sábado, 30 de setembro de 2017

A boa música

As músicas que estão nos primeiros lugares nas paradas de todo o mundo (sem exceção) são ruins É lógico que respeito o direito das pessoas consumirem Luan Santana, Anita, Ludmila, Gustavo Lima e dezenas e mais dezenas de outros que navegam nos turbulentos mares do esculacho musical, desde que eles respeitem o meu direito de golfar.

Sempre foi assim. Historiadores dizem que desde que “inventaram” a música popular, as mais cultuadas pelos povos são de péssimo gosto. Aqui no Brasil, em geral primeiros lugares sempre foram ocupados por músicas de gosto duvidoso, ou obtuso. Fazer o que? Nada? Que isso? Vamos buscar as opções no chamado mercado alternativo que está sempre cheio de coisas valiosas. No mainstream, vulgo esquemão, escapam, felizmente, Caetano, Gil, Chico e muito mais do que uma meia dúzia de todas as gerações.

Para se ouvir boa música no rádio, antes da invenção do streaming na internet, era uma luta. Hoje, você acessa www.spotify.com , em um minuto baixa um aplicativo, faz o cadastro e pronto: milhões e milhões de discos de todos os gêneros (inclusive o estrume), do clássico ao punk, a sua disposição. Quer ouvir rádios afinadas com o seu gosto? Vá até www.radios.com.br e escolha uma entre milhares que são oferecidas no maior cardápio de opções radiofônicas do mundo. Radios.com.br é sensacional e fica na cidade de Varginha (MG), terra dos E.T.s. Tem radio de bossa nova, rock, blues, jazz, samba, chorinho, notícias, efeitos especiais, tudo da melhor qualidade. É só dar um clique.
Destaque para a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles (http://radiobatuta.com.br/ que traz o melhor da tradição da MPB e ainda a Radio Vitrola (www.radiovitrola.net) com a nata de tudo que é bom em vários universos e para quem gosta de flash backs a Radio Good Times (www.radiogoodtimes.com.br) arrebenta, assim como a Cult FM, em www.radiocultfm.com toca rock do bom.

As cidades estão cheias de shows em circuitos alternativos que estão revelando ótimos artistas. Vale conferir e saber quem é quem frequentando os sites mais antenados com o melhor do alternativo. Ou seja, da mesma forma que a música ruim, chula, de baixa qualidade impera no chamado esquemão, a música boa, limpa, gostosa, de todos os gêneros e estilos sempre arrebentou e vai continuar arrebentando nos circuitos e mídias periféricas.

Cabe a nós correr atrás.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Com uma pequena ajuda dos amigos

                              Ringo Starr gravando o vocal de "With a Little Help from my Friends"                                                                                                 
                                                   Joe Cocker no Festival de Woodstock, 1969
Assistindo à TV, há tempos vi o comercial de uma montadora de automóveis que inseriu na trilha sonora uma versão bem suave de With a Little Help From My Friends, um clássico dos Beatles de 1967.  A canção veio ao mundo no lendário álbum Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, e rapidamente estourou em todo o planeta. Há quem não saiba, mas quem canta na versão original é Ringo Starr.

A música ganhou diversas versões, sendo a mais brilhante delas, na minha opinião, a original dos Beatles (cantada por Ringo Starr) e depois a qversão com o saudoso giga cantor Joe Cocker, que explodiu no festival de Woodstock, em 1969. Certa vez, numa entrevista, Cocker atribuiu o sucesso de sua versão de With a Little Help... não à música em si, mas à necessidade que as pessoas têm dessa figura sagrada chamada amigo. A música cultua a "pequena ajuda dos amigos", capaz de nos erguer, nos fortalecer, enfim, Lennon & McCartney deixaram claro que "sem amigos não dá". No comercial de TV a imagem mostra diversas formigas trabalhando em uma árvore, simbolizando a união que faz a força, que nos aproxima da perfeição. Alguém lembra desse comercial?

Quem nunca precisou de "uma pequena ajuda dos amigos"? William Shakespeare escreveu: "Perguntei a um sábio a diferença que havia entre amor e amizade, ele me disse essa verdade... O amor é mais sensível, a amizade mais segura. O amor nos dá asas, a amizade o chão. No amor há mais carinho, na amizade, compreensão. O amor é plantado e com carinho cultivado, a amizade vem faceira, e com troca de alegria e tristeza, torna-se uma grande e querida companheira. Mas quando o amor é sincero ele vem com um grande amigo, e quando a amizade é concreta, ela é cheia de amor e carinho. Quando se tem um amigo ou uma grande paixão, ambos sentimentos coexistem dentro do seu coração."

Enquanto escrevo ouço uma versão antiga de With a Little Help From my Friends com o Deep Purple, arrepiante. Aliás, não conheço uma versão dessa canção que não abra os portais da minha emoção. Certamente num momento pessoal de muita comoção, Albert Einstein escreveu: "Pode ser que um dia deixemos de nos falar.../Mas, enquanto houver amizade/Faremos as pazes de novo./ Pode ser que um dia o tempo passe.../ 

Mas, se a amizade permanecer, / Um de outro há de se lembrar. /Pode ser que um dia nos afastemos.../ Mas, se formos amigos de verdade/ A amizade nos reaproximará./ Pode ser que um dia não mais existamos.../ Mas, se ainda sobrar amizade,/ Nasceremos de novo, um para o outro. / Pode ser que um dia tudo acabe.../ Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,/ Cada vez de forma diferente. / Sendo único e inesquecível cada momento /Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre./ 
Há duas formas para viver a sua vida: / Uma é acreditar que não existe milagre./ A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre./ Especialmente os amigos."

De vez em quando inventam um Dia do Amigo. Segundo a Wikipédia, pelo mundo ele acontece dias 20 de julho, 27 de abril, e 30 de julho, mas já me disseram que é 14 de fevereiro. Muita gente ridiculariza a data, acha que dia do amigo é todo dia, enfim, aquela balela. Mas, a meu ver, nesse corre-corre em que vivemos a data se tornou importante porque, no mínimo, leva muita gente a lembrar que os amigos existem. Afinal, não foi à toa que os Beatles fizeram With a Little Help From My Friends. Paul McCartney diz que durante a gravação de Sgt. Pepper’s, precisou, sim, de uma enorme ajuda dos amigos.












quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Rock progressivo se consagra no Teatro Municipal de Niterói

O grupo italiano de rock progressivo Locanda Delle Fate só vai tocar no dia 10 de novembro, mas a venda antecipada de ingressos já ultrapassou 50% da lotação do Teatro Municipal de Niterói. Depois do show do inglês Renaissance (lotação esgotada) e do holandês Focus (lotação esgotada) a diretora do teatro, Marilda Ormy, anunciou que em 2018 haverá datas fixas para o progressivo no teatro e que novas bandas de renome já estão negociando. Maravilha!

Quem quiser assistir o Locanda Delle Fate, os ingressos estão a venda neste link:https://ingressorapido.com.br/venda/?id=1893#!/tickets . Ou na bilheteria do teatro. Informações pelo telefone (21) 2620-1624. Quem não conhece o grupo pode ouvir o lendário primeiro álbum “Forse le lucciole non si amano più” (1977) clicando neste link: https://www.youtube.com/watch?v=HUPh7eGQcvw

Apesar da crise que praticamente dizimou boa parte dos grandes nomes do rock progressivo purista no início dos anos 1970, muitos seguiram ou retomaram a estrada depois. É um gênero musical único egrandioso, com experiências fantásticas que misturam a música clássica, o folk, o jazz, o barroco, tudo isso ancorado no rock. O público é gigantesco em todo o planeta e não para de se renovar; por isso esse estrondoso sucesso no Municipal de Niterói.

O progressivo tem várias facções. Os ingleses dominaram a cena com o Yes, Genesis, Emerson, Lake and Palmer, Pink Floyd, Gentle Giant e muitos outros. A eletrônica radical foi sempre muito bem representada pelos alemães do Neu, Can, Amon Dull, Faust, Tangerine Dream, o Kraftwerk que revolucionou com o álbum Autobhan, de 1974. As bandas mais suaves e líricas são da itália. Nomes como Premiata Forneria Marconi, Le Orme, Il Balletto di Bronzo, Banco Banco del Mutuo Soccorso e muios outros, entre eles, é lógico, Locanda Delle Fate. No Brasil, vários. Em atividade o veterano O Terço, Violeta de Outono, o niteroiense Spin (está gravando um novo álbum) entre muitos outros.

Ao decidir abrir um espaço fixo para o progressivo, o Teatro Municipal de Niterói homenageia este público enorme, de extremo bom gosto e participante que sentia muita falta de iniciativas como essa.

Valeu!



quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A crianças estão bem


Decidi opinar porque está havendo muita injustiça e preconceito com as novas gerações, que alguns chamam de alienadas, vazias, fúteis, cabeças de vento, acomodadas.

Não é verdade.

Todo mundo já passou pela adolescência. E o que é a adolescência? Um HD vazio, com infinitos gigabytes, registrando tudo que está à sua volta. Tudo! O bom, o mau e o feio. A adolescência e a pós-adolescência são uma fase experimental imposta pela natureza para que os filhotes atravessem a transição criança-adulto querendo saber. Há muito deslumbramento, decepção, dor e, lógico, radicalismo e oposição. O adolescente obediente “bovino” e cordato não está bem. Posso falar? Não é um adolescente normal. Adolescente tem que dar trabalho, tem que provocar, tem que irritar, tirar do sério.

Ele acha que tem (e tem mesmo) o direito de levar a vida que acha certa. Cabe aos adultos, adultos cujo diploma existencial só irão receber quando aquela senhora com uma foice na mão e capote na cabeça vai tocar a sua campainha para buscá-los, insistentemente tentar conversar com o adolescente.

Os adolescentes de hoje estão vivendo uma das eras mais tumultuadas de todos os tempos. A tecnologia transformou a revolução do pós II Guerra em fichinha. A fartura tecnológica está substituindo tudo. Os jornais de papel, a música, a literatura, os telefones de Graham Bell, os táxis, os discos, os vídeos, a TV, o Rádio, a medicina, a veterinária, a engenharia e...as famílias. Nada hoje é igual ao que era 15 anos atrás.

Ontem eu me peguei colocando meu “livro” para carregar na tomada. Meu Kindle, leitor digital de livros sem papel que precisa de carga como os celulares. No olho dessa gigantesca revolução, que está acabando até com os carros com o motorista, estão os adolescentes.

Eles aprendem com o novo mundo que podem dormir com namoradas e namorados em casa, que podem passar o fim de semana longe de casa, vivem se falando pelo whatsapp em códigos que só eles entendem, e tem uma consciência dos perigos muito maior do que nós tínhamos quando tínhamos nossos 16 anos. Mais: sua visão de democracia, etnia, diversidade é muito própria. Nossos preconceitos? Sem cerimônias eles atiram pela janela.

Estive no show do The Who, no Rock in Rio, num dia com 100 mil pessoas, e vi bandos e mais bandos de garotos e garotas de 16, 17, 20, 25, 30 anos. Não houve uma briga, uma bebedeira, nem sombra de qualquer confusão. Estavam lá ouvindo o que gostam de ouvir, curtir e assistir o que acham interessante e ponto. Lembrei de uma música do próprio Who, de 1965, chamada “The Kids are Alright” (“As crianças estão bem”), cujo autor, o genial Pete Townshend, tinha 17 anos quando compôs. Um adolescente falando com seus pares:

Eu não me importo
Se outros caras que dançam com minha garota
Isso é bom
Eu conheço todos eles muito bem
(...)
As crianças estão bem 

As vezes
Eu sinto que tenho que fugir
Eu sei que tenho que fugir
Vou sair da minha cabeça
As crianças estão bem

Eu não sei se seria melhor para ela
Eu planejava as coisas, mas os caras não a deixavam

Eu não me importo
Se outros caras que dançam com minha garota
Isso é bom
Eu conheço todos eles muito bem

Por mais que ocorram as revoluções, os filhotes tem os pais e similares como referências. Se os pais de uma criança de três anos ouvem funk vagabundo, é lógico que futuramente essa informação vai entrar no HD do adolescente. E isso vale para tudo. Pais que quase se beijam com frequência, ou se estapeiam, pais que jogam lixo na rua, jogam em lixeiras, fumam, não fumam, bebem, não bebem, são preconceituosos, são liberais, se drogam, não se drogam. Tudo isso é referência para o filhote até a puberdade quando surge no horizonte furacão da rebeldia e ele vai adquirir novos hábitos. Mas inconscientemente não apagará as referências de mãe, pai e similares. Os submissos, os que não questionam a sua primeira autoridade (a família) provavelmente terão que se contentar com a mesmice existencial e, quem sabe, cantar “Como Nossos Pais” no futuro.

Mas a rebeldia, o estado de "ser do contra" o confronto dura poucos anos pois, em breve, a maioria deles se torna amigo de pais, mães e similares. E os papéis quase se invertem. Jovens adultos, os ex-adolescentes se tornam o ponto avançado, a figura que puxa ensinamentos do futuro e repassa para os pais, que já não tem mais saco para saber navegar na Deep Web, decodificar gírias, conhecer os ritmos do momento.

Em suma, a fonte ainda é a base de tudo. E a base se manifesta pela contemplação dos garotos e garotas e não pelas nossas supostas ordens, pelo autoritarismo. Enfim, é um tema vasto, complexo, que pretendo continuar abordando num outro dia.


The Kids Are Alright!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A vingança do bastardo

                                                 Capa da primeira edição
Saudade de livro é sempre boa. Por isso tenho procurado, inutilmente, em minha estante (onde tudo é uma enorme desordem alfabética) uma edição relativamente recente do melhor, absurdo, esculachado, politicamente incorreto e saudável livro dos anos 80. O clássico “A Vingança do Bastardo”, escrito pelo espírito de uma tal Eleonora V. Vorsky que baixou sobre o Alexandre Machado, escritor, roteirista e, na época, louco.

Na apresentação do livro, uma auto referência debochando da crítica:  "terrível, escatológico, nojento, nauseabundo, emocionante, divertidíssimo, acachapante, lírico, poético, medonho, esporrante de rir, abominável, cáustico, polêmico, essencial, virulento, dramático, meio mais ou menos, magnífico, detestável, erótico, perturbador, ingênuo, niilista, grandiloqüente, bacaninha, porreta, desavergonhado, pai d'égua, supercalifragilisticespialidoso!"

Texto de contracapa:

Ingredientes:

Os personagens da aventura:

- Levi: Herói ou covarde? Homem ou mulherzinha? Casado, solteiro ou tico-tico no fubá?

- Prima Roshana: Sua sede de sexo só era comparável à sua vontade de dar.

- Bel, a sereia: A beleza de seu corpo deixava os seres do fundo do mar todos molhadinhos.

- A jeba de Kowalsky: Para alguns, um monstruoso erro da natureza; para outros, uma dádiva dos céus.

As resenhas mais comportadinhas descrevem:

Publicada originalmente entre 1984 1987 no tablóide mensal “O Planeta Diário”, a obra foi editada em livro duas vezes. A “Vingança do Bastardo” conta as desventuras de Levy, o narrador, que é envolvido involuntariamente numa tempestuosa sequencia de eventos ao redor do mundo na companhia de sua prima Roshana, ninfomaníaca, zoófila, pedófila e espiã sedenta de sexo com qualquer mamífero disponível. O casal ainda teria a companhia de Bel, a Sereia e de Kowalsky, que se tornam personagens regulares na metade final da história, quando prima Roshana confessa que é escrava sexual do bastardo Levy. E gosta.

Além desses, entram e (geralmente de forma trágica) saem personalidades reais e fictícios como Simon Wiesenthal, Mike Nelson, Aarão Steinbruch, Henry Kissinger, Thomas Green Morton, Tutty Vasques, National Kid e os Detetives-Mirins, Anuar Kadhafi (grafado desta forma) e Kurt Waldheim.

Impiedosa parodia dos clichês da pulp fiction, com "açãoespionagemromancesexoficção-científicacatástrofehisteriapânico, correria, pisoteamento, massacre", o folhetim se tornou uma das maiores atrações do jornal e alçou Vorsky e sua personagem Prima Roshana a uma espécie de status de cult.

A revista Bula o elegeu um dos 10 livros mais engraçados da literatura brasileira. Leia: A cela era de um escuro úmido e umbroso. O nome do escuro era Waltencir”. Assim começa a saga de vingança de Levy, sacaneado por todo mundo, mas especialmente por sua prima Roshana, que dá pra todo mundo, menos pra ele. Nada faz sentido na noveleta, mas você gargalha feito uma besta. “A Vingança do Bastardo” foi publicado originalmente em forma de folhetim no jornal “O Planeta Diário”. Eleonora V. Vorsky também atende por Alexandre Machado, que junto com a mulher, Fernanda Young, criou a série de TV “Os Normais”.

Li e reli várias vezes e como prima Roshana não quero parar, já que nos tempos de hoje que fedem a pijama e naftalina é impossível encontrar uma obra tão espetacular assim. Há vários exemplares a venda em www.estantevirtual.com.br, lançamento de 2007 (já esgotado) da Editora Desiderata. Se não achar o meu no meio nesse ninho de lontra que é a minha estante, vou comprar, reler e perder de novo.









domingo, 24 de setembro de 2017

The Who enlouquece o Rock in Rio

Primeira página hoje, domingo, 24 de setembro

                                     Daltrey e Townshend em noite iluminada                                                                       
Zak Starkey e o padrinho Keith Moon

Aos 52 anos de idade a mais importante banda veterana da história do rock em atividade, a inglesa The Who, fez um dos mais espetaculares shows de sua rica biografia no Rock in Rio na noite de ontem, onde 100 mil pessoas (a maioria não conhecia o grupo) acabaram se rendendo a fúria juvenil do líder e guitarrista Pete Townshend (72 nos), do vocalista Roger Daltrey (73 anos) e do baterista herói Zak Starkey (52 anos).

The Who tocou em todos os festivais fundamentais da história do rock: Monterey Pop (1967), Woodstock (1969), Isle of Wight (1970), Live Aid (1985) e muitos outros. Continua tocando sem parar em grandes arenas. Mas chegar num país onde jamais pisou e encarar 100 mil pessoas, das quais, seguramente, 70% não o conheciam foi um grande desafio. Desafio vencido com colossais doses de talento, coragem, volume lancinante da guitarra de Townshend, enfim, um trem bala que enlouqueceu a plateia logo na primeira música, o clássico “I Can’t Explain”. Uma plateia com 50% de mulheres, publico historicamente avesso ao Who.

As pessoas não conhecem The Who porque não tinham e nem tem como. O grupo só teve metade de uma música tocando nas chamadas rádios de sucesso do país, até a chegada da Fluminense FM, em 1982. "Behind Blue Eyes" foi programada por algumas emissoras que ceifavam a parte quando ela acelera. As emissoras tinham ódio de rock e lembro de um colega locutor de ponta numa FM líder nos anos 70 ter sido punido com uma advertência formal e ameaça de demissão por ter tocado "See Me Feel Me", do The Who, em seu horário. Na Fluminense FM The Who tocava normalmente em sua programação e ajudou muito a difundir a banda por aqui. Entre as emissoras alternativas, a grande Rádio Federal AM, que viveu entre 1971 e 1972, tocou muito Who. Atualmente, as FMs do Rio desprezam The Who, preferindo tocar "esculacho music" ou futilidades sonoras. Mas como a decadente FM está no fim de sua vida (está sendo engolida pelas rádios na internet) isso pouco importa. No Brasil há excelentes emissoras online que tocam The Who, especializadas ou não, como a Rádio Cult, Oceânica FM, Rock FM, Vitrola.Net e outras, que apesar de terem FM no nome estão apenas na Web.

Pete Townshend disse, recentemente, que “minhas letras, o som rascante do Who, o alto volume, acabam atraindo mais homens para os concertos. Em geral as primeiras filas são tomadas por homens e aqui e ali há uma ou outra mulher”. Mais um tabu quebrado no Rock in Rio, quando as mulheres acabaram gritando e cantando mesmo sem saber direito, surpreendendo a banda. A maioria das mulheres na faixa de 20 a 30 anos. “I can’t explain”, diria Townshend. Eu, muito menos.

Antes de mais nada, vamos ao setlist da banda na noite de ontem, quando tocou quase duas horas:

1 - "I Can't Explain"
2 - "Substitute"
3 - 'Who Are You"
4 - "The Kids are Alright"
5 - "I Can See For Miles"
6 - "My Generation"
7 - "Behind Blue Eyes'
8 - " Join Together"
9 - “You Better You Bet”
10 - "I'm One"
11 - "5:15"
12 - "Love Ain't for Keeping"
13 - "Amazing Journey"
14 - "Sparks"
15 - "Pinball Wizard"
16 - "See Me, Feel Me/Listening To You"
17 - "Baba O'Riley"
18 - "Won't Get Fooled Again"

Desde o início, The Who toca em volume altíssimo e por isso entrou para o Guiness, o livro dos recordes. Em alguns shows o som quase se equiparava a de um Boeing 777 decolando, como foi o caso de um show em Toonto, no Canadá, em 1977 quando mais uma vez Pete, Roger e John(Entwistle) romperam os tímpanos e foram parar no hospital. Aliás, Pete Townshend sofre com graves problemas no sistema auditivo e já passou por várias cirurgias. Ele usa quatro aparelhos para surdez, dois em cada ouvido. Roger Daltrey, idem. Os saudosos Keith Moon e John Entwistle também estavam surdos. No Rock in Rio, mesmo a mais de 100 metros do palco, muita gente tentou tampar os ouvidos e alguns, experientes em se tratando da banda, levaram protetores de ouvidos para lá. Townshend explica que “o alto volume é parte do nosso processo criativo. O alto volume provoca ondas sonoras diferentes, provoca feedbacks riquíssimos”.

O monumental baterista Zak Starkey tem uma história bem interessante. Filho de Ringo Starr, ele foi afilhado de Keith Moon, o maior baterista de rock de todos os tempos, morto em 1978, aos 31 anos. Quando Zak fez 11 anos, Moon deu a ele uma bateria. O garoto começou a tocar, ensaiar, evoluiu e no ano 2000 foi chamado para tocar no Who. O que notei ontem foi que Zak aprendeu tão bem a lição do mestre Moon que está chegando muito perto dele com o seu jeito implacável e livre de tocar. Pete Townshend disse que “acho tanto Moon como Zak gênios, cada um no seu estilo”. Quem viu o show ontem (de preferência lá no Rock in Rio), pode confirmar o extraordinário talento do músico, que faz parte do grupo que não teme ousar, não gosta de “bateria econômica” e muito menos de vassourinhas.

Na segunda guitarra está Simon Townshend, irmão 15 anos mais novo de Pete. Nos anos 80 ele tentou carreira solo gravando alguns discos, mas só se firmou em 2006 quando foi convidado para produzir o álbum “Endless Wire”, último álbum de inéditas da banda e começou a tocar no Who.

Pete Townshend postou quarta-feira o Facebook que pretende entrar num período sabático para criar “algo realmente novo, revolucionário, que eu não sei bem o que é ainda.” No entanto, em sua mensagem, não fica claro se The Who vai parar ou vai prosseguir em sua turnê mundial que já dura alguns anos. Quem sabe, voltar ao Brasil em 2018. O importante é que o Rio e o Brasil, pela TV, ficaram conhecendo a fúria criativa e genial do The Who, o que repercutiu imediatamente nas redes sociais onde a banda virou assunto da noite de ontem.

Sei que muita gente está arrependida de não ter ido assistir no Rock in Rio, alegando, com razão, o desconforto da operação gigante que significa ir ao festival. De fato é extremamente cansativo, mas, para mim e outras milhares de pessoas, valeu a pena. Claro, ver pela TV também tem suas vantagens mas o som que como raios e trovoes invade as nossas almas e nos leva a um estado emocional absolutamente inexplicável, só ao vivo.

Valeu!

P.S. - Agradecimento comovido a essas pessoas muito especiais que compartilharam este momento único comigo: meu irmão Fernando Mello, meu amigo-irmão André Valle e a amiga eterna e muito querida Liliane Yusin.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Jimi Hendrix, 47 anos depois












Segunda-feira última, dia 18, 47 anos da morte de Jimi Hendrix, o maior e mais genial guitarrista de todos os tempos. Não deixou uma lacuna. Hendrix deixou um rombo, um vácuo descomunal, até hoje não preenchido por ninguém.

Pelo mundo milhares de seguidores autodidadas como ele, que tocam guitarra de forma ágil, criativa, desafinando e afinando no meio de um solo, ou de uma introdução (quer coisa mais humana e genial do que isso?) e que se danem as cuequinhas passadas a ferro, lençóis de seda, camarins com jasmim. Ele não tem nada a ver com guitarra bronha, perfeitinha, toda calculadinha, velozinha, bem feitinha, bem desenhadinha, com afinadorzinho digital. Hendrix não tolerava diminutivos. Nem ele, nem, Frak Zappa, nem Duanne Allman, nem Jack White, nem Jimmy Page, nem Eric Clapton, nem Jeff Beck, nem todos gigantes. O homem é imperfeito. A guitarra saturada é o espelho das imperfeições do homem. Logo, que papo é esse de doutorado em universidade para esmerilhar uma Les Paul, uma Strato? Qual é, Ingwies Malmsteens?

Ouçam essa versão de “Hey Joe” no Miami Pop Festival, quando o monstro afina a guitarra (altíssimo volume, como ele gostava), em plena introdução. No apoio dois outros saudosos monumentos, Noel Redding (1945-2003) no baixo e Mitch Mitchell (1947-2008) na bateria. Por favor, aumentem o som:


Hendrix era perfeccionista sim. Chegava a gravar 30 vezes a mesma música e nunca ficou satisfeito. Produtores e engenheiros tinham estafa. Eddie Krammer, o engenheiro de som que melhor gravou seu som, desmaiou varias vezes sobre a mesa de som. Mais: Jimi exigia um produtor porque, com razão, dizia que “só um cara muito egocentrado consegue gravar e saber/ouvir o que está gravando ao mesmo tempo. Eu preciso de um produtor que funcione como grilo falante, que opine, que diga por onde devo ir. Assim, me sinto mais livre.”

Ele não gostava de polêmicas e irritava os politicóides quando dizia que não acreditava em esquerda e direita e sim em homens de bem. Também chutava os racistas que cobravam dele uma atitude “em prol da negritude”. Ele afirmava que “não acredito em negros, brancos e pardos, acredito em gente que presta”. Em 1968 andando na rua em Nova Iorque foi abordado por um militante do grupo radical “Panteras Negras” que distribuía um jornalzinho.

Jimi pegou jornal e seguiu em frente. O cara foi atrás, pediu um tempo e disse que os Panteras estavam precisando de dinheiro e queria muito que Hendrix fizesse um show para arrecadar fundos. Jimi disse “faço sim, desde que na divulgação não apareça nada dizendo que o show será para os Panteras Negras. Não quero me associar a nada, absolutamente nada, que não seja a música. E assim foi feito. O show rolou, mas no material de divulgação nada foi dito.

Sempre há muito o que falar desses gênio que conheceu o sucesso em 1967, quando tinha 24 anos, e morreu em 1970 com apenas três discos de estúdio gravados. Mas o que ele fez de show, pouca gente conseguiu e consegue. Foram milhares que ao longo desses 47 anos vem alimentando o mercado de discos com o seu som do futuro. Jimi está mil anos a frente.


No mínimo.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Bonnie


https://www.podomatic.com/podcasts/luizantoniomello/episodes/2017-09-20T08_11_18-07_00

Quando o carro chegou naquela aldeia empoeirada, bela, paradisíaca, minha cabeça moída e o corpo cansado agradeceram. De pés juntos. Era verão, provavelmente o melhor verão de minha vida. Pelo menos até o verão seguinte.

O acaso me fez encontrar com três amigos, que foram promovidos a grandes amigos, numa rua qualquer naquela semana. Eu estava de saco cheio de ególatras, interesseiros, gente que só investe em amizade de conveniência achando que somos babacas. Tudo bem, eventualmente sou um babaca mesmo, mas naquela semana eu estava com a faca nos dentes. Os caras me convidaram desleixada e afetuosamente, “vamos passar o resto do verão naquela aldeia praiana. Alugamos uma casa lá e um dos caras não vai poder ir.”

Como estava cheio e detesto o verão na cidade, comuniquei as férias (vencidas) no trabalho, passei em casa, peguei o carro, e fui, sem maiores expectativas. 

Partimos em dois carros, saindo por volta das 10 da noite, uma viagem que durou umas seis horas pois paramos em várias biroscas para bater papo. Eu não estava habituado ao saldo positivo de tempo. Naquela noite sobrava tempo, mas as vezes, no meio da conversa movida a gargalhadas senti a incômoda presença do fantasma da culpa até lembrar que estava de férias.

Na reta final, quase chegando a aldeia, achei que um caminhão vinha em sentido contrário, mas era Vênus, linda, vaidosa, imponente no meio daquele céu azul petróleo banhado de estrelas. Vênus ficou em nosso horizonte alguns mágicos minutos, até dobrarmos a direita numa estrada secundária que levava diretamente a aldeia.

Chegamos e nem desfiz minha mala. Simples. Duas calças jeans, duas bermudas, quatro camisetas, sandália, tênis, sunga, escova de dente, Omo, etc e lá no fundo, bem no fundo, a fita com “Bonnie”, do Supertramp, que havia gravado há meses como uma espécie de mantra e estava perdida. Ela acabava e recomeçava, acabava e recomeçava. Peguei. Peguei e logo que coloquei a rede nos ganchos da varada, liguei “Bonnie” num micro system de um dos amigos, no meio daquele resto de noite de um lado e início de amanhecer do outro, com direito a brisa soprando e ruido do mar de encontro as pedras perto dali.

Acordei com o sol na cara, quente, implacável. Eram umas 10 da manhã e quase me arrastando fui para o quarto onde liguei na tomada meu bravo ventilador Britania, que morava no porta malas do meu carro. Dormi. Dormi pra cacete.

A tarde, nós quatro fomos almoçar numa birosca que servia o melhor e mais barato filé de cação da região, com arroz agulhinha e brócolis de acompanhamento. Dali, fomos para a praia, mar translúcido, areia deserta. Um dos amigos tinha levado o seu pranchão de windsurf, um esporte que existiu entre os anos 80 e 2000, se não me engano. Pusemos a prancha no mar sem ondas, eles colocaram a vela e começaram a velejar. Não sei nem nunca soube velejar porque tenho preguiça de aprender, apesar de achar fantástico. Os caras eram feras e no fim da tarde pararam. Na beira d’água, tirei a vela da prancha, amarrei num pedregulho (como âncora) e deitei de barriga para cima, boiando como Zorba, o Grego.

As 11 da noite retornamos para a casa, a uns 60 metros dali. Eles pediram e para minha alegria dei Play na fita de “Bonnie”, que rolou mais um tempão. Fizemos e devoramos um churrasco de picanha. Depois, em duas motos e, dois em cada uma, fomos para uma espécie de centro da aldeia e entramos num dancin' bem simples, com frequentadoras locais e também de fora, maioria de São Paulo e Minas.

No dia seguinte, sem dormir, peguei uma das motos e percorri a beira d’água por vários e incontáveis quilômetros, rumo ao norte. A culpa já tinha sido chutada e meu relógio de pulso guardei no porta luvas do carro, abandonado na garagem. Em algum lugar parei, mergulhei, deitei na areia e dormi. Acordei com o sol quase se pondo. Mergulhei de novo. Depois, liguei a moto e retornei. Quando cheguei próximo a casa, notei um movimento extra. Algumas garotas que estavam no dancin' na noite anterior resolveram nos visitar e, de topless, animadas, falavam, gargalhavam, beijavam na boca e nos degustavam com apetite e prazer.

E assim o verão “Bonnie” foi cavalgando. Tudo muito devagar. Dias depois já estávamos pretos por causa do sol, e barbudos por desleixo proposital. Numa das noites maravilhosas e transcendentais, quando todo mundo havia saído (com algumas outras garotas do dancing), preferi ficar sozinho.

Deitei a vela da prancha de windsurf no gramado, liguei “Bonnie” e mergulhei nas estrelas e satélites que passavam naquele impressionante firmamento que misturava azul petróleo com prata. “Deus existe”, pensei várias vezes. Pensei e prometi a mim mesmo mudar algumas coisas em minha vida. Alguns comportamentos. Não foi promessa, nem decisão radical. Um mero acordo meu com aquelas noites abençoadas que, de cara, me deram de presente três amigos extraordinários.

Em minha divagação (teria sido meditação?) excluí algumas manias que de fato foram deletadas, menos uma delas: não incomodar ninguém. Tinha essa mania. Tinha e tenho. Naquele verão mesmo fui sozinho a uma praia relativamente movimentada, peguei sol demais e acho que tive intermação. Sei que na hora em que fui mergulhar quase desmaiei e me afoguei. Ali mesmo, no raso. Mas, com essa mania de não querer incomodar, não pedi socorro, não chamei ninguém, mas ainda assim fui visto por um gringo que me puxou pelo braço e me levou para a areia. Até hoje penso “será que se ele não tivesse me puxado eu teria me afogado por cerimônia?”. Creio que sim. Pior é que ando cada vez mais radical. Nem a hora pergunto. 

Já me perdi em São Paulo por horas por não perguntar nada a ninguém. Por isso, até a pé uso o aplicativo Waze. Não pergunto nada, não peço nada, não grito socorro para ninguém, não gosto de ganhar presente porque “dá trabalho a quem compra”. No entanto, quem me conhece diz que sou mega solidário e prestativo o que sou mesmo.

Passamos do final do verão lá naquela aldeia, como primatas. Uns 40 dias, não sei bem. Retornamos muito amigos. Um deles seguiu a pé para a Cordilheira dos Andes e o outro pegou um voo para o México, onde estava estudando os peiotes de Carlos Castanheda. Eu e o terceiro amigo ficamos por aqui mesmo e toda vez que nos encontramos falamos de “Bonnie”.

Como não?








terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Cravo não brigou com a Rosa- Texto de Luiz Antônio Simas*

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto

Soube que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O Cravo brigou com a Rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o Cravo - o homem - e a Rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o Cravo encontrou a Rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a Rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: “Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas.” A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.”
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. 
Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens. Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. 

O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, bola de sebo, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa, cotonete e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa de 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do c..., cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. 
Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.
Abraços.

*Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio.