domingo, 22 de janeiro de 2017

O amigo que perdeu a mulher

Um amigo desabafou com o outro pelo celular. Quase chorou. Quase, não. Chorou copiosamente. Ligou dizendo que estava sozinho sentado numa lanchonete no shopping Bay Market que fica ao lado da estação das barcas, em Niterói. O amigo estranhou porque era sábado e a maioria das pessoas não atravessa a baía. Preocupado, pegou o carro e foi até lá bater um papo.

Nem tinha sentado quando o outro começou a falar. Uma história reta, direta, objetiva. Num dia daquela semana, decidiu ir trabalhar de catamarã, deixando o carro num estacionamento no Centro de Niterói. Na volta do Rio, por volta das sete da noite, optou por pegar um ônibus com ar condicionado. Afinal, estava vazio.

Veio sentado na penúltima fila, segundo ele, com os pensamentos flutuando naquela noite calma e quase fria de outono. Três ou quatro paradas depois, uma mulher subiu, segundo ele, linda, traços delicados, pele muito morena, mais ou menos alta. Ela sentou no banco ao lado do dele, corredor do ônibus no meio. Trocaram olhares. Duas, três, seis vezes, dezesseis vezes.

O ônibus ainda estava no Rio quando ele sorriu, ela sorriu, ele levantou e sentou ao lado dela. Nada falaram. Kamikaze ele a beijou. Longamente. Ela correspondeu. Ato reflexo, ele a pegou pela mão e a conduziu para o último banco. Beijos, beijos, beijos, uma quase mão no seio direito interrompida por ela, mais beijos, muitos.

Trânsito lento, devagar. Para felicidade dos dois. Só no final da ponte Rio-Niterói ele balbuciou alguma coisa do tipo “você mora onde?” e ela sussurrou “São Gonçalo”. Mais beijos e carícias. O ônibus parou em frente ao shopping Bay Market e ela disse que ia descer. Ele também. Lógico. Sorrindo, ofereceu uma carona. Ela aceitou. De mãos dadas caminharam até o estacionamento, entraram no carro dele, mais beijos. Saíram.

Ele não ia a São Gonçalo – cidade vizinha de Niterói -  há pelo menos uns 15 anos, mas não teve a menor dificuldade de chegar lá. Também sorrindo, ela dizia “entre ali, depois daquele orelhão, agora lá, na rua daquele muro de tijolos. Suba aquela ladeirinha, entre ali, lá, na outra rua você dobra, vai. Pode parar na esquina”, pediu. Marcaram um jantar para o dia seguinte. Mais um beijo, ela disse o nome, ele também. Ela desceu do carro e seguiu andando lentamente, até desaparecer numa esquina.

Completamente apaixonado, ele ligou o som do carro e ouviu suas músicas preferidas quando retornava para Niterói. Seu coração estava congelado há alguns anos. Vamos batizá-la de Paula já que, é lógico, não publicarei seu verdadeiro nome. Paula degelou aquele coração.

Voltando para casa, o amigo comemorava sozinho aquele golpe do destino. Destino que o fez atravessar a baía de catamarã na ida para o Rio e ter entrado naquele ônibus vazio na volta. Feliz, chegou em casa, tomou um banho, comeu alguma coisa, falou com as duas irmãs que notaram a sua euforia, desatento meio que assistiu a um filme na TV por assinatura e foi dormir por volta da meia noite.

No dia seguinte, antes de ir para o trabalho, parou num posto e deu uma ducha no carro. Aproveitou para encher o tanque. No trabalho todos notaram a sua animação e até piadinhas ouviu com bom humor. Bom humor que não perdeu nem quando enfrentou o rotineiro para e anda do trânsito na ponte a caminho do trabalho na avenida Beira Mar, Centro do Rio.

Passou o dia olhando o relógio que só usava em ocasiões muito especiais, um elegante Casio EMA-100D-1A2V que havia comprado em sua última ida a Miami a negócios. Trabalhou muito, mas não parava de distribuir sorrisos até a hora que achou que já poderia sair. Afinal, tinha marcado com Paula as nove da noite. As seis e meia já estava dirigindo rumo a ponte. Para e anda, para e anda. Sem problemas. Nada seria problema naquela noite especial.

Atravessou a ponte entrou na avenida do Contorno por volta das oito e quinze, feliz, levemente ansioso, música aos berros. Passou em frente a quadra da Escola de Samba Viradouro e chegou ao Barreto, seguindo por uma avenida...que ele não reconhecia. Não reconhecia. Esfregou os olhos com as mãos, diminuiu a velocidade na altura de Neves, um bairro que ele achava que ficava bem mais à frente.

Parou o carro.

- Amigo, que bairro é esse?
- Vila Lage.

Não fez diferença. Percebeu naquele momento, as oito e vinte e sete que havia poucas placas indicativas em São Gonçalo. Um leve desespero parecia ter entrado pelo parabrisas. Acelerou e sentiu o baque da suspensão do carro que subia em trilhos de trem. Ele tinha certeza que o trilho de trem ficava à direita e que não atravessava a via principal. Mas atravessou. Não, não quis perguntar o nome daquela avenida porque não faria nenhuma diferença. Tentou lembrar o tempo da viagem que fizera com Paula na noite anterior. Não mediu. Estavam aos beijos a 40 quilômetros por hora, muitos ônibus e caminhões em volta. O leve desespero se transformara em pânico quando chegou a um bairro ironicamente chamado Paraiso e praticamente jogou o carro num posto de gasolina, perto da Uerj.

- Amigo, isso aqui vai dar onde?
- Depende.
- Depende de que?
- Ora, se seguir em frente direto vai parar em Alcântara, Jardim Catarina...O senhor quer ir para onde?
- Não sei...não sei...ela não disse.
- ?
- Eu não perguntei...
- O senhor está passando bem?
- Não...

Saiu do posto e quase foi atingido por uma van que vinha em alta velocidade. Tinha que admitir: estava perdido. Pior: tinha perdido a provável mulher de sua vida. Envolto na paixão que nascia, no aroma do perfume de Paula, nos prováveis mamilos graúdos, na boca morna, esqueceu do básico: telefone, endereço, bairro.

“Ela deve estar achando que furei, que dei um perdido...Ela deve estar pensando que sou um moleque, que só quis me dar bem, dar uns amassos e cair fora...Ela deve estar sentindo...gritou, urrou, sovou o volante e parou de novo. Quase nove e meia e um gari que perambulava por ali disse que aquele lugar se chamava Parada 40.

Esgotado, achou que ia chorar. Nó na garganta, boca seca, respiração ofegante, palpitação. Ninguém podia ajuda-lo a chegar num lugar que ele não sabia onde ficava. Ele literalmente perdeu a mulher de sua vida. A suspeita se tornara realidade, naquele oceano de dor que o afogava.

Acelerou forte, muito forte. Zé Garoto, Mauá, Antonina, lugares mais estranhos do que Marte, Júpiter, Saturno. “Seu merda”, dizia para si mesmo. “Por que não pegou o telefone, não perguntou onde ela trabalha, por que, por que, por que?”. Foi em frente, já em prantos e sem camisa, apesar da quase fria noite de outono e do ar condicionado do carro.

Alcântara. Eram mais de 10 horas. As ruas estavam quase desertas e ele parado. Em que bairro ela morava? Que avenida? Que rua? Que vila? Que picada? Que terreno baldio? Que bordel? Não importava, ele iria atrás. Uma placa meio caída anunciava o Jardim Catarina e, na sequência, Guaxindiba. Lembrou que já tinha estado em Guaxindiba, no enterro do cachorro de sua prima muitos anos antes. Em Guaxindiba fica um dos maiores cemitérios de cachorros do Brasil.

Voltou. Fez o percurso Guaxindiba-Barreto inúmeras vezes, ao longo de horas, entrando em ruelas, subindo ladeiras, favelas. Teve que parar para colocar gasolina completamente fora de si. Pensou em tomar uma cerveja, mas era só o que faltava perder a mulher de sua vida, ficar bêbado, bater com o carro e morrer em local desconhecido.

A última viagem Barreto-Guaxindiba-Barreto (parador) foi as cinco e meia da manhã, quando São Gonçalo começava a acordar para ir trabalhar. O homem apaixonado, deprimido, devastado tomava café com leite e comia pão com manteiga num bar próximo a um cemitério. De gente.

Chegou em casa, tomou um banho e foi direto trabalhar. Todos notaram que estava devastado, arrasado, escalavrado. Nenhuma pergunta, mas muitas dúvidas no ar. O que teria acontecido com aquele homem alegre, gentil e risonho do dia anterior?

Durante 27 dias deu plantão no terminal de Niterói, entre as sete e nove da noite, olhando fixamente para cada mulher que entrava nos ônibus. Eram milhares. De mulheres e de ônibus. Pensou em colocar um anúncio em um jornal de São Gonçalo como uma nota de coluna social. Uma foto sua, grande, dizendo qualquer coisa para chamar atenção da futura mãe de seus filhos.

- Então foi isso...eu perdi a mãe de meus filhos, avó de meus netos, companheira de uma vida inteira.

O amigo pagou a conta da lanchonete no Bay Market e disse “isso acontece”.

- Não, isso não acontece, respondeu o entrevado homem.
- Tem razão, isso não acontece mesmo não.