sábado, 15 de julho de 2017

40 anos sem Big Boy

Big Boy morreu há 40 anos. Foi em 7 de março de 1977. Ele era asmático crônico e sempre andava com uma bombinha no bolso. Todo mundo o chamava de hipocondríaco e ele respondia, irônico, “quem é vivo sempre aparece”. Não bebia, não fumava e nem cheirava nada. Foi a São Paulo a trabalho e começou a passar mal no quarto do hotel. Quis o destino que, naquele dia, Big Boy não estivesse com bombinha nenhuma. Morreu.

Os 40 anos da morte do maior DJ do rádio brasileiro só não passou totalmente em branco porque o mega radialista Mauricio Valladares dedicou a Big Boy um farto e merecido espaço no programa "Baú da Globo" nos últimos domingos. Produzido por ele e pelo Centro de Documentação e Pesquisa do Sistema Globo de Rádio, "Baú da Globo" vai ao ar domingos, as 23 horas. 

Fora essa águia solitária, Big Boy foi desprezado. Razões compreensíveis. Nunca a mídia esteve tão imbecil, fútil e vazia como hoje, e a culpa não é da internet. Ninguém falou dos 40 anos de Big Boy porque 0,000000000000001% das redações sabem quem foi ele. Vivemos tempos de heróis fabricados pelos interesses pessoais de alguns profissionais de comunicação com C minúsculo. Até recentemente, jornalista que ganhava cachê de fonte era demitido. Hoje, jornalista entre aspas apresenta festinhas, seminários, congressos, organiza debates, dá palestras, pago por empresas e governos. Lógico que, em troca, além do cachê que recebe escreve agrados.

Além de ter revolucionado a extinta Rádio Mundial, AM oito-meia-zero, com aquele som horrível de caixa de sapado mas tão lúcida e inteligente como uma FM inexistente hoje, o extinto Big Boy inventou a extinta Eldo Pop em 1971. Uma rádio cuja programação era calcada no melhor do rock progressivo, mas rolava outras bandas também. Não tinha locução. A Eldo Pop era um computador do tamanho de uma geladeira que ficava cuspindo boa música 24 horas por dia no morro do Sumaré. Quando pifava (e era comum), Mario Henrique Peixinho pegava um carro e subia até lá para por no ar de novo. A Eldo Pop foi líder em audiência em FM e durou até Big Boy morrer. Saiu do ar em 78 e em seu lugar entrou a famigerada 98 FM.

Eu, meu irmão Fernando Mello e o amigo/irmão Marcio Paulo Maia Tavares ouvíamos a Eldo Pop o dia todo. Tínhamos praticamente decorado a programação baseada nas centenas de álbuns que Big Boy trazia dos Estados Unidos. Como não gavia locução as bandas não eram anunciadas. Acabaram virando um enigma, mito. Desvendar cada uma delas virou uma mania para os ouvintes.

Tenho certeza de que se não tivesse morrido Big Boy não deixaria a Eldo Pop acabar. Ele vivia as turras com o comando das rádios onde trabalhava, mas acho que tinha algum cacife lá dentro. Ele sempre dizia ao pessoal da rádio (não cheguei a ter contato com ele) que a Eldo era um diamante que estava sendo lapidado devagar e que iria revolucionar os anos 80. Não deu tempo.

Quando fui montar a Globo FM, em 1985, Peixinho me mostrou a discoteca da Eldo Pop. Intacta, toda em vinil. Claro que, manuseando aqueles discos, bateu um nó na garganta. Há 15 dias soube que a discoteca foi para o espaço. Ninguém sabe, ninguém viu. Em tempo: todo o arquivo precioso da Rádio Jornal do Brasil, ícone do radiojornalismo brasileiro, também foi jogado fora. O imbecilato goza vomitando ignorância digital por aí. O imbecilado produz áudio com som perfeito, cristalino, 5.1, mas burro, anêmico, boçal. A comunicação virou um asneirol vago.

Aqui, vinhetas da Eld Pop.