sexta-feira, 31 de março de 2017

Voo crítico

Desculpe os garranchos. Você sabe, não escrevo a caneta há mais de 20 anos. Está escuro ainda. Você e nossas crianças dormem.

Ontem, na cama, vi seus olhos muito negros levemente marejados, fitando  meu rosto. Destilavam uma dose de tensão, certamente porque hoje, mais uma vez, farei um voo crítico. Eu ia começar a explicar o inexplicável mas você pôs os dedos em minha boca. Não queria ouvir nada sobre voos críticos. Eu também não queria falar nada sobre voos críticos.

Seus dedos estavam frios como na segunda noite que saímos, anos atrás. Você pegou na minha mão para atravessarmos uma tórrida avenida de Manhattan no auge do calor. Senti o seu suor. Depois, meio sem jeito, ensaiou me explicar porque de vez em quando gelava ao atravessar uma avenida movimentada. Eu disse que você não precisa me explicar nada. Só precisa existir.

Com o passar do tempo, de voo crítico em voo crítico, você foi me convidando a precisar de você. E cada vez mais pegava em minha mão para atravessar as avenidas sinalizando que também é gostoso precisar de mim. Depois daquela festa engraçada que você fez com as suas amigas aqui em casa você chegou e disse “Allen, sabia que eu te amo?”. Eu não sabia, mas foi uma delícia ouvir. Nunca sei se sou amado e você sabe disso. Adoraria ouvir todo dia, toda hora. Mais ainda porque não havia nenhum voo crítico programado.

Eu pensei em te deixar apenas um cartão. Mensagem curta. Mas os seus dedos frios de ontem, a sua incerteza, a sua presença me trouxeram um gigantesco orgulho. Orgulho de pertencer a sua vida, reafirmar a sua importância. Mesmo que seja breve. Relações também são voos críticos.

Quando nossos fios desencapados dão curto circuito e a gente se aborrece um com o outro - e os voos críticos já causaram alguns desses desentendimentos - o amor sempre impera. Não suporto ficar cinza com você, nem por cinco segundos. Parece que deixo de existir até a gente se olhar de novo.

A manhã é escura, neve lá fora e o voo será crítico. Confie Nele, no destino, na nossa história e, se der, confie em mim porque amanhã ao meio dia estarei de volta para pegar você e as crianças no colo e, juntos, celebrarmos a chegada do novo ano. Alias, hoje será o meu último voo crítico como Comandante. Não farei mais.

Presente de ano novo para nós.

Allen.



quinta-feira, 30 de março de 2017

Seu Ladrão

Seu Ladrão militava na camelotagem do Centro do Rio. Cabelos e barbas brancas, caloteiro profissional, era cumprimentado com nojo pela freguesia que ao abordá-lo soltava o dobrão: “Fala seu Ladrão, escroto filho da puta!”.

Em sua banca, Seu Ladrão vendia óculos falsificados, carregadores de celulares (também produzidos em Petrópolis), relógios. Faturava mais no conserto de objetos. Por exemplo se alguém levava óculos comuns com um pequeno problema, Seu Ladrão com mãos de mágico safado dava um jeito de dar uma “perda total”. Vendia novos para o incauto e depois consertava os óculos que foram falsamente condenados para revender.

Mentiroso, inventou que foi parido no Nordeste e atirado num Pau de Arara com 11 anos de idade. O pau de arara teria capotado em Campos dos Goytacazes e de lá, recolhido por uma família, ele veio para o Rio onde começou a trabalhar como michê nas imediações do Passeio Público. Mentira. Seu Ladrão foi parido no Rio Comprido e foi vendido para uma família da Tijuca. Desde criança roubava loucamente, até ser flagrado mexendo numa caixa de abotoaduras douradas do padrasto. Esbofeteado, foi chutado para a rua e se juntou a um bando de pivetes no Catete.

Um aliciador o levou para a camelotagem. Começou vendendo pilhas descarregadas, pólvora granulada para fazer cabeça de nego, cheirinho da Loló e outras iguarias ilegais. Ganancioso, deu um telefonema anônimo de um orelhão para a polícia informando que seu superior (o aliciador) tinha estoque de drogas ilegais no Catumbi. A polícia estourou a boca e, para alegria de Seu Ladrão, seu aliciador foi morto na troca de tiros.

Não gostava de ficar parado na banca, temendo levar uma surra de surpresa. Por isso percorria suas cinco filiais, que roubou de outros camelôs. Enquanto caminhava (sempre de camisa vermelha) era cumprimentado pelo povo. “Boa tarde, larápio”, “Fala, moleque!”, “Teus ovos tão assando, escrotão” e por aí ia. O único que o tratava cordialmente era o gerente do banco onde Seu Ladrão acumulava uma riqueza, fruto de anos e anos de trambiques, tráfico, delações e até sequestros de cachorrinhos de raça de velhinhas de Copacabana.

Um dia, Seu Ladrão percorria o Centro da cidade maravilhosa e quando deu por si estava no buraco do Lume. Contemplou o panorama de concreto e aço e disse para si mesmo “Ladrão, tu é foda”. Um segundo depois, levou um tiro na nuca, a queima roupa. Um escoteiro que o seguia tinha vindo do Rio Grande do Sul especialmente para fazer justiça com as próprias balas.

O corpo de Seu Ladrão rolou na calçada. O escoteiro abriu a braguilha, mijou no rosto do que restou do camelô e seguiu em frente. Fogos, aplausos, assobios, a multidão ensandecida comemorava o fim de uma era. Diz a lenda que o corpo de Seu Ladrão foi recolhido muitas horas depois por um caminhão de lixo porque, cinco anos antes, ele havia roubado arcadas dentárias no IML para revender para assassinos de aluguel. Ninguém no IML quis dar entrada no corpo.


Seu Ladrão não imaginava que seu próximo passo na vida seria um tiro na nuca de um escoteiro. Afinal, estava quase conseguindo virar conselheiro do Tribunal de Contas.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Março

As trovoadas ainda existem e causam alívio enquanto leio os jornais que derramam baldes e mais baldes de desesperança. Com razão porque o momento é mesmo de desesperança já que aqueles senhores larápios afundaram o Brasil.

Em vez de alimentar o assunto, hoje preferi ouvir Neil Young no Spotify, que tem uma excelente qualidade de som. Não sei se chega ao nível do CD. Para mim, CD é a melhor mídia já inventada. Prático, não tem a famigerada agulha do vinil e seu irritante plec plec plec, não trava, não exige que eu levante para mudar de lado, dispensa lavagens, etc. No CD o som sai puro e me satisfaz plenamente.

Tanto que em mil novecentos e noventa e tal doei meus vinis (não eram poucos) para uma instituição de caridade. Amigos, colegas e conhecidos que cultuam o vinil ficam horrorizados quando conto essa história, mas fazer o que se o que resta nesse país (pelo menos por enquanto) é a liberdade de escolha?

Assisti Neil Young no Rock in Rio, show bombástico, ele empunhava sua lendária guitarra Gibson Les Paul preta, chamada “Old Black” safra de 1953, que não larga por nada. Show pesado, alto volume, distorcido, catártico, como eu estava naquele dia. Viajei horas até chegar ao Rock in Rio e consegui um lugar bem próximo ao palco porque esse negócio de ficar assistindo telão, na boa, prefiro em casa.

Lembro da expressão da plateia que não conhecia Young, muita gente mais nova, atônita, aplaudia boquiaberta a performance sempre comocional do músico, que lá pelas tantas, inesperadamente, começou a esfregar a guitarra contra o cabeçote de um dos amplificadores gerando sons difusos, alguma microfonia, caóticos.

Neil Young toca no computador enquanto lembro de uma manhã de 1981 ou 1982. O então presidente da Warner, André Midani, ligou convidando para uma sessão exclusiva do filme “Rust Never Sleeps”, um show completo de Neil Young extremamente bem feito. Foi numa cabine na Cinelândia, Rio.

O filme, apesar de sensacional, não foi exibido no Brasil por uma razão óbvia: na época, ninguém sabia quem era Neil Young. E a pergunta que me cai agora, bem mais forte do que a chuva é “será que hoje sabem de quem se trata?”. Pelo menos hoje existe Google, Yahoo, Bing.

Termino a audição e vejo o jornal em cima do sofá, exibindo mais lambanças da gangue do cerrado. Melhor jogar fora e sair para ver se b vem chuva porque circula um boato garantindo que a chuva ainda não foi roubada.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Falso moralismo


O saudoso humorista Leon Eliachar escreveu que "o tarado é um homem normal pego em flagrante". Já fui severamente patrulhado por um grupo de "politicamente corretos", frequentadores aqui da Coluna, o que aliás não entendo. Para mim é extremamente preocupante perceber que integrantes dessa laia tem frequentado a Coluna.

Através de mensagens enviadas pelo inbox do Facebook, essas pessoas (maioria mulheres) disseram que a crônica que escrevi abordando minha puberdade/pré-adolescência no Campo de São Bento, em Niterói, é um poço de perversões, atentados a moral e aos bons costumes, papo de tarado fundamentalista e tudo mais. A princípio achei que era algum tipo de brincadeira partida de amigos ou conhecidos, mas depois percebi que se tratava de uma reação de leitores anônimos, cujo I.P. (Internet Protocol, o endereço na internet), que aparece para quem usa o Blogger, eu nunca vi.

Como ando assassinando algumas penumbras emocionais que precisam ser assassinadas, reli a crônica umas três vezes e constatei que o suposto mar de devassidão não passa de vivências e desventuras reais de um garoto vivendo a liberdade possível em seus 12, 13 anos de idade. Um adorador de mulheres surfando a liberdade possível e clandestina porque a sociedade moralista, nos moldes Nelson Rodriguianos, sempre foi moralista mas jamais conseguiu esconder os seus orgasmos diante de situações nefastas como assassinatos de crianças, linchamentos de mendigos, tragédias em geral. 

É essa sociedade moralista que dá altíssimos índices de audiência aos programas de TV e rádio do estilo mundo cão, e também jornais e outros tipos de mídia especializadas em sangue, suor e lágrimas. Ah, sim, é bom lembrar que li que as casas de sadomasoquismo e swing tem os “moralistas” como clientes preferenciais.

Detonei qualquer possibilidade de mudar os rumos do que escrevo aqui. Afinal, é um blog assinado, com endereço conhecido, frequentado por pessoas de todas as idades e escrito, modéstia à parte, por um jornalista com 45 anos de profissão que sabe, exatamente, endereço, telefone e e-mail da Dona Ética e seus parentes próximos. Vou continuar, sim, exercendo a minha liberdade de escrever sobre temas mais ousados já que estamos assistindo a Lava Jato e os larápios. Isso sim é perversão, é escarrar na cara tudo o que existe de mais limpo, honesto, íntegro e tudo mais. Não vai ser a biografia de um garoto conhecendo o sexo que deve ser defenestrada pelos politicamente corretos, muitos deles ladrões, safados, pervertidos e, também maioria, pedófilos.


Aproveito para agradecer aos leitores que me incentivam, estimulam, levam o que escrevo aqui para o terreno do humor, da boa vida, para o jeito positivo de encarar a existência e não para as sombras dos "corretos" com aspas, que vivem no limbo, sob o signo das taras mal resolvidas e da imoralidade suprema.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Agudas reflexões

Domingo foi o último dia do verão, bem mais quente do que o do ano passado e segundo previsões catastróficas o do ano que vem vai ser pior. Vai canalha! Resisto ao verão como posso já que isso aqui não é Europa. Assim como tem gente que gosta de apanhar, há quem adore o verão. Fazer o que? O que mais gosto da grotesca estação é do seu final, quando começam as projeções sobre o outono.

Imagino a massa polar que frequenta o outono e o inverno no Brasil e traz o azul mais profundo do céu infinito, realça o verde das árvores (onde ainda existem) e nos convida para visitar a oca das reflexões. Mesmo os chamados anti reflexivos refletem sem saber. Na pior das hipóteses, contemplam a vida com um olhar levemente crítico do tipo “o que é que estou fazendo nesse filme?”.

Sou do time das reflexões profundas que, muitas vezes, se transformam em crises existenciais, minhas velhas conhecidas. Como o mar de marolas que vai engrossando, engrossando e de repente vira trazendo as ressacas. Ressacas, irmãs do inverno, das pedras e conchas geladas, vento soprando de leste, quase frio.

Se viver é fundamental, refletir é crucial. Pensamentos mergulham em trilhas muito duras e sofridas mas graças à luz do outono/inverno chegam a alguma conclusão saudável, ou possível. Outono e inverno parecem jogar a nosso favor. Não tenho nada contra a primavera e o verão, mas definitamente o calorão não combina com reflexões plácidas. É só caos, caos, caos.

Confesso que já fugi (ou tentei fugir) de alguns pensamentos, especialmente os caóticos que, não se sabe por que, nos levam a becos que tornamos sem saída. O noticiário dos últimos dias não tem combinado com a beleza das folhas molhadas ou com o orvalho que vira para molhar as calçadas dos lugares arborizados. O noticiário dos sites, jornais, revistas, TVs está pesado e, a vezes, dá vontade de parar de querer saber o que está (ou não) acontecendo com o Brasil.

A dor de querer saber compensa mais do que a dormência da ignorância, por si só, boçal, totalmente boçal, que nos engessa numa redoma de lata sem o menor sentido. Fundamental, para mim, continuar querendo saber e, ao mesmo tempo, contemplar o azul profundo do céu levemente gelado do outono que desperta sentimentos profundos, belos e, porque não, alguns nós na garganta.

E o vento sopra, carrega o orvalho, as luzes, o azul do céu de outono.



sábado, 18 de março de 2017

Gestapo

Nascida na Alemanha nazista, segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, a moléstia chamada politicamente correto, vulgo PC, voltou ao planeta a bordo dos varguardoides nos anos 90. Se tivesse surgido antes teria esquartejado Peter Sellers em via pública devido a seu "alto teor de liberdade criativa", considerado crime inafiançável e indefensável pela militância do PC.

Teria jogado no forno, também, Mel Brooks por ter escrito e dirigido e clássico do humor “Banzé no Oeste” e cerca de 90% da produção intelectual mundial (des) graças a seus regulamentos, regras, estatutos.

Não podemos chamar um branco de branco, um negro de negro. Num carnaval, em Minas, um casal resolveu se fantasiar de Aladdin e Jasmine e o seu filho de 2 anos de Abu, o macaco de estimação e um dos melhores amigos do personagem. O casal quase foi linchado porque a Gestapo do politicamente correto decretou que fantasiada de macaco, a criança estava sendo racista.

O PC tem vínculos uterinos com o império da corrupção e do jogo do bicho que comandam, também, o carnaval no Rio de Janeiro. Na Marques de Sapucaí o PC deixa rolar porque mama forte nas tetas da imundice, como bem mostra o livro “Os Porões da Contravenção – jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otavio.

Foi o politicamente correto que inventou toda a geração de políticos que assola o país desde o início dos anos 90, alguns filhotes da famigerada UDN, um nefasto partido, União Democrática Nacional, cujo lema era uma frase e Thomas Jefferson: “"O preço da liberdade é a eterna vigilância". Com o apoio da UDN o presidente Jânio Quadros proibiu o uso de biquínis nas praias e piscinas de todo o país.

Em 1957, quando era governador de São Paulo, proibiu a execução de rock nos bailes no Estado de São Paulo por considerá-lo imoral e também os gritos de vendedores em feiras livres por achar que são assédio.

Em suma, o politicamente correto inventou o “desviver”, o desprazer, o “é proibido permitir”, jogando a sociedade num curral de perversidades moralistas, capaz de jogar numa máquina de moer carne todo o humor inteligente ainda disponível no planeta.

Até quando?



quarta-feira, 15 de março de 2017

A nova Onda

Arte: Nilson Ricardo
Lancei o canal A Onda no Spotify. Durante a estada de A Onda Maldita no Sound, das TVs por assinatura, foi enorme a repercussão. A homenagem aos 35 anos da Rádio Fluminense FM durou 15 dias e atendendo a muitos pedidos decidi dar sequência ao trabalho no Spotify. É lá que mora A Onda, que é uma nova Onda.

Todo mundo pode ouvir de graça no celular, notebook, tablet, PC. É só acessar http://www.spotify.com , deixar e-mail, senha e ouvir de graça. Quem preferir pagar R$ 16,90 por mês ouve sem anúncios e a sequência das músicas segue o que programei. Na opção gratuita a sequencia é aleatória e tem anúncios. Quem quiser pode experimentar a versão paga de graça por 30 ou 60 dias, sem anúncios e seguindo a minha sequencia.

Inicialmente programei cerca de 50 horas de músicas pensando numa emissora de rádio livre. Toco muitos estilos de rock, em especial hard, progressivo, soft e folk rock, num mosaico atemporal já não acredito em música datada. Afinal, quando ouvimos a 5a. Sinfonia de Beethoven pensamos em tudo, menos que foi composta em 1804. Para mim não importa se uma boa música é de hoje, de 1970, 1930. Quando ouço Neu, Can, Amon Duul ignoro os calendários porque os grandes são a prova de tempo.

Todos estão convidados a ouvir A Onda. Se gostarem peço que sigam, divulguem, espalhem por aí e opinem no e-mail que está lá.

terça-feira, 14 de março de 2017

Temer

Michel Temer vivia no limbo político até o PT transformá-lo, duas vezes, em estafeta e vice-presidente de Dilma Rousseff. Até então pouca gente o conhecia no Brasil.

As razões que fizeram o PT colocar Temer na chapa de Dilma foram o trânsito dele junto ao chamado baixo clero do Congresso (parlamentares desconhecidos e medíocres, mas com votos) e os seus poderosos amigos e quase amigos como Eliseu Padilha, Romero Jucá, Moreira Franco, Renan Calheiros e outros. Gente capaz de “azeitar” as relações do Dilma-PT com o Congresso.

Habitante do Palácio do Planalto, Temer sabia de tudo o que acontecia. Tudo. Não se sabe do que foi ou se foi cúmplice de muita coisa. Mas um dia, cansado dos coices e do desprezo de Dilma-PT, turbinado pelos amigos e gurus como Eduardo Cunha, o estafeta se rebelou e escreveu uma carta aberta expondo o seu sentimento de rejeição em relaão a então presidente.

A partir daí sua relação com Dilma-PT azedou. Eduardo Cunha, então, insuflou Temer até o limite para que ele aderisse ao impeachment que iria varrer Dilma-PT da presidência. Impeachment dentro da Lei. Temer aderiu.

Com quase 80 anos, Temer virou presidente. Um presidente que tenta blindar os amigos do garrote da Justiça escondendo-os no primeiro escalão, habitado pelo escroque “foro privilegiado”. Torce todos os dias para que o processo envolvendo ilegalidades de sua chapa com Dilma não o degole.

Aqui e ali grita-se “Fora Temer”. Eu também gritaria caso não assumisse seu lugar, em caso de impeachment, o genro de Moreira Franco, Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados) ou, na sequência, o misterioso presidente do Senado Eunício Oliveira.


É isso aí.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Vulcão invertido

O VALOR DO SILÊNCIO

"Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio." 

Clarice Lispector, em Crônicas no 'Jornal do Brasil (1968)' 


Aqui na psicodélica cabana da minha crônica insignificância ouso compartilhar alguns draminhas pequenos burgueses com
os leitores. Draminhas (ideal seria dramecos) que não interessam a ninguém.

Escrevo esta coluna como a mais severa, dura, moleca e (posso falar?) escrota das censuras: a auto censura. Um vulcão de cabeça para baixo que ocupa o meu âmago e entra em erupção de fora para dentro, fritando a alma imoral.


Trabalhei sob dura censura no regime militar. Escrevi no Pasquim, no Opinião (ambos sob censura prévia) e vi os burocratas da polícia com canetas pilot riscando com verde e vermelho. Verde para matérias liberadas, vermelho para censuradas. O Opinião pertencia ao empresário Fernando Gasparian e funcionava no Jardim Botânico. Uma vez ele foi reclamar que 90% de uma edição tinha sido censurada, inclusive a minha matéria sobre indígenas tratados como entulho na Casa do Índio, entidade assistencialista que funcionava na Ilha do Governador. Em resposta ouviu um "f...da-se!".


Volta e meia o Opinião era apreendido. Com o Pasquim, a mesma coisa. Mas a minha insignificância era mais corajosa e eu ousava cuspir no olho dos meganhas tentando ir mais além. Não dava. A caneta vermelha era imperativa, degolava e fim de papo. Nunca fui preso, molestado, perseguido porque era fichinha, estafeta das letras miúdas, "hippie de Vaz Lobo" como me chamava o grande e saudoso J.A. Xavier. Em compensação, quando liberado, escrevia sobre tudo, opinava livremente, enchia a bola, baixava o cacete.


Aqui nesta Coluna do LAM, não. Sou auto censurado do princípio ao fim. Acho que 1/1000000 do que realmente penso, acho, procuro, vejo, presumo, não publico porque posso ofender alguém, posso estar politicamente incorreto
demais, posso não estar sendo de bom tom, posso....posso nada.

Nem escrever sobre o nada consegui porque o nada é um conceito subjetivo tão amplo que, muitas vezes, atende a porradas e beijos simultaneamente. Algo como...como...


Um
a mulher com cabeça de peixe.

sábado, 11 de março de 2017

Vaca Louca


Doutor Oswaldo Cruz,

Com toda a franqueza, não dá para levar fé. Na boa. Como boa parte da população de Niterói parei de comer carne bovina em janeiro porque havia gente internada com sintomas parecidos com os do Mal da Vaca Louca e há tempos eu radicalizei: não dá para acreditar em nada que qualquer governo diga, nem a fundação que leva o seu nome. A desconfiança atingiu o pico quando a Prefeitura de Niterói se meteu na história e passou a desmentir a Vaca Louca também. O problema, Dr. Oswaldo Cruz, é que o prefeito de Niterói é conhecido como Pinóquio.

Dr. Oswaldo Cruz, os mais radicais, tomados por desespero diante desse estado de mentira, roubalheira e incompetência generalizada que assola o Brasil, pararam de comer até frango (temem pela gripe aviária, que não atinge humanos) e estão matando micos temendo a febre amarela. Veja o senhor, nobre cientista, o que a lambança institucional é capaz de fazer.

Nobre cientista, hoje os jornais dizem que os cariocas estão correndo atrás de vacina contra a febre amarela. Um taxista que para num ponto aqui perto é um dos caçadores de vacina. Ele argumenta que “pô, se aquela mulher (Dilma) nos deu aquele banho de baixar o valor da conta de luz em 18% em 2012 e causou um rombo de R$ 60 bilhões, que nós vamos pagar, tudo é possível. O ideal seria uma vacina contra governo”.

Pois é, nobre Dr. Oswaldo Cruz, essa vacina o senhor não pode criar já que a única que conheço é uma revolução popular que taque fogo em tudo, justice os maus e reinicie o Brasil do zero. Mas isso não é politicamente correto, entendeu Doutor? Politicamente correto é chamar mal da vaca louca de boato e a população que desconfia das autoridades de irresponsável.

Doutor, já defendi a intervenção federal no Rio. O Rio faliu vampirizado pela corrupção galopante e insaciável dos amigos do desgovernador que está aí, que continua estuprando todo mundo. O aumento do ICMS em tudo é revoltante. O problema é que com a intervenção federal o ex-vice de Dilma duas vezes e hoje presidente ia nomear um interventor. Seguindo a tradição, certamente seria o nome mais nefasto possível, um dos amiguinhos dele. Doutor Oswaldo Cruz, o senhor já viu quem são os amiguinhos do ex-vice de Dilma?

Passivo, cordato, covarde, o povo prefere reclamar nas alcovas eletrônicas como o Facebook. Mas, na calada (sempre na calada) parou de comer carne de boi, corre atrás de vacina contra a febre amarela e mata macacos. Isso sem falar do trio desesperança que enfrenta há anos: dengue, zika e chikungunya. Doenças que o senhor eliminou.

Mas o Pior, mestre Oswaldo Cruz, é a venalidade eleitoral. Já pensou se o povo chama Lula, o marco zero, de volta ano que vem? Ou, pior, o Aécio? Melhor o senhor ficar onde está.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Pragmatismo

Sujeito conversava com Predicado ao telefone. 1994? Pode ser. 1991? Também pode. Como pode ter acontecido em 1997, não sei precisar, mas aquela manhã morna foi inesquecível. Uma manhã de sábado, nublada, quase abafada. Devia ser 11 e meia e o Sujeito lia os jornais esparramado no sofá da sala. 

Seu interfone interior estava desligado e, talvez por isso, quase se assustou quando ouviu as três batidas na porta. Batidas fortes, secas, precisas, decididas. Deixou o jornal de lado, levantou e foi abrir.

Em
sua frente estava um sujeito que não era risonho, mas também não fedia a antipatia. Não se fazia de íntimo e parecia conhecer Sujeito muito bem. Como uma flecha foi direto ao assunto.

- Chegou a hora de me conhecer, meu chapa. Muito prazer, eu me chamo Pragmatismo e certamente você já ouviu falar de mim. Aliás, falam muito mal de mim por aí, mas como bom pragmático, ignoro.

Pragmatismo entrou, vestia calça jeans e uma camiseta preta. Calçava botinas de couro. Caminhou devagar olhando as estantes. Nada comentou. Foi até a janela, olhou para fora, pigarreou e sentou na outra ponta do sofá.

- Não vai me oferecer um café?

Sujeito levantou e foi fazer. Café solúvel. Bebeu o seu na cozinha mas o de Pragmatismo levou numa xícara. Desculpou-se pelo café solúvel.

- Não importa, disse o visitante. O importante é que temos o café possível e não o ideal. E o possível é sempre mais fundamental do que as possibilidades. E é por isso que estou aqui.

Calado, Sujeito acompanhava o ritmo levemente acelerado da fala daquele sujeito atonal que, eventualmente, passava a mão nos cabelos mas que em nenhum momento demonstrou indecisão, insegurança. Ele prosseguiu:

- Você finalmente amadureceu, meu chapa. Graças a muita porrada que você não conta para ninguém porque acha que o bom cabrito não berra. Quer saber? Você está certo. O bom cabrito não berra mesmo, não. Plateia nenhuma merece assistir ao espetáculo do nosso sofrimento. Mais: você amadurece cada vez que abre mão de ideias pueris em prol de fatos concretos mas sem aquele banho de prata vagabunda que os imaturos dão.
Comecei a entender.

- É bom mesmo que você fique quieto porque hoje quem fala aqui sou eu, o tão decantado e esculachado Pragmatismo. Bem, rapaz, a sua maturidade significa que você vai começar a considerar a possibilidade de achar que ser cabeça de sardinha é melhor do que bunda de baleia. O que acha disso? Acha aviltante, ofensivo, papo de babaca trocar o bundão da baleia pela cabeça da sardinha só porque sardinha é pequena? Ou acha que cabeça é cabeça, não importa como, pragmaticamente falando.

Quantas vezes você abriu mão de projetos de vida que não julgava serem ideais. E lá vem ele de novo, ideal, ideal, ideal, essa coisa que não existe. Não existe, rapaz! Não existe mulher ideal, trabalho ideal, vida ideal. O que existe é o possível que a gente transforma em ideal. O possível exige que a gente jogue com a bola no chão porque o jogo é de botão. A vida não é para amadores, príncipes encantados, fadas madrinhas. A vida é mel e fel.

Você deve estar se perguntando por que escolhi visitá-lo hoje. É que nos últimos tempos você tem demonstrado “desilusões” com as ilusões e isso é absolutamente do cacete porque quem se desilude com as ilusões começa a surfar a onda do real. E a onda do real é, foi e sempre será a mais concreta, sensacional e segura porque é REAL. REAL, meu chapa!

Quando você disse naquela roda de amigos, meses atrás, que não briga mais com ninguém, parecia eu falando. Quem briga é amador. E não existe nada mais melancólico do que amador existencial. Existe? Ah, sim, os amadores da vida tem promotores e juízes sentados em seus tribunaizinhos julgando e condenando em vez de estarem tocando a vida.

Eu ainda tenho muito que falar com você, especialmente quando você disse que o rei da música brasileira pareceu tolo ao cantar que quer ter um milhão de amigos. Doce ilusão. Doce não, amarga, ruim, péssima, porque ilusão é o que há de pior.

Já vou indo, mas volto. Não recuse o que surge porque não é do seu agrado pueril. Continue avaliando o que vai ganhar, crescer, evoluir e depois, quem sabe, abrir um jardim de infância para educar as suas neuroses de menino.

Boa ideia, não?


quinta-feira, 9 de março de 2017

Uma tarde qualquer

- Em seu depoimento o senhor disse que o motorista jogou a Kombi em cima dos pedestres de propósito e o veículo acabou atingindo o seu ombro.

- Sim.

- Em seu depoimento o senhor diz que deu uma cotovelada no vidro da frente da Kombi; em seguida arrancou o motorista pela porta e começou a surrá-lo impiedosamente no meio da rua.

- Não. Dei um soco no vidro e uma cotovelada no motorista. Ele pegou uma barra de ferro e saiu do carro. Foi quando o surrei.

- Até a morte.

- Sim.

- Também bateu nos dois guardas municipais que tentaram te conter.

- Sim.

- Sabe que eles estão hospitalizados.

- Sim.

- Testemunhas confirmam que o motorista jogou a Kombi contra o senhor de propósito. Sabe por que?

- Não.

- Sabe o que vai acontecer com o senhor?

- Sim. Não vai acontecer nada.

- O senhor será preso, julgado, condenado.

- Vou ficar no máximo cinco horas na cadeia aqui da sua delegacia e depois responderei em liberdade. Serei absolvido.

- ?

- Sou rico. Ricos fabricam justiça. Sou inocente. Sou réu primário e tenho curso superior.

- Estudou o que?

- Comprei o diploma de economista em uma faculdade da capital.

– O senhor é frio e arrogante.

- E o senhor parece não gostar dessa cidade.

- Como assim?

- Se continuar importunando vou mandar transferi-lo para o último distrito no nordeste do país. O senhor acha que manda, já eu alugo quem manda no senhor.

- …levem esse cidadão para a sala especial. Ele ficará detido lá nas próximas horas…nada de celas, sala especial.

- ...até meus advogados acionarem quem manda.

- Só peço...só peço que o senhor saia pela porta dos fundos da delegacia...não quero ficar tão desmoralizado...e quanto...quanto a transferência, por favor esqueça.

Esqueça.





quarta-feira, 8 de março de 2017

Nos tempos em que havia chuva


- É verdade que o verão por aqui era mais ameno?

- Até meados dos anos 1980, o verão no sudeste do Brasil tinha calor, brisa e chuva em quase todo o fim de tarde. Você via a chuva chegar pelo mar, trazida, pelo vento sudoeste, com raios, trovões, vento, mas era linda.

- Mas hoje ainda chove.

- É diferente. Hoje há pancadas que inundam mas não trazem conforto, a temperatura não cai, não há mais cheiro de terra molhada.

- Por que?

-Para começar estão acabando com a Amazônia, por isso eu defendo há tempos a internacionalização e o fechamento da região por tropas da ONU. É um patrimônio ambiental que o Brasil não merece e nem tem condições morais de manter. Qualquer um invade, derruba árvores, vende. A Amazônia deveria estar com os índios, sob vigilância da comunidade internacional.

- O que a Amazônia tem a ver com a falta de chuvas no Sudeste?

- O “corredor de águas” Amazônia - Sudeste foi assassinado.

- Como assim?

- Os ventos da Amazônia não devastada equilibravam o ambiente aqui. Mas além de desmatarem a Amazônia acabaram com as áreas verdes, que dão lugar a favelas e mansões nas cidades. Até as serras fluminenses estão quentes e quem pode compra ar condicionado. As encostas estão ocupadas pelas construções, os rios estão assoreados.
A população elege políticos escroques que trocam áreas verdes por votos. Do alto dá para ver o Rio com as encostas tomadas. Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo também. O governo federal negocia cargos com bandidos e com isso o meio ambiente é vendido a luz do dia.

- Há esperança?


- Pode ser.

terça-feira, 7 de março de 2017

"Decepcionistas"

As recepcionistas de salas de espera são espécie em extinção. Nos anos 80 tentaram substituí-las pelas secretárias eletrônicas. Não deu certo. Hoje, segunda década do século 21, assistimos a proliferação das “decepcionistas”, que assombram muitas e muitas salas de espera pelo país.

Em geral, as “decepcionistas” são grossas, carrancudas e amargas, desde o instante em que ligamos para um profissional (de qualquer área) para marcar um encontro/reunião/consulta até o momento em que damos de cara com a medusa em questão. Um dia antes, de má vontade, ela telefona para confirmar o encontro e ai daquele que não confirmar. “Não poderei ir amanhã”, confessa a vítima. A resposta vem como um dardo: “só tenho (assim, na primeira pessoa) daqui a dois meses.”

Além da grosseria, outro ponto em comum entre ela é o frio. Nós, que em geral pagamos o encontro/reunião/consulta com o (a) chefe da “decepcionista”, saímos de um sol de 50 graus somos obrigado a encarar uma sala de espera quase quenter porque a “decepcionista” sente muito frio. Tempos atrás pedi “a senhora pode aumentar o ar condicionado?”. O bugre atacou “não, aqui está muito frio. O senhor vem da rua, mas sou eu aqui fico aqui o dia inteiro”. Para não perder a cabeça e, principalmente, a consulta, fiquei quieto.

Quando você liga em março querendo agendar uma consulta, por exemplo, a “decepcionista” atende com aquela voz de tédio e azedume e pergunta, secamente, “é plano?”. Você diz que é (plano de saúde para elas é crime) e ela não esconde o êxtase ao informar “para plano, consulta só em julho”. Atônito, você rebate “mas ainda estamos em março” e ela encerra: “e daí?”, tipo “quem manda aqui sou eu, meu chapa” e, na verdade, é parece que é a pura verdade. Quem manda naquele terreiro é mesmo a “decepcionista”, que acha que plano de saúde é de graça.

Os casos são muitos. O sujeito chega a uma consulta marcada para as 14 horas e a sala de espera está mais cheia do que van Copacabana-Central do Brasil, as 6 da tarde. Um enigma. É a “decepcionista” que enche a sala de propósito ou é a chefia que manda? O sujeito espera uma hora e é atendido. O chefe da “decepcionista” manda ele marcar uma outra consulta na saída, ele marca para o dia tal, do mês tal, as 16 horas. Chega as 16h30m, sala de espera lotada, o cara das 15h30m sequer foi atendido e a “decepcionista”, com TPM mental, coça a virilha e dispara: “o senhor está atrasado, vai ter que marcar nova consulta”. A vítima tenta argumentar “mas a pessoa que está antes de mim nem foi chamada...” e a ema do apocalipse despeja “não interessa, está atrasado, tem que marcar outra consulta”.

Não esqueço, ano passado, numa sala de espera (a maioria é feia, iluminada com luz de lavandaria, cadeiras mais duras que pau de enchente, o que agrava a situação), um sujeito de terno que não aguentou a patada de uma “decepcionista” dessas. Ele disse “a senhora sabe o que é Google? Se não sabe, saiba que o Google já inventou carro que anda sozinho, enfermeiro robô, bancário de alumínio e vai chegar o dia que em seu lugar vai estar sentado um androide educado, minha filha”. Levantou e saiu. Sorte, porque ter a coragem de chamar uma “decepcionista” de minha filha é beijar boca de cobra.

Senti vontade de aplaudir, mas e a vingança da bastarda? Não quis arriscar.









segunda-feira, 6 de março de 2017

Amor

“O medo de amar é o medo de ser livre”. Gravada em 1978, a canção de Beto Guedes com letra de Fernando Brant reflete a mais pura e, para alguns, brutal realidade. Só resta saber se esse amor que a bela música descreve, o que dá medo, é consciente ou inconsciente. Em outras palavras, será que existe alguém que teme o amor, sabe disso e nada faz?

Certa vez disseram que “o amor é brega”. Claro que é, mas e daí? Como será viver sem amor, atravessar o deserto existencial sem um copo d´água, uma brisa? Como seria viver sem jamais ter sentido o amor? Falo do amor consequência da paixão entre duas (ou mais) pessoas.

Por isso gostei tanto do filme “On The Road”, que Walter Salles dirigiu mas cometeu o desatino de batizar de “Na Estrada”, em vez de usar o nome do livro de Jack Kerouac que, com sabedoria, transportou para o Cinema. É um ácido filme de amor sim, por que não? Desde que li “On The Road” em três momentos especiais de minha vida senti a presença do amor da primeira a última página.

Que tipo de amor? O amor caos, o amor clamado, implorado, quase ausente. Amor desespero, amor sublime, amor angústia, amor proibido, amor rastejante, amor anfetamina, amor álcool, amor, amor, amor. Nem sei se Kerouac soube que escreveu tão bem sobre o amor que Walter Salles filmou.

Um amigo define “Django Livre”, de Tarantino, como um filme de amor. Especialmente do alemão Dr. King Schultz pela negra Broomhilda, amada por Django. Um movimento afetivo sutil; o fato do alemão, pouco a pouco, ir se apaixonando por ela com base nas histórias que o ex-escravo vai contando.

O amor é um sentimento absolutamente necessário para todos os seres e mora aí meu grande questionamento em relação a igreja católica. Estudei em colégio católico. Homens de batida amargos, complexados, rancorosos, acabavam descarregando nos alunos todas as suas frustrações, o seu não viver, quase inexistência social. 

Daqueles religiosos, todos abandonaram a batina e passaram a amar, casar, ter filhos. Encontrei vários ao longo dos anos e no lugar da truculência seca da desidratação afetiva, vi homens mais tolerantes, generosos, bem humorados.

Concordo com Caetano quando, na magistral “Paula e Bebeto” que ele compôs, Milton Nascimento canta “qualquer maneira de amor vale à pena”. No início dos anos 70, auge da adolescência, uma namorada me disse algo parecido quando nos beijávamos e sussurrávamos segredos no alto de uma pedra na praça Ginda Bloch, em Teresópolis, ouvindo sem parar “That´s Way”, do Led Zeppelin. Que som. A letra não trata de amor especificamente, mas a música é amor em estado líquido. Como é o caso da fabulosa e acrilírica “Love Reign O´er Me”, The Who. Amor em letra e música. Tema infinito enquanto dura, o amor voltará a essa página.

Com certeza.


sábado, 4 de março de 2017

Blocos no Aterro

Não é novidade que os blocos de carnaval do Rio viraram um rico balcão de negócios. Nada contra. Nada. O problema é que 90% dos seguidores são de fora do Rio ou dos bairros (em geral da Zona Sul) onde os blocos saem. Levadas pela mídia, centenas de milhares de pessoas caem de boca nos blocos com a intenção de ver artistas e aparecer na TV. Como não tem qualquer vínculo afetivo (econômico, social, político) com os bairros, fazem cocô, xixi, vomitam, atiram latas de cerveja, saem na porrada em frente a prédios dos moradores que pagam uma nota de IPTU, enfim, a maior zona.

Se o prefeito do Rio (parece que não, mas o prefeito já tomou posse, sim) teve coragem para tentar fazer do filho secretário, com certeza não vai amarelar diante dessa sugestão: por que o desfile dos blocos não é transferido para o Aterro do Flamengo, região farta em espaço para que os novos foliões, que bebem até cair, batem, matam, morrem, façam o que gostam de fazer (merda) sem importunar os outros cidadãos?

Dá pena de ver o Leblon, Ipanema, Copacabana, Santa Teresa e arredores durante o carnaval. Como carioca que sou (nasci no Rio, mas com uma semana de idade fui para Niterói) fico indignado ao ver a molambada destruindo tudo o que vê pela frente.

A população crônica e inexplicavelmente acuada e acovardada se tranca em casa. Se alguém passa mal...Momo, o rei, virou um ditador com direito a decretação de estado de sítio. Ele determina e as pessoas de bem, com crianças e o escambau, são obrigadas a se exilar em casa para não levar porrada na rua.

No Aterro do Flamengo, nada disso aconteceria. Os primatas momescos se exterminariam entre si. Imaginem deixar aquela vasta área do MAM ao Rio Sul nas mãos (pés, e barras de ferro) dos foliões contemporâneos e seu vício incontrolável de destruição. No máximo, meia dúzia de coqueiros seriam arrancados, alguns nacos de grama, banheiros químicos virados, mas tudo numa área restrita. Uma espécie de “blocódromo”.

Esses “novos foliões” são símios contemporâneos sem possibilidade alguma de adquirir educação, sociabilidade e outros conceitos que o Rio de Janeiro está assistindo, impassível e covarde, descerem ralo abaixo. A cidade maravilhosa, que já teve o melhor carnaval de rua do planeta nos anos 20,30,40,50,60, hoje mostra uma barbárie. Gente estapeando gente e tudo o mais que eu testemunhei ano passado quando cometi o desatino de ir até a Zona Sul (ou sul da zona).

Então, prefeito (sim, o Rio tem prefeito), que tal entubar esses “carnavalescos” no Aterro? É uma boa ideia. Na verdade é ideia de um leitor que me mandou um e-mail tempos atrás sugerindo essa maravilha. Dessa forma, o senhor atende aos foliões do caos e blinda a população de seus gestos boçais, praticados em nome da selvageria e da babaquice ampla, geral, irrestrita. Sabe por que, prefeito? Se nós e o senhor não defendermos o Rio, essa nuvem de gafanhotos arrasa com a cidade em questão de horas.


quinta-feira, 2 de março de 2017

“Fluminense FM, Maldita!!!” - Capítulo 18 da terceira edição de livro "A Onda Maldita - como nasceu a Fluminense FM". Como foi o primeiro dia.

A história da Rádio Fluminense FM é surpreendente desde o primeiro dia. Leia o capítulo 18 de meu livro "A Onda Maldita - como nasceu a Fluminense FM". A terceira edição (capa cinza, sobrecapa amarela) está na promoção 35 anos a R$ 19,50. Conheça aqui: http://nitpress.webstorelw.com.br/products/a-onda-maldita

MÓDULO 18

“Fluminense FM, Maldita!!!”

Eram oito da noite de domingo, 28 de fevereiro de 1982. Estávamos arrasados, quando o operador subiu com a cara espantada e disse que, inexplicavelmente, os zumbidos e chiados tinham parado. Desci as escadas como um mico-leão dourado nas selvas de Silva Jardim. Cheguei ao parque gráfico e constatei, quase chorando de emoção, que as máquinas não tinham parado de cuspir jornal. Ou seja, a chiadeira tinha sumido porque... porque... quis.

Eu, Sergio e Amaury mergulhamos no estúdio de gravação e fomos de oito da noite às cinco e meia da manhã gravando. Foi pesado, foi cansativo, foi tudo, mas acima de tudo, foi uma vitória. Usamos a voz de veludo persa de Amaury para as vinhetas e prefixos. Uma maneira de aliviar qualquer provável saturação de voz feminina no ar. Faltavam dez minutos para as seis da manhã. A Rádio Fluminense FM, nova em folha, ia entrar no ar às seis horas. Em ponto. A locutora Selma Boiron já estava no estúdio fazia uma hora, concentrada. Todos estávamos nervosos, mas não podíamos passar nada para a locutora. Pela primeira vez em sua vida ela ia entrar no ar. Qualquer hipótese de insegurança nossa e picas, meu amigo.

Faltavam cinco minutos para as seis horas. Tudo pronto no estúdio e no Sumaré. Céu claro, temperatura amena naquele histórico 1º de março. Eu, Amaury e Sergio tínhamos gravado, sei lá, umas 20 ou 30 vinhetas que iam sendo encartuchadas. Entre uma e outra, nos abraçávamos. Chegamos à conclusão de que tínhamos, finalmente, inventado uma rádio ousada, criativa, audaciosa, independente, como os malditos da arte, da ciência... Aí não se sabe por que, pedimos ao operador que abrisse o microfone e juntos, os três disparamos: “Fluminense FM, Maldita!” Absolutamente sem querer.

Foi a última vinheta a ser gravada. Sem trilha sonora. Só voz. Acidentalmente, foi a vinheta que definiu tudo aquilo que pensávamos, que trabalhávamos. Era um produto maldito, como os quadros de Van Gogh, não entendidos em sua época, ou como os poemas de Jim Morrison. Os sermões de Jesus Cristo, os sons de Hermeto Paschoal, os delírios de Jorge Mautner e Jards Macalé, Quadrophenia do The Who, os fuzis de Carlos Lamarca, ou os mergulhos de Tangerine Dream, Revolution 9, de Lennon, o som de Hendrix, a imagem de Glauber, a vida de Leila Diniz. Dois minutos depois, pilotada por Selma Boiron, a Maldita entrou no ar.

A primeira música já estava decidida há muito tempo. Todo mundo sabia de meu fanatismo pelo The Who. Por isso, não quis me meter na história. Mas foi Sergio quem lutou para que a primeira música a ir ao ar fosse The Kids Are Alright, com o Who. Uma gravação dos primeiros anos da banda, que tinha muito a ver com o som da fase pré-histórica dos Beatles. A letra, em seu refrão cantado para o Rio de Janeiro que ainda se contorcia nos trens, ônibus e camas, àquela hora da manhã, dizia: “Os garotos têm razão, os garotos têm razão.” Valeu Townshend! Valeu Sergio!

Sem comer, sem dormir, lá pelas oito horas nós três estávamos no farrapo. Sim, a coisa estava apenas começando. Foi quando apareceu o Alex, que segurou a peteca. Fui para casa dormir, ouvindo a rádio. Tudo corria bem, ou melhor, quase bem, ou melhor ainda, uma merda. Achei que a programação musical estava péssima, caída. Não entendi. Foram meses de trabalho e pesquisa e estava uma merda?

Resolvi tomar um café e ir dormir. Poderia ser impressão, estressadas impressões que muitas vezes nos levam a atitudes babacas. Dormi pouco. Meio-dia já estava de pé. A programação ao meu ver, continuava muito ruim.Triste, triste, triste. Por mais que Jimmy Page fizesse a guitarra gemer, a Maldita estava triste. E foi com esse pensamento que peguei o carro e rumei lentamente para a Rua Visconde de Itaboraí, onde ficava a rádio. Passei pelo nono andar e a locutora Selma Vieira disse que o telefone não parava de tocar. Todo mundo adorando. Falou que Regina Echeverria, na época repórter da revista Isto É, estava a fim de fazer uma matéria sobre a rádio. Peguei a programação, conferi módulo por módulo. Era aquilo mesmo que tínhamos programado. Só me senti satisfeito quando Sergio, Alex e Amaury disseram que também tinham achado a rádio uma merda. Que alívio. Começamos a fazer tudo de novo, só que com o prazo de 24 horas. Mergulhamos.