terça-feira, 11 de abril de 2017

Machado e Camus

Há uma ponte, digo, uma pinguela muito vagabunda que liga o caos de Machado de Assis ao caos de Albert Camus. Relendo "Ressurreição" (de 1872) e "A Mão e a Luva" (de 1874) estou diante de um Machado domando as implosões afetivas de homens inseguros, loucos, inviáveis. Machado é um abissal conhecedor da alma masculina e é reconhecido mundialmente por isso, mas sua genialidade permite que ele transforme os dramas cotidianos do afeto em petecas. Albert Camus, argelino mal resolvido, francês não assumido, derrotista crônico, também se relaciona intimamente com o caos, mas ao contrário de Machado, ele prefere insuflar, abanar a chama, soprar, confundir. "O Mito de Sísifo" faz sentido na mitologia grega, mas como livro capota no confusionismo da penumbra existencialista que ele, Camus, açoitava muito bem. Homens e mulheres são tratados como rivais por Machado em vários momentos, sendo o mais clássico e explosivo "Dom Casmurro"e o suposto (e não suposto) triângulo condenado que mantém nos vértices Capitu, Bentinho e Escobar. Dizem que "Dom Casmurro" é o auge de Machado. Discordo. O bruxo do Cosme Velho* jamais em tempo algum escreveu algo não genial. Sua vida literária é uma infinita sucessão de auges. Albert Camus também (honra seja feita), em especial quando escreveu "O Estrangeiro" que lançou em 1942 e explodiu corações e mentes ocidentais. Até hoje.  Antes, pode nem ter percebido mas em "Núpcias, o Verão" (1939) , textos de juventude, expôs um erotismo delicioso e raro na sequidão intelectual desses teóricos existenciais, de onde arrancamos, pela raiz: “O sol e o vento falam apenas de solidão”;  “Não ser amado é apenas questão de pouca sorte; mas não ser capaz de amar é uma desgraça.”; “O sangue e os ódios descarnam o próprio coração; a longa reivindicação da justiça esgota o amor que, no entanto, foi o que lhe deu origem.” Há uma ponte, digo, uma pinguela muito vagabunda que liga o caos de Machado de Assis ao caos de Albert Camus. 

Bruxo do Cosme Velho é um epíteto consagrado a Machado de Assis. O termo ganhou força no meio literário quando Carlos Drummond de Andrade publicou o poema: "A um bruxo, com amor", no qual o poeta fez referência à casa (número 18) da rua Cosme Velho, situada no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, onde morou Machado de Assis. O poema toma a casa como ponto de partida, como um passaporte para a proximidade com Machado, e, a partir daí, faz um "passeio" pela obra do autor, do geral ao particular, sem, para tanto, manifestar uma loa ao homenageado, mas uma admiração profunda e respeitosa ao "bruxo".