terça-feira, 2 de maio de 2017

Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança


O colega Joaquim Ferreira dos Santos se superou ao escrever as mais de 671 páginas de “Enquanto Houve Champanhe Há Esperança – uma biografia de Zózimo Barroso do Amaral”. Lançado ano passado, acabei de lê-lo esta semana e estou absolutamente extasiado com o monumental trabalho do Joaquim e equipe que, mergulhando na vida atonal, incerta, surpreendente do Zózimo acaba registrando o exato instante que o Rio deixou de ser cidade maravilhosa para ser transformado no o purgatório do caos. A leitura do livro mostra porque o Rio foi maravilhoso, generoso, gente boa, elegante, bem humorado e não esse incurável abscesso urbano, social e político que aí está.

A partir da infância de Zózimo no Jardim Botânico, o livro mostra a vida desse carioca radical, apaixonado, muitas vezes destemperado, defendendo a cidade. Nascido em berço nobre, o angustiado, elegante, caótico e imprevisível Zózimo tornou-se uma marca internacional quando começou a assinar sua coluna no Jornal do Brasil, em 1969. O livro acompanha o rali existencial do jornalista, tragado pelo álcool e por quatro maços de cigarro por dia, e que pagou muito caro por isso.

Lembro bem, foi em 1977 mais ou menos. Eu havia passado uns dias em Brasília e lá fui levado a uma boate chamada Adrenalina pelo grande amigo Márcio Paulo. Ficava na Asa Norte, e lá dentro (ambiente todo vermelho) fui apresentado as Ramones, Clash e outras bandas dessa saudosa linhagem. Márcio tinha um belo Puma branco e quando saímos de lá, madrugada alta, meus ouvidos apitavam graças ao volume (e qualidade) do som. Duas semanas depois a polícia fechou o bar.

Cheguei ao Rio e fui direto do Galeão para a redação do Departamento de Jornalismo da Rádio Jornal do Brasil, que ficava naquele belo “navio” ancorado na avenida Brasil 500 (hoje é a sede do Into) onde trabalhava desde 1974 e permaneci até 1981. Saudade do cacete daquele navio que abrigava amigos, colegas e monstros sagrados como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Ana Maria Machado (minha chefe), Elio Gaspari, Marcos Sá Correia e, lógico, Zózimo Barroso do Amaral entre muitos outros.

O Jornalismo da Rádio ficava no lendário sexto andar, próximo a sala do Zózimo e numa tarde eu estava no banheiro de mármore (repito, como era belo aquele prédio) fazendo xixi e o Zózimo entrou para fazer o mesmo em outro mictório. Perguntou “alguma nota?” eu falei sobre o fechamento do Adrenalina e ele perguntou por que. “Pela ignorância a polícia deve achar que Adrenalina é uma droga, como cocaína, heroína”. No dia seguinte, destaque em sua coluna. “A polícia de Brasília fechou o bar de rock Adrenalina. Acha que é nome de droga”. Deu a maior confusão.

Enquanto Houver Champanhe Há Esperança” é um livro mais do que fundamental para quem ama um Rio que realmente existiu (“é sol, é sal, é sul” não foi uma miragem), a vida ultra interessante de um de protagonistas, Zózimo, a imprensa daqueles tempos (só no Rio havia 20 jornais diários) e a história do colunismo social.

Aqui, a sinopse:

Por quase trinta anos, entre 1969 e 1997, a sociedade brasileira foi desnudada pela escrita espirituosa do jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em sua coluna diária no Jornal do Brasil e depois em O Globo. Muito além dos registros sociais, ele oferecia um noticiário que flertava com a economia, a política e o esporte (sua paixão), em um estilo elegante e sem qualquer cerimônia.Fez muitos amigos, ganhou uns poucos desafetos e chegou a ser preso duas vezes durante o regime militar.

Joaquim Ferreira dos Santos reconstitui toda a trajetória do colunista, desde sua infância, no bairro carioca do Jardim Botânico, passando por seu começo de carreira quase acidental no jornalismo, até conquistar uma coluna assinada no Jornal do Brasil, aos vinte e sete anos. Ao seguir a trilha aberta por pioneiros como Álvaro Americano, Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued, ele fez escola. Enquanto se tornava a mais respeitada grife do colunismo no país, Zózimo registrava nas páginas dos jornais as imensas mudanças ocorridas na elite carioca.

As festas saíram dos salões dos grã-finos e instalaram-se em casas noturnas como o Regine’s e o Hippopotamus. A animação movida pelo champã ganhou aditivos como a cocaína. Ao mesmo tempo que retratava o agito social, Zózimo enfrentava os próprios demônios. Viveu amores, momentos de turbulência familiar e sérias questões de saúde. Mas até o final foi um homem apaixonado pela vida, como ele gostava de dizer: “Enquanto houver champanhe, há esperança.”