quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Eu apenas canto

1966, confusão sem toque de recolher. 1966, puberdade, uniforme, pasta, lápis, caneta, livros. 1966, ônibus, bombas, rock and roll, algazarra, caderneta, 10 em português, 3 em matemática. 1966, The Troggs, a banda, a minha banda, do além mar, Londres, Inglaterra. 1966, meu primo Cornélio tocando The Troggs, Aero Willys, ideias, sonhos, repressão, cuidados, pipa no alto, balão, brigas, lutas, amor, beijo na boca. 1966, 11 anos, o primeiro gozo, a primeira vertigem, a primeira pedra no mamilo esquerdo. 1966, The Troggs no pequeno toca-discos, amigos, cafifas, balões, bola, jogo de taco, garotas, meninas, beijos relapsos, dança torta, pernas trocando. 1966, amigos, cuba livre, cachaça, campari, coma alcoólica, mães no hospital, esporro, lágrimas, alta de manhã, escola, castigo, pedradas, vidraças rachadas, polícia nas ruas. 1966, meu irmão César, amigos Márcio, Renatinho, os Vergara, Raulzinho, Ronaldo, Beto, a casa da Rose no centro da cidade, o sexo só oferecido aos mais velhos. 1966, nós? Virgens, ávidos, curiosos, temerosos, roqueiros, tentando sem conseguir a alienação do The Troggs que mandava “I Just Sing” quando as coisas apertavam. Compromissos, provas, férias ameaçadas, rock and roll, a primeira banda, festinhas, quermesses, garotas, garotas, garotas, frustração a meia noite e meia, hora limite, “I Just Sing” no quarto...não havia “I Just Sing”, lágrimas, choro contido, travesseiro. Perguntas, muitas, voos espaciais, drogas entre amigos mais velhos, LSD, mescalina, maconha, bolinha, éter, a primeira morte, o primeiro corpo, o primeiro enterro, o primeiro amigo afogado, doidão. Nada de “I Just Sing”. Viva “I Just Sing”! Sempre, The Troggs.