quinta-feira, 4 de maio de 2017

O náufrago

Encontrei um amigo que no ano 2000 viveu uma aventura (para alguns, desventura) numa ilha do litoral sul. Muito experiente, ele navegava há dias em sua baleeira quando bateu numas pedras. O barco começou a fazer água e ele avistou, muito perto, uma ilha num dos inúmeros recortes geológicos da região.

Pôs o salva vidas, pegou facas, cantil, dois canivetes suíços, alguma comida e mergulhou no mar, nadando para a ilha. Até hoje ele afirma que o rádio do barco estava com defeito e por isso não conseguiu chamar um socorro.


Chegou a ilha deserta (pequena, bem pequena) e percebeu que ela ficava num "dente", uma falha geológica que a tornava praticamente invisível.  Atingiu a pequena faixa de areia. Se embrenhou na vegetação nativa e armou uma barraca,
com fulhas e bambu.

O jantar daquele dia estava garantido. Havia comida mas ele já tinha percebido que em caso de necessidade poderia recorrer aos mexilhões, coco, pitanga, maracujá. 


Como era inverno a noite caiu rápido. Ele havia planejado escrever, com letras garrafais, SOS na areia da minúscula praia, mas achou melhor deixar para o dia seguinte. Não iria resolver. Além do mais, segundo a sua carta náutica e o GPS, naquela região não passava avi
ões e muito menos navios, justamente por causa dos recifes.

Ele estranhou. Em vez de sentir a angústia dos náufragos, a sensação era de alívio. Estranho alívio. Foi quando lembrou que seu casamento estava pastoso, no fim, que seus filhos ultimamente estavam dedicados a
egolatria radical, que o seu trabalho como biólogo marinho numa universidade federal estava parado por falta de verbas, que a sua família estava espalhada pelo mundo, que a sua saúde...ah, a sua saúde estava ótima.


Não foi difícil para ele constatar que, a princípio, não havia interesse algum em retornar para a civilização. "A princípio", pensava para si mesmo. A bem da verdade, ele avaliou, seu único vínculo afetivo honesto, com todos os retornos que os vínculos afetivos proporcionam, era a baleeira. Que afundou.

Nos primeiros dias ele deu umas voltas pela ilha. Comeu muita pitanga e até maracujá. Ainda não havia escrito SOS na areia porque...porque...porque não estava a fim de SOS algum. Foi quando começou a pensar na possibilidade de se tornar um náufrago eterno. Não só naquela ilha, mas em outras ali por perto também. Nunca havia sentido tanta liberdade, tanto desprendimento e a certeza de que não fazia falta a ninguém. O único problema era seu irmão mais velho, conhecido como Taco, campeão mundial de iatismo e capaz de localizá-lo.


Poderia fazer a barba com os canivetes suíços mas deixou crescer. Pod
eria usar os jeans que trouxera do barco, mas optou por ficar nu, poderia arranjar talheres para comer mas desejou comer com a mão. Caprichoso, fez um cardápio com várias opções de mexilhão com coco, pitanga e maracujá. Passou a correr uma hora todos os dias e, após 25 dias, percebeu que nenhum barco passou perto da ilha. Avião? Nem pensar. Lembrou que havia bebibo (dia sim, o outro também) e "acidentalmente" havia desligado o GPS do barco dias antes do naufrágio.

Quarenta e oito dias depois ele foi acordado por uma pequena multidão. O irmão Taco (bingo!) o havia localizado. Chegou a ilha para socorrê-lo, com várias pessoas, entre elas sua mulher. O náufrago não conseguiu esconder o sorriso amarelo, o mal estar, a desagradável sensação de ter a sua paz de espírito liquidada em poucos minutos.
Vestiu uma bermuda esfarrapada.

"Você está ótimo", disse Taco, notando a pele bronzeada, o corpo sarado, a leveza do irmão. A mulher nada disse porque, segundo o náufrago, ainda não havia encontrado algum motivo para esculachá-lo, um hobbie dela.


Contrariado, embarcou com o irmão de volta a civilização. Falava pouco, estava muito calmo. Taco comentou "você nem parece aquele sujeito ansioso, tenso de meses atrás". O náufrago disse "é, não pareço". 


Dias depois chegou a sua cidade. Havia uma festa surpresa no clube. Ele fingiu que gostou. Pediu divórcio, pediu demissão da universidade e emancipou os filhos. E no dia que o encontrei na rua, ele falava em voltar a navegar. Fiz uma pergunta objetiva: "voltar a navegar ou a naufragar?".

Tudo é possível. Ele disse.