terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Amores e neblinas

Ódio, não te conheço. Não sou santo, mas não te conheço. Conheço euforia, tristeza, raiva, conheço “out estima”, baixa estima, mas você, ódio? Não, não te conheço.

O ódio está no ar no planeta. A História sibila que todas as revoluções vitoriosas, batalhas e conquistas foram movidas pela fúria, ira, determinação. As que beberam a gosma verde do ódio fracassaram. Todas.

O ódio sempre perdeu. Hitler perdeu. Mussolini perdeu. Getúlio perdeu. E agora, o ódio que sustenta a mentira no Brasil também vai perder. Que mentira? A História dirá. Em breve porque tudo no Brasil é muito breve.
Nos últimos dias tenho me sentido odiado. O que fazer? Nada. Foi assim a noite.

O que o Amon Düül*  tem que eu não tenho?

3h11m- Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada. Longa madrugada pela frente. Não gosto de escrever e publicar quando estou emocionado e ontem passei o dia tomado por espessa neblina afetiva. Escrevo agora mas só vou publicar quando retornar do caos. Breve.

O que o Neu!* tem que eu não tenho?

3h14m- O amor é tão abissal que espanta até os nevoeiros. Só o amor consegue assolar os nevoeiros. Dizem. Nenhum intelectual explicou. Nenhum filósofo, sociólogo, antropólogo conseguiu encarar a distonia neuro não vegetativa do amor. Machado, o de Assis? Quase.

O que mais nos difere dos chamados irracionais é a consciência do afeto. Escrevi num trabalho de faculdade. O professor não gostou por achar...por achar...por achar...esqueci. Conversamos, ele disse que viveu uma experiência num lugar bem perto de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês a nota tinha subido para 9. Perguntei por que e a resposta veio vaga: “Realocação de novos conceitos”, ele disse.

O que o Van Der Graff Generator* tem que eu não tenho?

3h 34m - Não quis reclamar porque estava apaixonado por uma garota (tínhamos 20 anos, ela e eu) e ingressava mais uma vez na ante-sala do amor comocional, aquele que ignora os raios e vendavais e nos faz rolar por virtuais calçadas encharcadas as nove horas da noite. Era o que fazíamos. Vivi a ausência de explicações e, sobretudo, complicações. O amor jamais foi incondicional, papo de existencialista amador. O ser humano é condicional em sua essência.

Ela me elegeu o primeiro homem, a primeira cama. Um dia o destino nos chamou e no centro de uma praça e sussurrou que não ia rolar, não. E não rolou. Saímos da praça, eu a levei até a porta de casa em meu Karmann Guia TC 1975, bege, que toda a faculdade conhecia e venerava.

O que o Faust* tem que eu não tenho?

Ela desceu do carro, eu também, fomos até a portaria do prédio, nos olhamos sem nada dizer apenas ouvindo ao longe, baixinho, o rádio do Karmann Guia TC na Eldo Pop FM tocando o Renaissance. “At The Harbour”, a que ela mais gostava. Sincronicidade. E como a música é a minha linha de tempo e afeto, jamais desvinculei “At The Harbour” dela.

Ela entrou no prédio. Peguei o Karmann Guia TC e dei uma volta pela orla do Rio. Fui até o final do Leblon e voltei. Em Copacabana parei numa carrocinha da Geneal, comi duas mini pizzas olhando para o mar escuro e mexido (como eu), pensando naquela história de amor que havia acabado.

O que o Nektar* tem que eu não tenho?

O amor sozinho não sustenta, Machado de Assis especulou no século 19. Nem quando ela me pediu desculpas em prantos por ter comido outro, consegui reverter aquela sensação estranha, um vácuo chamado “perdeu”. De mim para ela. Mão única. Amor condicional.

Ódio? Nenhum. Não conheço. Não conhecia. Não irei conhecer.

* - Grupos de música experimental alemã dos anos 1970.