quarta-feira, 26 de abril de 2017

Aureliano

Pacato cidadão, exímio pagador de impostos, funcionário público federal concursado com 30 anos de repartição, eleito funcionário do mês 87 vezes, quatro filhos homens com curso superior completo, morador de Copacabana, Aureliano levava a vida como ela é.

Leitor voraz de Nelson Rodrigues, Rubem Braga e Monteiro Lobato, dizia ao espelho que não, mas se identificava, sim, com alguns personagens de Rubem Fonseca, em especial O Cobrador. Aureliano falava pouco, mas ajudava muito. Ajudou o porteiro do prédio onde morava a casar, ajudou a pagar o tratamento dentário do dono de um bar, onde diariamente, pontualmente as 7 da manhã, tomava uma garrafa Caracu com ovo cru. Em seguida, corria nove quilômetros pela orla.

No metrô, seu único “desvio moral”: lia Cassandra Rios, François Rabelais, Charles Bukowski, e outros, escondendo as capas. Quando o metrô chegava ao Centro, ele guardava os livros em sua pasta lacrada. No trabalho, todos gostavam de Aureliano, apesar de nunca terem presenciado um sorriso seu. Seu ar era sério, mas sereno, e quando surgia algum documento que exigia seus dados pessoais, ele descrevia seu estado civil como hediondo.

Ao longo do tempo ajudara ($) o ascensorista, o chefe de serviços gerais, duas telefonistas e até um superior seu. A todo instante era abordado por colegas mais novos que queriam tirar dúvidas. Aureliano parava o que estava fazendo para ajudar, pacientemente.

Não tinha telefone em casa e era o único na repartição sem celular. Na repartição, no prédio e provavelmente no quarteirão. Várias vezes indagado por que não tinha celular, ele respondia “assunto meu”. Em compensação, em sua mesa de trabalho o telefone não parava de tocar.

Filho 1 – Pai, que horas você vai depositar aquele dinheiro na minha conta? O plano de saúde de Berenice (esposa) vence hoje.

Filho 2 – Pai, vou viajar com Clarinha amanhã. Não esquece de deixar o dinheiro da gasolina e da nossa estadia no meu escaninho.

Filho 3 – Pai, realmente decidi que é melhor trocar de carro. Um zero KM sai bem mais em conta do que um usado. O cara da agência só está me esperando pagar o sinal para fechar o negócio. Dá para fazer aquele empréstimo consignado aí pela repartição?

Filho 4 – Pai, não esquece de pagar meu aluguel. A conta do supermercado está com o porteiro aí da repartição. Aumentou porque semana que vem é aniversário da minha sogra e vamos fazer uns queijos e vinhos na casa dela.

Todos os dias, sem falta, os filhos ligavam com as suas demandas. Ligavam porque Aureliano não permitia que fossem a sua casa. Como também não ia a casa deles, não se viam há muitos anos. Aureliano não reclamava porque achava que “quem pariu Mateus que o embale”. 

Apesar de formados, os quatro não trabalhavam. Oficialmente, Aureliano atribuía a falta de emprego da prole a crise econômica, falta de sorte, etc. Mas no íntimo, na hora em que bebia sua Caracu com ovo cru ou corria na orla pensava, cheio de culpa “parasitas, filhos da puta. Petistas escrotos. Sanguessugas, sevandijas, zânganos...só matando”. Pensava e se arrependia, pensava e se arrependia, pensava e se arrependia. E ia mais além: “filhos daquela porra, esperar o que?”. Mas ninguém sabia quem era “aquela porra”. Ninguém.

Apesar de ter dado “de presente” os apartamentos aos quatro filhos, Aureliano não tinha imóvel algum. Preferia morar de aluguel baseado em pensamentos terríveis. “Vai que um dia eles entram na justiça, vendem meu imóvel para comprar quatro motocicletas e me botam para morar na rua”.

Mas aquele 11 de setembro foi diferente. Como sempre Aureliano saiu de casa para tomar sua Caracu com ovo cru. O faxineiro pediu alguns reais para... o porteiro pediu dinheiro para...uma carta da receita federal mandava ele comparecer para... a caminho do trabalho um morador de rua espetou uma faca no seu pescoço exigindo...no metrô um arrastão levou sua pasta com tudo, inclusive os livros...no trabalho os quatro filhos, pelo telefone, pediam antecipação do 13º. (eles recebiam 13º. do pai)...Aureliano desceu para almoçar na Pensão Pinguim, como fazia há décadas, e teve a visão monumental. Nos aparelhos de TV das vitrines das lojas, imagens mostravam jatos de passageiros derrubando as Torres Gêmeas, em Nova Iorque.

Trinta dias se passaram. Filhos 1, 2, 3 e 4, desesperados, insistiam para que a polícia desse notícias do pai. O dinheiro estava acabando e pelo visto teriam que cometer o absurdo de ter que trabalhar. Na portaria do prédio de Aureliano, as contas dos filhos se amontoavam. O porteiro, aflito, perguntava por ele aqui e ali porque queria comprar um forno de micro-ondas. O jornaleiro não sabia o que fazer com três edições de segunda mão de Cassandra Rios que acabara de chegar. Aquele miolo de Copacabana só falava no sumiço de Aureliano, o “bom homem”, o “bom samaritano”, o “amigo de fé, irmão camarada”.

Na repartição, o baque. Cadê Aureliano? O serviço estava atrasado, os novatos perdidos, a chefia sem ter a quem pedir dinheiro, o bando do sindicato não sabia de quem cobrar o jabá, o diretor apelou para Brasília mas ninguém sabia de nada. Não estava em hospitais, nem no IML, nem nos lixões da cidade e muito menos no Paraguai, disneylandia de degredados em geral.

Um ano, dois anos, três anos, quatro anos. Cadê Aureliano?

Cadê?