segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sputinik

                                                             Belmonte - Marinha do Brasil
O cheiro do mar misturado ao do óleo dos navios arrancam minha comoção pelos poros. Cheiro de minha infância, vivida entre sabiás, coleiros e muitos navios de guerra. Muitos. Meu pai à bordo deles. Hélices misturando o aroma de maresia com óleo combustível, a prudente lentidão da vida na pequena vila e também no convés cinza chumbo da nau gigantesca.

Como sempre faço, olhei para o céu à noite antes de entrar no carro. Senti uma emoção diferente com as luzes. Luzes das estrelas, dos aviões, das torres de comunicação, luzes da vida. No mar, o aroma da minha infância.

Antes de vir para casa fui até a beira de uma praia que era deserta até ontem, anos 1970. Parei o carro, saí e fiquei olhando para o céu. Ignorei a prudência coletiva que recomenda cuidado; entrar e sair rápido do carro porque a cidade está entregue aos bandidos.

Olhando o céu avistei um satélite artificial cumprindo a sua missão, em órbita constante singrando a Via Láctea. A emoção me tomou de novo, reforçada pelo ruído suave das ondas pequenas e distantes, desabando na areia. Aparentemente ilógicas. Aparentemente.

O céu...Num mês de maio, em pleno outono, que com cinco anos de idade fui levado por meu pai para a praia da vila onde vivi a minha infância. Todas as pessoas com binóculos, lunetas e até um telescópio diziam estar avistando o Sputnik 4, satélite artificial russo.

Não entendi porque o Sputnik que vi nas fotos da revista O Cruzeiro não tinha nada a ver com aquele minúsculo ponto luminoso, menor do que todas as estrelas, do que todos os coleirinhos que cantavam no alto dos ingazeiros e que cortava rápido, bem rápido, o nosso céu. O Sputnik das fotos não era um ponto, mas uma esfera. Eu vi.

Meu pai explicou. Falou da distância, da luz do sol incidindo na esfera, falou do céu, das estrelas, falou de novo dos satélites artificiais, do seu brilho fixo, oposto ao cintilar eterno das estrelas. Falou, falou, falou e recitou um poema. Estávamos ele, eu e meu irmão, quase a beira mar naquela noite translúcida. Meu pai recitou Olavo Bilac:

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Não entendi nada sobre a incidência da luz, o tamanho do Sputnik, gravidade, força. Mas ali, naquela noite de 15 de maio de 1960, meu pai me ensinou a ouvir estrelas e a perceber os aromas do mar.

E nunca mais esqueci.