segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A cavalgada de Valquíria

Nove e meia da manhã, terça-feira. O pequeno caminhão baú estacionou numa recatada rua do Méier, zona norte do Rio de Janeiro. À bordo, coisas. Coisas de um homem que fora expulso da Glória por motivos absolutamente impublicáveis. Funcionário aposentado da falida Sudamtex, depois da também falida Belprato, Qüêncio (com trema) queria começar uma nova vida.

Suas coisas chegaram antes dele. Qüêncio (com trema) estava vindo de trem. Os homens da transportadora aproveitaram para descer e comer pastéis com cachaça no Pensão Pinguim, lendário botequim que até crônicas de um falso Nelson Rodrigues frequentou. O dono sonhava transformá-lo numa pensão para servir pratos feitos e por isso o nome pintado na fachada. Pelo menos, é o que diz a lenda.

Quando Qüêncio (com trema) chegou era quase meio dia. Descarregaram suas coisas e subiram umas três vezes a escadaria de madeira que dava no andar de cima do sobrado que Qüêncio (com trema) alugou por um bom preço. Ele pagou os 75 reais combinados, os homens foram embora e agora, certo que iria refazer a vida, Qüêncio (com trema) abriu a janela da sala e respirou fundo, pensando mais fundo ainda: “Por que não puseram trema no meu nome?”. E fechou a janela.

Enquanto arrumava suas coisas, ouvia uma romaria. Foi até a janela e contemplou uma gigantesca fila indiana dobrando a outra rua. Gente, muita gente. Até ônibus de turismo, misturados com vans e táxis ajudavam no rebuliço. O que seria? Qüêncio (com trema) calçou o chinelo de couro e foi lá fora assuntar. Novo no bairro, olhares de soslaio, desconfiados.

- Boa tarde, que fila é essa? Qüêncio (com trema) perguntou a um sujeito meio mal humorado.

- É para a Valquíria.

- Quem é Valquíria?

- Valquíria é uma mulher que faz a melhor cavalgada da América Latina. Até turistas argentinos, uruguaios, chilenos e paraguaios vem aqui para conhecer.

O homem deu a informação e saiu.

Qüêncio (com trema) tinha que terminar de arrumar suas coisas. Aproveitou e bebeu meio copo de absinto. Bebia absinto porque disseram que era proibido. Só por isso. Ainda não tinha concluído se gostava ou não de absinto, que comprava de um amigo, marinheiro na Praça Mauá.

Arrumou as coisas e, com o copo de absinto quase vazio, sentou-se numa poltrona. “Quem será essa Valquíria? Que cavalgada ela deve fazer”. Pensou, pensou, pensou e tomado pelos efeitos da iosna, anis e funcho, apagou.

Na manhã seguinte, providência número um: ir até o Pensão Pinguim tomar o café da manhã; uma garrafa de Caracu e três ovos crus. Mais: saber onde morava Valquíria, quanto cobrava, enfim, Qüencio (com trema) estava a fim de conferir. No bar, foi direto ao assunto. O dono, espanhol como passaporte boliviano  falso, foi logo avisando que “ela não atende gente do bairro”. Por que?, quis saber Qüêncio (com trema). Silêncio. Ficou sem resposta.

- Mas eu cheguei no bairro ontem, Qüêncio (com trema) argumentou mudando a pontuação de aspas para travessão por mero comodismo.

- Não interessa. Você já é um local, uma minhoca da terra. Não vai ter Valquiria não e muito menos o balaústre mágico dela.

- Que balaústre mágico? O que é isso?, Quëncio (com trema) indagou aflito.

- Só quem entra, sabe, disse o espanhol.

Mas, Qüêncio (com trema) não iria desistir fácil. Foi lá na casa de Valquíria e tocou a campainha. Uma voz indecifrável no interfone parecia abortar a primeira missão: “Valquíria não atende gente do bairro”. Como a voz sabia que Qüencio (com trema) era do bairro?

E assim se passaram os dias. Através de um amigo cracker (a versão turbo de hacker) descobriu até o e-mail de Valquíria. “Desejo ardentemente sua cavalgada, minha amada, de preferência com o balaústre mágico que não sei o que é, mas pelas filas deve ser uma delícia”, escreveu desesperado sem ser respondido. Semanas, meses, Qüêncio (com trema) já tinha perdido sete quilos de tanto se masturbar imaginando como seria a cavalgada de Valquíria e seu balaústre mágico, que até ônibus de turismo atraia para o Méier.

Até que um dia, confusão, alarido, desespero. Valquíria havia partido de madrugada. Sem bilhete. Gente chorando pelas calçadas, turistas esmurrando muros de chapisco e, no meio da confusão, Qüêncio (com trema) procurava uma explicação.

Voltou para casa arrasado, como metade da cidade. Para onde teria ido Valquíria e sua cavalgada e balaústre mágico? Qüencio (com trema), numa virada só mamou um copo de absinto e sentou no computador. 

"Vaquíria, não a conheço mas sem você minha vida perde o sentido. O povo diz que você retornou ao convento, em Minas. É verdade que és freira? Preciso vê-la, preciso senti-la, preciso...de tudo. Diga onde é que me mudarei para perto, quem sabe trabalhar como aquele jardineiro de Decameron, filme de Pasolini, ou até como escravo. Responda, responda com uma gota de esperança, eu preciso. Responda. Qüêncio, com trema."

O e-mail retornou com a mensagem "não existe mais".


domingo, 29 de janeiro de 2017

A fenda

Cansado, ele atirou a Honda Africa Twin CRF 1000 no piso enlameado. Foram 874 quilômetros com poucas paradas, cortando um pequeno deserto, duas serras e um trecho de litoral. Ele e a fiel motocicleta, suja, surrada, cansada mas rendida jamais. Arfavam juntos deitados sobre a relva, olhando o céu relativamente estrelado, ar parado, morno. Os olhos pesaram sob o capacete respingado de lágrimas. Lágrimas. Lágrimas.

De manhã cedo pegou um cantil e bebeu num gole só. Olhou em volta, esfregou os olhos. Jogou água, mais água no rosto. Tinha sonhado muito aquela noite, como há muitos anos não sonhava e um sentimento que fundia paixão, desejo, fome e gula pareciam cercá-lo como lobos no deserto de Mojave. Sentou-se em uma pequena pedra e notou que, a frente, havia uma fenda. Exatamente onde passaria com a Africa Twin assim que decidisse dar prosseguimento a viagem rumo ao nada.

Consultou o GPS e lá estavam a fenda e a data: era dia de Ano Novo. Engoliu em seco, montou na Africa Twin e seguiu em frente pela não-estrada, comemorando o seu não-Reveillon, de sua quase não-existência. Chegou perto da fenda, que fenda, uns 150 metros de profundidade por 10 de largura. 
Contemplou a longa e interminável falha geológica que, pelo que ouviu (mal) escondia um rio no fundo. Na outra margem, muitas árvores, muito verde, e até flamingos rosados. Ele largara o LSD há pelo menos 15 anos, logo, era tudo real. O único flash back era música de Hendrix tocando nos fones, ao vivo no Miami Pop Festival, 1968.
Repentinamente o coração disparou, o ar quase faltou, suor na testa, mãos frias. Na outra margem da fenda ele viu o contorno de uma mulher que, achando-se louco não varrido, seria a mulher de sua vida, protagonista de todos os sonhos que tivera naquela noite. Fixou o olhar….sim era ela. Não a conhecia, mas era ela. Era ela. Ele não procurava mas encontrou. Ou procurava e não sabia? Ou sabia e não procurava?

Num impulso decidiu ir vê-la. Vê-la, pegá-la nos braços, fitar seus olhos, acariciar seus cabelos, beijar sua boca, tirar as roupas e dizer que, enfim, estava ali. De algum lugar do planeta, entre sais, mares, ventos, lama, para os braços da mulher que iria possuí-lo no mais profundo sentido da expressão. Não havia dúvida alguma. A mulher do outro lado da fenda era mesmo a sua dona. Mas, era proibida.

Montou na Africa Twin que parecia entender e acelerou. Paralelo a fenda. Dois, 10, 40, 50 quilômetros. Nenhuma passagem, nenhuma pinguela, nenhuma corda. A mulher de sua vida estava inacessível; 1 – era proibida; 2 – vivia do outro lado da fenda inalcançável.

E o tempo passava, três, 13, 17 horas. Já usava a gasolina do tanque reserva, água e comida acabando mas...e a mulher de sua vida? Marcara no GPS o exato lugar onde estivera sentado. Voltou lá. Entardecia. Sua proibida proprietária, retornava para a mata. Provavelmente até o dia seguinte, os dias seguintes, semanas seguintes, meses, anos, décadas seguintes...até quando?

A decisão dependeria deles, dos nazistas politicamente corretos. Os mesmos que o fizeram montar na Africa Twin e fugir em busca do nada porque o nada era menos asfixiante do que o mundo parido, cuspido e escarrado dos nazistas, cafetões do politicamente correto que tomaram as nações, continentes, engoliram o planeta.

Burlar, transgredir, invadir, romper, desobedecer. Era o que restava. Não se sabe como, ele atravessou a fenda. E pegou a mulher proibida nos braços, fitou seus olhos, acariciou seus cabelos, beijou sua boca, tirou suas roupas e fez-se dela.

Morrer? Era o de menos.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Reflexos de uma nação desonrada

Há tempos, a amiga Aida Beranger compartilhou este banner no Facebook. Noto noto que as cores vivas estão sumindo da paisagem urbana. Nas ruas, a maioria dos carros nas cores prata e branco, raramente um vermelho (lembram do Mustang cor de sangue?), um amarelo manga. As roupas também estão em tons formais e fora os maravilhosos shortinhos jeans esfarrapados, noto que as mulheres estão contidas, travadas, usando longas saias largas, vestidões que lembram batas das virgens da Indonésia Oriental.

Claro que só um boçal não percebe que o Brasil está de luto diante desse caos todo que a patifaria fez e faz com a sua honra. Uma nação desonrada não vai as ruas dirigindo carros multicoloridos, vestindo biquinis de lacinho vermelho com shorts amarelos, motocicletas em tons tropicalistas. Esse ar cinzento parece espelhar o inconsciente coletivo do Brasil.

Ou não?

Não sou exemplo de nada, absolutamente nada, mas gosto de carros de cores vivas. Amarelo, vermelho. Mas ultimamente, só cores formais porque todo mundo diz que “amarelo é muito over”. Traduzindo “amarelo é muito alegre para perambular por esse cenário que está ai”.

Além da desonra, vivemos o auge da ditadura do politicamente correto que é cinzenta da cabeça aos pés. Seu lema de ordem é “proibido permitir” e isso vale para batons “ousados”, fio dental tipo cipozinho baiano, abajur lilás, vadiagem da boa, chamar de “minha nega” ou “meu nego”, tapinhas etc.

Tudo proibido, como no Afeganistão sob domínio do Talibã. Passando uma leve sensação de que o Brasil onde havia araras, berimbal, praia, bundas e alegria hoje lembra a Alemanha Oriental dos anos 30, comandada por Adolf Hitler que decretou o fim da felicidade coletiva.

Faz sentido? Esses carros de hoje comparados com os dos anos 80 (foto) tem a ver com isso tudo ou é delírio meu?


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Nevoeiro

Dirigir no nevoeiro é uma arte. Enxergamos pouco à frente, quase nada atrás. Normas? Há. Relativas. Não devemos usar faróis altos que refletem na nuvem e erguem uma parede de luz agravando a situação. Recomenda-se faróis baixos.

Velocidade reduzida, mas não muito. Parar, nem pensar. Risco de colisão na traseira. A ordem é devagar e sempre, como numa nuvem sem fim. Mas o fim existe. Podemos encontrar o sol, podemos encontrar a chuva.


Quando? Ninguém sabe. Ninguém pode informar
o tempo e um nevoeiro.

Respirar fundo, seguir em frente, sem parar, apesar da péssima visibilidad
e, do trânsito pesado descendo no sentido contrário, a desorientação causada pelas luzes dos faróis. Não podemos ultrapassar ninguém. O risco é grande.

Estrada com nevoeiro lembra alguns momentos a vida. Individual e coletiva. Seguir em frente é fundamental apesar do breu, da umidade, do mar cinzento de nuvens. Com a certeza de que mesmo longo, nenhum nevoeiro é infinito. 


Nenhum.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Reclamar não vai livrar o Brasil do aquecimento global

Estou farto de ouvir (e ler) gente reclamando do Brasil nesse calorão, em especial dos pequenos burgueses que dizem preferir morar na Europa, Ásia e América do Norte do que “nessa pocilga”, como escreveu um sujeito no Facebook. Fui lá e comentei: “pegue um avião e suma, meu chapa. Reclamar não resolve e esse papo de pequeno-burguês mal resolvido não leva a nada”. O cara não rebateu.

É evidente que esse calor não é normal e, com certeza absoluta, a lambança dos desgovernos (federal, estaduais, municipais) é a principal vilã desse aquecimento estúpido. Afinal, pelo menos nos últimos 20 anos, esses desgovernos desmataram (ou deixaram desmatar) como nunca, não investiram nada em política ambiental, enfim, se a coisa chegou a esse ponto é porque os desgovernos assim quiseram. Desgovernos eleitos pela maioria, diga-se de passagem.

Não foi por falta de aviso. Ambientalistas sérios já vem alertando há mais de 40 anos que a canoa ia virar, que as reservas ambientais do Brasil estavam no limite e que se providências sérias não fossem tomadas, em caráter de urgência, o país ia cair nos braços do implacável aquecimento global. Não deu outra.

Tempos atrás um ministro (?) das minas e energia chegou para toda a imprensa e disse que o risco de uma crise no abastecimento de energia elétrica no ano passado e “é zero”. No dia seguinte quase metade do país sofreu um apagão, causado pela crise no abastecimento e pela incompetência dele, ministro.

Alguns técnicos chegaram a sugerir que o governo fizesse um racionamento de energia para nos livrar do colapso, mas, como se sabe, a então presidente, do alto de sua onipotência, prepotência e arrogância não teve a humildade de ouvir os técnicos. Conclusão: a conta chegou. 

Quem pagou? Nós. Colegas dizem que o humor daquela senhora estava mais baixo do que os reservatórios de água, mas a essas alturas sair distribuindo coices não resolveria nada.

Ainda assim, fico no Brasil, país onde nasci e escolhi para viver. Mesmo diante dessa atrocidade (esse governo que está aí é um crime sob todos os aspectos) vou brigar pelo país aqui dentro e não aturo mais esse geme-geme da pequena burguesia que ameaça ir embora como se todos nós fôssemos para os aeroportos gritar “fiquem” “fiquem!” fiquem!”. Ora, se querem ir, arranjem uma boa grana e tchau, agora torrar nossa paciência dizendo que o Brasil é cloaca, inferno e outras definições quase impublicáveis é o caso de responder perguntando: “você vota nas hienas e agora quer cair fora?”.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Cravo não brigou com a Rosa- Texto de Luiz Antônio Simas*

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto

Soube que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O Cravo brigou com a Rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o Cravo - o homem - e a Rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o Cravo encontrou a Rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a Rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: “Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas.” A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.”
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. 
Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens. Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. 

O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, bola de sebo, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa, cotonete e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa de 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do c..., cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. 
Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.
Abraços.

*Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A lua ainda é dos poetas

A lua jamais deixará de ser a musa encantada dos poetas, mesmo depois que Neil Armstrong desceu do módulo lunar da missão Apolo 11 em 20 de julho de 1969 e marcou o solo lunar com sua bota. 1969 foi um ano de muitas mudanças, entre elas o maior protesto contra a guerra do Vietnã reunindo meio milhão de pessoas (90% jovens) em Woodstock, no mês seguinte. Esse ano foi tão significativo que, inspirado nele, Paul Auster escreveu o magistral “Palácio da Lua”, livro que devorei em dias noites.

Sempre fui um apaixonado pelo céu e os astrólogos dizem ser uma característica de meu signo. O problema é que ão acredito em astrologia mas isso é outro assunto. Lembro bem do dia em que o homem pisou na lua. Tinha 14 anos e morava na rua Alvares de Azevedo em Icarai (Niterói), onde o nosso bando tinha o hábito de jogar taco (uma espécie de baseball tupiniquim) no meio da rua. 

Atento a propaganda sobre a hora em que Armstrong pisaria na lua, fui cedo para casa para assistir pela TV. Acho que não foi uma transmissão ao vivo, mas sei que a narração era de Hilton Gomes, um célebre locutor. A imagem em preto e branco cheia de imperfeições me hipnotizou e quase não ouvi o pipocar dos fogos que algumas pessoas soltaram celebrando aquele momento. Um momento crucial na história de todos nós que algumas pessoas insistem em afirmar que foi uma fraude, que o homem pisando na lua teria sido uma gravação simulada em estúdios. Que bobagem.

Algumas pessoas diziam o fato do homem pisar na lua anularia seu poder poético. Não acho. A lua continua comovendo, mesmo depois de Neil Armstrong e também da Apolo 13 que passou perto mas não pode descer (o filme com Tom Hamks é fabuloso). E se a humanidade evoluiu, pelo menos cientificamente, devemos muito a desbravadores como Armstrong. 

Aliás, sugiro o filme “Os Eleitos”, de Philip Kaufman que conta a história da corrida espacial de um jeito completamente diferente. O filme é baseado no livro de Tom Wolfe.

Neil Armstrong morreu em agosto de 2012 triste com o corte de verbas para o programa espacial e até se reuniu com Barack Obama para tratar do assunto. Obama explicou que é uma questão temporária mas, ainda assim, Armstrong não engoliu. Discreto, nunca transformou a sua grande viagem numa egotrip pessoal e, só eventualmente, dava uma ou outra palestra. Admiro pessoas assim. Por tudo que representa e simboliza, por tudo que fez, Neil Armstrong, um ícone dos anos 60, deixou saudade.

E já que existe lua, vai-se para a rua. (Gilberto Gil).



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Negócios da China

A História conta que dos séculos 16 a 18 um navio ia da Índia para a China em um ano e meio (ida e volta). Como era uma viagem muito perigosa, se num grupo de três naus duas afundassem, ainda assim o negócio dava lucro. Mas, os portugueses da Índia descobriram que podiam fazer viagens muito mais curtas e com lucros muitíssimo maiores. Daí a expressão “Negócios da China”.

Atualmente afirmo com muita tranquilidade que qualquer negócio da China, ou com a China, é a maior roubada para qualquer pessoa ou país em qualquer ponto do planeta. A China pratica um regime escravocrata de trabalho, utilizando mão de obra totalmente desqualificada, tecnologia pirateada e retrógrada, enfim, é um esgoto a céu aberto de aberrações humanas, éticas, trabalhistas.

O problema é que, sempre pensando em se dar bem, muitos brasileiros compram produtos chineses que, por serem extremamente vagabundos, custam muito menos. Eu mesmo já fui vítima dessa lambança. Fui comprar num site de São Paulo um relógio baratíssimo que só chegou mais de dois meses depois. Pior: o site não tem “fale conosco”, nem telefone, nem e-mail. Foi quando descobri, através de leitores no Facebook, que a tal empresa é chinesa.

Como vivemos sob um regime densamente populista qualquer país entra no Brasil e faz o que bem entende. A China tomou conta e agrava a quebradeira em nosso parque industrial. O governo nada faz porque, porque, porque, sei lá porque. Essa é uma das caixas pretas dos regimes populistas.

Você compra produtos chineses? Não falo de artigos que são fabricados na China e nem sabemos disso, mas daqueles que trazem atrás, ou embaixo, o famigerado Made in China. Antro da escravidão, aquela terra de gente que padece consegue colocar aqui dentro produtos até 87% mais baratos porque sua mão de obra é treinada pela chibata, movida pela tortura e a tecnologia utilizada por 100% das empresas é deliberadamente pirata.

Claro que se eu soubesse que a tal empresa onde comprei meu relógio era chinesa não faria o negócio. Por que? Porque comprar da China é contribuir para o escárnio, para a lambança, para tudo o que existe de pior nas relações humanas.

O problema é como me livrar da China. Meu computador é americano mas está escrito “Made in China”. Ventilador, ar condicionado, lâmpada, abajur, pilha...como me livrar da China?



domingo, 22 de janeiro de 2017

O amigo que perdeu a mulher

Um amigo desabafou com o outro pelo celular. Quase chorou. Quase, não. Chorou copiosamente. Ligou dizendo que estava sozinho sentado numa lanchonete no shopping Bay Market que fica ao lado da estação das barcas, em Niterói. O amigo estranhou porque era sábado e a maioria das pessoas não atravessa a baía. Preocupado, pegou o carro e foi até lá bater um papo.

Nem tinha sentado quando o outro começou a falar. Uma história reta, direta, objetiva. Num dia daquela semana, decidiu ir trabalhar de catamarã, deixando o carro num estacionamento no Centro de Niterói. Na volta do Rio, por volta das sete da noite, optou por pegar um ônibus com ar condicionado. Afinal, estava vazio.

Veio sentado na penúltima fila, segundo ele, com os pensamentos flutuando naquela noite calma e quase fria de outono. Três ou quatro paradas depois, uma mulher subiu, segundo ele, linda, traços delicados, pele muito morena, mais ou menos alta. Ela sentou no banco ao lado do dele, corredor do ônibus no meio. Trocaram olhares. Duas, três, seis vezes, dezesseis vezes.

O ônibus ainda estava no Rio quando ele sorriu, ela sorriu, ele levantou e sentou ao lado dela. Nada falaram. Kamikaze ele a beijou. Longamente. Ela correspondeu. Ato reflexo, ele a pegou pela mão e a conduziu para o último banco. Beijos, beijos, beijos, uma quase mão no seio direito interrompida por ela, mais beijos, muitos.

Trânsito lento, devagar. Para felicidade dos dois. Só no final da ponte Rio-Niterói ele balbuciou alguma coisa do tipo “você mora onde?” e ela sussurrou “São Gonçalo”. Mais beijos e carícias. O ônibus parou em frente ao shopping Bay Market e ela disse que ia descer. Ele também. Lógico. Sorrindo, ofereceu uma carona. Ela aceitou. De mãos dadas caminharam até o estacionamento, entraram no carro dele, mais beijos. Saíram.

Ele não ia a São Gonçalo – cidade vizinha de Niterói -  há pelo menos uns 15 anos, mas não teve a menor dificuldade de chegar lá. Também sorrindo, ela dizia “entre ali, depois daquele orelhão, agora lá, na rua daquele muro de tijolos. Suba aquela ladeirinha, entre ali, lá, na outra rua você dobra, vai. Pode parar na esquina”, pediu. Marcaram um jantar para o dia seguinte. Mais um beijo, ela disse o nome, ele também. Ela desceu do carro e seguiu andando lentamente, até desaparecer numa esquina.

Completamente apaixonado, ele ligou o som do carro e ouviu suas músicas preferidas quando retornava para Niterói. Seu coração estava congelado há alguns anos. Vamos batizá-la de Paula já que, é lógico, não publicarei seu verdadeiro nome. Paula degelou aquele coração.

Voltando para casa, o amigo comemorava sozinho aquele golpe do destino. Destino que o fez atravessar a baía de catamarã na ida para o Rio e ter entrado naquele ônibus vazio na volta. Feliz, chegou em casa, tomou um banho, comeu alguma coisa, falou com as duas irmãs que notaram a sua euforia, desatento meio que assistiu a um filme na TV por assinatura e foi dormir por volta da meia noite.

No dia seguinte, antes de ir para o trabalho, parou num posto e deu uma ducha no carro. Aproveitou para encher o tanque. No trabalho todos notaram a sua animação e até piadinhas ouviu com bom humor. Bom humor que não perdeu nem quando enfrentou o rotineiro para e anda do trânsito na ponte a caminho do trabalho na avenida Beira Mar, Centro do Rio.

Passou o dia olhando o relógio que só usava em ocasiões muito especiais, um elegante Casio EMA-100D-1A2V que havia comprado em sua última ida a Miami a negócios. Trabalhou muito, mas não parava de distribuir sorrisos até a hora que achou que já poderia sair. Afinal, tinha marcado com Paula as nove da noite. As seis e meia já estava dirigindo rumo a ponte. Para e anda, para e anda. Sem problemas. Nada seria problema naquela noite especial.

Atravessou a ponte entrou na avenida do Contorno por volta das oito e quinze, feliz, levemente ansioso, música aos berros. Passou em frente a quadra da Escola de Samba Viradouro e chegou ao Barreto, seguindo por uma avenida...que ele não reconhecia. Não reconhecia. Esfregou os olhos com as mãos, diminuiu a velocidade na altura de Neves, um bairro que ele achava que ficava bem mais à frente.

Parou o carro.

- Amigo, que bairro é esse?
- Vila Lage.

Não fez diferença. Percebeu naquele momento, as oito e vinte e sete que havia poucas placas indicativas em São Gonçalo. Um leve desespero parecia ter entrado pelo parabrisas. Acelerou e sentiu o baque da suspensão do carro que subia em trilhos de trem. Ele tinha certeza que o trilho de trem ficava à direita e que não atravessava a via principal. Mas atravessou. Não, não quis perguntar o nome daquela avenida porque não faria nenhuma diferença. Tentou lembrar o tempo da viagem que fizera com Paula na noite anterior. Não mediu. Estavam aos beijos a 40 quilômetros por hora, muitos ônibus e caminhões em volta. O leve desespero se transformara em pânico quando chegou a um bairro ironicamente chamado Paraiso e praticamente jogou o carro num posto de gasolina, perto da Uerj.

- Amigo, isso aqui vai dar onde?
- Depende.
- Depende de que?
- Ora, se seguir em frente direto vai parar em Alcântara, Jardim Catarina...O senhor quer ir para onde?
- Não sei...não sei...ela não disse.
- ?
- Eu não perguntei...
- O senhor está passando bem?
- Não...

Saiu do posto e quase foi atingido por uma van que vinha em alta velocidade. Tinha que admitir: estava perdido. Pior: tinha perdido a provável mulher de sua vida. Envolto na paixão que nascia, no aroma do perfume de Paula, nos prováveis mamilos graúdos, na boca morna, esqueceu do básico: telefone, endereço, bairro.

“Ela deve estar achando que furei, que dei um perdido...Ela deve estar pensando que sou um moleque, que só quis me dar bem, dar uns amassos e cair fora...Ela deve estar sentindo...gritou, urrou, sovou o volante e parou de novo. Quase nove e meia e um gari que perambulava por ali disse que aquele lugar se chamava Parada 40.

Esgotado, achou que ia chorar. Nó na garganta, boca seca, respiração ofegante, palpitação. Ninguém podia ajuda-lo a chegar num lugar que ele não sabia onde ficava. Ele literalmente perdeu a mulher de sua vida. A suspeita se tornara realidade, naquele oceano de dor que o afogava.

Acelerou forte, muito forte. Zé Garoto, Mauá, Antonina, lugares mais estranhos do que Marte, Júpiter, Saturno. “Seu merda”, dizia para si mesmo. “Por que não pegou o telefone, não perguntou onde ela trabalha, por que, por que, por que?”. Foi em frente, já em prantos e sem camisa, apesar da quase fria noite de outono e do ar condicionado do carro.

Alcântara. Eram mais de 10 horas. As ruas estavam quase desertas e ele parado. Em que bairro ela morava? Que avenida? Que rua? Que vila? Que picada? Que terreno baldio? Que bordel? Não importava, ele iria atrás. Uma placa meio caída anunciava o Jardim Catarina e, na sequência, Guaxindiba. Lembrou que já tinha estado em Guaxindiba, no enterro do cachorro de sua prima muitos anos antes. Em Guaxindiba fica um dos maiores cemitérios de cachorros do Brasil.

Voltou. Fez o percurso Guaxindiba-Barreto inúmeras vezes, ao longo de horas, entrando em ruelas, subindo ladeiras, favelas. Teve que parar para colocar gasolina completamente fora de si. Pensou em tomar uma cerveja, mas era só o que faltava perder a mulher de sua vida, ficar bêbado, bater com o carro e morrer em local desconhecido.

A última viagem Barreto-Guaxindiba-Barreto (parador) foi as cinco e meia da manhã, quando São Gonçalo começava a acordar para ir trabalhar. O homem apaixonado, deprimido, devastado tomava café com leite e comia pão com manteiga num bar próximo a um cemitério. De gente.

Chegou em casa, tomou um banho e foi direto trabalhar. Todos notaram que estava devastado, arrasado, escalavrado. Nenhuma pergunta, mas muitas dúvidas no ar. O que teria acontecido com aquele homem alegre, gentil e risonho do dia anterior?

Durante 27 dias deu plantão no terminal de Niterói, entre as sete e nove da noite, olhando fixamente para cada mulher que entrava nos ônibus. Eram milhares. De mulheres e de ônibus. Pensou em colocar um anúncio em um jornal de São Gonçalo como uma nota de coluna social. Uma foto sua, grande, dizendo qualquer coisa para chamar atenção da futura mãe de seus filhos.

- Então foi isso...eu perdi a mãe de meus filhos, avó de meus netos, companheira de uma vida inteira.

O amigo pagou a conta da lanchonete no Bay Market e disse “isso acontece”.

- Não, isso não acontece, respondeu o entrevado homem.
- Tem razão, isso não acontece mesmo não.

sábado, 21 de janeiro de 2017

A face oculta da lua, um conto sem escalas

Comia uma empada de galinha caipira num bar na rua do Ouvidor, Centro do Rio, perto de um lugar onde Machado de Assis também comia empadas de galinha, só que urbanas, numa manhã de quarta-feira quando parou um caminhão que trazia no para-choques uma frase tola e genial, algo como “na estrada da vida, passado é contramão”, é isso ou mais ou menos isso, mas a vida é como um texto sem ponto, só vírgulas, um pouco de ar, na base do ir em frente, pensando, pensando, passei a semana pensando num monte de coisas como um artigo que escrevi para um jornal norte americano no já longínquo 2014 que, por vacilo meu, não saiu assinado, na carta de um leitor que me esculhambou por causa de uma crônica sobre mulheres gostosas, e eu acabei ficando meio sem saber o que dizer, mas depois constatei, relendo o que havia escrito, que o tal leitor não entendeu, confundiu homenagem com vagabundagem, a tal vagabundagem que me falta para acender a fogueira de um amor impossível que surge no alto de uma montanha, fazendo pé pé com a lua e brincando de trapezista com o arco-íris, mas espera aí, por que todo amor impossível precisa ser adolescente, nos faz sentir como meninos soltando pipa no alto de uma pedreira que ainda existe atrás de um prédio em Trás-os-Montes, onde passei parte de minha pós-adolescência soltando foguetes e alimentando amores impossíveis, como o que tive com uma estação de rádio, que de musa acabou virando livro cujas últimas linhas começo a escrever em suas prováveis 974 páginas que deverei lançar neste 2015 no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Lisboa, Porto, matando a saudade dos Boeings e Airbus que, eventualmente são minha segunda casa para depois, quem sabe, voltar a TV, ao VT, ao Protools, criar um megasite já que a saudade é um sentimento completamente inútil para mim a ponto de eu não reconhecer os anos 1960, muito menos os 70, os 80, afirmando que a melhor década é a que estou, o melhor momento é o agora, que não é mais agora porque quando este texto for postado no site essas palavras chamadas de originais já terão ido morar no arquivo vivo de minhas dezenas de milhares de textos, amontoados há quase 45 anos de escrita diária, dedicada, obsessiva, ou quem sabe vão se mandar para Aracaju, canção de Caetano Veloso que diz que “ser feliz/o melhor lugar é ser feliz”, ah, essa música está impregnada em minhas veias abertas para a minha cidade, cidade-calamidade para quem quer jantar com uma amiga sem ser chamado de amante, mas ao mesmo tempo cidade-útero, morna, molhada, que nos recebe aberta nas madrugadas quando cruzamos a baía sob chuva fina, ou sob neblina, ou sob o torpor da cafeína que consumo num botequim próximo à estação das barcas, acompanhado de divagações afetivas, mulheres de sonhos, verso e prosa, tendo ao fundo o rugido cansado dos miseráveis que se embolam nos jornais para escapar do açoite do frio, ou da fome, ou da polícia imaginária, ou dos políticos virtuais, ou da música que Keith Jarrett ainda não compôs sobre um pôr-do-sol no Algarve para onde provavelmente irei este ano, acompanhado de meu cão Hanói e meu canário Elvis, encontrar amigos e conversar sobre política e sardinhas e, quem sabe, pensar um pouco mais sobre o próximo semestre, na dieta prometida, na possibilidade de receber um e-mail da mulher de meus sonhos dizendo que a vida não faz sentido sem mim, essas coisas que a gente gosta de ouvir quando deita no sofá com um pote de dois litros de sorvete de abacaxi Kibon, quatro litros de Coca Cola e um DVD com um filme de Buñuel, imagem que pode lembrar a canção que me vem as vísceras lá de 1971, Jards Macalé, que canta “estou cansado/e você também/ vou sair sem abrir a porta/e não voltar nunca mais/ desculpe a paz que lhe roubei/ e o futuro esperado que não dei/é impossível pensar/ num barco sem temporais/ e suportar a vida como um momento além do cais” e, por sorte, quebrei esse disco em questão de horas porque não tenho vocação para o masoquismo, daí a minha paixão pela bossa nova, pela magia do céu, sol, sul, e não o samba-canção martírio, daqueles que chamam a lua de luz de mercúrio e nos fazem roer meio fio quando sentimos que nosso texto num jornal não está sendo bem revisado, ou sequer assinado, mas, pensando bem, o editor tem mais o que fazer, o que não vale é acharem que estou tristinho, magoadinho, quando na verdade estou cansado porque são três da manhã e o principal recado na caixa postal do meu celular diz apenas “durma em paz”,  ou foi impressão minha, não sei bem, dizem que comer carne de porco a noite faz mal a alma, mas o recado estava lá na voz da mulher dos meus sonhos, provavelmente telefonando do futuro,  de um orelhão primitivo, olha, garota, eu não quero saber por onde deitas, mas confesso que a possibilidade do recado ser verdadeiro faz um bem danado, como o dia em que Peggy Sue voltou à tona depois de passar dias submersa nos anos 1960...ah, esse Copolla é tão genial que faz um Fusca chorar sem sentir dor, ou alguém não notou que em “Apocalypse Now” a música do Doors, chamada The End, foi infernalmente bem inserida na abertura do filme, eu sei, teria que colocar um ponto de interrogação, mas o cansaço me fez escrever este texto sem pontos e sem parágrafos pois dizem que é uma boa maneira de conversarmos um pouco com nossos xamãs, ou com “As Valquírias” de Paulo Coelho, que estou louco para conhecer pessoalmente, mas as pessoas só pensam nos dólares que Paulo Coelho está ganhando, merecidamente, por ter despertado milhões de pessoas para coisas mais interessantes do que forninho de micro-ondas, IGP-M, Fipe, Dilma, esse macabro parque de diversões chamado economia que provoca sucessivos e generalizados rompimentos na classe média do Brasil, onde os casamentos desabam e renascem como frutos do mar, o que é bom, é muito bom, já que aprecio a velocidade emocional da classe média brasileira e suas Ferraris afetivas entrando no Arpoador a 230 por hora, como um bando de desdentados a caça de um dentista capaz de reduzir a dor em pelo menos 20%, ou uma manada de executivos de marketing, chamados à última hora para tentarem salvar Titanics depois das varadas nos icebergs da incompetência, o flagelo do terceiro mundo, parceria incansável da corrupção, da propina que assola o país desde sempre, crucificando temporariamente uma meia dúzia para saciar a turma do pão e do circo, é fogo, não é mole, e o pior é que que terminarem de auditar o Brasil  o berço esplêndido vai ficar mais deserto do que ilhas virgens em dia de finados, chovendo e com ressaca, porque como cantou um dia David Bowie “this is not America”,numa boa, sem preconceito, mas this is not America, mas não é mesmo, tanto que nem a inflação razoavelmente estável provoca o mínimo de otimismo, provavelmente por causa da porção Dom João Sexto em nosso sangue, suor e lágrimas, aquela ala que gosta de gemer, reclamar, expulsar, discriminar, enfim, eu tenho uma amiga que é dentista e me escreveu um e-mail da China onde os brasileiros são perseguidos como judeus na Alemanha de 1940, e tudo mais o que acomete o emocional de um perseguido que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones, acreditava em Papai Noel e nessa coisa de irmandade entre os povos, a ponto de me preocupar pois rapidamente respondi o e-mail sugerindo que ela não julgasse povos, mas governos, não julgasse indivíduos, mas corriolas e assim por diante já que da mesma forma que em Detroit (EUA) nos anos 1980, estavam matando japonês a pauladas, tenho receio que comece a rolar esse clima contra outros povos aqui no Brasil, o que não é bom para ninguém, pois de médico, português e louco, todos nós temos um pouco, da mesma forma que o amor impossível pode parecer impossível eternamente quando não buscamos soluções alternativas quando uma estrada está inundada e ficamos parados xingando o ar, já que há sempre uma trilha, um atalho, uma picada quando queremos mesmo chegar a algum lugar, mesmo que esse lugar seja o lugar nenhum, mesmo que chova açoites, pois somente algumas coisas não tem solução, entre elas o fim do papel. Madrugada. Quente, fria, morna. Um homem está diante de seu vulcão interior e tenta decifrar a lava. Angústia. Êxtase. Sem pausa, sem trégua. Não há bandeira branca no embate entre o homem, o vulcão e o papel, feito refém e ponto de partida para um monólogo urbano, que segue, não para. Não para. Não para.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Livros da Semana - edição 32

Livrarias pesquisadas:

Travessa – www.travessa.com.br
Estante Virtual - www.estantevirtual.com.br
Amazon – www.amazon.com.br

Clarice, - Uma Biografia

Benjamim Moser
560 páginas

Este livro, lançado originalmente em 2009, deu aos brasileiros uma nova imagem de Clarice Lispector e consagrou sua obra no exterior. Se hoje Clarice é uma figura mítica das letras brasileiras — bela, misteriosa e brilhante —, sua vida foi recheada de percalços que a tornam mais complexa do que mostra a imagem oficial.

Ao empreender uma síntese inédita entre vida e obra de uma autora clássica, Benjamin Moser deu uma contribuição de extrema importância para a cultura brasileira. A edição da Companhia das Letras traz posfácio inédito de Michael Wood.

O Poder do Hábito

Por Que Fazemos o Que Fazemos na Vida e nos Negócios

Charles Duhigg
408 páginas
Durante os últimos dois anos, uma jovem transformou quase todos os aspectos de sua vida. Parou de fumar, correu uma maratona e foi promovida. Em um laboratório, neurologistas descobriram que os padrões dentro do cérebro dela --ou seja, seus hábitos-- foram modificados de maneira fundamental para que todas essas mudanças ocorressem.
Há duas décadas pesquisando ao lado de psicólogos, sociólogos e publicitários, cientistas do cérebro começaram finalmente a entender como os hábitos funcionam - e, mais importante, como podem ser transformados. Embora isoladamente pareçam ter pouca importância, com o tempo, têm um enorme impacto na saúde, na produtividade, na estabilidade financeira e na felicidade.
Com base na leitura de centenas de artigos acadêmicos, entrevistas com mais de 300 cientistas e executivos, além de pesquisas realizadas em dezenas de empresas, o repórter investigativo do "New York Times" Charles Duhigg elabora, em "O Poder do Hábito", um argumento animador: a chave para se exercitar regularmente, perder peso, educar bem os filhos, se tornar uma pessoa mais produtiva, criar empresas revolucionárias e ter sucesso é entender como os hábitos funcionam. Transformá-los pode gerar bilhões e significar a diferença entre fracasso e sucesso, vida e morte.

The Beatles

Todas Músicas, Todas As Letras, Todas As Histórias


Steve Turner
352 páginas

Este livro reúne todas as canções do grupo musical mais aclamado de todos os tempos, trazendo as letras completas e detalhes de quando, como, onde e por que cada álbum foi concebido.

Grande conhecedor da banda, o jornalista Steve Turner explora as origens, as influências e os significados das músicas, identificando ainda os personagens e as histórias por trás das canções.

Repleto de fotos, ilustrações, entrevistas, curiosidades e histórias de bastidor, este livro é a celebração definitiva do mais importante catálogo musical do século XX.

Representantes De Quem?

Os (des)caminhos Do Seu Voto Da Urna Até A Câmara Dos Deputados

Jairo Nicolau
176 páginas
Por que a reforma política, um dos temas mais discutidos no país, nunca acontece de fato? Como é que alguns deputados são eleitos com menos votos do que outros candidatos que, mesmo mais votados, não se elegem? Por que as coligações muitas vezes produzem resultados estranhos e adulteram o voto do eleitor? Por que, nas eleições para deputado federal, o peso do voto dos eleitores não é o mesmo em todos os estados? Você sabe o que acontece com o seu voto depois que você sai da cabine eleitoral?

O cientista político Jairo Nicolau estuda partidos, eleições e sistemas eleitorais há mais de vinte anos. Este livro, criado a partir de perguntas que ele ouve há anos, foi escrito para ser lido e entendido por quem não tem conhecimento técnico mas se espanta e quer compreender melhor diferentes aspectos do quebra-cabeça da representação política no Brasil.

Além de um balanço das discussões mais importantes, o autor faz uma série de sugestões viáveis, e não utópicas, para aperfeiçoar a legislação eleitoral e partidária do Brasil. Um livro indispensável, que esclarece, informa e colabora para termos cidadãos mais conscientes e uma política mais responsável.

30 E Poucos Anos E Uma Máquina Do Tempo

Chris Melo
320 páginas
Alma Abreu está prestes a lidar com um inventário e uma série de histórias de um passado tumultuado que pertence mais aos seus pais do que a ela mesma. Mas este parece o menor de seus problemas no momento. Passar alguns dias na pacata Serra de Santa Cecília veio bem a calhar para a jovem médica, após um incidente no hospital que a deixou sem chão.
Ela só não esperava se envolver tanto com a pequena cidade – e com o prestativo vizinho da charmosa casa que sua avó lhe deixou, além de um animado grupo de amigas, filhas das melhores amigas de sua mãe –, a ponto de pensar em deixar sua vida em São Paulo para trás. Será que a vontade de ficar é apenas medo de enfrentar seus problemas? Mas como voltar à velha rotina depois de tudo o que descobriu e viveu em Serra?
Em seu segundo romance, Chris Melo entrega aos leitores uma apaixonante história de amor e amizade que faz jus ao seu título de “Nicholas Sparks brasileira”.