domingo, 16 de julho de 2017

Minha validade vencida

Fico aflito em não saber quem lê esta Coluna. Aflito e ansioso. Chegando aos 380 mil acessos, receio que a Coluna não atinja o chamado “público jovem”. Na boa, receio não. Tenho absoluta certeza que não. Muitos representantes das chamadas novas gerações, por razões objetivas, estão desconectadas da chamada mídia formal, da qual faço parte. Alguns garotas e garotos tem sua mídia própria e, pelo que vejo, ouço, converso, frequentam-se mutuamente numa rica troca de ignorâncias. Ignorância no sentido literal, de ignorar. Neste caso, propositalmente, e daí?

A ignorância é um direito e se esses representantes das novas gerações gostam de ler quinquilharias, preferem assistir you tubers, ouvir safadões, estão em seu pleno direito de surfar a liberdade a sua maneira. Quem sou eu para obrigar a ler Machado de Assis, ou sorver o texto genial de uma Clarice Lispector ou do Lobão. Sim, eu acho o texto do Lobão genial. E daí?

Quem sou eu para vociferar “vocês tem que assistir CNN, Al Jazeera, Globonews e não essa cisterna de purpurina tola e fútil dos you tubers”? Quem sou eu para clamar “ouçam a remixagem de Sgt Pepper dos Beatles, o melhor do Radiohead, ouçam Jimi Hendrix e não essas bostas que vocês espetam nos ouvidos com seus celulares. Quem sou eu? Não sou ninguém.

Tenho consciência plácida de que a minha validade intelectual está quase vencida. A validade existencial dura um pouco mais, 23 anos para ser preciso. Penso nisso numa boa porque a chamada evolução da espécie, atira a validade vencida no lixo. Logo, no auge de minha quase falência intelectual determinar que a evolução da espécie virou involução, retrocesso, anemia é de uma boçalidade e arrogância atrozes.

Se segmentos das novas gerações não leem bem, escrevem mal, são ególatras ao extremo, são alienados e vazios isso é um conceito meu. Ponto. E não deles. Ponto. Tenho tanta convicção da minha validade existencial que ultimamente tenho frequentado sites de suicídio assistido nos Estados Unidos pois quero dar a meu fim de linha, minhas últimas cenas, um contorno suave e honroso.

Parte da minha geração foi cercada de brilhantes livros, jornais, revistas, filmes etc mas vestiu o pijama, passeia com o canário na gaiola pelas ruas de manhã, para numa padaria qualquer para beber coalhada e jogar conversa fora (literalmente) e, adestrada, volta para casa. Abre o computador cheirando a naftalina e começa a lamuriar nas redes sociais, achando que as novas gerações tinham que estar participando deste momento histórico do Brasil, detonando Temer, Lula, etc etc etc. Reclamam que filhos e netos não conversam em casa. As vezes entro nas redes e digo “as novas gerações só querem uma coisa do Brasil: pular fora daqui”.

Alguns filhos e netos que entram porta a dentro com a cabeça enterrada no celular teclando com sua rede, trancam-se no quarto fazendo sabe-se lá o que on line e só saem para banho, comida e tosa, como um pet. Não querem saber quem governa o país, que país é este (eles tem mais o que não fazer para pensar nisso), quem é quem na TV, não assistem a noticiários, não ouvem rádios. É só eu, eu, eu, e a rede de contatos. E quando eu digo para os meus contemporâneos que isso não é problema nosso, eles gemem de horror.

Nos fins e de semana alguns integrantes das novas gerações vão a festas de sua rede. Um ou outro bebe, um ou outro fuma, um ou outro toma MDMA (droga da moda, conhecida como Michael Douglas) ou similares, um ou outro morre e na pré alvorada da onda da madrugada voltam para o seu minifúndio (casa dos pais), alguns com namoradas ou namorados e se embolam trancafiados em seu bunker/quarto, depósito de enigmas e tabus para uso pessoal e intransferível.

Segue o jogo.