quinta-feira, 6 de abril de 2017

Égua de Paquetá

Quando fui a ilha de Paquetá pela primeira vez, não passava de um bronheiro mirim de 12 anos, leitor voraz dos catecismos de Carlos Zéfiro e Cassandra Rios, nutrientes de meu modesto balaústre. Como muitos garotos de minha geração (que não é a tal geração de José Mayer) fui um perseguidor implacável de empregadas domésticas, roqueiro iniciante e muito curioso.

Aos 12 anos tive a primeira crise de angústia. Foi em Paquetá, mais precisamente junto ao muro da casa de José Bonifácio. Perdi o ar, senti vontade de vomitar, sensação de leve vertigem, morte iminente e a questão:”será que vou morrer agora?”. Vomitei loucamente.

Era excursão de colégio e um dos professores quase gritou “você está amarelo!”. Tentei disfarçar, tentei dissimular e, felizmente, o nó na garganta, uma brutal vontade de chorar, impediu que eu balbuciasse a mais remota das frases. Provavelmente iria falar besteira.

Depois de arfar muito, saí andando, fingindo que estava tudo bem, o professor perguntou “melhorou?” eu disse que sim e a excursão prosseguiu, mas fiquei para trás. Disse ao professor que precisava descansar, ficar sentado num caixote de “manzanas argentinas” embaixo de uma árvore. Ele concordou. “Fique aí, mas não saia para lugar nenhum. Voltamos logo”.

Muito calor, mormaço, foi quando vi uma égua pastando bem perto. Pangaré, coitado, escrava das charretes que agora foram abolidas. Pensei em montar, sair pela ilha como um Zorro bem resolvido, mas é lógico que não poderia. Ou poderia?

Josélia disse que sim. Josélia, uma garota de uns 17 anos, muito morena, magra, cabelos enrolados na altura dos ombros, descalça, vestido de chita desbotado, abaixo dos joelhos, dizia que era filha da dona da égua. Insinuante, perguntou “você quer?”.

Eu ainda estava mal, mas queria. Queria qualquer coisa que Josélia me desse. Qualquer coisa. Até chute na cara. Mas ela não queria me dar, queria alugar. Alugar a égua da mãe. Disse que a sela estava atrás do muro da casa de José Bonifácio, o freio também. Freio do cavalo, não o meu.

Assim que o pessoal se afastou, Josélia pulou o muro de volta. Muro da casa de José Bonifácio. Vi a sua calcinha, branca, provavelmente de algodão, mas foi só um flash. Montei na égua mas, desorientado pelos workshops de Zéfiro e Cassandra, me fiz de vítima, cara de coitado e pedi para ela ir comigo. E ela foi. Montou na minha garupa de onde chamou o pangaré pelo nome. Não lembro o nome.

A égua não marchava, só trotava. Delícia. Delícia sentir os peitinhos de Josélia nas minhas costas, recém-nascidos, rumo a alvorada de sei lá onde. Eu já não sabia quem era quem; quem era égua, quem era Josélia, quem era eu. Mas sabia que a turma (e os professores) voltariam logo. Foi tudo muito rápido.

Deixei a égua parar embaixo de uma amendoeira, me virei e agarrei Josélia. Ela não refugou. Um longo beijo acompanhado de mãozadas mal distribuídas, mas quase na altura do obscuro objeto do meu desejo, Josélia mandou tirar. A mão. Tirei, insisti, tirei, insisti, insisti, insisti, arfando Josélia pulou da égua, levantou o vestido perto da calçada, saltou uma cerca e, do outro lado, ficou nua e determinada comandou: “vem, meu jegue”.

Louco, voei da égua, pulei a cerca e ouvi os berros chamando meu nome. Era o professor. Josélia já tinha posto a mão, eu já tinha posto a mão, o mundo girava, mas eu teria que...refugar.

O professor me inquiria como um sargento alemão. Disse que eu estava com a aparência pior. Disse que eu precisava ir ao médico. Disse, disse, disse e a turma se fez em grupos.

Como um eunuco ermo, avistei a égua longe. Pastando junto a calçada. Josélia devia estar por ali, como sempre esteve.

Semanas depois, num sábado, disse que iria a Modern Sound, em Copacabana, comprar discos. Na estação mudei para a barca de Paquetá, onde o tempo não passava e eu latejava alucinado. Latejo que só Josélia dissipou. Uma. Duas. Seis vezes.

Noite alta, barca de volta, pernas tremendo, paixão vulcânica, até quando eu estaria escravizado por aquela mulher? Em casa, desculpas vãs, levemente imbecis, “isso não se faz, sumir sem avisar”, disseram. Concordei. E me auto exilei no quarto, auge da noite de sábado, lembrando de Josélia que me fez o mais Zéfiro dos Carlos por longos e longos sábados na ilha de Paquetá.