sexta-feira, 21 de julho de 2017

O feitiço do sedã japonês

Impressionante. Praticamente todos os amigos e conhecidos que encontram perguntam “Cadê aquele Suzuki Baleno? Era único, o maior charme”. De pergunta em pergunta comecei a achar que me arrependi de tê-lo vendido. Como vendi para um conhecido, que como eu trata o carro a leite de cabra, fui sondá-lo sobre a possibilidade de recomprar. Mas o feitiço do sedã também pegou o novo dono que, vejam só, está procurando um outro Baleno no Mercado Livre. “Fiquei apaixonado pelo carro, quero ter mais um”. De fato, esse carro tem borogodó. Tanto para os donos como para conhecidos, colegas e amigos do dono.

Uma história que nasceu quase sob o manto do acaso. O sedã japonês verde escuro (idêntico ao da foto) estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Entrei disposto a comprar um SUV preto, tração 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile ou atravessar o deserto do Jalapão, norte do Brasil. O problema era vencer a preguiça. Eu sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando meu olhar bateu no sedã japonês. Esse feiticeiro de aço.

Levantei, olhei a frente, traseira, laterais. Abri o capô, motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV. 

Mudei de ideia. Em vez do SUV comprei o sedã japonês. No dia seguinte saí da loja, pus um CD no Kenwood de fábrica e zarpei. Fui até Barra do Sana e desci pela Serramar (na época lama pura) e retornei como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixei a BR 101 e decidi ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios de esgoto, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês passou. Com água na porta, muitas vezes boiando, sequer falhou. Dias depois, outro toró no Ingá, bairro de Niterói. Água na porta, o sedã boiou de novo e chegou a virar ao contrário. Mas não pifou.

De dois em dois anos pensava em troca-lo por carro um mais novo, mas me perguntava para que, se o carro até alma de jipe tinha. Num lugar chamado Engenho do Mato as vezes eu matava saudade dos ralis fazendo trilha com o sedã no lamaçal, alta velocidade. Impressionante. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que eu iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Eu e o sedã japonês já não sabíamos mais quem era quem. Ele é quase único porque só foi importado durante um ano. Era raro. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais...jamais traiu o seu DNA japonês.

Mas um dia...bem um dia surgiu um outro japonês. Novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também. Foi quando vendi o sedã japonês. Quase fiquei arrasado mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, tive certeza que meu grande amigo continuaria em boas mãos.

O novo japonês parece ter gostado de mim. Começamos a construir uma história bacana, leve, rápida, precisa, estável. Sem problemas. Como os carros japoneses e alemães. Mas, a saudade do sedã eventualmente me pega. E como o vi com o novo dono, reluzindo estacionando em frente a casa dele, a saudade rasgou. Decidi que, ano que vem, vou tentar recomprá-lo só para tê-lo por perto. Se bem que o cara não vai vender de volta mesmo.

Entenderam?