terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Ginecopopstar

                       Porco-urso-cachorro: escultura de Patricia Piccinini. Poderia se chamar Homus Brasilis
Eu vinha de ex-Tribobó (ex-RJ) e vi um ex-porco, chafurdando na ex-lama. Na época a ex-garota de programa, ex-Bruna ex-Surfistinha, comemorava zaralhadas de semanas no topo dos livros no ranking de Veja e Época. Um autêntico rest-seller, que virou filme de rebolado moralista.

O ex-livro deveria se chamar O Ex-Veneno da Ex-Rabiola do Ex-corpião. Na época, a psicóloga e sexóloga Yara Darus foi clara: "O livro é um sucesso entre as adolescentes porque é um passo a passo sobre sexo (...) Eu até engulo em seco ao afirmar que esse livro induz, sim, as adolescentes a ingressarem na prostituição. Com a ampla divulgação da mídia, Bruna Surfistinha tornou-se celebridade".

Como ex-cidadão, cheguei de ex-Tribobó e fui comer ex-sushi pensando no que ex-Janete da ex-Casa da ex-Pantera ex-Cor de Rosa, ex-bordel em Laranjeiras, dizia nos anos 70: "Não existe ex-prostituta porque não existe ex-gente. E prostituta é gente".

Ex-racional, comendo ex-sushis e ex-sashimis com ex-pauzinhos amarrados em ex-elásticos (minha ex-inabilidade não permite que ex-coma sem ex-elástico), lembro que jamais admiti que qualquer ex-bípede ex-mamífero chamasse ex-prostituta de ex-vagabunda, ex-moleca, ex-vadia. Porque por trás do ex-êxtase existe uma esperta. A ex-prostituta paga muito caro pela opção, mas, curiosamente, nunca ouvi nenhuma se lamuriar. “Fi-lo porque qui-lo", como vomitou Jânio Quadros. Só ex-Bruna ex-Surfistinha simula lamúrias naquele ex-livro arrivista, prefaciado por autoflagelações em todas as mídias.

O que me ex-deixa ex-furioso em relação a essa manobra escroque é o convite de ex-Bruna para que meninas entrem no seu reino encantado pela morte. E morte não tem ex, minha chapa. Em 90% dos casos, prostituição = drogas, álcool, espancamento, facadas, tiros e, não sei se pior: dano afetivo irreversível.
Mas voltando ao sêmen da questão, quando, naquele tempo, li que ex-Bruna ex-Sufistinha enchia a caveira de uísque enquanto autografava seu ex-livro na ex-Bienal de São Paulo, para uma multidão de meninas adolescentes histéricas que veem nela uma ginecopopstar, joguei minha modéstia no viaduto do Limão (Sampa); de ex-fato a ex-GP morou na TV, no rádio, nos jornais, comovendo a nação com sua fala melosa, como as cavalas do imortal Carlos Zéfiro, tornando-se musa masturbatória da nação. Honra: Zéfiro nunca inseriu drogas e biritagem em suas revistinhas.

E a ex-sagrada família da ex-terra ex-brasilis entre um grito de horror e uma fugidinha ao banheiro, transformou a mídia em Joana Darc. Mais uma vez. Pais e mães ilibados não trocavam de canal, não trocavam de jornal, não trocavam de rádio para assistir ao flagelo S&M da ex-Surfistinha, preferindo esquecer que na ex-sagrada família há sim, hipótese, de naquele momento filhas e filhos estarem chafurdando em lojas de conveniência ou nos muquifinhos modernosos detonando ices vodca com óleo diesel, ecstasy, LSD e afins em troca de, quem sabe, um programinha. Mas, os papais e mamães preferem dizer "ohhhh pra mídia", do que perceber que ex-Brunas e Brunos estão na sala de jantar há anos perguntando calados "por que vocês não me ajudam?"

O sucesso do ex-livro de ex-Bruna ex-Surfistinha tem um zaralhão de explicações, entre elas a ex-célebre ex-hipocrisia da ex-classe média brasileira. Chorando a cântaros, muita gente acende seus baseados para aliviar a tensão diante do mundo cão. Onde compraram os bagulhinhos? Na Sociedade Pilantrópica Filhos do Padre Zezinho? A mídia ensina que nos anos 20/30, quando a birita era proibida nos Estados Unidos, a corrupção atingiu níveis boçais. Da farda à toga. Mais: os biriteiros enrustidos se metiam na Ku Klux Klan e outras entidades pilantrópicas, chorando, falando em "América, ohhhhhhhhhhhhhhhhh América atirada à sarjeta do álcool". Liberaram a porranca. A traficolândia mudou-se para outras drogas.

Perto da traficolândia de usuários aqui na Brazuca (só há demanda onde há consumo, ensina qualquer bodinho de puxar charrete de crianças na pracinha), ex-Bruna ex- Surfistinha é noviça. Seu ex-livro, que foi rest-seller nacional, é apenas uma tomografia do Brasil de hoje, quando a Lava Jato consegue botar 1% dos meliantes em cana e os outros 99% buscam um jeito de trancafiar a Laja Jato. Famílias que em vez de ajudar tacam fogo no brunismo sem perceber que o escorpião pode estar na mesinha de cabeceira da prole adolescente. E como diria ex-Scarlet Ohara, "Taraaaaa! Taraaaaaa!"

Observação: a palavra exdruxulismo não existe, segundo Houiass. Dicionário feito por Antonio Houaiss, que traduziu as primeiras edições de Ulisses de James Joyce e ninguém entendeu nada. Pelo visto, nem ele.



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Fiador moral

O cara é baba-ovo, invejoso, rancoroso, arrivista e, dizem todas as  línguas, as más inclusive, é um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da fala as vezes nos metem em roubada.

Por uma questão cultural dizemos que “conheço” a quem vimos algumas vezes. Pior: em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomarmos o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação e posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalu e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo.

Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim.  Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não aguentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o ...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para a Zona Sul”.

Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo.

Esquisito pra caramba.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

VeloSes & FurioZos


Ontem
Hoje
Duas motocicletas de no máximo 150 cilindradas faziam zigue zague entre os carros na mau caráter estrada Rio-Manilha. Na moto de trás, preta, um adesivo branco, bem grande, colado no tanque de gasolina: “Velosez e Furiozos”. Assim mesmo, com o S no lugar do Z, Z no lugar do S e muito cocô de pombo na cabeça do famigerado piloto. Silencioso cortado foi substituído por dois canos de descarga que apelidei de “esporrers”.

Um deles quase arrancou meu espelho retrovisor e o sujeito do carro da frente xingou os dois motoboys (ambas as motos carregavam aqueles baús gigantes e maltrapilhos para entregas na garupa), que faziam a tradicional “saudação” empinando o dedo médio da mão.

Depois vieram outros, e outros, lá na frente uma moto estava caída no acostamento e uma ambulância do Samu atendia o sujeito que parecia bem. Enfim, as motocicletas de hoje que arrotam pelas ruas conduzidas por bípedes que ostentam Q.I. de protozoários nada tem a ver com aquelas do passado. Românticas, pinta de cafajestes de baixos teores, imortalizadas por Marlon Brando, James Dean, Evel Knievel.

Assisti ao filme “Easy Rider”, de 1969 (no Brasil chamou-se “Sem Destino”) no final de 1970 num cinema chamado Alvorada, em Teresópolis, que deixava menores de idade entrar. O filme acabou se tornando um clássico do chamado “road movie” e todos nós, adolescentes, vibramos no cinema com aquela viagem de Wyatt e Billy (Dennis Hopper e Peter Fonda) ao som de Jimi Hendrix, Steppenwolf e muitos outros.

A fumaça de maconha, cigarro com Melhoral, cherinho da loló e similares era tal que disseram que o lanterninha do cinema começou a recitar Alziro Zarur, botou o piru pra fora e começou a escrever seu nome com urina na parede lateral da sala.

O tempo voou e mais recentemente, num delicioso voo entre o Rio e Porto Alegre, vi o anúncio de uma moto Harley Davidson numa revista. Lembrei de “Easy Rider” e constatei que o filme nada mais é do que a saga de dois vagabundos, dois à toas, traficantezinhos de nona categoria, que passavam a vida levando cocaína, heroína e similares do México para Los Angeles e sonhavam passar o carnaval em Nova Orleans.

Suas motos eram aqueles modelos “chifrudos”, Harley Davidson com o garfo longo que bota a roda da frente bem longe. Uma marca que acabou se tornando sonho de consumo de todos nós, apesar de sabermos que aquela moto é uma bosta, derruba qualquer um, trucida a coluna vertebral, não faz curva, não freia, bebe como uma porca, não leva garupa, enfim, moto de cinema.

O chamado “charme transviado do motociclista” acabou virando essa cloaca urbana que está aí. Flanelinhas trepados em estrumes sobre rodas arriscam não só as suas vidas mas as nossas, sobem e descem de calçadas, em geral andam de chinelo (tipo Ryder), bermudão de surfista do Planalto, boné com a aba virada para trás no lugar do capacete, sem camisa, óculos escuros espelhados modelo 4 por 30 reais, cabelo a la Neymar e “tocando o terror” como dizem para os amiguinhos no final do dia.

Esses são motoqueiros. Eu fui motociclista. Até mais ou menos 2005 e minha última moto foi uma Suzuki DR 800 que adorava. Vendi porque perdi o medo dela. E quando o sujeito perde o medo de moto é melhor vender senão vai se acabar. Isso é regra e não exceção.

Gostava de rodar sozinho por aí já que como não sei montar barraca e arrumar mochila nunca pertenci aos grupos de duas rodas que viajam pelo país. E pegaria mal todo mundo acampado e eu em pousada.

Depois de muitos e muitos anos condenando aquele clone de George Bush que matou os personagens de Hopper e Fonda no final de “Easy Rider”, hoje eu entendo. Quando esses animais quase matam velhos e crianças nas calçadas, se metem entre os carros (o problema não é só um desses morrer, mas o problema eterno que causa ao motorista), enfim, são representantes (mal) motorizados da molambalização que a cada ano engole mais o Brasil, dá vontade de dar umas bofetadas.

Bofetadas que a tecla SAP dos reacionários dos EUA traduz para “tiro de escopeta 12 nos cornos”.

Como aquele que matou Wyatt e Billy.





sábado, 25 de fevereiro de 2017

A inveja é uma merda

“A galinha que cacareja demais é a primeira a ir pra panela” (ditado popular).

“Porque ela é linda e eu não?”; “Por que ele tem esse carro zero e o meu é tão velhinho?”; “por que ele mora tão bem e eu não?”; “por que ele está sempre saudável e eu vivo doente?”; “por que ele é sempre promovido e a empresa me ignora?”; “por que com ele as coisas sempre dão certo e comigo não?”; “por que o casamento dele é feliz e o meu não?”; “por que eles podem viajar sempre e eu não tenho condições”...

A inveja é da essência humana, informa uma corrente contemporânea do holismo. A princípio não é querer mal ao outro, mas desejar o que o outro tem, e segundo o holismo contemporâneo, é aí que mora o problema. Afinal, a energia psíquica de todos nós é uma só, e é neutra. Ela se torna positiva ou negativa de acordo com nossos direcionamentos, em especial o pensamento. Quem pensa negativo enfraquece, quem pensa positivo, fortalece.

Carl Jung revelou que a energia psíquica pode ser atingida de fora quando estamos frágeis (pessimistas, negativistas, mal humorados, reclamões). Ele diz que a inveja é o mais poderoso dos sentimentos negativos porque está além do ódio é movida pela cobiça. Mesmo que inconscientemente.

O holismo contemporâneo afirma que todos os seres humanos nutrem uma “quantidade” de inveja, mas é nos grandes “abismos sociais” que ela se manifesta de forma mais intensa, o que de acordo com os cientistas “é natural”. Uma pessoa que tem pouco conviver com quem tem bastante diariamente sente um mal tamanho que chega a danificar a sua própria saúde. Como uma esponja, tenta sugar os sucessos do outro. A inveja é uma das origens dos burgos da Europa antiga.

Por isso, muita gente bem sucedida existencialmente anda de carros simples, evita receber pessoas desconhecidas em casa (preferem restaurantes e outros lugares públicos), adota um estilo de vida que os americanos chamam de “low profile”.

Alguns terapeutas holísticos dizem que quando se torna inevitável conviver com invejosos mais críticos, fortalecer a própria energia psíquica é o único caminho, apesar da vítima dos nefastos desejos da inveja seja, a princípio, o próprio invejoso. Um fenômeno chamado “bumerangue”, mas sempre sobra alguma coisa para os invejados. 

É simples saber, basta comparar a quantidade de “incidentes e perdas em geral” ocorridos antes e depois do convívio com os invejosos.

Por que esse artigo hoje? Porque é carnaval e, segundo a moderna psicologia social, uma das razões das pessoas saírem dos burgos mascaradas pelas ruas da Europa antiga é que nobres, inventores, comerciantes e outros “invejados” só se permitiam se expor a inveja quando fantasiados, irreconhecíveis. Era quando se sentiam livres e os invejosos não notavam.


Em suma, a inveja é uma merda.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Trovador Solitário


Arthur Dapieve
O que era uma conjectura tornou-se, para mim, uma verdade quase absoluta: Renato Russo morreu de Aids, mas também em decorrência direta da solidão, aguda solidão, que o torturou no início, meio e fim de sua breve trajetória por este planeta.

Graças a um livro extraordinário chamado “O Trovador Solitário”, escrito pelo colega Arthur Dapieve, tive acesso a vida, a obra, ao caos afetivo de um dos maiores artistas contemporâneos brasileiros, que teve a sua biografia escrita sob o signo da nobreza existencial rara do Dapieve, um grande jornalista, escritor, um grande sujeito.

“O Trovador Solitário” foi lançado no ano 2000, já ganhou várias edições e a que o Dapieve me presenteou, autografada, é a mais atual. Esperava um livro sombrio, já que a biografia do Renato que nos foi passada é dura, seca, cheia de contornos mórbidos, mas o autor conseguiu estabelecer vários pontos de equilíbrio na lamentavelmente curta mas intensa linha do tempo do cantor e compositor.

Fui apresentado a ele formalmente nos tempos de Rádio Fluminense FM. Troquei meia dúzia de palavras com aquele cara sério, muito sério, roupas simples e que não conversava com qualquer um. Amigos meus que conviveram com ele também o descrevem como um homem sério, olhar atento, de poucas palavras. Daí o valor deste livro, que nos faz chegar perto da vida real de Renato Russo.

Arthur Dapieve em nenhum momento bota panos quentes em “O Trovador Solitário”, mas o tempo todo mantém conectada a relação causa/efeito mantendo vivo o diálogo caos-Cosmos em todas as páginas do livro, passando para o leitor a certeza de que nada foi à toa na vida do criador e líder da Legião Urbana. Nada. Foi tudo caos. Foi tudo Cosmos. Foi tudo.

O livro revela, por exemplo, que a disciplina do Renato com o trabalho era radicalmente cartesiana, de um perfeccionismo muitas vezes atroz. Quando ele inseriu o verso “Disciplina é liberdade”, na canção “Há Tempos”, falava de si, de seu cotidiano. O Renato que eu imaginava meio bicho solto, chegado a um improviso, simplesmente não existiu. Dapieve fala de ensaios diários de horas e mais horas de duração até que tudo ficasse como Renato exigia. Mais: ele chegava e todos os músicos (em especial os músicos convidados) tinham que ter todas as canções perfeitamente prontas para o ensaio. Uma nota fora e Renato caia de esporro.

O Renato que virava noites ao telefone com os amigos, falando de música, de discos, de livros, de suas angústias, amores não correspondidos convivia com o marechal dos estúdios. Era o Renato só que escancarava essa solidão publicamente e cujo dia a dia chegou a mostrar em algumas canções. “Feche a porta do seu quarto/Porque se toca o telefone/Pode ser alguém/Com quem você quer falar/ Por horas e horas e horas (“Eu Sei”).

Nos últimos anos de vida, Renato Russo compôs como nunca, gravou como nunca, comprou discos (especialmente de música clássica) como nunca, se drogou e bebeu como nunca. Nas crises de desespero, solitário em casa, recorria ao telefone para falar com amigos. Tempos depois, parou com o álcool e as drogas, teve recaídas, mas o trabalho com certeza prolongou sua existência.

Com a querida amiga Gilda Mattoso, assessora de imprensa de Renato e da Legião ele pediu que ela o levasse a Itália para conhecer suas origens (família Manfredini), num tour de oito dias, que também serviu para pesquisas sobre música italiana, repertório de seu álbum “Equilíbrio Distante”.

Arthur Dapieve preserva o seu biografado do dramalhão, do coitadismo e reconhece nele a força, dignidade, muita hombridade. Por isso, acho “O Trovador Solitário” leitura obrigatório para quem se interessa por vida.

P.S. Você encontra o livro em www.estantevirtual.com.br



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Carro pra que?



Encontrei o querido amigo Helinho em frente ao banco. Ele vinha pela calçada, me viu, abriu os braços, trocamos um longo abraço. Disse a ele que estava indo pagar o IPVA do carro porque o banco na internet tinha dado pau. Ele respondeu: “há mais de um ano que não sei que problema é esse.”

Economista bem sucedido, especializado em finanças pessoas e também terapeuta holístico, desde novo Helinho investe em qualidade de vida. Contou que há um ano e meio vendeu seu Honda Civic 2012 por R$ 50 mil e investiu muito bem o dinheiro (ele conhece esse caminho).

Nos dias úteis só usa os baratíssimos Uber X e Cabify e nos finais de semana fez um excelente negócio com uma locadora de automóveis. Um motorista deixa um Toyota Etios Hach completo, automático ("quando me sinto um burguês velho, peço com câmbio mecânico, mais esportivo rs") na garagem dele na sexta a tarde e busca na segunda. Num pacote especial de uso continuo a diária não chega a 100 reais.

Helinho conta, rindo, que “me tornei um minimalista e adoro esse carro, o Etios, que dirigi por uma semana na Turquia, quando havia Turquia. Adorei. Meu filho acha feio mas eu digo que “pra você é feio, mas pra mim é lindo e é Toyota”. Rápido, confortável econômico, espaço interno nota mil, não chama atenção dos bandidos como o Civic chamava, faz 11 km/litro de gasolina na cidade, pra que mais?”.

Num rápido levantamento de custos, ele constatou que o seu Honda Civic (“excelente carro”, ele comenta) consumia:

IPVA – R$ 2.600,00 – no Estado do Rio é mais caro.
Seguro – R$ 2.300,00 – no Estado do Rio é mais caro.
Combustível – R$ 700,00 por mês (média) – no Estado do rio é mais caro.
Pneus – R$ 1.200,00 a cada 60 mil quilômetros.
Revisões, óleo, pastilhas de freio, manutenção do ar condicionado, limpeza, imprevistos como retrovisor lateral quebrado por moto etc – R$ 3.000,00 ano (média).

Helinho não incluiu a desvalorização do carro, o estresse de dirigir nos constantes engarrafamentos, numa região tomada pela criminalidade, flanelinhas etc. o que ele chama de “prejuízo emocional”.

Total (média ) – R$ 15.500,00/ ano.

Em suas equações, Helinho percebeu que dá menos aporrinhação morar num imóvel alugado do que comprar. “Peguei a grana que pagaria num novo há 20 anos atrás, investi legal e acho que me dei bem. Hoje moro perto do mar, num amplo três quartos com varanda suítes e muito conforto. Todos os reparos ou qualquer serviço é pago pelo proprietário. Até recentemente alugava até os aparelhos de TV, mas deixou de valer a pena com a queda dos preços dos novos”.

As prioridades do Helinho são outras: viajar pelo mundo gastando o que tiver, um ótimo plano de saúde para a família, papo com os amigos em bons restaurantes, teatro, shows, cinema (paga meia porque tem mais de 60 anos), ginástica, boa alimentação, muita praia, papo para o ar e trabalho bom e pesado de segunda a quinta. “Como sou autônomo, abri mão da sexta, mas em alguns dias chego a ficar mais de 13 horas no escritório.  Crise econômica desafia a criatividade dos economistas”.

Em 2015, ele e a mulher voaram para São Francisco, Califórnia, alugaram um Mustang conversível vermelho (baratíssimo) e desceram até Los Angeles. “Meu amigo, foram quase três semanas de liberdade. Parávamos onde queríamos, usávamos motéis de estrada confortáveis e baratos, mas em Carmel, claro, ficamos quatro dias rodando pelos verdadeiros presépios que existem naquela região”.

Em Los Angeles devolveram o Mustang a filial da locadora e pegaram um voo para Nova Iorque onde ficaram mais 10 dias antes de retornarem ao Brasil. “Um prazer desses não tem preço. Estimula a gente chegar aqui e trabalhar mais, correr mais atrás brigar mais, e valorizar mais o ser do que o ter. Não tenho imóvel, não tenho carro, não tenho um monte de coisas porque não quero, e isso é muito bom”.

Nos despedimos. Antes de seguir, Helinho perguntou: “carro pra que?”. E a pergunta dele ecoa até agora.

Entrei no banco, para a facada do IPVA.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Eu apenas canto

1966, confusão sem toque de recolher. 1966, puberdade, uniforme, pasta, lápis, caneta, livros. 1966, ônibus, bombas, rock and roll, algazarra, caderneta, 10 em português, 3 em matemática. 1966, The Troggs, a banda, a minha banda, do além mar, Londres, Inglaterra. 1966, meu primo Cornélio tocando The Troggs, Aero Willys, ideias, sonhos, repressão, cuidados, pipa no alto, balão, brigas, lutas, amor, beijo na boca. 1966, 11 anos, o primeiro gozo, a primeira vertigem, a primeira pedra no mamilo esquerdo. 1966, The Troggs no pequeno toca-discos, amigos, cafifas, balões, bola, jogo de taco, garotas, meninas, beijos relapsos, dança torta, pernas trocando. 1966, amigos, cuba livre, cachaça, campari, coma alcoólica, mães no hospital, esporro, lágrimas, alta de manhã, escola, castigo, pedradas, vidraças rachadas, polícia nas ruas. 1966, meu irmão César, amigos Márcio, Renatinho, os Vergara, Raulzinho, Ronaldo, Beto, a casa da Rose no centro da cidade, o sexo só oferecido aos mais velhos. 1966, nós? Virgens, ávidos, curiosos, temerosos, roqueiros, tentando sem conseguir a alienação do The Troggs que mandava “I Just Sing” quando as coisas apertavam. Compromissos, provas, férias ameaçadas, rock and roll, a primeira banda, festinhas, quermesses, garotas, garotas, garotas, frustração a meia noite e meia, hora limite, “I Just Sing” no quarto...não havia “I Just Sing”, lágrimas, choro contido, travesseiro. Perguntas, muitas, voos espaciais, drogas entre amigos mais velhos, LSD, mescalina, maconha, bolinha, éter, a primeira morte, o primeiro corpo, o primeiro enterro, o primeiro amigo afogado, doidão. Nada de “I Just Sing”. Viva “I Just Sing”! Sempre, The Troggs.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Nebraska- Avenida Brasil

A avenida Brasil parece íntima, mas não é. Nos anos 1970, 80, 90, 2000, subi e desci suas pistas literalmente milhares de vezes. Em busca de notícias, de mulheres que me incendiaram, casa de amigos. Conheço cada pista, cada palmo, cada faixa, mureta da avenida Brasil, mas ainda a estranho. Por que? Porque ela sempre me estranhou e vai me estranhar sempre.

A avenida Brasil é existencialista, despreza o amanhã, ignora o ontem. Ali o que vale é o agora, o bangue bangue emcional, o caos que eventualmente se torna Cosmos. Ou não. É pegar ou largar. Quem desiste não volta, quem insiste demais bate de frente.

Se eu fosse Bruce Springsteen teria composto Nebraska, sua obra prima, em algum ponto daquela torta avenida e seu asfalto roto que liga tristeza a esperança, o sorriso ao nó na garganta, o nada ao lugar nenhum, nervos nublados a euforia existencial. Façam os jogos, senhores. A avenida Brasil é o pano verde de cada dia, onde milhares de pessoas jogam todas as suas fichas, dia sim o outro também.

Nebraska, canção que abre o álbum, fala de um degenerado executado na cadeira elétrica. A avenida Brasil também olha, prende, julga, condena e mata. E não é preciso ser o degenerado descrito por Springsteen e muito menos o assassino do árabe de “O Estrangeiro”, de Albert Camus. Basta ser gente. Gente que vai e não volta. Gente que volta e não vai. Os sulcos da avenida, volta e meia salpicados de sangue, jogam na vala. Vala comum. Vala incomum.

Avenida Brasil, Nebraska nosso de cada dia. Sem gaita, sem voz, sem violão. Apenas um som. Ermo, brusco, surdo, como os baques, os beijos, o soco, a bruma, a fumaça. Nebraska, sim.

Sempre.
                                                     
Nebraska

(Bruce Springsteen)

I saw her standin' on her front lawn just twirlin' her baton
Me and her went for a ride sir and ten innocent people died

From the town of Lincoln Nebraska with a sawed-off .410 on my lap
Through to the badlands of Wyoming I killed everything in my path

I can't say that I'm sorry for the things that we done
At least for a little while sir me and her we had us some fun

The jury brought in a guilty verdict and the judge he sentenced me to death
Midnight in a prison storeroom with leather straps across my chest

Sheriff when the man pulls that switch sir and snaps my poor neck back
You make sure my pretty baby is sittin' right there on my lap

They declared me unfit to live said into that great void my soul'd
Be hurled
They wanted to know why I did what I did
Well sir I guess there's just a meanness in this world


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Laura, Beth and Me (Reloaded)

Me chamam de Charles, Anjo 45. Vivo num lugar praticamente inacessível, consequência de uma série de equívocos existenciais fomentados pelos algozes emissários da culpa. Vivo enjaulado em mim mesmo, temendo a rua, temendo a lua, temendo o sol. Escravo da culpa. 

Crime: amei. Amei como nenhum outro aqui neste Ocidente doente de preconceito e perversão. Amei e fui amado por Laura e Beth, por anos, os quase felizes de minha vida.

Há tempos já passei dos 50 e quando Laura e Beth chegaram encerrei meu poema cáustico. Escrevia minha vida como uma peça dramática, dura, desolada, mais para Pete Townsgend e Jim Morrison do que para Olavo Bilac. Quando desci de Chicago para Los Angeles em boleias de caminhão, tentando clonar as vidas de Jack Kerouac e Neal Cassady em “On The Road”, percebi mais uma fraude.  Vivia vidas alheias, emoções terceirizadas.
                                                
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Laura, Beth and Me. Nós nos batizamos assim em homenagem a Neal and Jack and Me. Quem leu Jack Kerouac (“On The Road”) sabe o que digo. Quem ouve “Beat” do King Crimson, entende. E desentende.

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Em Laura e Beth despejei todos os poemas disponíveis em minhas veias trancadas pela incompetência crônica dos vadios. A elas dediquei todas as flores, o sereno que bebi em Lumiar, avenida Paulista, Bairro Peixoto, Largo da Batalha. Largo a batalha?

Me atirei naquele abismo. Morno, confortável. Como homem, marido, amigo, amante, servo e algoz. Laura e Beth abriram minhas janelas. Todas. Emperradas pela “descoragem” afetiva, burocracia do medo de amar.
                                              
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Néctar, gritos, gozos, marcas. Nucas, costas. De Laura, Beth and Me. Nossos fogos não eram de artifício. Quando havia crises de culpa, Laura e Beth se impunham, durante horas, horas, horas. 
                                           

Chute na porta. “Deitado no chão, vagabundo! Eu sou a sua morte!”. Acordei com a cabeça pesada, culpando a garrafa de rum Varadero que bebemos na noite anterior. Impossível. Sempre tomávamos rum Varadero nas noites anteriores. Muito fácil culpar uma garrafa de rum. Presídios não estão cheios porque as garrafas estão vazias. 
                                                
6 

Seis da manhã. Fui para a cozinha preparar um café forte. Peguei a xícara. Janela. Dei de cara com a culpa presidindo um macabro tribunal armado na praça em frente. O meu Vesúvio explodiu. Críticas, regras, posturas. Me vi réu. Sentado. Mãos frias, cabeça baixa. Réu por ser livre, réu por amar, réu por ser amado, réu, réu, réu. Promotores, promotores, promotores. Não há advogados para quem se auto condena.
                                               
7

Sem acordar Laura e Beth fiz as malas e parti. Sem bilhete. Sem as flores que normalmente deixava na mesa da sala quando saia mais cedo. Nada. O Nada saia sem deixar nada. Nem um verso. Nem um beijo. História de amor sangrada em blues de abandono, covardia. Como se Neal and Jack tivessem mesmo optado por Denver, Colorado em “On The Road”. Parti. Zonzo? Sonso? Parti. Sem olhar para trás. Vergonha da coragem, visivelmente desolada, balançando a cabeça.

Hoje, anos depois, acesso a internet e leio sobre a liberdade. Compulsivamente. Laura e Beth. Bocas mornas e úmidas, cheiros, sorrisos fartos, deliciosas e severas intervenções intelectuais, amor, amor, amor.

 

Um vagalhão de desejo me atira contra a parede, 6 da manhã, numa cidade estranha. Cidade encravada num lugar sinistro. Na cidade onde vivo nem rum Varadero existe.

Como decretou o figurino, AI-5 social, casei. “É de bom tom”, sentenciou o Tribunal. Me divorciei. “A vida é assim mesmo”, martelou o Tribunal. Depois, a coragem me visitou. Conversamos três dias, três noites. Woodstock. Foi quando fiz três filhos lindos, que não gostaria que fossem de Laura, Beth and Me. Gosto que sejam de quem são.               

9 

Janela. Cidade escura. Neve. Carros lutando. Ela acaricia minha nuca, me abraça por trás. Mãe de meus filhos. “Os fantasmas te acordaram, mon cher?”. Ela rastreia meus neurotransmissores como sertralina. E o seu cheiro me faz bem. Serenata. É francesa, do sul. Jamais me deixou dormir só. Mesmo sob a mais dura nevasca emocional. Ela resume Laura, Beth, and Me. Mas, tem mais essência, mais coragem, mais abrigo do que abismo. Pede que eu conte a história. Mais uma vez. Eu conto. Reconto. E ela me beija. Sabe que é assim que eliminamos fantasmas. Beija e diz “não foi desvio, mon cher. Foi vida. E já passou”. Parece que ela chora. Parece que de alegria.

10 

Não quero rever Laura e Beth, mas desejo que elas leiam esse disparo, emocionado, puro e estéril como são os pedidos de desculpas abandonados na internet. Como o sêmen que inundava a nossa cama e o sopro de óleo diesel que o vento traz da avenida principal.

Laura e Beth, perdão por me sentir feliz. 

“Seu sorriso me faz cambalear/ Seu beijo me torna bandido / Seu amor é como heroína/ Vicia e amadurece /Um pouco é o bastante”. (Pete Townshend, em “A Little is Enough”).