segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Somos todos impublicáveis?

Faz sentido um sonho que tive, noites atrás. Muitas noites atrás. Muitas e muitas e muitas e muitas noites atrás. Provavelmente nem era nascido.
Sonhei com o filme “Beleza Americana”, obra genial de Sam Mendes lançado em 1998, com Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch nos papeis principais. O filme mexeu tanto na minha vida (literalmente) que comprei uma cópia em DVD para assistir de novo de tempos em tempos. Mas não assisto porque muitas vezes é melhor deixar nossos baús trancados, calados, quietos. Além do mais, esse DVD também sumiu da minha estante, onde existe um misterioso exterminador de obras de arte.

O cavalo de pau existencial do personagem de Kevin me deixou quase lacrimoso dentro do cinema, onde permaneci uns cinco minutos depois que o filme acabou, completamente abobalhado, besteirão, queixo caído, vendo os créditos subirem na tela enquanto as pessoas saiam, com o capacete da minha Suzuki DR 800 no colo; tinha motocicleta naquela época, mas motocicleta deixou de ser um veículo civilizado, segundo o regulamento da guerra civil, também conhecido como “perdeu. Larga a moto pra não tomar tiro na nuca.”

No dia seguinte comecei a sentir os bons sintomas do filme, que culminaram com uma ida a Igreja do Senhor do Bonfim na Bahia. Na época escrevi (acho que foi no Estadão) que o cinema tem o poder de meter uma colher de sopa em nossas vísceras. O cinema, em muitos casos, faz o papel do inconsciente gente boa derramado em via pública.

Mas aí mora uma pergunta: somos todos impublicáveis? Beleza Americana” me disse “larga essa vidinha e caia dentro com vigor, tesão e uma boa dose de irresponsabilidade”. Irresponsabilidade, irresponsabilidade, irresponsabilidade, eco, eco, eco. Aquilo ficou martelando em minha cabeça (e a trilha sonora idem) e, meses depois, quando olhei para trás vi que também tinha dado uma guinada radical, que a tal “vidinha” denunciada em silêncio pelo filme tinha sido substituída pelo vigor da tal dose de irresponsabilidade.

Respeitei a pergunta - todos somos impublicáveis? - e continuei a viver a nova vida calado, mais convicto ainda de que nada podemos fazer para deter a carruagem do tempo, do vento, do destino. Nada podemos fazer.

O sonho que tive (concordo com C.G. Jung sobre a linguagem dos sonhos e suas mensagens cifradas) não foi nada demais, mas para mim foi como se um torpedo de um submarino alemão singrasse o fundo do mar em direção a um porta-aviões americano, em 1944.

O que fazer? Acesseio You Tube e fiquei contemplando a beleza que é a instalação que o artista plástico Daniel Wurtzel fez, baseado na trilha sonora do filme. Imersão total. Beleza mais que americana.

Absoluta.

Agora é só ouvir os berros do inconsciente e seguir em frente. 


Calado, quieto.