domingo, 15 de janeiro de 2017

Mark Knopfler: o cinema deve muito a ele

                                                                               
Cena de "Local Hero"
Estou ouvindo “Altamira”, vigèsimo álbum de Mark Knopfler, escocês 67 anos, criador do Dire Straits, que tem como diferencial um traço raro. Nunca fez um trabalho razoável. São todos, absolutamente todos, bons ou excelentes. Com ou sem o Dire Straits.

Apaixonado pelo Cinema, é dele trilha sonora de um filme magistral e muito simples chamado “Local Hero”, com Burt Lancaster, que lamentavelmente passou batido pelos cinemas brasileiros. Motivo: o filme foi (des) qualificado como anticomercial.

Mas se você é assinante de um bom canal de streaming (Netflix, Now, Apple TV, etc) ou de uma ótima (e rara) com certeza vai achar “Local Hero”, que no Brasil chamou-se “Momento Inesquecível”. Significa que se você pedir “Local Hero”, provavelmente vão responder “não tem”. Ou seja, você vai ter que pedir “Momento Inesquecível”, da mesma forma que Blow Up de Michelangelo Antonioni foi lançado no Brasil como “Depois Daquele Beijo”. Só rindo.

“Local Hero” foi a primeira trilha sonora de Knopfler, lançada no Brasil em 1983 pela Rádio Fluminense FM, graças ao saudoso Carlos Celles que me deu uma fita em primeiríssima mão. Ele era diretor internacional da gravadora Polygram.
A gravadora me convidou com um pequeno grupo de jornalistas para assistir “Local Hero” numa sessão privada. Fui porque queria ver onde aquela trilha sonora mágica, lírica, um pouco lúdica de Knopfler foi inserida. Comoção no meio do filme tamanha a simplicidade, pureza, poesia que o diretor Bill Forsyth conseguiu passar para a tela.

A música, grandiosa música de Knopfler em seus momentos mais astrais (ele consegue fazer um clima totalmente astral em vários momentos da trilha) me deslocou para dentro da tela, para lugares na Escócia absolutamente mágicos como Pennan, Aberdeenshire, praia de Camusdarach e eu fui mergulhando, mergulhando, mergulhando, desejando estar lá, viver lá, contemplar aquelas aldeias remotas com suas auroras boreais que o bilionário Felix Happer, magistralmente interpretado por Burt Lancaster, venera, ama.

Lembro que, conversando com Celles, disse que já sentia nas canções de Mark a bordo do Straits um forte componente visual. “Skateway”, por exemplo, é uma amostra disso e não foi à toa que está no álbum “Making Movies” (“Fazendo Filmes”), sensacional, absolutamente sensacional como tudo que o Dire Straits gravou.

Em 2001 assisti com meu amigo Siri Mark Knopfler ao vivo no antigo Metropolitan, na Barra. Ele estava lançando o álbum “Sailing to Philadelphia” e o local estava super lotado. Fiquei exatamente na primeira fila, a poucos metros do palco, bem na frente dele e, com certeza, não vou esquecer de cada segundo daquele show, que foi, sim, frio, distante. Em determinado momento fui lá na house mix (mesa de som) e pedi ao cara para subir o som da guitarra, que estava baixo demais. O cara, provavelmente inglês, olhou para mim com aquela cara de fastio e permaneceu de braços cruzados.

Antes do show acabar, um colega meu, jornalista, chegou e me disse que M.K. estava querendo saber “quem é o jornalista que fez vários especiais sobre o Straits na TV e no rádio e, ainda por cima, escreveu uma matéria de capa sobre mim num importante jornal (era o Jornal do Brasil)”. Perguntei ao colega, “o que isso significa?” e ele “meu chapa, significa que, depois do show, se você quiser ir conhecer o cara no camarim não haverá problema”. Não fui. Temor reverencial.

O álbum Tracker me pegou pelo pescoço. Banhado de blues, folk e slides guitars (universo tipicamente knopflerniano) o disco não economiza. É leve, eventualmente dá uma pesada (sempre pelo flanco folk), depois volta. Enfim, em se tratando de música, Mark Knopfler consegue fazer o que quer, o que é muito difícil num planeta afogado em tecnologia de ponta e mediocridade de quinta.

O Cinema deve um Oscar de melhor trilha a Mark Knopfler. Se não for Oscar, que seja algo similar. Afinal já foram trilhas sonoras magistrais, compostas para os mais variados filmes; ingleses, irlandeses, escoceses.

O Cinema deve um prêmio a ele e sabe disso.