pegava um carro e subia até lá para por no ar de novo. A Eldo Pop foi líder em audiência em FM e durou até Big Boy morrer. Saiu do ar em 78 e em seu lugar entrou a famigerada 98 FM.

Eu, meu irmão Fernando Mello e o amigo/irmão Marcio Paulo Maia Tavares ouvíamos a Eldo Pop o dia todo. Tínhamos praticamente decorado a programação baseada nas centenas de álbuns que Big Boy trazia dos Estados Unidos. Como não gavia locução as bandas não eram anunciadas. Acabaram virando um enigma, mito. Desvendar cada uma delas virou uma mania para os ouvintes.

Tenho certeza de que se não tivesse morrido Big Boy não deixaria a Eldo Pop acabar. Ele vivia as turras com o comando das rádios onde trabalhava, mas acho que tinha algum cacife lá dentro. Ele sempre dizia ao pessoal da rádio (não cheguei a ter contato com ele) que a Eldo era um diamante que estava sendo lapidado devagar e que iria revolucionar os anos 80. Não deu tempo.

Quando fui montar a Globo FM, em 1985, Peixinho me mostrou a discoteca da Eldo Pop. Intacta, toda em vinil. Claro que, manuseando aqueles discos, bateu um nó na garganta. Há 15 dias soube que a discoteca foi para o espaço. Ninguém sabe, ninguém viu. Em tempo: todo o arquivo precioso da Rádio Jornal do Brasil, ícone do radiojornalismo brasileiro, também foi jogado fora. O imbecilato goza vomitando ignorância digital por aí. O imbecilado produz áudio com som perfeito, cristalino, 5.1, mas burro, anêmico, boçal. A comunicação virou um asneirol vago.

Aqui, vinhetas da Eld Pop.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Lua de Neil Armstrong. Lua dos poetas.

A lua jamais deixará de ser a musa encantada dos poetas, mesmo depois que Neil Armstrong desceu do módulo lunar da missão Apolo 11 em 20 de julho de 1969 e pisou o solo lunar com sua bota prateada. 1969 foi um ano de muitas mudanças, entre elas o maior protesto contra a guerra do Vietnã reunindo meio milhão de pessoas em Woodstock. Esse ano foi tão significativo que, inspirado nele, Paul Auster escreveu o magistral “Palácio da Lua”, livro que devorei em dias noites.

Fui cedo para casa para assistir pela TV. Não lembro se foi uma transmissão ao vivo, mas sei que a narração era de Hilton Gomes, um célebre locutor. A imagem em preto e branco cheia de imperfeições me hipnotizou e quase não ouvi o pipocar dos fogos que algumas pessoas soltaram celebrando aquele momento. Um momento crucial na história de todos nós que algumas pessoas insistem em dizer que foi uma fraude, que o homem pisando na lua teria sido uma gravação simulada em estúdios. Que bobagem.

Na época, diziam que o fato do homem pisar na lua anularia seu poder poético. Não acho. A lua continua comovendo, mesmo depois de Neil Armstrong pisou na sua pele e revelou que o homem não conhecia a versão maior da solidão. Ele disse depois que “a solidão na lua é abissal...indescritível..absolutamente angustiante”.

E se a humanidade evoluiu, pelo menos cientificamente, devemos muito a desbravadores heroicos como Armstrong. Aliás, sugiro a todos que peguem nas locadoras o filme “Os Eleitos”, de Philip Kaufman que conta a história da corrida espacial de um jeito completamente diferente. O filme é baseado no livro de Tom Wolfe.

Neil Armstrong morreu em agosto de 2012 triste com o corte de verbas para o programa espacial e até se reuniu com Barack Obama para tratar do assunto. Obama explicou que é uma questão temporária mas, ainda assim, Armstrong não engoliu. Com razão.

Discreto, nunca transformou a sua grande viagem numa egotrip pessoal e, só eventualmente, dava uma ou outra palestra. Por tudo que representa e simboliza, por tudo que fez, Neil Armstrong, um ícone dos anos 60, deixa sempre muita saudade.

1969. Que ano.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Tolerância a intolerância

      Foto de Catherine Beranger

Sempre que há recessão e inflação, os sonhos, objetivos, planos, projetos de milhões de pessoas são engavetados, as contas do mês ficam mais difíceis de fechar, a insegurança atinge níveis quase insuportáveis, a esperança, a velha, boa, necessária esperança, parece querer bater asas e partir.

Também neste quesito o Brasil é um dos lugares mais existencialmente instáveis do planeta. O Brasil é pau de enchente, voo na neblina, roleta com mais de 200 milhões de fichas. Brasil é bala perdida. E foi a tolerância a intolerância que me convenceu a ficar no Brasil.

A tolerância a intolerância é intolerável, mas está presente até para quem não pode ou não quer ver. Nas ansiosas filas dos bancos, nos ônibus, aviões, na caminhada solitária das pessoas rumo ao trabalho, a escola, a consulta médica. Rumo ao nada, muitas vezes.

Exercitar a tolerância é mais do que fundamental, ensina a filosofia. Um exercício difícil, espécie de musculação existencial, vital, fundamental para que as pessoas possam conviver minimamente bem com elas mesmas e a partir daí com a sociedade. Ou seria camping?

A intolerância está presente nas ruas, no ambiente de trabalho, no supermercado, nas redes sociais, na podridão política. Nesse momento de crise, o radicalismo parece se impor ao bom senso e assistimos a um banho de sangue entre aspas entre pessoas que atiram até amizades de décadas no lixo em nome de convicções políticas dos outros, os políticos profissionais.

A sensação de “vão-se os dedos, ficam os anéis”, quando todo mundo bate em todo mundo defendendo políticos, políticas, governos, desgovernos, incha mais os bolsos deles, dos políticos e esvazia a esperança de criar uma nação mais equilibrada, mais generosa e até mais engraçada. Afinal, sem humor nada é possível.

Dizem que essa onda de tolerância a intolerância é passageira. Mas ela preocupa e pensamentos em plena hora da vadiagem, dos devaneios. Afinal, se brigar por nós exige limites, brigar por quem não merece parece ridículo.

Ou não?


segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Lobão que conheço

A caminho dos 400 mil acessos, esta Coluna bateu todos os seus recordes de leitores desde sábado, quando publiquei uma sinopse do novo livro do “Lobão - Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock” que acaba de ser lançado pela editora Leya e já está entre os mais vendidos da Amazon.

Lobão vai iniciar uma turnê nacional de autógrafos e conversas sobre o livro: Em São Paulo nesta quinta-feira,13/7na Unibes Cultural as 19 horas e no Rio, dia 18, terça feira da outra semana. Confira os detalhes sobre o livro clicando aqui: http://colunadolam.blogspot.com.br/2017/07/novo-livro-do-lobao-guia-politicamente.html

Lobão é um dos sujeitos mais inteligentes e sensíveis que conheço. E não conheço pouco. Já comprei o livro e estou esperando receber, mas um amigo que está lendo me ligou dizendo que ele narra como nos conhecemos numa tarde quente de 1982 na Rádio Fluminense FM, quando ele e o saudoso Ignácio Machado foram me entregar a fita do seu primeiro álbum, “Cena de Cinema”.

A partir daí mantivemos contatos frequentes. Fui algumas vezes em sua casa nos tempos em que ele vivia na Estrada das Canoas em São Conrado, almoçamos várias vezes e o Lobão que eu conheço é muito, muito doce, amigo, humano e extremamente corajoso. Sua autobiografia “50 anos a mil”, de 2010 é uma amostra de sua abissal coragem. O amigo que já estão lendo Lobão - Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock”dizem que a mensagem para Herbert Vianna é comovente.

Não exagero quando digo que o lobão que conheço é uma das mais lúcidas e brilhantes cabeças mentes de sua geração. Ele compõe e compôs clássicos, vive intensamente as artérias e becos dessa vida, foi perseguido pela justiça de forma covarde (como conta em “50 anos a mil”) e também causa muito incômodo político. O doce Lobão não se preocupa com esse policiamento existencial e segue construindo uma sólida história.

Um grande cara.



sábado, 8 de julho de 2017

Novo livro do Lobão - Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock


Noites de autógrafos no Rio: dia 18 de julho, 19 horas na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Em São Paulo: 13/7: São Paulo-Unibes Cultural

Lobão solta o verbo e conta tudo o que você sempre quis saber sobre o rock brasileiro dos anos 80

Com muito humor e, como não poderia ser diferente, sem papas na língua, Lobão revive as amizades, as parcerias, as primeiras derrotas, as decepções, as drogas, a baixa autoestima, as gravações ruins e, ao mesmo tempo, as grandes canções que marcaram a história do rock nacional e da década de 1980 neste Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock. Ele se confronta com as contradições daqueles anos, sua atmosfera política e o desinteresse da nova geração de músicos que surgia pelo que chama de “desgastada e empolada linguagem da ingênua, presunçosa e reacionária MPB”.

Os anos 1980 ficaram conhecidos como a década perdida. Mas, apesar dos penteados esquisitos, das ombreiras, do Xou da Xuxa, e da hiperinflação, também foram anos de muito rock and roll. Pelo olhar de alguém que abraçou a vida bandida daquela época, o Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock apresenta um retrato irreverente, sincero e pessoal do Brasil a partir dos bastidores de uma de suas principais expressões culturais. Tomando o devido distanciamento temporal dos acontecimentos, Lobão (ao mesmo tempo um dos sócios-fundadores daquele rock e um de seus maiores críticos) não poupa palavras para, de uma vez por todas, contar todas as verdades sobre os anos 80 – de sua alegria inicial e real esperança à decadência.

Por que o melhor dessa década se esvaneceu? Por que será que não deixou nenhum legado? Foram as mortes de artistas fundamentais um fator decisivo? Certamente isso contribuiu de forma dramática para a derrocada... Mas será que foi só isso? É o que veremos”, escreve o autor.

Este é um verdadeiro representante da família Politicamente Incorreta. Um guia repleto de farpas, ironia, e polêmica, como se espera de um livro desta coleção, e também, de uma obra escrita por Lobão. 

Trechos:

"O brasileiro vive a confeccionar alegorias profiláticas no intuito de evitar qualquer descoberta mais adulta e honesta de si mesmo. O Brasil pode entrar em crise, mas a imagem que o brasileiro faz de si próprio, jamais."

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"A filosofia dos executivos de gravadoras era sempre gastar muita grana quando o assunto era ganhar muita grana, mas sempre na direção do tosco e do pasteurizado. Esse fator dificultaria muito o rock em desenvolver seu som."

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"A partir de Cinema mudo, primeiro LP dos Paralamas do Sucesso, o rock brasileiro perderá por completo a sua inocência: da loucura delirante e caótica de uma Gang 90 para o burocrático e tacanho sistema de cópias e lobbies."

* * *
"Os Titãs adquiriram com Cabeça Dinossauro todos os atributos de uma banda original. Ando meio de mal com eles desde que nos distanciamos, nos idos de 1986, mas é um disco soberbo, letras espetaculares, interpretações bíblicas. Um disco foda."

* * *
"Com a aproximação de RPM, Ritchie, Titãs e Paralamas com a Tropicália, mais a banalização absoluta que sofre o gênero com a interferência das gravadoras, teremos o rock brasileiro ferido de morte."

* * *
"Dois irá sedimentar a posição de Renato Russo como o arauto de uma geração. Sua capacidade de hipnotizar multidões de fãs e de escrever canções com temas tão diversos e complicados desafiam todos os tabus e dogmas do mercado."

* * *
"O fim da década introduz um personagem que funcionará como o arauto da obliteração absoluta da geração: Marisa Monte, uma cantora de técnica impecável e expressão nula, surge na ribalta com o papel de resgatar a MPB e a Tropicália da morte certa."

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Gosto do Facebook

Estou no Facebook desde 2012. Reencontrei muitos amigos que vagam pelo planeta, colegas de jornalismo, produção musical, literatura e até parentes que não vejo há décadas, além de muitos leitores, ouvintes, telespectadores. Só por isso, já valeu à pena.

Via Facebook, fui e vou a reuniões de amigos e colegas que estavam dispersos, sem contato, no deserto e hoje voltaram a minha caótica agenda. Dezenas de ouvintes, telespectadores, leitores dos anos 1970, 80, 90, 2000 e hoje de minha Coluna do LAM (essa aqui), além de viciados em rock, blues, jazz, progressivo, new age etc. etc. etc.

Os contatos profissionais que faço tem resultado em muitos e ótimos trabalhos, já que desde o ano 2006 decidi militar radicalmente no planeta da guerrilha dos freelancers. Enfim, não tenho o que reclamar do Facebook que, sabendo usar, não aporrinha ninguém.

Vejo lá algumas pessoas chiando, se queixando, talvez por não terem notado ou se tocado que o Facebook é uma mídia extremamente poderosa e abrangente. Tudo o que publicamos (até o que consideramos insignificante), gera reações e até baixarias. Logo, como escreveu Caetano Veloso, é preciso estar atento e forte porque se pisamos na bola o Facebook vira carcará; pega, mata e come.

Por isso me irrito (muito, por sinal) quando vou a um lugar e publicam fotos minhas já que, na boa, detesto dar satisfações, dizer o que faço, onde vou, com quem, ara que. Não  gosto de "evasão de privacidade" (essa é do Tutty Vasquez), mas a culpa não é do Facebook.

Mantenho o número de contatos na faixa de 4.900 já que o limite é de 5 mil. Não conheço mais de 90% das pessoas que chegam até a minha página em consequência do meu trabalho ao longo de quatro décadas dedicadas a Comunicação. É extremamente gratificante esse retorno.

Como nunca me aporrinhei no Facebook (talvez pelo fato de jamais tratá-lo como diário pessoal), gosto muito de bater papo, postar vídeos de música, fotos, divulgar minhas colunas, livros, discos. Mas, o mais importante é o contato permanente com amigos e colegas (mais leitores, ouvintes), sem o que mídia social alguma faria o menor sentido.








quinta-feira, 6 de julho de 2017

As outras faces de Antonio Carlos Jobim

Reler livros, um hábito antigo. Os bons livros se renovam como nuvens a cada releitura, cada revisita. É o caso de "Antonio Carlos Jobim - um homem iluminado", escrito por sua saudosa irmã Helena Jobim, que me autografou um exemplar em 17 de maio de 1997, mês de lançamento da obra. Helena era um doce de pessoa.

Esse livro me mostrou que Tom foi muito mais extraordinário do que
se imagina. Mesmo a longa entrevista que tive o privilégio de fazer com ele em 1992, na churrascaria Plataforma, sequer chega perto do relato de Helena.

É um livro muito comovente porque mergulha numa pessoa que foi açoitada por angústias, ansiedade, questionamentos que se transformaram em músicas, discos e grandes, monumentais projetos. Graças ao livro da Helena conheci um Tom Jobim eternamente garoto. E como garoto, contempla
va os bichos pelas florestas por onde andou (especialmente na região de Passo Fundo, Estado do Rio, onde tinha o sítio/lar), divagou, se inspirou. Helena descreve Tom piando para aves como eu e meu irmão fazíamos com um amigo, um mateiro chamado Benedito, que nos acompanhava em aventuras indescritíveis pelas matas de Angra dos Reis em nossa infância.

Tom Jobim era aquariano. Também sou. Um amigo, também deste signo, costuma chamá-lo de "mentes caóticas futebol clube" e é a pura verdade. O transtorno, o perfeccionismo, o leve desespero que acompanhou Jobim a vida toda, sempre bate à minha porta. E a do meu amigo também.


Quando "Antonio Carlos Jobim - um homem iluminado" te procurar, leia.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Eleição não tem Procon

A diferença é que o Brasil foi descoberto e não conquistado. Há quem diga que foi por acaso, que Cristóvão Colombo já havia avistado nosso litoral antes, mas passou batido. Ninguém sabe porque.

Conquista é uma coisa, descoberta é outra. Aí, em 1808, movida pelo cagaço irrestrito, a Corte portuguesa fez as malas e, se borrando toda, veio parar no Rio de Janeiro fugindo de Napoleão Bonaparte. Dom João VI, imperador, preferiu o calor inclemente do Rio e a fedentina da cidade onde cães, bosta e gente degradada se misturavam em
cenas grotescos, a ter que enfrentar as tropas francesas.

A História conta que um dos primeiros atos de D. João foi criar o Banco do Brasil para seu uso pessoal, transformado em cofre particular de onde arrancava milhões e milhões todos os meses. A bordo das naus que partiram de Lisboa, escoltadas por navios ingleses (ingleses que, como pagamento, levaram toneladas - literalmente - de ouro das Minas Gerais), a fina flor da escrotália da elite portuguesa que veio desaguar no Brasil, criado como lupanar. Jamais como nação.


Um país descoberto por acaso, um imperador encagaçado que veio parar aqui nas coxas, uma rainha que se chamava
Maria a Louca, enfim, o Brasil deu no que deu, ou não deu no que deveria ter dado, tem o DNA da lambança.

Em suma, em 201
7, 517 anos após a chegada de Cabral e 209 após o desembarque do cagão D. João VI e sua Corte larápia, o povo brasileiro foi as urnas e reelegeu (re!) o governo que aí está, a chapa Dilma-Temer. Só que o Brasil quebrou. Se alguém conseguir achar, por exemplo, uma ambulância do Samu verá nela a cara da saúde pública: faróis quebrados, sem sirene, maçanetas amarradas com barbante. Vi uma assim um dia desses e o funcionário no banco do carona batia com a mão na porta para abrir caminho porque a sirene estava pifada e a buzina também.

A educação, o transporte, a segurança, o emprego, a esperança, o sonho, foi tudo ralo abaixo. Absolutamente tudo. Só que eleição não tem Procon. A maioria elegeu o que está aí e, democraticamente,
se Temer não cair, teremos que aturar até 2018 quando, espero!!!, o país já tenha começado a se levantar também, após centenas de tombos desde 1808.

Como D. João VI trouxe à bordo a máxima "os incomodados que se mudem", a opção de viver no Paraguai (opção de um conhecido que está muito bem
por lá) torna-se cada vez mais interessante.

Em 2018? Pelo desandar da carruagem (1.500, 1808...) vai dar.....................................(preencha você mesmo) na cabeça.

terça-feira, 4 de julho de 2017

O lixo musical que assola o Brasil

Nunca antes na história deste país a música popular foi tão pífia, escroque e vagabunda. Reflete o cenário nacional de uma maneira geral e o cultural em particular. Com o fim do mercado do disco formal também desapareceram os críticos musicais que, direta ou indiretamente, eram um ponto de referência.

Os críticos musicais (eu me incluo) foram banidos junto com a radical dieta calórica/encefálica imposta pelos empresários da mídia aos suplementos culturais, hoje reduzidos a pequenos bidês frequentados por neófitos (saem bem mais baratos) que decarregam o seu asneirol vago.

Há pouco tempo tínhamos uma indústria polêmica mas que fazia a seleção dos artistas que iam gravar. Produziam seus discos que chegavam aos críticos, rádios, TVs. Os críticos opinavam sobre o que prestava e o que não prestava. As rádios sérias tocavam o que achavam que tinham a ver com o seu perfil, enquanto que muitas tratavam do assunto via jabá, cobravam grana viva-ou viagens-ou carros- ou etc para tocar as músicas de interesse das gravadoras.

É lógico que muita gente ignorava os críticos e suas opiniões, mas pelo menos os tinha disponíveis. As rádios, nas coxas ou não, apresentavam a seus ouvintes as novidades. Enfim, a cadeia industrial da música beneficiava, sim, o consumidor final. Você que lê esta coluna e pegou essa época, quantos artistas conheceu pela crítica e pelo rádio?

Hoje não há mais referência alguma. A crítica foi substituída por placebos que não conhecem música, nem jornalismo e, ainda por cima, escrevem mal. Vomitam ignorância, futilidade e asneiras em canais do You Tube, blogs e similares. As rádios em FM estão no fim e, em vez de investir no novo preferem atacar de flashbacks por uma razão muito simples: a função de produtor e programador, um exímio conhecedor de música que selecionava o que as rádios iam tocar, também foi pulverizada.

A internet virou a grande mídia. E não adianta cacarejar sem sentir dor porque a internet será a ordem do dia por pelo menos mais um milênio. A quem discorda, sugiro um pijama listrado e um canário na gaiola e papo na pracinha passando a mãe na bunda das babás. A WWW é maravilhosa, minha amante 24 horas por dia. Surgiu com a proposta de liberdade absoluta, total. Mas, como um disco de vinil, tem seu lado B. A internet inventou a música por streaming e degolou a indústria do disco. A internet substitui rádios por tocadores de música que não apresentam conteúdo falado. Você ouve mas não sabe o que está ouvindo porque, na maioria dos casos, não há quem explique.

O cotidiano me põe em contato direto com as novas gerações e seus iPads, smartphones e players como o Spotify, onde estão 40 milhões de musicas. Se no passado o Brasil exportou Bossa Nova, Tropicália, Carmem Miranda, hoje defeca Anitta, Ludmilla, Wesley Safadão. Em festas que as novas gerações frequentam, só dá funk, um cupim auditivo chamado sertanejo universitário e pagodagem gourmetizada. Nas ruas idem. Na TV, idem. Ora, para as novas gerações, essa é a única nova música disponível no planeta, massacrada pela grande mídia via programas como Esquenta, Altas Horas e outros moedores culturais.

Merdalhal. 

domingo, 2 de julho de 2017

O terrorismo já governa o Estado do Rio

O amigo Cezar Motta, brilhante jornalista, postou este comentário no Facebook, semana passada:

Em Londres, o atropelamento de pessoas em uma das pontes do Tâmisa deu notícia no mundo todo, assim como o esfaqueamento de transeuntes por um maluco. Terrorismo!, foi o alarme em todo o planeta. E é realmente alarmante.
No Brasil, alguém arremessa uma granada na porta de um bar de Copacabana, uma pessoa morre na explosão (poderiam ser várias); um tarado sai atropelando skatistas na rua em Sampa; as chacinas se repetem na periferia das grandes cidades; gays e trans são abatidos a tiros ou espancados até à morte...e tudo bem.
O que é isso, afinal, diante da destruição que o país vem sofrendo há 14 anos?...”
O terrorismo organizado das facções criminosas associadas, basicamente, ao narcotráfico chegaram ao poder no Estado do Rio, onde não só as cidades da região metropolitana como também do interior estão submetidas ao seu jugo cruel e nefasto.
Desde os anos 1970 a luz vermelha está acesa. A senha era “o morro vai descer”, mas ninguém acreditou. Achavam que era delírio dos intelectuais. O terror das facções elegeu e comprou maus políticos, maus policiais, maus juízes, maus jornalistas, corrompeu a sociedade e hoje domina o Estado.
Empunhando fuzis até mais modernos do que os utilizados pelo Estado Islâmico, Talibã e outros (como entram no Brasil? $$$), o exército do tráfico (os jihadistas daqui) cada vez maior e mais insano, determina toque de recolher, quem morre, quem vive, quem entra, quem sai. O terror nos submete as suas leis e normas.
Tudo isso se junta a explosão de corrupção em setores da Polícia Militar associada a uma Assembleia Legislativa alienada e voltada para seus próprios interesses, Justiça emperrada, enfim, cada um dos 17 milhões de fluminenses já sabe que perdeu. Viramos escravos do terror.
Os novos comandantes do Rio (todos sabemos, basta de hipocrisia!) obrigam garotas e mulheres a engravidar para que o exército não pare de aumentar. Tem como “aliado” um governador pífio, sucessor de Sergio Cabral, que assaltou os nossos cofres e levou ao desespero cronico aposentados, pensionistas e funcionários do Estado que passam graves necessidades (isso também é terrorismo) porque Cabral e seu bando de meliantes amigos torraram o dinheiro do funcionalismo em joias, palácios, delírios.
Solução para o terror no Rio? Não conheço. Acho que ninguém conhece. O comando do tráfico usa a população inocente como escudo, seguindo a receita dos terroristas do Oriente Médio. Impede, assim, que as forças armadas possam confrontá-los, sob pena de matar milhares de inocentes.
E agora?


sábado, 1 de julho de 2017

Um papo olho no olho com Paul McCartney

Marcelo Fróes postou no Facebook esta foto de Macca sozinho num vagão de trem em Londres. Foto desta semana

Tempos estranhos, levemente boçais. Estou certo de que se escrevesse sua obra hoje, Anais Nin (1903-1977) seria esquartejada em via pública pelo moralismo cabaçudo que governa este século 21, açoitado e submetido a praga do PC, Politicamente Correto. Por exemplo, Barão e Mathilde, personagens de seu clássico “Delta de Venus” coletânea de contos eróticos escritos em 1940 mas só publicada em 1978, seriam fatiados e os pedaços pendurados por aí. Por que? Anais cometeu o crime de deixar os seus personagens fazerem o que quisessem. Como acho que nesses tempos do famigerado PC, o álbum Sgt. Peppers Lonely Heartys Club Band não teria existido. Incorreto demais. Fora dos padrões, da caretice, muito mundano.

A conversa franca de Paul McCartney com Anthony Decurtis, da Rolling Stone americana, quatro anos atrás, toca em temas que ele pouco ou nunca comentou em profundidade como o fim do grupo, a amizade retomada com Lennon, a saudade de Harrison. Leia:

Como foi o "verão do Amor" (1967) para você?

Legal pra caramba. Tínhamos acabado de decidir que suspenderíamos as turnês porque já não estava mais valendo muito a pena. Parecia que não estávamos progredindo, o público continuava berrando, mas a gente se encheu daquilo. Tínhamos a ideia de fazer um disco que sairia em turnê por nós.
Isso veio de uma história que tínhamos lido a respeito do Cadillac de ouro do Elvis fazendo turnê. Achamos que era uma ideia maravilhosa: ele não sai em turnê, só manda o Cadillac. Fantástico! Então, pensamos: "Vamos despachar um disco". Passamos mais tempo em estúdio e o resultado foi Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). Então, foi maravilhoso. Estávamos amadurecendo? Não sei.

Olhando em retrospecto agora, éramos praticamente crianças, apesar de nos sentirmos muito adultos. Tanta coisa tinha acontecido com tanta rapidez desde a viagem dos Beatles para os Estados Unidos em 1964. Em essência, aqueles três anos foram a diferença entre "I Want to Hold Your Hand" e "Sgt. Pepper's." Os tempos estavam mudando, como senhor Dylan disse. Só estávamos seguindo nossos instintos, mas havia um grande arroubo de energia, as ideias vinham rápidas e consistentes.

Todos os tipos de ideias novas - artísticas, políticas, musicais. Começamos a escrever coisas que eram diferentes porque nossas conversas, nossos pensamentos e nossos sentimentos eram diferentes. Estávamos passando muito mais tempo longe da estrada, com outros artistas, e isso nos permitiu investigar outras coisas.

Tínhamos muitos amigos no mundo da música e no mundo da arte, e havia uma grande fertilização cruzada. Foi uma época ótima para experimentar coisas e tudo isso penetrou na nossa música e no nosso estilo de vida.
Eu me lembro do impacto de Sgt. Pepper's como algo instantâneo e onipresente, tocando em toda casa noturna, toda loja de roupa, toda loja de discos.

Você fazia ideia de que teria esse tipo de efeito?

Como tínhamos parado de excursionar, a mídia começava a sentir que as coisas estavam calmas demais, o que criou um vácuo, de modo que puderam falar mal de nós. Diziam: "Ah, a fonte secou". Mas nós sabíamos que não tinha secado. Sabíamos o que estávamos fazendo e sabíamos que nossa fonte estava longe de secar.

Na verdade, o oposto estava acontecendo - vivíamos uma enorme explosão de forças criativas. Nós pressentimos isso. Realmente não comentamos o assunto com muita gente. Tocávamos uma demo aqui, outra ali [para os amigos] e tal, mas o mundo de maneira geral não sabia de nada.

O que alguns críticos comentavam era "ah, eles estão acabados". Enquanto isso, estávamos lá trabalhando com alegria, como os Sete Anões - "Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho!" [risos]. Estávamos nos divertindo muito, obviamente, montando essa coisa.

Daí, quando saiu, foi fantástico. Naquela época, costumávamos lançar [álbuns] na sexta-feira, e aquele fim de semana foi uma coisa. Eu me lembro de ter recebido telegramas que diziam coisas como "vida longa a Sgt. Pepper's!". Esse era o sentimento geral, e era maravilhoso.

Naquele domingo Jimi Hendrix tocaria no Saville Theatre no West End de Londres, e ele abriu o show com o tema de Sgt. Pepper's. Cara, o disco estava mesmo em todo lugar! E é claro que nós só ficamos surfando naquela onda artística. Foi bem bacana exercer tanta influência assim.

Como eu disse, era verão, e o sol brilhava e lá estávamos todos nós, no maior astral! Eu me sinto muito privilegiado por ter vivido aquilo, em primeiro lugar e, em segundo, por ter sido o epicentro dos acontecimentos.

Deve ter sido uma sensação muito estranha - passar por mudanças enormes e, simultaneamente, gerar mudanças similares para milhões de outras pessoas.

Foi sobrenatural. Nós tínhamos nos acostumado com uma parte disso simplesmente por sermos os Beatles. Até "I Want to Hold Your Hand" tinha deixado as pessoas loucas. Mas em 67 a coisa passava para outro nível. Estávamos entrando no coração e na mente de todos.

Parecia muito que Sgt. Pepper's fazia parte do sentimento daquela época em que, de algum modo, tudo iria se transformar, que nada jamais voltaria a ser como antes.

É engraçado, conheço muita gente que, depois dos anos 60, teve uma sensação de decepção que nunca passou. Eu pessoalmente achava que, ao passo que tudo estava mudando, não necessariamente significava que tudo mudaria. Nós tínhamos longas discussões a respeito de como um dia as pessoas da nossa geração se tornariam primeiros-ministros e seria bem sobrenatural [para eles] o fato de terem sido afetados por esse período.

Mas, ao mesmo tempo, éramos realistas, e pensávamos "é, mas vão continuar sendo políticos". Dava para saber que tudo que estava acontecendo no mundo mudaria a ordem das coisas em alguns aspectos, mas não em todos. E isso está provado pelos nossos líderes atuais. Eles continuam presos aos anos 40 ou algo assim.

Houve algum acontecimento específico que fez com que você achasse que os anos 60 não cumpririam suas promessas?

Suponho que preciso considerar o rompimento dos Beatles como o momento mais sombrio. Os Beatles chegaram a um ponto em que implodiram - todos tinham dinheiro e fama e, de vez em quando, era inevitável que nos irritássemos uns com os outros.

Eu tinha conduzido a dança um pouco em Sgt. Pepper's. Para mim, o título e a ideia toda foi inspirada pela época e pela fertilização cruzada com os outros artistas. Queria que fosse algo do tipo "uau, cada um de nós tem sua lista de heróis [na capa] e vamos assumir estes alter egos. Seremos pessoas novas fazendo este disco, e podemos mais ou menos viver nestes corpos novos e fazer um álbum como se fôssemos outra banda". Aquilo foi libertador.

Mas, depois disso, não dava para sentir que era possível seguir em frente como aquela outra banda. Você inevitavelmente voltava à terra, fazia parte dos Beatles.

E foi aí que os problemas começaram...

Foi quando começamos a discutir assuntos comerciais, principalmente com o advento de Allen Klein - ou "um certo empresário norte-americano", ou seja lá como somos obrigados a nos referir a ele. Deixemos para o departamento jurídico resolver. As conversas passaram a ser assim: "Ah, que merda, vamos ter mesmo que pensar sobre isso agora ou perderemos tudo?". E isso causou um racha tremendo.

Você acabou processando os outros Beatles.

Foi o pior momento da minha vida, quando me informaram que não poderia me opor a esse tal de Klein, esse "suposto empresário norte-americano". Como ele não era uma das partes de nenhum dos nossos acordos, precisei brigar contra os outros três caras. Foi uma situação com a qual me debati durante meses. Ou era "não, não brigue com esses caras e perca tudo para todo o sempre" ou "brigue com esses caras e salve tudo". Foi um dilema. No final, pensei "acho que eles não sabem o que estão fazendo, estão cometendo um erro pavoroso". Então eu, de fato, briguei no Tribunal Superior e venci, por sorte.

Isso criou um estigma terrível para mim, como sabia que criaria - não tinha entrado naquilo de bobo. Sabia qual seria o preço. Mas achei que, no fim, as pessoas descobririam que tinha razão. E foi gratificante quando todos os caras, no final, piscaram para mim e disseram: "Foi bom você ter feito aquilo". Até Yoko [Ono] reconheceu isso. Mas foi uma coisa horrorosa de se viver. Foi quando o sonho se desfez para mim.

Houve um ponto em que você sentiu que, apesar da dissolução da banda, seria capaz de seguir em frente e continuar a se divertir?

Fazer o álbum McCartney (1970) foi bom para mim nesse aspecto, porque realmente retornei às raízes. Eu me senti bem, e isso é bom. Até hoje, as pessoas reparam naquele álbum. Com freqüência acontece com os artistas e os músicos - eu ia dizer especialmente, mas acho que está mais para igualmente - de o trabalho ser aquilo que faz você se compreender.

A música é especialmente boa para isso, é uma boa terapia. Estava passando pela coisa terrível de perder a amizade daqueles meus camaradas da vida toda, e para quê? Bom, a mim parecia que o motivo era tentar salvar a vida deles. Aliás, não existiria uma [gravadora] Apple para estar em litígio com a Apple de Steve Jobs - e não existe mesmo, falando nisso, já foi tudo resolvido -, mas não existiria uma Apple Records hoje. Tudo teria desaparecido; a coisa toda simplesmente não existiria.

Não haveria nenhum show em Las Vegas, não haveria nenhuma destas coisas que agora estão aí tão gloriosas se não tivesse tomado aquela atitude. Mas foi uma decisão dura de verdade. Foi uma daquelas coisas que exigem terapia depois, e para mim, voltar à música foi essa terapia. E, é claro, com a enorme ajuda de Linda. Ela foi uma das grandes responsáveis por me fazer voltar à vida e seguir em frente. Ela era um bastão de força naquele momento. Isso e produzir música fizeram com que atravessasse aquele período.

Você, George e Ringo puderam desfrutar os ressurgimentos dos Beatles. John, é claro, morreu antes de boa parte disso acontecer e George também se foi.

Esta é a pior parte de ficar adulto. Você perde amigos, é inevitável. Não é exatamente uma surpresa, mas é terrível. É muito triste. Conhecia John intimamente há tanto tempo. Sempre me admiro com o fato de eu ter sido o cara que se sentava com John para escrever todas aquelas coisas. Éramos só ele e eu em uma sala e isso era bem especial. Então, perdê-lo foi horrível.
E foi especialmente triste porque tínhamos superado a desavença dos Beatles. Apesar de ele estar morando em Nova York, nós conversávamos com bastante regularidade. Simplesmente conversávamos sobre coisas cotidianas - sobre o filho dele, Sean, e sobre a vida em geral, sobre os pães que ele assava. Trocávamos receitas de pão, era ótimo. Então, simplesmente foi uma tragédia horrível ele ter sido arrancado daquele jeito.

No caso de George, foi igualmente trágico. Eram meninos tão lindos, sabe? [Ele faz uma pausa, e sua voz treme] George era simplesmente um sujeito ótimo. Ele era um garotinho que eu conheci em Speke, Liverpool, só um garotinho que entrou no meu ônibus. Eu subi no ponto anterior ao dele, ele entrou e nós começamos a conversar sobre guitarras e rock'n'roll. Depois, quando estávamos procurando um guitarrista, e eu mencionei o nome dele a John, George se juntou ao grupo. E daí passou a ser apenas o sábio George.

Ele era um sujeito lindo que não aguentava gente burra. Era uma alma muito linda. Nem me deixe começar, cara. É um horror ter perdido aqueles caras. Mas ser adulto é uma verdade terrível.

Você tem ideia do que continua a tocar as pessoas com os Beatles depois de todos esses anos?

Acho que, basicamente, é a magia. Os Beatles eram mágicos. Para mim, a vida é um campo de energia, um punhado de moléculas. E essas moléculas específicas se formaram para que aqueles quatro caras virassem os Beatles e fizessem todo aquele trabalho. Preciso pensar que foi algo metafísico. Uma coisa que deve ser considerada mágica. Estou sendo muito extravagante?
Se você quiser ser prático, acho que as músicas eram muito bem estruturadas. Quando as canto atualmente em shows, penso "isso aí é bom, é sim. Que verso bom. Ah, entendi!". É uma redescoberta. Você simplesmente lembra "ah, foi por isso que fiz assim". Então, elas também têm uma força física, é trabalho bem-feito.

Você teve papel importantíssimo depois dos ataques de 11 de setembro, organizando o Concerto para a Cidade de Nova York e ajudando a reconstruir a confiança da cidade. Mas muita coisa aconteceu para complicar nossa noção do que houve naquele dia. Quando você pensa em 11 de setembro hoje, o que lhe vem à mente?

Bom, tenho minhas lembranças pessoais de estar no [aeroporto de Nova York] JFK e de ver a fumaça das torres gêmeas. O aeroporto fechou, nosso voo foi cancelado, fomos para Long Island, ouvimos o noticiário e assistimos a TV. E depois pensei em fazer meu próprio concerto, mas tudo culminou no Concerto para Nova York, que foi ótimo, porque muita gente queria fazer alguma coisa.

Foi ótimo fazer parte daquilo - ajudar os norte-americanos em particular, mas o mundo de maneira geral, a colocar seus sentimentos em algum lugar. A oportunidade perdida foi que as pessoas ficaram com um enorme sentimento de solidariedade em relação ao povo americano, e as ações políticas que se seguiram a 11 de setembro desperdiçaram a oportunidade. Foi como se alguém no playground tivesse apanhado, mas não sabia quem tinha batido, e por isso resolveu descontar na pessoa mais próxima - e isso se transformou no Iraque. A agenda política é a culpada.
Olhando para a frente, quais são as principais questões que se colocam agora?

Fazer algum avanço em direção à paz mundial. Seria ótimo se as pessoas com diferenças no mundo hoje percebessem que não existem diferenças - é um campo de energia. Precisamos da mesma velha coisa de sempre: paz e amor. Não sendo frívolo, mas esse continua sendo o grande objetivo. Bom, e vocês aí precisam de um novo líder [risos]! Quer dizer, isso ajudaria.

Nem brinque...

O ambiente é uma realidade. Algumas pessoas me dizem "há tantas causas, não sei quais apoiar". Minas terrestres, os maus-tratos com animais, só para mencionar duas pelas quais me interesso. É como se considerassem este o problema: "Qual causa apoiar?". Eu respondo: "Não entre em pânico, apenas escolha uma que o agrade e vá em frente. Todas estão conectadas". Mas eu sou otimista, tem muita gente bacana por aí. No momento, temos montículos de terra. E tudo bem. Isso é bom. Mas precisamos que se transformem em uma montanha. Tem muita gente inteligente por aí, mas, infelizmente, também tem um monte de imbecis. Mas o meu otimismo me leva a torcer para que os inteligentes construam a montanha.

E qual você gostaria que fosse seu legado pessoal?

Sempre que me perguntavam como eu gostaria de ser lembrado, respondia "com um sorriso". Mas gostaria que as pessoas entendessem o que eu fiz e pensassem que há uma enorme força naquilo. Gostaria que as pessoas pensassem que uma parte daquilo chega a ser demoníaco de tão forte. Isso me bastaria.