quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Fogo no país

Singrando o asfalto tórrido desse verão, outras pessoas com rostos de cera, olhar perdido em algum lugar do futuro, fingem ignorar o nó na garganta. O verão é honesto. Torra. Torra, esfola. Pega, mata e come como um carcará indomado, ave extinta do nordeste, também extinto.

O calor espelha o sequestro da liberdade presumida. Ou virtual. Ou prometida. Liberdade que poderia serrar as correntes que submetem a satisfações, explicações, justificativas, proíbem de não ir, não vir, nada fazer. O verão que encharca nossas roupas diz que “liberdade, ainda que à tardinha” é frase tola, fútil, vazia. A liberdade mora na senzala social, onde nada é permitido sem autorização. Liberdade condicionada pelo “bom tom”.

O verão não entende o desmatamento. O sol das bancas de revistas vomita chamas pelo país, tomado por cachoeiras secas, mares banhados de latas de cerveja, florestas de pé de couve, vacas, cavalos, carneiros. E as pessoas vagam pelas ruas reclamando, reclamando, reclamando. Reclamando do dia em que nasceram, reclamando da infância, reclamando da adolescência, reclamando da maturidade, reclamando da meia idade, reclamando da velhice, reclamando da morte. Reclamam. Nada fazem.

Vontade, há, de sair quebrando tudo, incendiando prédios estatais, celebrando a orgia corrupta como atores de uma guerra civil libertadora. Mas o medo impede. O medo e a educação moral e cívica, que adestraram capachos, bovinos castrados submissos e obesos que caminham para o abate como se nada estivesse acontecendo.

O calor é honesto. Implacável e honesto. Quem reclama não tem coragem de incendiar o governo, responsável pelo estupro na conta de luz que limita o uso de ventilador. Resta o abano com um jornal velho, cheio de notícias velhas sobre roubalheiras que se repetem hoje, amanhã, sempre. É incorreto tacar fogo em tudo e trazer o país de volta.

Singrando ruas, avenidas, praças imundas, nem urubus há mais. Até os urubus parecem ter desistido, mas eu não. Olho minha imagem na vitrine de uma loja fechada pela recessão. Olho minha imagem e pergunto “um homem ou um rato?”. A coragem responde um homem, o arrego diz um rato.

O verão é pegar ou largar.