terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Keith Jarrett, The Koln Concert

O disco instrumental que me deixou de joelhos na primeira vez que ouvi chama-se “The Köln Concert”, de Keith Jarrett, gravado no Opera House em Colônia, Alemanha, em 24 de janeiro de 1975. Ou seja, o concerto que virou disco (lançado em setembro de 1975) acachapante fez 40 anos.

Não conhecia bem Keith Jarrett. Só em 1981 ouvi “The Köln Concert”. Foi como se um tufão rompesse os meus rochedos emocionais. Todos eles. Era um LP duplo, importado (gravadora ECM, da Alemanha) que ouvi um dia inteiro em casa e numa cópia em fitinha K7 que fiz, a bordo de meu Fiat 147. O álbum vendeu quase quatro milhões de cópias e é o disco de piano-solo mais comercializado na história da música.

Até hoje esse disco me devasta. No melhor dos sentidos. A solidão do piano de Jarrett, totalmente entregue a música a ponto de gritar várias vezes ao longo do concerto é algo que não vai acontecer de novo. Por mais que seja desejado, planejado, ensaiado, “The Köln Concert” é um raio que não vai cair de novo no mesmo lugar. Aliás, em lugar nenhum. Nem que Keith Jarrett queira.  

A música arrasta os gênios. Jarrett se deixou arrastar naquela noite de 24 de janeiro de 1975 em Colônia, sem medir consequências. Li que a gravação do disco foi marcada por algumas confusões, pianos trocados, mas virou virou uma obra, tão profunda, visceral, fundamental que ganhou o reconhecimento mundial. Um disco que está muito à frente de 1975, de 2017, do ano 3000, porque flagra a essência da liberdade, um momento muito raro em todos nós.

Anos depois, eu iria participar de entrevista coletiva de Keith Jarrett no Rio que acabou sendo cancelada. Tinha (e tenho) muita vontade de falar de “The Köln Concert”, mas, como todo mundo sabe, o músico é encrenqueiro, daqueles que interrompem o concerto por causa do zumbido de uma abelha. Mesmo que a entrevista acontecesse, não daria para conversar sobre aquela distante noite de Colônia.

Amigos e colegas meus, que já estiveram com ele, dizem que Jarrett é arrogante, antipático e tal, mas é a tal história, o cara é gênio e gênio pode tudo. Pode? Pode sim, eu acho, ou como diria Caetano Veloso, “pode sim, ou não.” Fato é que se aquela entrevista tivesse acontecido eu tentaria não para falar da agenda de Jarrett naquele dia/semana/mês, e sim de Colônia, Alemanha, 24 de janeiro de 1975 por uma única razão: eu queria estar lá. Muito. 

Mas o poder do músico fez Colônia vir até mim (e a milhares de outros brasileiros) dentro deste álbum duplo de vinil, que guardei até 80 e tal. Depois comprei em CD que ouço nesse exato momento, com os olhos ardendo, a garganta levemente seca, porque é assim que a música determina que eu deva me emocionar. E a música pode tudo. Inclusive parir a abstração profunda e genial, para sempre genial de “The Koln Concert”, de Keith Jarrett.