segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A cavalgada de Valquíria

Nove e meia da manhã, terça-feira. O pequeno caminhão baú estacionou numa recatada rua do Méier, zona norte do Rio de Janeiro. À bordo, coisas. Coisas de um homem que fora expulso da Glória por motivos absolutamente impublicáveis. Funcionário aposentado da falida Sudamtex, depois da também falida Belprato, Qüêncio (com trema) queria começar uma nova vida.

Suas coisas chegaram antes dele. Qüêncio (com trema) estava vindo de trem. Os homens da transportadora aproveitaram para descer e comer pastéis com cachaça no Pensão Pinguim, lendário botequim que até crônicas de um falso Nelson Rodrigues frequentou. O dono sonhava transformá-lo numa pensão para servir pratos feitos e por isso o nome pintado na fachada. Pelo menos, é o que diz a lenda.

Quando Qüêncio (com trema) chegou era quase meio dia. Descarregaram suas coisas e subiram umas três vezes a escadaria de madeira que dava no andar de cima do sobrado que Qüêncio (com trema) alugou por um bom preço. Ele pagou os 75 reais combinados, os homens foram embora e agora, certo que iria refazer a vida, Qüêncio (com trema) abriu a janela da sala e respirou fundo, pensando mais fundo ainda: “Por que não puseram trema no meu nome?”. E fechou a janela.

Enquanto arrumava suas coisas, ouvia uma romaria. Foi até a janela e contemplou uma gigantesca fila indiana dobrando a outra rua. Gente, muita gente. Até ônibus de turismo, misturados com vans e táxis ajudavam no rebuliço. O que seria? Qüêncio (com trema) calçou o chinelo de couro e foi lá fora assuntar. Novo no bairro, olhares de soslaio, desconfiados.

- Boa tarde, que fila é essa? Qüêncio (com trema) perguntou a um sujeito meio mal humorado.

- É para a Valquíria.

- Quem é Valquíria?

- Valquíria é uma mulher que faz a melhor cavalgada da América Latina. Até turistas argentinos, uruguaios, chilenos e paraguaios vem aqui para conhecer.

O homem deu a informação e saiu.

Qüêncio (com trema) tinha que terminar de arrumar suas coisas. Aproveitou e bebeu meio copo de absinto. Bebia absinto porque disseram que era proibido. Só por isso. Ainda não tinha concluído se gostava ou não de absinto, que comprava de um amigo, marinheiro na Praça Mauá.

Arrumou as coisas e, com o copo de absinto quase vazio, sentou-se numa poltrona. “Quem será essa Valquíria? Que cavalgada ela deve fazer”. Pensou, pensou, pensou e tomado pelos efeitos da iosna, anis e funcho, apagou.

Na manhã seguinte, providência número um: ir até o Pensão Pinguim tomar o café da manhã; uma garrafa de Caracu e três ovos crus. Mais: saber onde morava Valquíria, quanto cobrava, enfim, Qüencio (com trema) estava a fim de conferir. No bar, foi direto ao assunto. O dono, espanhol como passaporte boliviano  falso, foi logo avisando que “ela não atende gente do bairro”. Por que?, quis saber Qüêncio (com trema). Silêncio. Ficou sem resposta.

- Mas eu cheguei no bairro ontem, Qüêncio (com trema) argumentou mudando a pontuação de aspas para travessão por mero comodismo.

- Não interessa. Você já é um local, uma minhoca da terra. Não vai ter Valquiria não e muito menos o balaústre mágico dela.

- Que balaústre mágico? O que é isso?, Quëncio (com trema) indagou aflito.

- Só quem entra, sabe, disse o espanhol.

Mas, Qüêncio (com trema) não iria desistir fácil. Foi lá na casa de Valquíria e tocou a campainha. Uma voz indecifrável no interfone parecia abortar a primeira missão: “Valquíria não atende gente do bairro”. Como a voz sabia que Qüencio (com trema) era do bairro?

E assim se passaram os dias. Através de um amigo cracker (a versão turbo de hacker) descobriu até o e-mail de Valquíria. “Desejo ardentemente sua cavalgada, minha amada, de preferência com o balaústre mágico que não sei o que é, mas pelas filas deve ser uma delícia”, escreveu desesperado sem ser respondido. Semanas, meses, Qüêncio (com trema) já tinha perdido sete quilos de tanto se masturbar imaginando como seria a cavalgada de Valquíria e seu balaústre mágico, que até ônibus de turismo atraia para o Méier.

Até que um dia, confusão, alarido, desespero. Valquíria havia partido de madrugada. Sem bilhete. Gente chorando pelas calçadas, turistas esmurrando muros de chapisco e, no meio da confusão, Qüêncio (com trema) procurava uma explicação.

Voltou para casa arrasado, como metade da cidade. Para onde teria ido Valquíria e sua cavalgada e balaústre mágico? Qüencio (com trema), numa virada só mamou um copo de absinto e sentou no computador. 

"Vaquíria, não a conheço mas sem você minha vida perde o sentido. O povo diz que você retornou ao convento, em Minas. É verdade que és freira? Preciso vê-la, preciso senti-la, preciso...de tudo. Diga onde é que me mudarei para perto, quem sabe trabalhar como aquele jardineiro de Decameron, filme de Pasolini, ou até como escravo. Responda, responda com uma gota de esperança, eu preciso. Responda. Qüêncio, com trema."

O e-mail retornou com a mensagem "não existe mais".