quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Carro pra que?



Encontrei o querido amigo Helinho em frente ao banco. Ele vinha pela calçada, me viu, abriu os braços, trocamos um longo abraço. Disse a ele que estava indo pagar o IPVA do carro porque o banco na internet tinha dado pau. Ele respondeu: “há mais de um ano que não sei que problema é esse.”

Economista bem sucedido, especializado em finanças pessoas e também terapeuta holístico, desde novo Helinho investe em qualidade de vida. Contou que há um ano e meio vendeu seu Honda Civic 2012 por R$ 50 mil e investiu muito bem o dinheiro (ele conhece esse caminho).

Nos dias úteis só usa os baratíssimos Uber X e Cabify e nos finais de semana fez um excelente negócio com uma locadora de automóveis. Um motorista deixa um Toyota Etios Hach completo, automático ("quando me sinto um burguês velho, peço com câmbio mecânico, mais esportivo rs") na garagem dele na sexta a tarde e busca na segunda. Num pacote especial de uso continuo a diária não chega a 100 reais.

Helinho conta, rindo, que “me tornei um minimalista e adoro esse carro, o Etios, que dirigi por uma semana na Turquia, quando havia Turquia. Adorei. Meu filho acha feio mas eu digo que “pra você é feio, mas pra mim é lindo e é Toyota”. Rápido, confortável econômico, espaço interno nota mil, não chama atenção dos bandidos como o Civic chamava, faz 11 km/litro de gasolina na cidade, pra que mais?”.

Num rápido levantamento de custos, ele constatou que o seu Honda Civic (“excelente carro”, ele comenta) consumia:

IPVA – R$ 2.600,00 – no Estado do Rio é mais caro.
Seguro – R$ 2.300,00 – no Estado do Rio é mais caro.
Combustível – R$ 700,00 por mês (média) – no Estado do rio é mais caro.
Pneus – R$ 1.200,00 a cada 60 mil quilômetros.
Revisões, óleo, pastilhas de freio, manutenção do ar condicionado, limpeza, imprevistos como retrovisor lateral quebrado por moto etc – R$ 3.000,00 ano (média).

Helinho não incluiu a desvalorização do carro, o estresse de dirigir nos constantes engarrafamentos, numa região tomada pela criminalidade, flanelinhas etc. o que ele chama de “prejuízo emocional”.

Total (média ) – R$ 15.500,00/ ano.

Em suas equações, Helinho percebeu que dá menos aporrinhação morar num imóvel alugado do que comprar. “Peguei a grana que pagaria num novo há 20 anos atrás, investi legal e acho que me dei bem. Hoje moro perto do mar, num amplo três quartos com varanda suítes e muito conforto. Todos os reparos ou qualquer serviço é pago pelo proprietário. Até recentemente alugava até os aparelhos de TV, mas deixou de valer a pena com a queda dos preços dos novos”.

As prioridades do Helinho são outras: viajar pelo mundo gastando o que tiver, um ótimo plano de saúde para a família, papo com os amigos em bons restaurantes, teatro, shows, cinema (paga meia porque tem mais de 60 anos), ginástica, boa alimentação, muita praia, papo para o ar e trabalho bom e pesado de segunda a quinta. “Como sou autônomo, abri mão da sexta, mas em alguns dias chego a ficar mais de 13 horas no escritório.  Crise econômica desafia a criatividade dos economistas”.

Em 2015, ele e a mulher voaram para São Francisco, Califórnia, alugaram um Mustang conversível vermelho (baratíssimo) e desceram até Los Angeles. “Meu amigo, foram quase três semanas de liberdade. Parávamos onde queríamos, usávamos motéis de estrada confortáveis e baratos, mas em Carmel, claro, ficamos quatro dias rodando pelos verdadeiros presépios que existem naquela região”.

Em Los Angeles devolveram o Mustang a filial da locadora e pegaram um voo para Nova Iorque onde ficaram mais 10 dias antes de retornarem ao Brasil. “Um prazer desses não tem preço. Estimula a gente chegar aqui e trabalhar mais, correr mais atrás brigar mais, e valorizar mais o ser do que o ter. Não tenho imóvel, não tenho carro, não tenho um monte de coisas porque não quero, e isso é muito bom”.

Nos despedimos. Antes de seguir, Helinho perguntou: “carro pra que?”. E a pergunta dele ecoa até agora.

Entrei no banco, para a facada do IPVA.